quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

 

AS TENTAÇÕES DE JESUS NO DESERTO

Côn. Jose ‘Geraldo Vidigal de Carvalho*

Segundo São Lucas, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, onde esteve durante quarenta dias, sendo tentado, enquanto homem, pelo demônio (Lc 4.1-13). A tentação do pão se liga ao episódio bem conhecido do maná, a tentação dos Reinos da terra faz referência ao famoso acontecimento do bezerro de ouro e a última tentação, aquela do Templo, tem relação com   o evento de Massa e Meriba no qual, apesar de terem visto as maravilhosas obras de Deus, os israelenses O provocaram. As três respostas de Jesus tem relação   não somente com a fé de Israel em um só Deus, mas também, e sobretudo. à maneira de se comportar diante dele, a saber, alimentar-se da Palavra, não colocar Deus à prova e render somente a Ele o culto que só a Ele é devido. São os três preceitos fundamentais aos quais Israel havia sido infiel durante a peregrinação no deserto.  Jesus três vezes foi colocado à prova, saindo vitorioso, cumprindo assim as Escrituras ficando fiel à aliança com o Pai. É de se notar que São Lucas insere entre o batismo e as tentações no deserto a genealogia de Jesus que ele conclui por “filho de Adão, filho de Deus” (Luc 3,38). Foi, portanto, confortado em sua identidade que Jesus “foi conduzido pelo Espirito ao deserto”. Aliás, Satanás tentou por duas vezes Jesus, invocando explicitamente a essência de seu ser: “Se és o Filho de Deus”. É exatamente por isto que Ele ia ser colocado à prova. Entretanto Ele era, de fato, o Filho de Deus, mas as consequências que o diabo tira desta realidade são inteiramente errôneas e é isto que constitui a tentação. Jesus haveria de ensinar o que significa para o cristão a dignidade e a vocação de filho de Deus e como se comportar em consequência desta realidade sublime. O demônio queria que Ele fizesse prodígios extraordinários fora dos planos divinos. Na primeira tentação o diabo   se apoiou em uma necessidade legítima de Jesus depois de 40 dias de jejum. Ele teve naturalmente fome. Nada mais natural.  Mas se era uma necessidade legítima, devia-se tomar os meios para vencer aquela dificuldade. Entretanto, Jesus não era um ser dividido interiormente, era um ser unificado, ou seja, Ele organizara toda sua vida em redor de sua identidade profunda. Ora, ser Filho de Deus era antes de tudo, e sobretudo, estar em sintonia cm o Pai, reconhecendo que tudo dele se recebe. Um dia Ele dirá: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai” e jamais Ele seguiria o conselho do demônio, transformando pedras em pães e, assim sendo, afastou para longe de si o tentador iníquo.  Na segunda tentação o diabão mostrou a Jesus todos os reinos do universo, querendo, ousadamente, sua submissão, mas recebendo imediatamente a resposta taxativa: “Ao senhor teu Deus é que adorarás e só a ele prestarás culto”. Na terceira tentação Jesus se viu no pináculo do templo, querendo que Ele dali se precipitasse, pois os anjos viriam e O sustentariam. Peremptoriamente veio a resposta de Cristo ao Príncipe das Trevas: “Não tentarás o Senhor teu Deus” Diz São Marcos que “esgotada toda espece de tentação o diabo retirou-se de junto dele, até certo tempo”, pois voltaria no tempo da Paixão de Cristo. Colocando este texto no início da quaresma a Igreja quer nos lembrar que a verdadeira conversão para o cristão é de se recordar de sua vocação e intimidade com o Filho de Deus. Jesus é o Filho de Deus não porque poderia mudar as pedras em pão, nem porque podia se lançar do alto do templo, nem porque Ele é livre de dar um culto a quem Ele o quiser dar. Ser Filho de Deus não é a exaltação de um eu hipertrofiado, nem realização de nosso desejo de todo o poder. Jesus ao repelir as insinuações de satanás realizou sua identidade de Filho de Deus, vivendo em plenitude a Palavra de seu Pai e nem colocando à prova aquele no qual Ele confiava e adorando seu Pai e somente a Ele. Por sua atitude Jesus realizava em plenitude as Escrituras e deste modo realizou sua vocação e mostrou sua verdadeira identidade. Ele foi tentado mas sem pecado algum, como lemos na Carta aos Hebreus.  Ele foi tentado quanto à fome, ao orgulho, ao desejo de poder, mas, deixou-nos o exemplo, de como vencer definitivamente ao diabo que deve sempre ser vencido. Ser filho de Deus é antes de tudo, e sobretudo, reconhecer que nossa vida vem de Deus e receber dele tudo que temos numa fidelidade absoluta nele, apoiando sempre em sua Palavra. Ser dele filho é adorá-lo somente a Ele e de nenhum outro esperar a salvação. Ser cristão é estar intimamente unido a Deus na confiança e no amor e, para isto, se torna muito favorável o tempo quaresmal. A exemplo de Jesus cumpre ao cristão vencer sempre as insinuações do demônio e, assim, viver em plenitude a dimensão espiritual da existência de um verdadeiro cristão. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

 

CADA ÁRVORE SE CONHECE PELO PRÓPRIO FRUTO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Desde a primeira comunidade cristã surgiram problemas como mostram as exigências levantadas pelo trecho do Evangelho de São Lucas que objetiva regular as relações entre os irmãos (Lc 6, 39-45). Jesus foi claro: “Porque olhas o cisco que está o olho de teu irmão e não descobres a trave que está no teu?” (...) Hipócrita!  Retirai primeiro a trave de teu olho e então começaras a enxergar bem, para extrair o argueiro que está olho de teu irmão”. Esta exigência é uma ordem, ou seja, primeiro Cristo manda que se considere a nossa vida pessoal para o bom funcionamento de toda a comunidade cristã. Isto a partir primeiro de uma correção, fruto de uma necessária revisão pessoal. Dois pontos de vista a serem considerados: não julgar de plano os desvios dos irmãos e irmãs, dando-lhes lições de moral, quando primeiro mister se faz corrigir-se a si mesmo. Portanto, acentua Jesus em segundo lugar, não simplesmente denunciar os erros sem considerar o próprio modo de proceder pessoal. Trata-se de um modo de agir difícil daquele que corrige e que não enxerga bem e lhe é necessário tirar a trave que está no próprio olho.  Indaga Jesus: “Um cego pode guiar outro cego? Não cairão ambos na cova”?  Bela lição do Mestre divino, concitando a um trabalho pessoal para enxergar bem, retirado tudo que impede uma boa visão. Isso começa por uma disponibilidade interior Incra, numa purificação dos próprios pensamentos e preconceitos que impedem viver santamente para então melhorar toda comunidade. Imporás ac0lher o outro sem querer projetar no próximo os próprios defeitos, as próprias opiniões, lançando para longe os julgamentos pessoais tantas vezes precipitados. Então, sim, a palavras que nasce é uma palavra que constrói e não destrói. O mesmo pode se dar na oração pessoal muitas vezes impedida de escutar e entender a Palavra de Deus por causa de um turbilhão de solicitações inúteis. Além disto, é preciso atenção àquilo que cada um deve fazer para a glória de Deus e o bem do próximo. Apenas assim, se é uma árvore que dá bons frutos.  O modo de agir, a maneira de falar são de suma importância para o crescimento do reino de Deus. A advertência de Jesus é clara: “O homem de bem do bom tesouro de seu coração tira coisas boas, e o mau do mau tesouro”.  O anúncio do Evangelho supõe uma atitude correta semelhante a que Ele está pedindo no Evangelho de hoje. Tudo isto nos deve levar a rever como se dá o contato cotidiano com as pessoas, sobretudo dentro da própria família. Nosso acesso à fé e seu aprofundamento nos vieram através daqueles que souberam bem pô-los transmitir, lançando com sabedoria a palavra da verdade. O mesmo cuidado demos ser para melhor agir no meio em que vivemos. Muitos frutos bons nos vieram de árvores boas. Por isto devemos ser árvores frutíferas que ofereçam bons frutos para o bem do próximo. Quem se julga perfeito, sem o ser, não está apto para ajudar os outros. Não se deve ser como um espinheiro   que obsta uma palavra impregnada de humildade e de delicadeza, a qual deve sair do fundo do tesouro de um bom coração, do íntimo daquele que sabe conviver com os sofrimentos inevitáveis da vida e se conforma sempre com a vontade divina e procura considerar suas próprias limitações. Tudo isto leva a ver com clareza a si mesmo e aos irmãos e irmãs, libertando-se de toda implicância e de toda arrogância. Nada de palavras duras próprias dos inquisidores e moralistas inveterados. Então, sim, é possível mostrar um caminho seguro e vencer toda dificuldade numa fidelidade à Palavra de Deus. Surge então o homem bom e nobre, aquele que pode sempre solicitar a Jesus que faça o seu coração semelhante ao dele e vai se tornando uma migam daquele que esculpe nele esta sua imagem. Trata-se da presença de Deus em sua vida num trabalho de aperfeiçoamento constante. Jesus que se fez homem não vem ao cristão no esplendor, no brilho da força, no prestígio dos heróis, mas na disponibilidade, na atenção, na cortesia na escuta, possibilitando ofertas mútuas. Isto longe de toda discórdia, inveja, disputas, dissensões. Cisões, sentimentos de inveja, de orgias e algo semelhante, num luta perseverante contra todo e qualquer excesso Longe, portanto, de qualquer superficialidade, de toda mediocridade estéril. Mas na sabedoria de Deus em sua vida, num trabalho de aperfeiçoamento constante. Surge então o bom tesouro do nosso coração que se situa bem no íntimo da alma que vive em contato direto com Deus. Afastadas se acham, deste modo, a indiferença, a frivolidade, numa vivência completa das verdades da fé. A sociedade de hoje nos leva a nos fecharmos sobre nós mesmos, impedindo ir até o mais profundo do nosso coração onde está o verdadeiro tesouro   do cristão, lá ode se encontra a verdadeira felicidade, uma vida interior profunda, enraizada em Deus. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

 

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

 

MIISERICORDIOSOS COMO O Pai CELESTE É MISERICORDIOSO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

No sermão da montanha, logo após as bem-aventuranças, Jesus nos legou um belíssimo trecho sobre a caridade cristã, especialmente sobre o amor aos inimigos (Luc 6, 27-38). Trata-se dos inimigos pessoais ou dos inimigos do grupo ao qual se pertence, da comunidade em que se vive. Em síntese, o Mestre divino ensina que se deve fazer o bem àqueles que nos odeiam, desejar coisas boas àqueles que nos maldizem e rezar por aqueles que nos maltratam, isto é, pedir tudo de bom para aqueles que são também filhos de Deus e para os quais o Ser Supremo tem também tesouros de paciência. A ordem de Cristo é clara “Sede misericordiosos, como o Pai do céu é misericordioso”. Além destas características de um amor sem fronteiras Jesus fala da não-violência, da oferta da outra face a quem de um lado lhe bateu, da túnica a quem lhe tomou o manto, tudo isto sob o olhar de Jesus. Trata-se de pagar o mal com o bem. Cristo preconiza um estilo de vida que Ele quer inculcar a seu seguidor, um novo olhar sobre a conduta cristã, sobre os acontecimentos, sobre as pessoas. Ao se deixar levar por seus impulsos humanos, o homem cai na lei de talião, ou seja “olho por olho, dente por dente”. Nada, portanto, dentro de tal coração de gratuidade, de benevolência, tomando atitudes adversas bem longe da misericórdia de um Deus benévolo. A atitude, porém, verdadeiramente cristã consiste em proceder exatamente ao contrário do agressor seja ele quem for segundo a ordem de Cristo: “Amai vossos inimigos e fazei-lhes o bem”. Somente assim, acrescenta Jesus, “sereis filhos do Altíssimo, o qual é bom para com os ingratos e os malvados”. Para quem assim procede, afirma Jesus, grande será a recompensa. Poderíamos, neste caso, indagar onde está a gratuidade que deve impregnar o procedimento cristão. A gratuidade fica salva, incontaminada, porque a recompensa da qual fala o Mestre divino não é um novo ter, mas um suplemento do ser daquele que é, de verdade, idêntico a Cristo no seu bom proceder, agindo como filho de Deus. Com efeito, mais nós amamos nossos irmãos por eles mesmos, apesar de suas malevolências, mais então cresce nossa semelhança com o Pai celeste. Deste modo, esta semelhança não é uma recompensa à qual poderíamos renunciar, mas se torna o sentido mesmo e o fim último de nossa vida neste mundo. Ela é, desta maneira, em nós o anúncio da vida eterna. Maravilhoso o resultado da caridade cristã na existência do autêntico seguidor de Cristo. Irradia-se, assim, por toda parte a paz de Cristo, apartados os conflitos e tornando-se o mundo não uma casa de guerras, mas a mansão da tranquilidade. Eis aí a realidade última que os bons sentimentos geram, afastando estratégias ilusórias de pacificação ante a agressividade alheia. Nossa fé no Deus misericordioso, a quem devemos imitar, nos obriga a ter consciência de nosso papel neste mundo visível, eivado de violências inconsequentes, levantando pontes que são passagem possíveis para um outro mundo no qual os inimigos da paz e da verdadeira vida podem ser olhados sob um ponto de vista otimista porque o verdadeiro cristão se torna aquele que inscreve o amor invisível de Deus nos acontecimentos visíveis da história humana. A mensagem de Cristo é então transformadora em tantos lugares nos quais nossos irmãos e irmãs, nossas famílias e nossos amigos são engolidos numa espiral de violências não só corporais como espirituais, quando as leis eternas de Deus são menoscabadas. Para o coração de quem entende a lição de caridade de Jesus não há situação irreversível. Se somos verdadeiramente cristãos temos o mundo em nossas mãos pelo nosso proceder, pelas nossas preces, irradiando por toda parte tranquilidade, sossego, compreensão.  Cumpre vencer a lógica do medo, da exclusão e isto não por uma demonstração de forças contrárias e sem limites, não por estratégias humanas mas pelo amor que vem de Deus misericordioso. Assim o inimigo real que propaga as forças da morte é até olhado como um amigo capaz de receber o amor divino, levando por toda parte a mensagem salvífica de Cristo que se fez homem para se tornar próximo de todos os seres humanos e preceituou “Amai-vos uns aos outros {...} Sede misericordiosos como o Pai celeste é misericordioso “*Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

 

AS BEM-AVENTURANÇAS E AS MALDIÇÕES

Côn.  José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Das Bem-aventuranças São Lucas reteve sobretudo os elementos mais apropriados para sustentar uma comunidade de pobres, provados e ameaçados. Entre os Evangelistas ele é o único a reforçar as beatitudes, opondo-lhes quatro maldições. Jesus a dizer “Bem-aventurados sois vós” e depois igualmente quatro vezes “Infelizes sois vós”. (Lc 6, 17.20-226). Pode-se, deste modo, abordar a mensagem de Jesus sob dois aspectos, a saber, o lado das reprovações nos quais o homem sentirá o erro que o afastará da virtude e o lado da promessa no qual cada apelo ao heroísmo se torna um penhor de felicidade. As bem-aventuranças e as maldições têm por mira a felicidade. Toda a moral cristã está ordenada a esta felicidade, ou seja, à felicidade assegurada ou à felicidade que escapa. É de se notar que Jesus dá a razão de cada uma destas situações.  Cristo claramente mostra quem é realmente feliz e, logo em seguida, usando o termo “ai de vós” define quem, erroneamente, procura a felicidade lá onde ela não se encontra. São casos opostos entre si. A pobreza abre o Reino, a riqueza oferece a consolação imediata que conduz a uma ilusão a quem a endeusa. Somos deste modo convidados a perceber ao vivo as nuanças do pensamento do Mestre divino sob dois aspectos opostos entre si. “Ai de vós os ricos” afirma Jesus. Infelizes por que? Não pelo fato de serem ricos, uma vez que Jesus tinha amigos entre pessoas afortunadas como Mateus e Zaqueu.  Marta e Maria tinham posses e Joana que seguia o grupo dos discípulos era esposa de Cusa, o intendente de Herodes.  Então, porque infelizes os ricos? Vós tende já a recompensa é a explicação de Jesus, para quem o rico é aquele que não espera mais nada de Deus, dado que ele fecha as mãos e tem toda sua consolação no que possui, endeusando uma segurança material. Para muitos o Deus deles é o dinheiro.  Ser rico neste caso é não esperar mais nada de Deus, porque tal rico se fecha em si mesmo e não deixa mais aquele espaço que somente o Ser Supremo pode preencher, aquele lugar de esperança que apenas o Criador deve ocupar, não impedindo as amarguras e apreensões. Felizes, ao contrário, os pobres, porque o Reino de Deus a eles pertence, dado que a riqueza deles é este reino do amor que neles e por eles se realiza. Jesus não afirma que a miséria é felicidade, porque a miséria é um mal que deve ser eliminado. O Mestre divino, porém declara que é causa de felicidade a pobreza que abre o coração aos dons de Deus e é, de fato, a fonte do verdadeiro contentamento.  Infelizes os que estão agora fartos, porque haverão de ter fome, pois estes, com efeito, correm o risco de não ter fome de Deus, das riquezas sobrenaturais que realmente engrandecem o ser humano. Muitos de fato se contentam com o imediato e se deixam satisfazer com as coisas que fazem e que possuem, abrindo um poço sem fundo, uma saciedade insensata e deixam escapar a fome de uma vida autêntica, aberta e generosa. Ter fome das realidade divinas é o que deve ter em mira o autêntico cristão que não se prende às coisas passageiras desta vida. Infelizes, realmente, os que se sentem bem quando se instalam na comodidade, no egoísmo sem nada de profundo que os motive, tendo horizontes limitados e naufragam quando qualquer desgraça os visita. Felizes ao contrário os que sabem chorar no momento em que o sorriso divino triunfa sobre todas as provações. Estes gozarão o jubilo dos corações livres, a satisfação do que amam e se sentem amados por Deus e pelo próximo. Infelizes os que se tornam profetas da mediocridade, esquecidos das exigências do Reino de Deus e que se deixam levar, como dizia São Paulo, por todo o vento de doutrinas falsas (Ef 4,14) e não têm coragem de se afirmarem como alguém que crê em Jesus e no que Ele ensinou ou se põem a duvidar de tudo que está revelado na Bíblia, não tendo coragem de se mostrarem fiéis a seu Senhor. Felizes, bem-aventurados, contudo, se por causa de Cristo e de sua fé em Deus, é detestado, rejeitado.  Se, de fato, é pelo fato de se ser cristão é que se é desprezado está na hora de se sentir feliz e de se tornar um profeta de Jesus e não pelas falácias do que é terreno, pondo a felicidade naquilo que é mundano, buscando as alegrias superficiais e não procurando senão em Deus a recompensa que Ele reserva para os que Lhe são fiéis. Pode-se, portanto, ser feliz ou infeliz quando se sabe administrar as próprias qualidades ou misérias longe das mensagens que Jesus condensa em quatro beatitudes ou maldições. Examine-se então o cristão para ver se está sob as luzes do Espirito Santo para poder sempre discernir entre o certo e o errado, a felicidade e a maldição. A exclusividade de São Lucas ao abordar este tema da pregação de Cristo merece toda a atenção, * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

PESCADORES DE HOMENS

 

O7 PESCADORES DE HOMENS

Côn. Jose Geraldo Vidigal de Carvalho*

O encontro de Jesus com seus primeiros discípulos começou naquela manhã de uma maneira quase corriqueira. Com efeito, Cristo solicita a Simão um pequeno favor: afastar-se um pouco da margem para que sua voz chegasse melhor aos ouvintes que ali estavam para escutar sua pregação. Isto nada custava àquele que vivia da pesca, o qual logo satisfaz a ordem recebida (Luc 5,1-14). Um detalhe não escapou por certo àqueles pescadores, ou seja, Jesus se põe ao trabalho no momento em que eles acabavam de terminar o seu, quando eles, recolhendo suas redes, já se “punham a lavá-las”, pensando que nada mais podiam pescar naquelas circunstâncias. Entretanto, mesmo quando é muita tarde para os êxitos humanos, isto jamais é muito tarde para Deus. Este, muitas vezes, pede algo a seus fiéis em instantes de fadiga, algo que pode parecer ao homem inútil, mas que o leva a marchar com Ele. Entretanto Simão não estava senão no início de suas surpresas. Quando Jesus acabou de falar aos seus ouvintes, Ele envia os pescadores para longe da margem, onde havia águas mais profundas. Simão estava persuadido que era inútil, depois de uma longa noite infrutífera, mas a palavra de Jesus era mais forte que todas as suas evidências humanas, mais segura que todas as suas dúvidas, mais imperiosa do que suas dubiedades. Eis porque movido pela fé ou pela confiança no Senhor ele ultrapassou seus limites de bom senso terreno e a pesca vai muito além de suas expectativas e o resultado mostrará que aquilo era obra de Deus. Quando o Senhor onipotente age, tudo   é possível, mas o mais difícil por vezes é deixar Deus livre para atuar.  A primeira reação de Simão e de seus companheiros foi o estupor: “Afasta-te de mim Senhor, pois sou um homem pecador”. Ele percebera o esplendor do poder divino, mas era uma majestade que dele o afastava e que, ao contrário, deveria a Ele unir na adoração, na gratidão e no amor. Jesus, contudo, aparta o temor e, na verdade, confiando-lhe uma sublime missão: “Doravante serás pescador de homens”. Muitas vezes o que impede o amor a Cristo é o temor. Medo do que Ele pode e quer fazer através de nós, em nós, para nós. Medo de um Deus que nos ultrapassa e quer fazer prodígios em nossa vida, contanto que confiemos em sua palavra todo poderosa. O essencial é deixar Cristo nos guiar ao alto mar, amá-lo tanto quanto Ele o quer. A conversão dos irmãos se dará na hora prevista por Deus. Pedro, Tiago e João se tornaram então pescadores de homens, engajados na obra missionária de Jesus. Deixaram todo e O seguiram. Para encontrar Jesus é preciso sempre escutar sua palavra com um coração aberto para reconhecer os sinais de Deus em nossa vida e, os tendo reconhecido, aceitá-los como tal. Simão e seus companheiros reconheceram na pesca milagrosa o dedo do Senhor.  Eis porque, quando Jesus os chama para um outro tipo de pesca estavam já estavam preparados para aceitar a grandiosa incumbência e simplesmente O seguem. Ninguém é tão e santo que possa merecer as graças divinas e Deus escolhe entre os pescadores alguns que Ele transforma como cooperadores na sua obra salvadora. Ele quer através deles converter a muitos, tocando seus corações. Deus almeja, da parte dos que Ele chama ao apostolado, fé, confiança amor e perseverança. Ele deseja entrega total, como aconteceu com Pedro, Tiago e João que deixaram tudo e seguiram Jesus. Ser chamado por Cristo não é apenas ser sacerdote, mas também ser um batizado que com Jesus coopera no imprescindível apostolado dos leigos de acordo com o carisma de cada um, colaborando num apostolado eficiente, inclusive com o bom exemplo em todas as atividades. Cumpre então que cada um reflita como tem correspondido aos chamados do Mestre divino. Ele quer se servir de cada cristão para levar a muitos a uma vida nova numa sociedade que se aparta tantas vezes da Boa Nova. Ele quer que nós nos afastemos de nossos temores, de nossos preconceitos e ir até águas mais profundas em busca daqueles que longe dele se acham num cotidiano medíocre feito de angústias e falta de coragem. Jesus quer se servir de cada batizado como de um instrumento de sua ação salvadora. Por maior que seja a pequenez humana quem atende ao chamado de Jesus verá que Ele dará a capacidade maravilhosa de poder operar muitas conversões. Com Ele o cristão fará maravilhas numa pesca maravilhosa para glória de Deus. * Professor no seminário de Mariana durante 40 aos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

 

JESUS PASSANDO PELO MEIO DELES, SEGUIA SEU CAMINHO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Depois do entusiasmo de seus conterrâneos na Sinagoga de Nazaré, o furor (Luc 21-30). Num único  episódio do    Evangelho temos aqui a síntese de toda a vida de Jesus: aplausos e perseguição.  São Lucas registrou que todos admiravam-se das palavras que saiam da boca de Jesus, depois, porém, se encheram ira e O expulsaram da cidade e queriam até jogá-lo monte abaixo. Aí então uma cena admirável: “Jesus passando pelo meio deles, seguia o seu caminho”. Ele demonstrou então todo sua grandeza, enfrentando com galhardia aqueles que o afrontavam. Ele com razão poderia mais tarde afirmar que era   o bom Pastor que daria sua vida por seus seguidores, oferecendo-lhes uma garantia extraordinária. Isto O distinguiria dos mercenários, mesmo porque os que são de seu redil O conheceriam e reconheceriam a sua voz. Trata-se de uma relação pessoal que leva a uma intimidade mútua entre Ele e quem lhe é fiel, pois Ele “sonda os rins e os corações” (Ap 2,23). Por isto Ele aos poucos iria introduzindo quem O seguisse no conhecimento profundo de Deus, da Sua sabedoria, de Sua onipotência. Eis aí, aliás, a grande mensagem de todo o Evangelho, ou seja, o encontro em Jesus entre o Ser Supremo e o ser humano. Esta é uma verdade que não é propriedade dos grandes místicos, mas que deve ser a realidade de todos os cristãos, isto é, a íntima relação entre Ele e seu seguidor, um pertencendo ao outro e daí o mútuo conhecimento que disto decorre. Donde a arguição de São Gregório Magno numa de suas mais belas homilias: “Vós, irmãos caríssimos, se sois de Cristo, vede se vós O conheceis de fato, vede se percebeis, realmente, a luz da verdade pelo amor que Ele vos devota”. Em Nazaré, enfrentando os que O expulsaram da cidade e O queriam matar, Jesus deixa uma mensagem de esperança e alerta para que não se proceda como seus companheiros de infância que a princípio O acolheram, mas que em seguida duvidaram e exigiram milagres que lhes provassem sua origem divina. Queriam sinais como os que Ele fizera em Cafarnaum. O plano de salvação de Deus era diferente do que os nazarenos julgavam, mas ao enfrentá-los Jesus mostrou sua força admirável e, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho. Para muitos neste século vinte e um a mensagem de Jesus suscita contradição. Para aqueles cristãos   que O têm ou O julgam possuir, mas que se deixam levar na sua inteligência e no seu coração a dúvidas, acontece o mesmo que se deu em Nazaré não compreendendo o mistério do Filho de Deus. Jesus, porém, passa no meio dos descrentes e prossegue sua obra redentora de reconciliação de todos com o Pai que está nos céus. Muitos não chegam a conhecer o Jesus poderoso que não se curva perante os absurdos de uma mídia contrária ao Evangelho, à obra de Deus feita nele e por Ele. São aqueles que se mostram como o reflexo dos descontentes de Nazaré, mas Jesus, que se torna sinal de contradição, prossegue sua caminhada na história, redimindo aos de boa vontade, para aqueles que creem em seu poder salvador e sabem preservar o dom preciosismo da fé. Alguns se esquecem que “Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje: Ele o será para a eternidade”!  Cristo ostentou sempre qualidades excepcionais. Ele herdou de nossa condição humana a capacidade de sofrer e de morrer. Seu corpo como os nossos era sensível à fome e à sede, à fadiga e por isto tinha necessidade de dormir. Nele vislumbramos as afeições humanas mais positivas como a amizade e era sensível às ingratidões. Assim sendo muito sofreu com a atitude dos habitantes de Nazaré, como mais tarde terrível foi sua agonia no Horto das Oliveiras e sua dolorosa paixão e morte na cruz. Como Deus, porém que era, admiráveis os seus milagres e Ele pôde preceituar “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. Nele brilharam as mais excelsas virtudes. Entre os atos heroicos de sua vida está o episódio narrado no Evangelho de hoje, quando por entre a turba injustamente enfurecida “Jesus passando pelo meio deles, seguia seu caminho” No dia de sua transfiguração no monte Tabor, seu rosto mais brilhante que o sol no seu fulgor e com veste igual a neve, Ele se apresentou. Por tudo isto, do nascer do sol até o seu ocaso, louvado seja sempre o Senhor Jesus! A Ele honra, gloria e poder. Ele é, de fato, o nosso Deus onipotente. Ele é o resplendor do Pai, expressão de seu ser e é, por isto, segurança de nossa vida. Cumpre, pois, seguir o conselho de São Paulo, que nós todos reflitamos como num espelho a glória do Senhor Jesus. Transfiguremo-nos nesta mesma imagem, que deve ser em nós, cada vez mais resplandecente. * Professor no Seminário de Mariana durante40 anos.

 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

 

                                                           UNIVERSALIDADE DA MISSÃO DE JESUS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Ao narrar o ministério de Jesus na Galileia São Lucas deixa clara a universalidade da missão de Jesus (Lc 11,1-4; 4, 11-21). Jesus “ensinava nas sinagogas com aplauso universal”. Muitos foram testemunhas oculares dos prodígios por Ele realizados e se tornaram servidores da Palavra, elogiando inclusive o extraordinário Pregador. Jesus veio a Nazaré onde Ele, enquanto homem, fora educado. Na sinagoga de Nazaré, dia de sábado, Ele se levantou para fazer a leitura da Escritura. Abriu o livro do Profeta Isaias que lhe fora entregue. No qual encontrou a passagem na qual estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim e me consagrou pela unção. Ele me enviou para levar a Boa Nova aos pobres e anunciar aos cativos sua libertação, e aos cegos o dom da vista, e pôr em liberdade os oprimidos e promulgar um ano de graça concedido pelo Senhor”. Depois afirmou que esta passagem que acabavam de escutar se confirmava ali. Jesus é aquele que veio trazer a Boa Nova ao mundo.  Ele veio e vem também para transmitir a nós pessoalmente porque diante de Deus nós somos pobres, pobres de amor e cegos da verdade e Ele abre nossos olhos, nossos corações para que possamos ver e entender os valores do ser humano e não apenas as aparências, oprimidos que somos por todas as más influências da sociedade ou dos olhares atrevidos dos malignos. Jesus vem nos ensinar a acertar nossas ações, fixando nele o nosso pensamento, nos mostrando a importância de viver na total confiança nele. Sim! Em tudo isso Jesus está a nos cumular com suas   graças, mas nós as reconhecemos, nós as recebemos?  Sabemos nós vivê-las em plenitude? Jesus é realmente nosso Senhor, nosso Salvador? É preciso, porém nos lembrarmos sempre que as palavras do Evangelho têm uma atualidade e uma universalidade que são eternas. Isto porque elas foram pronunciadas pelo Ser Eterno e são sempre atuais, dado que Deus faz que elas se realizem em qualquer época. Trata-se de uma palavra que tem o poder de transformar o ser humano que a recebe com amor. Deus nos fala não aos nossos ouvidos, mas ao nossos corações, enchendo o fiel de sabedoria e retidão É fonte inesgotável de vida. Eis por que quem a ouve deve dizer a Deus como Maria: “Que se faça em mim segundo a tua palavra “(Lc 1,38). Então coisas maravilhosas se dão na vida daquele que crê no que Deus que lhe fala. Pregando na Galileia logo no início de seu ministério, Jesus quis colocar o programa que Ele tinha a intenção de cumprir nos anos que depois iriam se seguir. Ele a todos encantava, pois falava da vida espiritual a seus contemporâneos, contestando o culto estabelecido tal como se desenrolava então nas sinagogas e também no Templo de Jerusalém. Segundo os melhores exegetas Ele se apresentava como um Mestre, o Messias, na linha dos grandes profetas que mostravam Deus numa visão cheia de ternura, diferente daquela que transparecia através do ensinamento legalista dos fariseus e dos doutores da lei. Pregava como os profetas anteriores que haviam aberto o futuro numa esperança que devia   se concretizar na adesão aos verdadeiros valores. Eles anunciaram uma era de paz, de prosperidade sem violência e a glória de Deus seria revelada para o bem de todos sem discriminação. Na época de Jesus  contudo, o Deus no qual esperavam era acessível apenas  pela aplicação rígida da lei tal como os fariseus o exigiam Eis por que na própria sinagoga de Nazaré  os aplausos se transformaram em ira e quiseram inclusive precipitá-lo  monte abaixo sobre o qual estava construída  a cidade É de se notar que Jesus  não havia infligido nada que implicasse uma irregularidade no culto, uma vez que tomou e leu o texto do profeta Isaias que lhe passaram, mas o que irritou a seus conterrâneos foi que Ele recusara  a fazer prodígios exigidos por eles. No que diz a ordem do culto, Jesus não havia perturbado em nada.  Ele lera o texto previsto para aquele dia, fechara o livro e o passara ao servente, tudo, portanto, normal. Normal inclusive que Ele fizesse um comentário sobre o texto que acabara de ler. O que aconteceu foi que Ele recusou a fazer ali os milagres que realizar em Cafarnaum, pois os nazarenos se sentiram excluídos. Eles queriam ter um lugar à parte nos planos de Deus. Neste caso Jesus estava focado na reforma proposta pelo profeta Isaias e que era a linha diretriz de sua atuação. Não se tratava de um Messias revolucionário, mas reformador, cujo programa levava à pessoa humana, quer no plano físico, quer no plano moral, num notável apoio condenando todos os ataques feitos ao ser humano sofredor Nestes a reforma, previa um ano de graça do Senhor. * Professor no Seminário de Mariana 40 anos.