A MISERICÓRDIA
DIVINA
Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na
Carta aos Coríntios São Paulo exalta a imensa benevolência da parte de Deus
através do perdão àqueles que sinceramente se arrependem de seus erros (2 Cor
5, 20-21). Trata-se inicialmente de uma graça preveniente, ou seja, aquela que
precede a decisão livre do ser humano. É oferecida por Deus em Cristo. Ao
convite de Deus deve seguir o consentimento de cada um, pois a pessoa humana é
dotada de liberdade. Brada então o Apóstolo: “Reconciliai-vos com Deus”.
Acrescenta: “A Ele que não conhecera o pecado, Deus tratou-o por nós como
pecado para que nos tornássemos justiça de Deus”. Imensa, portanto a
misericórdia divina. Todos são convidados a uma completa renovação espiritual,
oferecida no “tempo favorável”, “dia da salvação” (Idem, Ibidem 6, 2). Perfeito
é só Deus e na sua fragilidade o homem comete faltas leves ou graves das quais
precisa sempre se arrepender. Os erros passados devem ser reparados e se tornam
indicações que marcam e mostram a cada um o caminho reto para o futuro. O
pecado consentido é o inverso da virtude que deveria ser praticada. É que a virtude e o pecado ultrapassam o
tempo e refletem na ordem eterna estabelecida pelo Criador. A recusa à vontade
divina é uma falha que produz consequências que devem ser revertidas. Eis
porque o verdadeiro cristão está continuamente num processo de conversão que
significa ver a verdade e se conformar a ela, abominando os desacertos
cometidos numa retificação persistente. A conversão é um revirar-se, isto é, é
ser o mesmo longe das claudicações, numa renovação espiritual sem tréguas. É
cada dia, a todo o momento, que é preciso se converter, voltando-se
inteiramente para Deus que é clemente e misericordioso. É a renúncia ao mal e o
retorno para o bem. Não se trata de viver menos, mas viver melhor num
crescimento espiritual constante rumo ao amor a Deus que é um invisível juiz eterno
de todas as ações humanas. Quanto mais um convertido progride no bem, tanto
mais lamenta seus pecados, sobretudo se tiverem sido graves, e percebe como
deve ser grato à força da graça que o libertou deles. Pode então perceber ao
vivo as delicadezas da amizade divina, o sentimento profundo da justiça, o
entusiasmo vibrante pelo bem, um afastamento total do mal. Admiráveis as
indústrias misericordiosas de um Deus que quer a salvação de todos, conforme
Cristo declarou: “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância”. Após
o arrependimento ressurge a esperança e a retidão traça seu círculo perfeito,
levando à subordinação ao Absoluto, à adesão incondicional ao Criador e ao Pai
Todo-Poderoso. Nas ofensas a Deus há algo de negação e recusa, opondo-se o
homem Àquele cujo pensamento e vontade representam um valor sem limite e
essencialmente indiscutível. Muitas vezes o ser humano quer viver, mas não quer
viver bem, evitando tudo que possa deturpar sua vocação à santidade de vida,
fugindo da malícia do pecado. A essência do pecado, porém, é o amor próprio que
consiste em desprezar o Senhor beneficiário de todos os dons. Deus, contudo
perdoa sempre a quem contritamente aborrece seus erros com um coração sincero. Diz São João que
“quem
comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8,34). Então cada alma rebelde tece
para si uma rede e depois fica nela presa. Cumpre reagir para conhecer de novo
a liberdade dos filhos de Deus. Nesta
hora o pecador arrependido exclama: “Ó Deus misericordioso sem medida, vós sois,
realmente, o Deus amor!”. Depara-se desta forma o coração do Pai amoroso. É
preciso usufruir da misericórdia divina, gozar essa indulgência infinita que
não se cansa de indultar. É necessária a lembrança permanente de que
converter-se é unir-se ao Bem Supremo e que todos precisam da graça para evitar
o mal, para cultivar as virtudes e progredir espiritualmente, para ter a cura
dos pecados, dos hábitos malignos e dos seus efeitos. Recebido o favor divino,
a gratidão é indispensável e esta gratidão se manifesta em atos de amor e em
esperanças de um futuro sempre melhor. Isto significa valorizar o perdão
divino. Jesus quer agir sempre em seus fiéis sarando-os, iluminando-os,
arrastando-os para os caminhos da felicidade. Cristo asseverou que quem faz a
vontade de seu Pai que está nos céus, este é seu irmão, sua irmã e sua mãe (Mt
12,50). Ele auxilia sempre estes seus
parentes espirituais, os socorre, os escuta e guia seus passos, infunde-lhes
claridade para que andem na plena luz da fé. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
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