quinta-feira, 24 de março de 2022

 

14 O ARREPENDIMENTO DO FILHO PRÓDIGO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

A parábola do Filho Pródigo apresenta três personagens em torno dos quais lições preciosas podem ser tiradas: o pai, o filho mais novo e seu irmão (Luc 15, 1-3.11-32. O pai que deseja uma casa repleta de alegria, o filho mais novo que usufrui exteriormente sem cessar daquela felicidade e seu irmão que vai embora, mas retorna arrependido, encontrando seu verdadeiro lugar, numa atitude interior de um arrependimento fruto de uma triste experiência. O pai promove uma festa no retorno do filho que abandonara o lar e dá explicações àquele que não se regozijava com o regresso do irmão ao qual, pelo contrário, recrimina veementemente. Uma intransigência injustificável, mas que patenteia a maneira de ser de quem agia sem viver em plenitude o gaudio que deveria fluir da paz dentro daquela casa paterna. Por isto mesmo, não poderia gozar da alegria da reconciliação do pai a perdoar o filho que errara. Em tudo se deve esperar a união, crer que tudo é possível onda de reina um profunda e doce paciência que gera harmonia e reconciliação, não obstante as fraquezas humanas. É preciso aguardar e viver o equilíbrio das mudanças e aplaudir qualquer atitude de arrependimento pelos erros cometidos como ocorreu com o filho pródigo. Toda intransigência deve ser afastada e o pai da parábola sabiamente agiu. Cumpre sempre se colocar no lugar do outro e aplaudir todo retorno à casa paterna. Deus quer que sempre se procure o caminho da vida, a via da transformação interior. Havendo compreensão paira a alegria que inventa e afasta a intolerância. Cumpre dar tempo à graça de Deus que pode operar maravilhas. A raiz dos erros se encontra no espírito de independência, de egoísmo, e de orgulho. Como o filho mais novo muitos julgam poder gerir sua via sozinhos, fora dos desígnios paternos não compreendendo o alcance do perdão. É necessário não enquadrar as situações nos próprios moldes mentais para poder aceitar que é possível ao ser humano errar e se arrepender. Muitos como o filho mais novo se recusam em admitir a autoridade paterna e obedecer à mesma, reconhecendo seus acertos misericordiosos. Como o filho mais novo são aquele que querem aproveitar-se da fortuna do Pai, mas sem nada lhe dar em troca, ainda que isto lhe custe tão pouco. Ao filho que loucamente pede sua parte na riqueza paterna, o pai atende sem nada exigir. Deus age sempre assim nos cumulando de seu amor, de seus dons, de suas graças, isto gratuitamente, respeitando a liberdade de cada um. Infeliz, contudo, quem malbarata as dadivas divinas e não se arrepende como aconteceu com o filho mais velho. Este numa vida dissoluta dissipou o que recebera, procurando a felicidade onde ela não se encontrava. Foi viver sua liberdade fora dos ensinamentos paternos e rapidamente perde tudo que havia exigido do pai e daí sua ruina completa. Deus oferece a todos os seus dez mandamentos sagrados, mas, em os abandonando, só surgem desgraças, frutos do abandono da vontade do Deus três vezes sábio. Sendo, contudo, felizes na obediência ao Senhor é preciso lhe agradecer sempre e, no caso, da infelicidade causada pela rebelião contra Deus, procurar agir com um arrependimento sincero, confiante e eficaz. Com Deus, de fato não se brinca. Na prece sincera fluem todas as luzes celestiais, resultado do amor paterno que perdoa o coração contrito. Para Deus ininterruptamente é possível a conversão, desde que haja sinceridade. Junto dele há solução para tudo. O pai da parábola recebe festivamente o filho transviado, o abraça e manda preparar um baquete festivo pele seu regresso. Estava feliz com sua volta. O mesmo acontece com Deus, quando o pecador arrependido se volta para Ele. Deus não olha o pecador arrependido do alto de sua grandeza infinita, mas, sim, sabe olhar a fraqueza humana para anistiar com seu amor infinito. O importante será viver intensamente os gestos da dileção divina, vivendo intensamente seu imenso amor com profundo espírito filial, mesmo porque o amor divino é incondicional para quem Lhe é leal. Saibamos, contudo, nos regozijar com a conversão daqueles que erram Longe, portanto, qualquer laivo de orgulho, egoísmo, vã glória. Confiar sempre na misericórdia divina e imitar em tudo a comiseração do Pai que está nos céus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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quinta-feira, 17 de março de 2022

 

A NECESSISDADE DA CONVERSÃO

Côn. . José Geraldo Vidigal de Caralho

São Lucas agrupou três mensagens de Jesus, tendo todas elas uma mesma direção, a saber, a necessidade de se converter quando é tempo e quando ainda há tempo (Luc 13,1-9). Três situações diferentes, ou seja, os Galileus morreram por causa da crueldade de Pilatos; dezoito pessoas debaixo dos escombros da torre de Siloé em Jerusalém, resultado da falta de sorte, pois estavam num mau lugar e num mau momento: a figueira foi arrancada porque se mostrava improdutiva durante quatro anos, ocupando inutilmente o terreno onde se achava. Há nuances no ensinamento do Mestre divino. Quanto ao primeiro episódio, Jesus reage a uma má notícia que lhe anunciam e põe Ele mesmo a questão: ¨Credes vós que estes Galileus eram mais pecadores que os outros Galileus para ter sofrido tal sorte?” A resposta vem em duas etapas: de uma parte ninguém pode desejar para tal homem um castigo e dizer que tal sofrimento, tal morte foi uma punição, de outra parte ninguém pode tirar de Deus o poder de dar a cada um segundo suas obras. No que diz respeito ao segundo episódio, recordando a catástrofe de Siloé, o ensinamento é o mesmo, a saber sua dívida não era tão grande, não se veja na sua morte uma penalidade, mas que todos aceitassem a conversão. No caso da figueira estéril não se trata de uma crueldade, nem de uma catástrofe, mas lembra a lentidão, a esterilidade do Evangelho em certos momento s da vida do cristão. Cada um ocupa um lugar nesse mundo, mas qual é a fecundidade de seu apostolado? Deus no tempo oportuno vem procurar os frutos para sua Igreja, frutos de caridade ativa ou frutos do bom exemplo que arrasta e converte os outros. Aqueles que usufruem do tesouro da Igreja, dos sacramentos, da fé, das riquezas da vida fraterna e do devotamento dos irmãos e irmãs, quais são as flores da paz e os frutos da alegria que oferecem? Jesus exige uma resposta suave, mas radical. Tão radical que não cessemos em todas as nossas ações de mostrar o vigor e a autenticidade de uma resposta construtiva em todas as ações cotidianas. Entretanto nesta radicalidade Jesus manifesta que isto é fonte de alegria interior para quem bem procede em todos os seus atos. Eis em tudo isto os elementos essenciais para a esperança cristã de como se deve viver em espírito constante de conversão interior que se reflete no exterior. Tal deve ser o ideal que move o cristão em vista ao vigor espiritual, numa renovação de fecundidade, porque Deus não se conforma nunca com a morte de quem nada produz. Jesus está sempre trabalhando na conversão de cada um, pois paralisar na vida espiritual leva a um grande retrocesso. Não se deve ser nunca ser uma videira estéril. Para isto é preciso muita humildade, simplicidade, coragem e uma boa dose de confiança na graça divina. Cumpre ao cristão um trabalho de conversão ininterrupta numa correspondência absoluta à graça de Deus. Como a Virgem Maria sempre dar um sim a Deus, um sim numa vida que reflete em tudo a vontade de Deus, vida fecundada pelos dons divinos. Jesus quer nos levar à plena consciência da realidade da própria vida e do próprio coração vivendo em plenitude o espírito de conversão, de penitência, estando preparados para o momento da inevitável morte de cada um. Ninguém é eterno neste mundo, mas é eterno no coração de Deus que chama cada um para a vida duradoura junto dele quando Ele o quiser. Daí total confiança nele, quando se está então preparado para o encontro com Ele no dia do julgamento, O alerta de Jesus é claro:” Se não vos converterdes, perecereis todos igualmente”. É preciso então viver em plenitude a verdade. Jesus se serviu de todas as oportunidades para nos evangelizar Sua missão foi de salvar cada alma e fazer cada um chegar à verdade, vivendo segundo ela com profundo espírito de penitência. Cumpre, portanto, a cada um verificar sua maneira de viver Uma vida honesta, plenamente engajada em fazer a vontade de Deus. Cada cristão deve olhar para dentro de si mesmo o mais profundamente possível para corresponder à graça divina e cortar tudo que impede uma real conversão de vida e isto com toda sinceridade. Cortar as falhas interiores e qualquer fissura espiritual. Tudo isto com muita sinceridade deixando a luz de Deus entrar para iluminar toda sua vida. Para que tudo isto aconteça é necessária uma profunda humildade a embeleza a alma, possibilitando a ação santificadora dos dons divinos, levando à perfeição espiritual. Quem é humilde reconhecendo suas fraquezas, e imperfeições trás para dentro de si todas as mensagens do evangelho de hoje que levam ao arrependimento, convertendo-se sempre para um procedimento melhor. Jesus está a clamar para uma vida honesta que dê sempre frutos espirituais. Que o portador da vida divina deve sempre ostentar. O esforço que se faz na vida espiritual ultrapassa a própria vida. Do bom cristão engajado na vida familiar e na vida social em geral. . É que este cristão vive enraizado no Evangelho e nutrido pela graça divina de sorte que possa Jesus dele se servir para sua obra salvadora. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

 

sábado, 5 de março de 2022



A FACE DE JESUS TRANSFIGURADA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus transfigurado na montanha sagrada leva a muitas reflexões sobre a grandeza do Filho de Deus  (Lc 9, 28-36). Entretanto, a face de Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, com palavras humanas apenas de longe pode ser retratada, mas deve ser buscada com muito amor, No Tabor   Pedro, Tiago e João no dia da Transfiguração ficaram envoltos em profundo deslumbramento diante do Senhor. Pedro foi logo dizendo: “Mestre é bom estarmos aqui”. É que Jesus havia subido naquele monte para estar ainda mais intensamente unido ao Pai no silencio e num diálogo confiante e filial. Entretanto, enquanto Ele orava, seu aspecto, sua face se tornaram   diferentes e seu vestuário assumiu um candor refulgente. Os três apóstolos viram a face de Jesus transfigurada na prece e pela prece. Foram pegos de surpresa ante aquela revelação do mistério do Filho de Deus, degustando eles então um pouco de sua glória. Também nós tantas vezes nos sentimos envolvidos pela visão gloriosa de Cristo naqueles momentos de pura graça por ocasião de uma prece ardente. Muitas vezes subimos a montanha da prece tomados por um certo torpor como aconteceu com os apóstolos, oprimidos pela sonolência. Sono da nossa fé por vezes pouco habituada às maravilhas de Deus. Às vezes, é lânguida a esperança que precisa ser alimentada e não ser uma mera resignação, Sonolência do nosso amor fraterno que padece necessidade de um diálogo mais intenso, exigindo o dom de nós mesmos e, deste modo, passamos a exigir direitos e não a dar compreensão. Assim sendo, então a existência do cristão é surpreendida pela glória de Jesus que pede que seu seguidor entre humildemente na luminosidade de sua transfiguração numa revisão de vida, num aprofundamento das três virtudes teologais. Cumpre afastar a indolência espiritual ajudados pela graça divina que nos mantém despertos para as realidades sobrenaturais numa adesão profunda às verdades eternas. O grande antídoto do nosso amor a Deus e ao próximo é saber acolher os instantes de surpresa reservados pelo Todo Poderoso para aqueles que, como Pedro, Tiago e João, se dispõem a acompanhar Jesus e, afastado qualquer laivo de preguiça espiritual, passam a galgar o monte luminoso da prece, deixando-se envolver na luz celeste transfiguram-te. . A Transfiguração de Jesus no Tabor foi rápida, fugitiva, mas quem persevera no seguimento Jesus deparará depois com a Face gloriosa do Senhor Ressuscitado, tendo antes contemplado também a face de Jesus sofredor durante sua Paixão dolorosa. O episódio do Tabor anunciava a glória definitiva da Aliança nova. São Paulo, por isto, nos aconselha: “Ressuscitados com Cristo procuremos as coisas do alto, lá onde se acha Cristo assentado à direita de Deus” (Col 3,1). Como nos regozijamos, contemplando a face do Ressuscitado, nossa vida ficará escondida em Deus com Cristo (Col 3,3). Realiza-se a obra do Pai que ilumina e metamorfoseia. Isto porque Deus que é luz em si mesmo se faz luz para todos que procuram sua face. O Deus que disse que das trevas resplandecesse a luz é Aquele que brilha em nossos corações (2, Cor 4,6). Isto porque faz brilhar o conhecimento da glória de Deus que refulge da Face de Cristo. Deste modo, a luz de Deus, Ele mesmo que por nós e em nos faz brilhar a face de Jesus que ressuscitou imortal e impassível, ilumina assim com sua própria glória a Visão do Ressuscitado. Deus, o Pai, nos transfigura, a nós que olhamos e cantamos no Espírito esta glória: “Quanto a nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos como num espelho a glória do Senhor (Jesus):   somos transformados nessa mesma imagem, cada vez mais fúlgida, como obra do Senhor, o qual é espírito” (2 Co 3,18). Iluminando assim com sua própria glória, pela Visão do Ressuscitado, Deus Pai nos transfigura a nós que olhamos e cantamos no Espírito esta glória. Como diz São Paulo, “quanto a nós somos todos que com o rosto descoberto, refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transformados nessa mesma imagem, cada vez mais fúlgida como obra do Senhor, o qual é e espírito (2 Cor 3,18) Visão de Cristo “carregado de nossas dores”, visão do Eleito transfigurado na montanha, visão do Senhor glorificado no céu, como três ícones do Filho único que o Pai deu ao mundo, em tudo manifestando sua glória e seu amor. Repetimos então com o salmista: “É a tua Face Senhor que eu procuro, não me escondas a tua Face” (Sl 27,8). Deste modo, o episódio da Transfiguração é um mistério para nós. Um mistério que nos traz preciosas lições. São Paulo afirmou que o Senhor transformara nossos pobres corpos à imagem de seu corpo glorioso. O Tabor é uma janela aberta para o nosso futuro Ele nos garante a opacidade de nosso corpo que se transformará um dia em luz, mas também projeta sobre o nosso presente, pois o nosso corpo, apesar de sua pequenez, é o templo do divino Espírito Santo. | *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

 

AS TENTAÇÕES DE JESUS NO DESERTO

Côn. Jose ‘Geraldo Vidigal de Carvalho*

Segundo São Lucas, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, onde esteve durante quarenta dias, sendo tentado, enquanto homem, pelo demônio (Lc 4.1-13). A tentação do pão se liga ao episódio bem conhecido do maná, a tentação dos Reinos da terra faz referência ao famoso acontecimento do bezerro de ouro e a última tentação, aquela do Templo, tem relação com   o evento de Massa e Meriba no qual, apesar de terem visto as maravilhosas obras de Deus, os israelenses O provocaram. As três respostas de Jesus tem relação   não somente com a fé de Israel em um só Deus, mas também, e sobretudo. à maneira de se comportar diante dele, a saber, alimentar-se da Palavra, não colocar Deus à prova e render somente a Ele o culto que só a Ele é devido. São os três preceitos fundamentais aos quais Israel havia sido infiel durante a peregrinação no deserto.  Jesus três vezes foi colocado à prova, saindo vitorioso, cumprindo assim as Escrituras ficando fiel à aliança com o Pai. É de se notar que São Lucas insere entre o batismo e as tentações no deserto a genealogia de Jesus que ele conclui por “filho de Adão, filho de Deus” (Luc 3,38). Foi, portanto, confortado em sua identidade que Jesus “foi conduzido pelo Espirito ao deserto”. Aliás, Satanás tentou por duas vezes Jesus, invocando explicitamente a essência de seu ser: “Se és o Filho de Deus”. É exatamente por isto que Ele ia ser colocado à prova. Entretanto Ele era, de fato, o Filho de Deus, mas as consequências que o diabo tira desta realidade são inteiramente errôneas e é isto que constitui a tentação. Jesus haveria de ensinar o que significa para o cristão a dignidade e a vocação de filho de Deus e como se comportar em consequência desta realidade sublime. O demônio queria que Ele fizesse prodígios extraordinários fora dos planos divinos. Na primeira tentação o diabo   se apoiou em uma necessidade legítima de Jesus depois de 40 dias de jejum. Ele teve naturalmente fome. Nada mais natural.  Mas se era uma necessidade legítima, devia-se tomar os meios para vencer aquela dificuldade. Entretanto, Jesus não era um ser dividido interiormente, era um ser unificado, ou seja, Ele organizara toda sua vida em redor de sua identidade profunda. Ora, ser Filho de Deus era antes de tudo, e sobretudo, estar em sintonia cm o Pai, reconhecendo que tudo dele se recebe. Um dia Ele dirá: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai” e jamais Ele seguiria o conselho do demônio, transformando pedras em pães e, assim sendo, afastou para longe de si o tentador iníquo.  Na segunda tentação o diabão mostrou a Jesus todos os reinos do universo, querendo, ousadamente, sua submissão, mas recebendo imediatamente a resposta taxativa: “Ao senhor teu Deus é que adorarás e só a ele prestarás culto”. Na terceira tentação Jesus se viu no pináculo do templo, querendo que Ele dali se precipitasse, pois os anjos viriam e O sustentariam. Peremptoriamente veio a resposta de Cristo ao Príncipe das Trevas: “Não tentarás o Senhor teu Deus” Diz São Marcos que “esgotada toda espece de tentação o diabo retirou-se de junto dele, até certo tempo”, pois voltaria no tempo da Paixão de Cristo. Colocando este texto no início da quaresma a Igreja quer nos lembrar que a verdadeira conversão para o cristão é de se recordar de sua vocação e intimidade com o Filho de Deus. Jesus é o Filho de Deus não porque poderia mudar as pedras em pão, nem porque podia se lançar do alto do templo, nem porque Ele é livre de dar um culto a quem Ele o quiser dar. Ser Filho de Deus não é a exaltação de um eu hipertrofiado, nem realização de nosso desejo de todo o poder. Jesus ao repelir as insinuações de satanás realizou sua identidade de Filho de Deus, vivendo em plenitude a Palavra de seu Pai e nem colocando à prova aquele no qual Ele confiava e adorando seu Pai e somente a Ele. Por sua atitude Jesus realizava em plenitude as Escrituras e deste modo realizou sua vocação e mostrou sua verdadeira identidade. Ele foi tentado mas sem pecado algum, como lemos na Carta aos Hebreus.  Ele foi tentado quanto à fome, ao orgulho, ao desejo de poder, mas, deixou-nos o exemplo, de como vencer definitivamente ao diabo que deve sempre ser vencido. Ser filho de Deus é antes de tudo, e sobretudo, reconhecer que nossa vida vem de Deus e receber dele tudo que temos numa fidelidade absoluta nele, apoiando sempre em sua Palavra. Ser dele filho é adorá-lo somente a Ele e de nenhum outro esperar a salvação. Ser cristão é estar intimamente unido a Deus na confiança e no amor e, para isto, se torna muito favorável o tempo quaresmal. A exemplo de Jesus cumpre ao cristão vencer sempre as insinuações do demônio e, assim, viver em plenitude a dimensão espiritual da existência de um verdadeiro cristão. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

 

CADA ÁRVORE SE CONHECE PELO PRÓPRIO FRUTO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Desde a primeira comunidade cristã surgiram problemas como mostram as exigências levantadas pelo trecho do Evangelho de São Lucas que objetiva regular as relações entre os irmãos (Lc 6, 39-45). Jesus foi claro: “Porque olhas o cisco que está o olho de teu irmão e não descobres a trave que está no teu?” (...) Hipócrita!  Retirai primeiro a trave de teu olho e então começaras a enxergar bem, para extrair o argueiro que está olho de teu irmão”. Esta exigência é uma ordem, ou seja, primeiro Cristo manda que se considere a nossa vida pessoal para o bom funcionamento de toda a comunidade cristã. Isto a partir primeiro de uma correção, fruto de uma necessária revisão pessoal. Dois pontos de vista a serem considerados: não julgar de plano os desvios dos irmãos e irmãs, dando-lhes lições de moral, quando primeiro mister se faz corrigir-se a si mesmo. Portanto, acentua Jesus em segundo lugar, não simplesmente denunciar os erros sem considerar o próprio modo de proceder pessoal. Trata-se de um modo de agir difícil daquele que corrige e que não enxerga bem e lhe é necessário tirar a trave que está no próprio olho.  Indaga Jesus: “Um cego pode guiar outro cego? Não cairão ambos na cova”?  Bela lição do Mestre divino, concitando a um trabalho pessoal para enxergar bem, retirado tudo que impede uma boa visão. Isso começa por uma disponibilidade interior Incra, numa purificação dos próprios pensamentos e preconceitos que impedem viver santamente para então melhorar toda comunidade. Imporás ac0lher o outro sem querer projetar no próximo os próprios defeitos, as próprias opiniões, lançando para longe os julgamentos pessoais tantas vezes precipitados. Então, sim, a palavras que nasce é uma palavra que constrói e não destrói. O mesmo pode se dar na oração pessoal muitas vezes impedida de escutar e entender a Palavra de Deus por causa de um turbilhão de solicitações inúteis. Além disto, é preciso atenção àquilo que cada um deve fazer para a glória de Deus e o bem do próximo. Apenas assim, se é uma árvore que dá bons frutos.  O modo de agir, a maneira de falar são de suma importância para o crescimento do reino de Deus. A advertência de Jesus é clara: “O homem de bem do bom tesouro de seu coração tira coisas boas, e o mau do mau tesouro”.  O anúncio do Evangelho supõe uma atitude correta semelhante a que Ele está pedindo no Evangelho de hoje. Tudo isto nos deve levar a rever como se dá o contato cotidiano com as pessoas, sobretudo dentro da própria família. Nosso acesso à fé e seu aprofundamento nos vieram através daqueles que souberam bem pô-los transmitir, lançando com sabedoria a palavra da verdade. O mesmo cuidado demos ser para melhor agir no meio em que vivemos. Muitos frutos bons nos vieram de árvores boas. Por isto devemos ser árvores frutíferas que ofereçam bons frutos para o bem do próximo. Quem se julga perfeito, sem o ser, não está apto para ajudar os outros. Não se deve ser como um espinheiro   que obsta uma palavra impregnada de humildade e de delicadeza, a qual deve sair do fundo do tesouro de um bom coração, do íntimo daquele que sabe conviver com os sofrimentos inevitáveis da vida e se conforma sempre com a vontade divina e procura considerar suas próprias limitações. Tudo isto leva a ver com clareza a si mesmo e aos irmãos e irmãs, libertando-se de toda implicância e de toda arrogância. Nada de palavras duras próprias dos inquisidores e moralistas inveterados. Então, sim, é possível mostrar um caminho seguro e vencer toda dificuldade numa fidelidade à Palavra de Deus. Surge então o homem bom e nobre, aquele que pode sempre solicitar a Jesus que faça o seu coração semelhante ao dele e vai se tornando uma migam daquele que esculpe nele esta sua imagem. Trata-se da presença de Deus em sua vida num trabalho de aperfeiçoamento constante. Jesus que se fez homem não vem ao cristão no esplendor, no brilho da força, no prestígio dos heróis, mas na disponibilidade, na atenção, na cortesia na escuta, possibilitando ofertas mútuas. Isto longe de toda discórdia, inveja, disputas, dissensões. Cisões, sentimentos de inveja, de orgias e algo semelhante, num luta perseverante contra todo e qualquer excesso Longe, portanto, de qualquer superficialidade, de toda mediocridade estéril. Mas na sabedoria de Deus em sua vida, num trabalho de aperfeiçoamento constante. Surge então o bom tesouro do nosso coração que se situa bem no íntimo da alma que vive em contato direto com Deus. Afastadas se acham, deste modo, a indiferença, a frivolidade, numa vivência completa das verdades da fé. A sociedade de hoje nos leva a nos fecharmos sobre nós mesmos, impedindo ir até o mais profundo do nosso coração onde está o verdadeiro tesouro   do cristão, lá ode se encontra a verdadeira felicidade, uma vida interior profunda, enraizada em Deus. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

 

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

 

MIISERICORDIOSOS COMO O Pai CELESTE É MISERICORDIOSO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

No sermão da montanha, logo após as bem-aventuranças, Jesus nos legou um belíssimo trecho sobre a caridade cristã, especialmente sobre o amor aos inimigos (Luc 6, 27-38). Trata-se dos inimigos pessoais ou dos inimigos do grupo ao qual se pertence, da comunidade em que se vive. Em síntese, o Mestre divino ensina que se deve fazer o bem àqueles que nos odeiam, desejar coisas boas àqueles que nos maldizem e rezar por aqueles que nos maltratam, isto é, pedir tudo de bom para aqueles que são também filhos de Deus e para os quais o Ser Supremo tem também tesouros de paciência. A ordem de Cristo é clara “Sede misericordiosos, como o Pai do céu é misericordioso”. Além destas características de um amor sem fronteiras Jesus fala da não-violência, da oferta da outra face a quem de um lado lhe bateu, da túnica a quem lhe tomou o manto, tudo isto sob o olhar de Jesus. Trata-se de pagar o mal com o bem. Cristo preconiza um estilo de vida que Ele quer inculcar a seu seguidor, um novo olhar sobre a conduta cristã, sobre os acontecimentos, sobre as pessoas. Ao se deixar levar por seus impulsos humanos, o homem cai na lei de talião, ou seja “olho por olho, dente por dente”. Nada, portanto, dentro de tal coração de gratuidade, de benevolência, tomando atitudes adversas bem longe da misericórdia de um Deus benévolo. A atitude, porém, verdadeiramente cristã consiste em proceder exatamente ao contrário do agressor seja ele quem for segundo a ordem de Cristo: “Amai vossos inimigos e fazei-lhes o bem”. Somente assim, acrescenta Jesus, “sereis filhos do Altíssimo, o qual é bom para com os ingratos e os malvados”. Para quem assim procede, afirma Jesus, grande será a recompensa. Poderíamos, neste caso, indagar onde está a gratuidade que deve impregnar o procedimento cristão. A gratuidade fica salva, incontaminada, porque a recompensa da qual fala o Mestre divino não é um novo ter, mas um suplemento do ser daquele que é, de verdade, idêntico a Cristo no seu bom proceder, agindo como filho de Deus. Com efeito, mais nós amamos nossos irmãos por eles mesmos, apesar de suas malevolências, mais então cresce nossa semelhança com o Pai celeste. Deste modo, esta semelhança não é uma recompensa à qual poderíamos renunciar, mas se torna o sentido mesmo e o fim último de nossa vida neste mundo. Ela é, desta maneira, em nós o anúncio da vida eterna. Maravilhoso o resultado da caridade cristã na existência do autêntico seguidor de Cristo. Irradia-se, assim, por toda parte a paz de Cristo, apartados os conflitos e tornando-se o mundo não uma casa de guerras, mas a mansão da tranquilidade. Eis aí a realidade última que os bons sentimentos geram, afastando estratégias ilusórias de pacificação ante a agressividade alheia. Nossa fé no Deus misericordioso, a quem devemos imitar, nos obriga a ter consciência de nosso papel neste mundo visível, eivado de violências inconsequentes, levantando pontes que são passagem possíveis para um outro mundo no qual os inimigos da paz e da verdadeira vida podem ser olhados sob um ponto de vista otimista porque o verdadeiro cristão se torna aquele que inscreve o amor invisível de Deus nos acontecimentos visíveis da história humana. A mensagem de Cristo é então transformadora em tantos lugares nos quais nossos irmãos e irmãs, nossas famílias e nossos amigos são engolidos numa espiral de violências não só corporais como espirituais, quando as leis eternas de Deus são menoscabadas. Para o coração de quem entende a lição de caridade de Jesus não há situação irreversível. Se somos verdadeiramente cristãos temos o mundo em nossas mãos pelo nosso proceder, pelas nossas preces, irradiando por toda parte tranquilidade, sossego, compreensão.  Cumpre vencer a lógica do medo, da exclusão e isto não por uma demonstração de forças contrárias e sem limites, não por estratégias humanas mas pelo amor que vem de Deus misericordioso. Assim o inimigo real que propaga as forças da morte é até olhado como um amigo capaz de receber o amor divino, levando por toda parte a mensagem salvífica de Cristo que se fez homem para se tornar próximo de todos os seres humanos e preceituou “Amai-vos uns aos outros {...} Sede misericordiosos como o Pai celeste é misericordioso “*Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

 

AS BEM-AVENTURANÇAS E AS MALDIÇÕES

Côn.  José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Das Bem-aventuranças São Lucas reteve sobretudo os elementos mais apropriados para sustentar uma comunidade de pobres, provados e ameaçados. Entre os Evangelistas ele é o único a reforçar as beatitudes, opondo-lhes quatro maldições. Jesus a dizer “Bem-aventurados sois vós” e depois igualmente quatro vezes “Infelizes sois vós”. (Lc 6, 17.20-226). Pode-se, deste modo, abordar a mensagem de Jesus sob dois aspectos, a saber, o lado das reprovações nos quais o homem sentirá o erro que o afastará da virtude e o lado da promessa no qual cada apelo ao heroísmo se torna um penhor de felicidade. As bem-aventuranças e as maldições têm por mira a felicidade. Toda a moral cristã está ordenada a esta felicidade, ou seja, à felicidade assegurada ou à felicidade que escapa. É de se notar que Jesus dá a razão de cada uma destas situações.  Cristo claramente mostra quem é realmente feliz e, logo em seguida, usando o termo “ai de vós” define quem, erroneamente, procura a felicidade lá onde ela não se encontra. São casos opostos entre si. A pobreza abre o Reino, a riqueza oferece a consolação imediata que conduz a uma ilusão a quem a endeusa. Somos deste modo convidados a perceber ao vivo as nuanças do pensamento do Mestre divino sob dois aspectos opostos entre si. “Ai de vós os ricos” afirma Jesus. Infelizes por que? Não pelo fato de serem ricos, uma vez que Jesus tinha amigos entre pessoas afortunadas como Mateus e Zaqueu.  Marta e Maria tinham posses e Joana que seguia o grupo dos discípulos era esposa de Cusa, o intendente de Herodes.  Então, porque infelizes os ricos? Vós tende já a recompensa é a explicação de Jesus, para quem o rico é aquele que não espera mais nada de Deus, dado que ele fecha as mãos e tem toda sua consolação no que possui, endeusando uma segurança material. Para muitos o Deus deles é o dinheiro.  Ser rico neste caso é não esperar mais nada de Deus, porque tal rico se fecha em si mesmo e não deixa mais aquele espaço que somente o Ser Supremo pode preencher, aquele lugar de esperança que apenas o Criador deve ocupar, não impedindo as amarguras e apreensões. Felizes, ao contrário, os pobres, porque o Reino de Deus a eles pertence, dado que a riqueza deles é este reino do amor que neles e por eles se realiza. Jesus não afirma que a miséria é felicidade, porque a miséria é um mal que deve ser eliminado. O Mestre divino, porém declara que é causa de felicidade a pobreza que abre o coração aos dons de Deus e é, de fato, a fonte do verdadeiro contentamento.  Infelizes os que estão agora fartos, porque haverão de ter fome, pois estes, com efeito, correm o risco de não ter fome de Deus, das riquezas sobrenaturais que realmente engrandecem o ser humano. Muitos de fato se contentam com o imediato e se deixam satisfazer com as coisas que fazem e que possuem, abrindo um poço sem fundo, uma saciedade insensata e deixam escapar a fome de uma vida autêntica, aberta e generosa. Ter fome das realidade divinas é o que deve ter em mira o autêntico cristão que não se prende às coisas passageiras desta vida. Infelizes, realmente, os que se sentem bem quando se instalam na comodidade, no egoísmo sem nada de profundo que os motive, tendo horizontes limitados e naufragam quando qualquer desgraça os visita. Felizes ao contrário os que sabem chorar no momento em que o sorriso divino triunfa sobre todas as provações. Estes gozarão o jubilo dos corações livres, a satisfação do que amam e se sentem amados por Deus e pelo próximo. Infelizes os que se tornam profetas da mediocridade, esquecidos das exigências do Reino de Deus e que se deixam levar, como dizia São Paulo, por todo o vento de doutrinas falsas (Ef 4,14) e não têm coragem de se afirmarem como alguém que crê em Jesus e no que Ele ensinou ou se põem a duvidar de tudo que está revelado na Bíblia, não tendo coragem de se mostrarem fiéis a seu Senhor. Felizes, bem-aventurados, contudo, se por causa de Cristo e de sua fé em Deus, é detestado, rejeitado.  Se, de fato, é pelo fato de se ser cristão é que se é desprezado está na hora de se sentir feliz e de se tornar um profeta de Jesus e não pelas falácias do que é terreno, pondo a felicidade naquilo que é mundano, buscando as alegrias superficiais e não procurando senão em Deus a recompensa que Ele reserva para os que Lhe são fiéis. Pode-se, portanto, ser feliz ou infeliz quando se sabe administrar as próprias qualidades ou misérias longe das mensagens que Jesus condensa em quatro beatitudes ou maldições. Examine-se então o cristão para ver se está sob as luzes do Espirito Santo para poder sempre discernir entre o certo e o errado, a felicidade e a maldição. A exclusividade de São Lucas ao abordar este tema da pregação de Cristo merece toda a atenção, * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.