quinta-feira, 16 de maio de 2013

VIVER INTENSAMENTE A FÉ

VIVER INTENSAMENTE  A FÉ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Nunca se valoriza demais o precioso dom da fé pela qual se pode estabelecer um diálogo intenso com Deus. Desta sublime convivência com o Ser Supremo resulta a imperiosa necessidade de fazer frutificar esta crença beatificante. Isto significa irradiar por toda parte a ventura de poder dar à existência humana um sentido certo e duradouro. Com efeito, aquele que se entrega sem reservas ao amor divino através de uma real experiência de fé e se aparta da própria segurança, se torna um iluminado e pelo fato de estar inebriado num júbilo íntimo profundo anela que outros encontrem esta mesma felicidade. Aí está a magna missão do cristão, o qual como discípulo de Cristo, precisa difundir por toda parte como afetuoso é o Senhor Todo-Poderoso. Mostrar que os valores da fé se distinguem profundamente dos valores do mundo. Estes acabam por sufocar as indagações que borbulham lá no íntimo do ser racional e não satisfazem as aspirações fundamentais que palpitam dentro do coração humano. Obscurecido fica o destino final de quem foi criado para, além morte, conhecer a recompensa de seus atos na curso terreno. Apenas à luz da fé é possível triunfar das paixões desregradas que são tendências que animalizam e, em conseqüência, vencer o pecado que é uma irracional revolta contra o Criador de tudo. É que a autêntica vivência da fé comporta a obediência a quem sabiamente estabeleceu leis fora das quais a pessoa humana não alcança nunca sua maturidade. Isto exige evidentemente renúncias que redundam naquela paz que supera todas as riquezas e prazeres mundanos. Estes prazeres envolvem em escuridão, angústia existencial ao passo que a fidelidade à voz da consciência que clama por um procedimento de acordo com a vontade divina traz luz, serenidade, imperturbabilidade. O Papa Francisco advertiu: «Não se é cristão a tempo parcial, apenas em alguns momentos, em algumas circunstâncias, em algumas escolhas. Não se pode ser cristão assim; é-se cristão em todos os momentos. Totalmente!». De fato o júbilo que paira em quem crê em Jesus comporta momentos cruciais e deve impregnar todos os pensamentos e ações do discípulo do Redentor, tornando visível a todos que não pode ser infeliz “coração que ama a Cristo”. Seria contraditório ao cristão viver sem superabundância, sem extravasar a riqueza que se acha em sua alma.  Um dos erros mais calamitosos de um epígono do Filho de Deus é não compartilhar os bens espirituais que lhe advêm através da fé. É uma chaga que o batizado fixa em si próprio. É um opróbrio que se projeta sobre si mesmo. Por muito inconcebíveis e intrigantes que as mudanças bruscas de um exílio terreno possam ocasionar, é muito mais danoso não saber transformar as tribulações em momentos de crescimento espiritual para tornar o mundo melhor. Quem age com uma fé arraigada fica blindado perante as provações que Deus permite e que são inevitáveis ao longo da caminhada rumo à Casa do Pai.  A fé confere paciência por muito penosos e difíceis que sejam os sofrimentos nesta marcha para o céu. A fé, contudo, é penhor do amor, da amizade e das bênçãos daquele que habita na alma em estado de graça. Desta maneira, quem tem fé jamais se deixa possuir pela disfunção emocional que abafa o alento da vida que necessita existir através da primeira das virtudes teologais. De tudo isto resulta então a santidade vivida intensamente pelo cristão, o qual é sempre agradável a Deus que o ajuda e recompensa com consolações inenarráveis. Tanto isto é verdade que os grandes santos se regozijavam por entre aflições e repetiam com São Paulo: “Eu tudo posso naquele que é a minha fortaleza” (Fl 4,13). É lógico também que para se chegar a esta plenitude da luminosidade da fé é preciso a oração contemplativa e as preces que pedem que a fé seja cada vez mais aumentada. Cumpre, outrossim, uma união com Maria que recebeu aquele sublime elogio de Santa Isabel: “Bem-aventurada aquela que acreditou”. (Lc 1,45. Ela então fortalece a fé e torna suaves as preocupações, exuberante o júbilo e leva a sublimar as dificuldades cotidianas. Isto porque ela é “a mulher vestida de sol”(Ap 12. 1) que aclara neste vale de lágrimas todos que dela se avizinham, protegendo-os, sustentando-os, encorajando-os a exercer fielmente a vocação cristã sobre a rocha de uma fé inabalável.  Num momento de pulcra inspiração Giuliano Vigini mostrou que é deste modo que “o tu da fé pessoal se funde, reascendendo e amadurecendo, no nós da comunidade eclesial”. O cristão santificando sua vida pela fé, fazendo em tudo a vontade de Deus, fica então a serviço de todos os homens e da criação inteira e se torna o mais útil dos humanos e dos cidadãos desta terra.
* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O FENÕMENO RELIGIOSO HODIERNO

O FENÕMENO RELIGIOSO HODIERNO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Apesar de se viver num contexto que o Papa Francisco muitas vezes caracteriza com precisão como impregnado de uma cultura “hedonista, consumista, narcisista”, se percebe como VAI acentuando a procura da Religião. É possível mesmo que o desencanto com a busca desenfreada do prazer, o vazio deixado pela demanda de bens materiais e a exacerbação do amor excessivo a si mesmo acabem por conduzir a muitos na volta ao que transcende. Isto leva infalivelmente ao contato com o Ser Supremo. A transcendência divina vem a ser o conjunto de atributos de Deus que lhe ressaltam a superioridade em relação à criatura. Dentro destas considerações um erro de perspectiva é o julgamento de que há menos pessoas freqüentando os cultos religiosos do que, por exemplo, acontecia antigamente nas Missas dominicais. Isto numa perspectiva de que a população aumentou e que, portanto, deveria haver uma maior participação de fiéis. Cumpre, porém, observações pertinentes. Não só se multiplicaram as Missas nas comunidades dentro das Paróquias, inclusive nas comunidades rurais, visível isto com a multiplicação de templos, como também o fenômeno religioso não deve ser medido pela quantidade, mas pela qualidade. É o que se dá quando se pensa que o número de católicos no Brasil diminuiu. Em compensação, certamente, no termômetro divino, a fé, o fervor cresceram naqueles que passaram a viver não um ritualismo vazio, mas uma participação religiosa séria, comportando compromissos reais com a vivência do Evangelho. Percebe-se uma espiritualidade diferente que quer envolver-se no mundo, fazendo o cristão um fermento na massa, uma luz nas trevas por meio de um depoimento de vida que move, comove e acaba por remover as barreiras daqueles que se afastaram do Criador ou nunca O conheceram. Há mais espírito de uma oração contemplativa que leva à reflexão e imerge na experiência de Deus. Trata-se de uma realidade religiosa mais profunda revestida de sinceridade interior, longe da hipocrisia. O cristão de hoje está muito mais imbuído do espírito de serviço, compartilha e ajuda a seus irmãos com mais eficiência e persistência. Diminui-se a olhos vistos a escassez de virtude naqueles que freqüentam as cerimônias religiosas e há mesmo em muitos a mística do despojamento de si neste sentido de que há um compromisso maior com a evangelização. Multiplicam-se as diversas pastorais que vão de encontro a necessidades específicas de diversos setores. Com isto, os carismas de cada um podem ser exercidos e não há motivo para omissões no imprescindível apostolado.  Este deixa de ser um proselitismo para se transformar numa manifestação da verdade não com meras palavras, mas pelo testemunho de vida. Abre-se deste modo o caminho para que muitos reencontrem a Deus. Há dentro de cada ser humano uma inquietude que vai sendo respondida com a nova maneira de se tornar um cristão praticante. É preciso, realmente, tornar pragmático o espiritual, levando mensagens que ressoem no cotidiano das pessoas. É a transferência daquilo que se crê para as ações do dia a dia. A grande tarefa no mundo de hoje é deitar por terra os ídolos criados pela mídia e que têm poder de relativizar a vida religiosa, tornando-a mundana. Como, de tanta repetida, perdeu a sua força a expressão “ter senso crítico” apela-se sabiamente para a freqüência aos Grupos de Reflexão os quais oferecem meios para se escapar da manipulação cultural. Há inúmeros líderes leigos que percebem a centelha de piedade que há no povo e sabem trabalhar este aspecto positivo canalizando-o para uma participação ativa nos ritos litúrgicos e na união com Deus. São os guias perspicazes, hábeis, engenhosos, talentosos que promovem uma verdadeira revolução religiosa dentre dos setores nos quais atuam. Hoje, mais do que nunca, as autoridades eclesiásticas estão atentas para atinar com o meio termo e, com as luzes celestiais, evitam as distorções. Por outro lado, como suporte de tudo isto os estudos bíblicos, os cursos de aprofundamento de tudo que se estudou no Catecismo, os encontros que conduzem a uma primorosa formação ascética e mística vão incrementado a piedade de quem foi batizado e é chamado a ser um profeta da Verdade. Adite-se que os Meios de Comunicação da Igreja vão i se tornando cada vez mais atuantes, eficientes, além da divulgação das mensagens religiosas através da internet. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

terça-feira, 14 de maio de 2013

A CHAVE DA SOLUÇÃO DOS CONFLITOS

A CHAVE DA SOLUÇÃO DOS CONFLITOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A primeira atitude daqueles que vivem um desentendimento é não privilegiar o conflito para não acentuar a discórdia. Os aspectos opostos a outros por parte de cada pessoa, os quais são fontes das tensões, precisam ser solucionados não com uma síntese que ignore as razões das partes, mas numa visão superior que leve a uma unidade. Quando cada um se firma no princípio de que está absolutamente certo e o outro totalmente errado não se chega nunca a uma concórdia. Prevalece o desacordo. Entretanto, para que se chegue a um novo caminho cumpre um auto-exame de ambas as partes, dado que no momento no qual se passa a reconhecer que o ser humano não é infalível se acha aberta a via para a compreensão e para o perdão cordial. Trata-se de não enfatizar as falhas alheias, porque, seja quem for, tem suas carências. Como tantas vezes tem repetido o Papa Francisco, “o cristão deve construir pontes e não muros”. De fato, se uma pessoa se empareda irredutível no seu modo de pensar, bloqueia qualquer passagem para uma situação harmoniosa. Fica impedida a troca de idéias. O ideal é encontrar uma diversidade reconciliada para que entre os cônjuges, entre pais e filhos, entre mestres e alunos, entre os amigos se possa sempre caminhar lado a lado deparando a unidade na verdade.  Nada mais saudável do o respeito ao perfil caracterológico do outro para se compreender suas atitudes, tendo cada um consciência de que possui qualidades e defeitos. Apenas assim se encontrará a maneira pela qual um possa ajudar o outro sem passar recibo no que está errado, mas entendendo que é possível que brilhe em qualquer circunstância a luz da superação do problema em tela. Cumpre que as partes em litígio saibam um escutar o outro, pois tantas vezes o que ocorre é desinformação. Afastadas a prepotência, a exasperação da linguagem comunicativa, meio caminho está aberto para uma conciliação. Nunca se deve querer mudar a identidade do outro, mas sim oferecer todos os meios para um diálogo, uma aproximação. É necessário saber, como bem se expressou o atual Papa, que “algumas pessoas vêem sempre o copo meio cheio, e outras, ao contrário, meio vazio”. Portanto, trata-se, em tantas ocasiões, de uma questão psicológica fruto de uma mentalidade que deve ser captada para que se possa perceber o ponto de vista alheio. Não é fácil saber o limite da visão do semelhante, se não há uma predisposição para atinar com sua cosmovisão. O ponto de partida deve ser, em tudo, a acolhida cordial e nunca uma tomada de posição prévia. As problemáticas existenciais são complexas e exigem discernimento de parte a parte.  A tudo isto se acrescente que o significado das palavras mal decodificado pode levar a não se atinar com que o outro está realmente dizendo. Nada mais desejável que se esteja falando a mesma linguagem. Seja como for, uma condição da parte de qualquer pessoa para evitar situações conflituosas é o perfeito equilíbrio do corpo e do espírito, um bom estado físico e mental. Há sempre uma tendência para transferir para os outros os próprios problemas e defeitos. É preciso, portanto, cuidado no julgamento para que possa haver um consenso. Nos seres humanos há obscuridade e luz, esta é que deve prevalecer, aquela não pode ser acentuada. Nada desgasta mais, quer o homem, quer a mulher, do que a animosidade sem motivo ou que deveria ser evitada. O segredo da vida é transformar a agitação em cooperação. Nada mais necessário do que baixar o nível de defensividade, abolindo definitivamente acusações mútuas. A interação emocional é de vital importância em toda parte. Atitudes negativas devem ser evitadas, pois causam ressentimentos, aumentam a taxa de absenteísmo e reduzem o nível de energia positiva. É preciso inclusive que no afã de se resolver uma pendência não se empregue qualquer atitude que pode se configurar como suborno afetivo. Sem sinceridade nada de positivo se constrói. Assim qualquer tipo de elogio desproporcionado ao invés de resolver pode agravar o mal estar entre duas pessoas. . É preciso, isto sim, sempre a busca de reforços interpessoais, como a atenção que se manifesta nos mínimos detalhes, incluindo não se querer dominar o outro a partir da suposição, a priori, de que ele está errado. Sábio o conselho bíblico: “Reprime o furor e deixa a cólera; não te exasperes, para não seres levado ao mal” (Sl 37,8). Com calma tudo se resolve. Nunca se deve esquecer que, quanto mais espontâneo alguém for e quanto mais investir em si próprio como ser humano, maiores serão as chances de se dar bem com todas as pessoas, impedindo os conflitos. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.  


segunda-feira, 13 de maio de 2013

A IGREJA NO MUNDO PÓS-MODERNO

A IGREJA NO MUNDO PÓS-MODERNO
Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Num contexto consumista no qual impera o liberalismo econômico a Igreja que condenou as teses do comunismo ateu prega a procura da igualdade de oportunidades e de direitos e pugna pelos benefícios sociais. Defende uma equânime distribuição e redistribuição das riquezas e reprova a concentração dos bens nas mãos de uns poucos. A doutrina social do magistério eclesiástico aborda com perfeição as magnas questões que afligem a sociedade. Diante do fenômeno da pobreza, se de um lado condena o paternalismo paralisante, ensina que cumpre a promoção do pobre pelo pobre mesmo, abrindo as portas para um trabalho digno. Todos devem poder enfrentar a vida por meio de uma profissão qualquer. A ajuda aos doentes precisa ir até o ponto de que ele recupere a saúde para poder ter forças e se entregar a um labor produtivo. É claro que nas moléstias crônicas a Igreja batalha para que a aposentadoria por invalidez seja suficiente para arcar com as despesas atinentes à manutenção da vida. Bem se sabe que, por exemplo, os vicentinos primam por uma notável assistência aos doentes e procuram captar recursos para suas obras caritativas. Eles também demonstram assim que os mais necessitados são o tesouro da Igreja. Aliás, o Papa Francisco patenteou sempre este interesse pelos marginalizados e, sem esta dedicação aos pobres, afirmou “construiremos uma Igreja medíocre, morna e sem força”! A caridade como esmola é urgente como socorro imediato ao necessitado. Cumpre implantar por toda parte a cultura da solidariedade. Nunca se insiste demais nas correções na vida dos cristãos que vivem no luxo e nos gastos desnecessários, esquecidos daqueles que passam por dificuldades. São os que adoram o dinheiro e o consumo, em vez de auxiliar os outros, dissipam o que têm com o supérfluo. É a vivência de um materialismo destrutivo e que impede entesourar para o céu, pois ao invés de se ir ao encontro da miséria alheia se desperdiça com o inútil, o não necessário. Cumpre, então, sobrrtudo também evitar o hedonismo, alimentado,  pela propaganda que incrementa a compulsão pela compra inútil. Por tudo isto, é preciso a projeção da transcendência espiritual na existência do discípulo daquele que asseverou: “O que fizerdes ao menor de vossos irmãos foi a mim que o fizestes”. O referencial de todo ato caritativo é Cristo visto na pessoa do próximo. Isto é hoje tanto mais imperioso, porque se vive num mundo que aliena Deus, menoscaba os valores e estimula a ganância. Eis a razão pela qual a Igreja mais do que nunca incentiva o combate esclarecido pelo progresso ético, educacional, profissional. Devem ser valorizados os Cursos técnicos que oferecem um mercado de trabalho utilíssimo em vários setores da sociedade, Esta precisa de competentes enfermeiros, eletricistas, fotógrafos, cabeleireiros, de especialistas em marketing, em informática, em contabilidade, em corte e costura, enfim em tantas outras atividades que não requerem um Curso Superior. Há inclusive, oferecido por entidades ligadas às pastorais paroquiais, cursos para garçons, para funcionárias domésticas, para diaristas. Estão, felizmente, voltando às Escolas de Ensino Médio os Cursos de Magistério, de Secretariado que habilitam com eficiência pessoas que não podem, por razões diversas, freqüentarem uma Universidade. É imprescindível incorporar todas as pessoas, quanto antes, à comunidade através de uma educação que lhes possibilite ascensão no mundo do trabalho. Isto é possível quando se age com aquele amor pregado por Cristo no Cenáculo, dileção que gera retidão, justiça e impregna as relações sociais de uma espiritualidade que ultrapassa todas as barreiras. O impacto do imperialismo cultural dos países capitalistas e das classes ricas, somente assim, poderá ser enfraquecido. Entender-se-á também que não há populações inferiores só por não se identificarem com os padrões ditos civilizados dos países do primeiro mundo. Deste modo se estará caminhando para um novo conceito de desenvolvimento que não seja a mera prática de idéias ilusórias transmitidas pelo capitalismo internacional as quais reforçam a dependência. Somente, desta maneira, se dirá que, com toda a verdade, que se é cristão, porque não se está de acordo com a corrupção, com a imoralidade, com tudo que se contrapõe ao Evangelho. As forças do bem são ontologicamente mais fortes que as do mal. Estas forças bem dirigidas mudarão a fisionomia do mundo dito pós-moderno. Somos todos responsáveis pela transformação da sociedade hodierna. Enquanto, porém, aquele que é cristianizado compactuar com a mentalidade materialista reinante, ele não apenas trai o Evangelho como contribui para piorar a situação mundial. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

DESILUSÃO COM A POLÍTICA

DESILUSÃO COM A POLÍTICA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*.
A grande dúvida que paira na mente do cidadão perante o que vem acontecendo no Brasil é se, de fato, há da parte dos líderes políticos uma convicção para transformar a realidade. Neste momento, apesar de tanta miséria, o que se vê são construções monumentais erguidas com o dinheiro público e que se transformarão em elefantes brancos. É o caso típico dos estádios de futebol nos quais verbas astronômicas estão sendo gastas num desperdício de dinheiro que clama aos céus. No entanto, com estas quantias vultosas hospitais poderiam estar sendo construídos, ou os já existentes deveriam ser mais bem equipados. Favelas estariam em condição de serem erradicadas. Escolas que funcionam em estado precário teriam recursos para serem reedificadas, oferecendo condições aptas para um ensino mais eficiente. Cumpre, por tudo isto, reabilitar a política nacional. No dizer do papa Francisco “a política é uma forma mais elevada de caridade social. O amor social se expressa no trabalho político para o bem comum”. A reta aplicação dos impostos, por sinal, em nossa pátria, altíssimos não se dá, exatamente pela má formação daqueles que se mostram condutores incompetentes a malbaratar o erário público Isto ocorre ainda, o que é mais calamitoso, no desvio de somas fabulosas no interesse pessoal. Quando tal não acontece, o essencial para o povo fica completamente esquecido porque faltam idéias e não se projeta um progresso real em longo prazo. Em razão disto os valores éticos ficam postergados e a democracia desonrada. Multiplicam-se as desgraças e as classes inferiores, é claro, são as mais prejudicadas. As alianças políticas resultadas da ânsia pelo poder massacram as magnas questões que afligem a população, uma vez que o objetivo é ganhar as eleições seguintes a todo preço e um absurdo enriquecimento pessoal. Deste modo, muitos políticos deixam de ser os guardiões da soberania da nação, porque vale um país o que valerem as condições humanas de seus habitantes e a honradez de seus dirigentes. Quem recebe um mandato público precisa contemplá-lo como um serviço à comunidade e não aos partidos e, menos ainda, a si próprio. São muitos os maus agentes da missão que receberam nas urnas. As obrigações assumidas, as promessas feitas são olvidadas. Nem de longe, alguns pensam em atender as dimensões humanas de seus eleitores. Negócios feitos por baixo do pano vão dilapidando a riqueza nacional e os frutos amargos destas atitudes iníquas se fazem ver por toda parte. Entretanto, é preciso que os bons políticos, juntamente com o povo, lutem mais tenazmente para quebrar os círculos viciosos, impedindo que os medíocres cheguem ao poder. Este é sagrado, porque toda autoridade vem do Ser Supremo. É necessário,então, pugnar com destemor contra as camarilhas do poder. Entretanto, os chefes de Estado ou chefes de serviço, têm, eles em primeiro lugar, obrigação de se mostrarem honestos. Isto, contudo, nem sempre acontece. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sábado, 4 de maio de 2013

SANTISSIMA TRINDADE, NOSSO DESTINO


SANTÍSSIMA TRINDADE, NOSSO DESTINO.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Saímos de Deus. Um dia, a Ele voltaremos. Esta foi a grande revelação de Cristo. Aí esta o núcleo mesmo da religião. Eis porque a Trindade é o dogma central de nossa vida. É nossa beatitude que está em jogo quando professamos o mistério trinitário. Sem este, a religiosidade se desarraiga e perde sua profundidade e sua força salutífera. Este dogma deve polarizar a vida cristã. O Concílio Ecumênico Vaticano II mostra que “unidos, pois, a Cristo na Igreja e marcados pelo Espírito Santo, que é penhor da nossa herança, somos, na verdade, chamados filhos de Deus e o somos de fato, mas ainda não aparecemos com Cristo na glória, na qual seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como é”. Santo Tomás explica que as processões trinitárias são a razão e a causa da produção das criaturas, bem como de todo o retorno destas à sua origem. É dentro desta perspectiva que se pode conceituar o mundo criado conforme o dito joanino: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio em Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e nada do que foi feito, foi feito sem Ele”. Este universo criado, grandioso, mas limitado, por que marcado pela finitude essencial é a pulquérrima exteriorização da idéia divina. Mas no cosmos, ao borbulhar de um amor eterno, o homem recebeu a plenitude do Espírito de Deus e está destinado à visão e ao gozo eterno das Pessoas divinas. É esta a maravilhosa História da Salvação por meio da Encarnação da Segunda Pessoa e da vinda do Paráclito. A Igreja situa-se nessa faixa como sacramento do retorno humano para a Trindade. É a comunidade congregada na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Por toda a eternidade veremos o Pai na luz do Filho, amando-os com o amor intenso do Espírito Santo. Felicidade sem fim. Venturosa inenarrável! Eis porque, nesta terra, por uma devoção interior e pessoal, devemos continuamente já viver em função do Deus três vezes santo. Santo Anselmo nos ensina que “de nada serve crer na Santíssima Trindade, se não se tende religiosamente para Ela”. A esperança de um dia estar sempre com Deus é força nas lutas neste exílio terreno. É o que confortava São Paulo: “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura em nós”. O mesmo apóstolo então mostrava que, fortes na fé, aguardamos “a esperança bem-aventurada e a manifestação do grande Deus e Salvador nosso Jesus Cristo” [...] “Será Ele que transfigurará nosso corpo abatido, para que seja conforme o seu corpo glorioso”. Enquanto peregrinamos no exílio nos unimos a nossos irmãos já de posse da glória num mesmo louvor da Santíssima Trindade Até que chegue o dia claríssimo da eternidade, “quando Cristo aparecer e se der a gloriosa ressurreição dos mortos, a luz de Deus iluminará a Cidade celeste e o Cordeiro será sua luz”. Será este o momento máximo da história pessoal de cada fiel, porque, doutrina o Concílio, “então toda a Igreja dos Santos na suma beatitude da caridade adorará a Deus e ao Cordeiro que foi imolado (Apoc. 5,12), proclamando numa só voz: “Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro o louvor e a honra, e a glória e o poder pelos séculos dos séculos” (Apoc. 5,13-14). Enquanto não surge o grande momento da manifestação do Senhor, em cada Missa da qual participamos, e, sempre que o Espírito Santo nos inspirar, repitamos cheios de fé, esperança e muito amor: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos. Os céus e a terra proclamam a Tua glória. Hosana no mais alto dos céus”. Crer na Trindade é apoiar-se nas Três Pessoas divinas, firmar-se nelas, refletindo no comportamento diário a sabedoria e a dileção de Deus. Acreditar neste Deus-Amor que nos criou, nos salvou e nos santifica. Experimentar Deus Uno e Trino e vê-lo presente nos outros, até que se concretize a volta ao Pai pelo Filho no Espírito Santo. * Diretor Espiritual do JUC

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A oração deve atingir o íntimo do coração

A ORAÇÃO DEVE ATINGIR O ÍNTIMO DO CORAÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Muitos orantes não alcançam o objetivo primordial da prece por se esquecerem de que uma oração que não atinja a profundidade do coração é útil, mas superficial. É benéfica porque não deixa de ser um esforço para entrar em contato com Deus. Pouco profunda, porque orar é falar, mas também saber escutar o Ser Supremo. Lemos na Carta aos Hebreus: “Por isso, como diz o Espírito Santo: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como no lugar da exasperação, no dia da prova no deserto, quando vossos pais me puseram à prova, numa experiência, não obstante tivessem visto as minhas obras” (Hb 3,10). Cumpre ouvir as mensagens divinas e colocá-las em prática. A primeira conseqüência desta atitude silenciosa é a purificação interior, uma vez que, quando ocorre a introspecção, logo o fiel percebe que estar na presença do Deus três vezes santo leva, de plano, a aborrecer todas as distorções que possam existir lá no íntimo de si mesmo. Este arrependimento ao qual se une a reta intenção de ser agradável em tudo a seu Senhor possibilita a verdadeira intimidade com Ele. Como gosta de repetir o Papa Francisco, “Deus não é uma espécie de empresa de logística que envia mensagens o tempo todo”. O fiel precisa estar conectado com Ele numa atitude receptiva. Dá-se, então, uma aproximação cordial que ilumina, fortifica e renova o modo de pensar e agir. Isto ocorre exatamente quando alguém reza com todo o seu ser. Acontece o papel transformador da oração. Disto resulta a calma, a tranqüilidade, a serenidade absolutas. Deus é luz que ilumina os que dele se aproximam com um coração repleto de sinceridade e de amor. A prece do coração consiste desta forma em encontrar o caminho que permite ao orante captar esta luminosidade. Permite-se, desta forma, que Deus mesmo santifique seu nome naquele que se volta para Ele. Orar outra coisa não é, de fato, senão acolher o Pai e participar de sua vida que ele oferece pela graça. Acolhê-lo é permitir que Ele nos comunique o Filho que passa a possuir o seu reino na alma de quem assim reza. O Espírito Santo ganha espaço para produzir entre o fiel e a Trindade Santa liames indestrutíveis. Dá-se, realmente, uma purificação fundamental, porque todas as manchas interiores, todas as desordens, todas as vulnerabilidades são confiadas Àquele que se torna o baluarte do cristão. Este repete com São Paulo: “Eu tudo posso naquele que é a minha fortaleza” (Fl 4,13). Envolto na luz divina, abertos os olhos sobre a realidade da fraqueza humana, se percebe ao vivo a infinita misericórdia de Deus na qual se imerge sem restrições, sem o jogo das circunstâncias que levam a mil distrações. É quando o coração conhece a autêntica liberdade. Isto porque se adquire, progressivamente, o hábito de se voltar continuamente para Deus, sobretudo, quando assim se caminha até Ele a partir daquilo que em cada um é obscuro, tenebroso, inquietante. O verdadeiro orante intui o movimento do Espírito Santo nele, agindo maravilhosamente, livrando-o da rede complexa das emoções, dotando-o c de paciência, perseverança. O principal é estar integrado conscientemente no dinamismo do Espírito. Trata-se de aprender a estar vigilante aos movimentos do próprio coração de tal modo que se possa estar unido voluntariamente à ação divina que age nos fiéis de boa vontade. São Paulo asseverou que o Espírito Santo vem a cada um com gemidos inexprimíveis. Sua ação, porém, normal não oferece idéias claras, nem luz ofuscante, ou proporciona seja o que for. Ele induz, isto sim, a estar voltado para as coisas do alto e não para as da terra. O cristão se vê liberto, não se sente escravo do mundo, não tomba no temor, mas se percebe, verdadeiramente, filho deste Deus que tanto o ama. Deste modo, fica, inclusive, afastada a ousadia de se querer controlar a Deus, fazendo-Lhe exigências descabidas. É quando o cristão roga os favores divinos, intercede por si e pelos outros, mas simplesmente colocando tudo nas mãos da Providência divina. Tem inclusive a certeza de que, se o benefício almejado não for da vontade sapientíssima do Todo-Poderoso, Ele dará algo muito melhor. * Professor no Seminário de Mariana durante40 anos.