segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Còn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

No livro do Apocalipse São João se refere aos eleitos e assevera que viu uma multidão incalculável de todas as nações, tribos, povos e línguas de pé diante do trono e do Cordeiro, vestidos com vestes brancas e com palmas na mão” (Ap 7,9). Sobretudo na solenidade de hoje, unimo-nos ainda mais estreitamente à litugia do céu. Cada vez que os fiéis se reúnem para celebrar os santos Mistérios da Salvação, oferecidos por Deus em seu Filho Jesus Cristo, eles se unem a esta liturgia celeste que se desenrola diante do Criador e perante Aquele que foi imolado no sacrifício do Calvário. Os seguidores de Cristo se ligam àqueles que morreram, mas que se acham vivos na presença do seu Senhor após terem passado pela porta da morte. Trata-se de uma participação intensa na imolação do Filho de Deus que veio a este mundo para salvar e remir todos aqueles que recebem com fé e amor o sacrifício redentor. A manifestação da dileção de Deus, que ficou clara no fato da criação e   refulgiu também na Encarnação Redentora de seu Filho, deixou patente o desejo divino de levar para junto dele lá no céu um número imenso daqueles que depararam a sua salvação eterna, participando da vida sem fim que passa do Pai ao Filho e do Filho ao Pai no dinamismo incessante, maravilhoso, do Espírito Santo. É nesta felicidade sem fim que já se encontram todos aqueles que hoje são comemorados por já estarem na glória eterna. Cada fiel no dia do seu batismo foi revestido com uma vestimenta pura, santa, sendo purificado no sangue do Cordeiro Imaculado, imerso no sacrifício salvador do Filho de Deus. Torna-se participante da sua morte para ser também participante de sua gloriosa ressurreição. Eis por que São Paulo chamou os cristãos de “santos” (Rm 1,7: Col 1,2: Ef 1,1). Esta santidade desabrochará na cidade dos santos após a trajetória de cada um nesta terra de exílio. É quando se dará o que São João escreveu na sua primeira carta, dizendo que “quando o Filho de Deus aparecer, seremos semelhantes a Ele, porque nós o veremos tal como Ele é” (1 Jo 3,2). Então a graça do batismo terá se desenvolvida plenamente em cada um. É o que ensina o mesmo São João ao nos levar a contemplar a grandeza do amor de Deus que cumula de graças o batizado de tal forma que ele seja chamado seu filho em seu Filho único: “Somos filhos de Deus, mas o que seremos não aparece ainda plenamente” (l Jo 3,2). Eis por que o batizado renuncia continuamente ao pecado. Aí está o motivo pelo qual a festa de todos os santos repleta de esperança aqueles que creem. Esperança fulgurante de se tornar semelhante a Jesus Redentor para gozar dele por toda a eternidade. A santidade que Deus quer de cada batizado vai se desenvolvendo através da vida do cristão e desabrochará na ultravida. Desde esta terra, porém, Deus quer que todo batizado seja bem-aventurado (Mt 5,3 e ss), feliz em todas os acontecimentos e situações. As beatitudes não são simplesmente um código moral ou um ideal irrealizável, ou uma sabedoria de vida. Elas são bênção de Deus sobre nossa humanidade um vibrante apelo à esperança da posse um dia da vida eterna junto de todos os santos.  Entretanto, para fazer parte um dia desta vida eterna feliz, todo batizado deve praticar a pobreza do coração e a doçura, chorar e desprezar todo e qualquer pecado, tornar-se misericordioso, ter fome e sede de justiça para poder viver a bondade e a pureza de coração, passar pela contradição dos maus por causa de Cristo, sendo assim também artesão da paz. A solenidade de hoje é um apelo a que cada um se torne verdadeiramente “santo”. Não se trata, é certo de se tornar pessoas perfeitas, mas cristãos que acolhem a vida de Deus e procuram se ajustar sempre em tudo e em toda parte à vontade santíssima do Ser Supremo.  Cada um, não obstante, é livre e pode recusar, infelizmente, a adoção filial proposta pelo Senhor de tudo. É a triste condição do pecador, dado que o pecado é a ruptura com a filiação divina. Foi o que aconteceu com o Filho Pródigo da parábola contada por Jesus. O retorno à casa paterna é sempre possível, porque a Casa dos Santos está sempre aberta graças à misericórdia divina e oferece oportunidade para a vivência das Bem-aventuranças. O amor do divino Redentor é sempre oferecido graças à misericórdia de um Deus que quer a salvação de todos. É Jesus que leva à prática das oito beatitudes e a participação na Eucaristia é o lugar basilar da união com o Coração amoroso do Filho de Deus. Quem comunga com fervor não se apartará da vida eterna junto com todos os eleitos. Todos os santos que hoje são fervorosamente homenageados realizaram em suas vidas sua admirável vocação à santidade e, como dizem os teólogos, se tornaram mestres de uma vida santa. Todos eles, mas sobretudo os santos da devoção de cada fiel os levam a   assegurar sempre a caminhada rumo ao céu, onde estão à espera dos que na terra nele confiaram e os imitaram com perseverança.  * `Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

 

O MAIOR MANDAMENTO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Qual é o maior mandamento da lei foi a questão que, no templo de Jerusalém, apresentaram a Jesus os fariseus (Mt 22.24-40). O Mestre divino foi interrogado na qualidade de Rabi, ou seja, como alguém cuja autoridade se queria averiguar. Ele ofereceu a seus interlocutores uma resposta completa, mostrando que o amor a Deus era o primeiro e o maior mandamento, mas acrescentou que o segundo é semelhante a este, isto é, amar o próximo como a si mesmo. No judaísmo este tema se revestia de uma particular importância, dada a multiplicidade de preceitos da lei. Contavam-se 613, repartidos em 365 proibições e 248 preceitos. Daí a necessidade de separar o essencial do acessório, atingindo o principal mandamento. Ninguém melhor do que Jesus para condensar de uma maneira perfeita toda a fé de Israel, conjugando o amor de Deus e a dileção fraterna Aquele que era a Verdade enunciou um princípio espiritual de ação, uma atitude que deveria ajudar cada um a caminhar na verdadeira via em qualquer situação. Jesus mostrou que o amor em sua plenitude deve abarcar o Criador e todas as suas criaturas. Seguir Jesus Cristo implica uma dupla e radical abertura a Deus, o Pai, e aos irmãos. A resposta dada por Jesus traça uma cruz com uma haste vertical voltada para o céu, o amor do Pai, outra horizontal, o amor ao próximo. Estava claro no Livro do Deuteronômio (6,5): Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito”, mas também estava preceituado no Levítico (19,18):” Tu amarás teu próximo como a ti mesmo” A originalidade de Cristo é que Ele colocou estes dois mandamentos no mesmo plano. Não há dois amores, mas apenas um. A atitude que se tem para com o próximo indica a postura que se tem para com Deus. É deste modo que devia ser todo o passado de Israel, a Lei e os profetas. A Nova Aliança não teria outra exigência senão viver o amor manifestado em Jesus e por Jesus. O evangelista São Mateus frisa claramente que o apelo ao amor é o coração da nova aliança realizada no Filho de Deus Na trajetória do cristão a observância dos mandamentos o deve colocar na rota sagrada deste amor pregado por Jesus. Ser agradável a Deus é observar sua vontade santíssima atendendo sempre a ordem de Cristo de amar o Criador e todos os seres racionais que Ele criou. Deste modo, o apelo à dileção divina e humana não se torna algo vago, indeterminado. Jesus se apresenta a seus seguidores como aqueles que têm fome, que choram, que padecem injustiça e tudo mais que Ele detalhou ao falar do juízo universal (25, 31-46). São João asseverou que se alguém diz que ama a Deus, mas odeia a seu irmão é mentiroso Pois, quem não ama a seu irmão que vê, não pode amar a Deus que não viu (1 Jo 4,20); O próximo é todo aquele que tem necessidade do outro como Jesus deixou claro na parábola do Bom Samaritano. É aquele que  cruza nosso caminho regularmente ou ocasionalmente. Ele não pede senão um pouco de atenção, de ajuda, de reconforto, de justiça, de amor e isto sem exigir nenhum retorno. O próximo é Deus que todos os dias se apresenta sob uma aparência humana. Jesus ligou o amor ao próximo e o amor a Deus, colocando o amor a Deus em primeiro lugar, porque o segundo mandamento é semelhante ao primeiro e não o inverso. Entretanto, este termo semelhante atrai nossa atenção e estabelece uma relação estreita entre os dois aspectos do grande mandamento.  Relação estreita que não pode ser comentada de maneira simplista por declarações categóricas como: “Não há amor de Deus senão no amor ao próximo”. Não se trata de equivalência, mas da maneira de agir da consciência cristã que, a cada passo, manifesta sua dileção a seu Senhor e aos irmãos, sem privilegiar uma ou outra atitude. Os dois mandamentos são semelhantes, ou seja, amar a Deus, o Criador e Redentor do homem, e amor ao ser humano, imagem e similaridade de Deus. São João assim se expressou: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama é gerado por Deus e conhece a Deus quem não ama não aprendeu a conhecer a Deus, porque Deus é amor ( 1 Jo 4,7). Na prática, porém, distinguimos entre um ato que manifesta nosso amor a Deus e outro que manifesta nossa dileção ao próximo. Em síntese, o certo é que a doutrina de Cristo mostra a seus discípulos o caminho maravilhoso do amor. O autêntico cristão é aquele que sabe amar de maneira incondicional, que acolhe nele a unção magnífica do amor paternal de Deus, origem e termo de toda dileção, e, assim, ama ternamente também o seu semelhante. Trata-se do dom de si mesmo a Deus e do maravilhoso acolhimento aos outros em todas as circunstâncias. “Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

 

01 A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS.

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Este precioso ensinamento de Jesus se tornou um lema para seus seguidores (Mt 22,15-21). Entretanto, nem sempre se penetra fundo no seu significado. Esta fórmula não visa, de plano, determinar uma linha de demarcação entre o temporal e o espiritual e, menos ainda, justificar os que querem restringir o aspecto religioso à estrita esfera da vida privada. É preciso analisar o contexto no qual  Jesus a proferiu. Ele percebera bem as más intenções de seus interlocutores, os quais não procuravam uma solução para uma questão que os preocupava e, menos ainda, estavam em busca da verdade. Eles tentavam armar uma cilada da qual Jesus não pudesse escapar. Uma resposta afirmativa tê-lo-ia tornado mal visto pelo povo que o julgaria partidário do opressor  estrangeiro; se negativa  tê-lo- ia  feito  passar por rebelde  e agitador contra a autoridade do César romano. Fulgiu, porém, a sabedoria do Mestre divino que lhes pede uma peça da moeda do tributo. A moeda era o sinal por excelência da autoridade, pois cunhar a moeda era um direito do poder político. Os fariseus aceitavam a moeda romana, pois eles a tinham consigo e a mostraram a Jesus.  Viviam, portanto, dentro do jogo econômico dirigido pelo ocupante, aceitando assim sua soberania inclusive o imposto por ele estabelecido. Jesus patenteia então a incoerência de seus interlocutores. Que então dessem a Cesar o que era de César e a Deus o que era de Deus. Jesus, porém, se serviu daquele episódio para ministrar uma lição espiritual profunda, abrindo o espírito deles ao que estava na Bíblia. Foi por isto que Ele perguntou de quem era a efigie que estava na moeda. Era a imagem da autoridade suprema do Império romano que tinha sobre os judeus um evidente poder político. Entretanto, focalizando este aspecto da imagem, Cristo queria que se pensassse em uma outra imagem. Quem trazia a moeda com a imagem de César que lhe desse o que lhe era devido. No entanto, aqueles que acreditavam em Deus trazem em si a imagem de Deus e a Deus cumpre Lhe dar o que Lhe é devido. Nas primeiraspáginas da Bíblia, lemos que Deus disse: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” [...] “Deus criou o homem a sua imagem, a imagem de Deus Ele o criou, homem e mulher os criou”. Mediante estas palavras a máxima de Jesus ganhou um esplendor peculiar. Os fariseus levantavam uma questão econômica, mas o principal, porém, era o significado espiritual que Jesus ressaltou, ou seja, dar a Deus o que é de Deus. Para viver, acatamos as normas do jogo da economia, mas isto não é tudo em nossa vida. Cumpre estar atentos às exigências da vida espiritual. A presença de Deus, por vezes, é facilmente esquecida, porque se trata de uma presença discreta. Deus não se impõe, Ele se propõe. Somos chamados a viver em comunhão com Ele. Se o dinheiro que traz a marca da autoridade política lembrava os deveres políticos como o  pagamento dos impostos, a pessoa humana traz, contudo,a marca da imagem divina, devendo se voltar continuamente para o seu Criador. Esta volta para Aquele que marcou em nosso coração sua imagem se dá não somente no fim de nossa trajetória terrena.  O importante é reconhecer a presença de Deus em nossa vida cotidiana, como ensinam os grandes teólogos. Eis por que é preciso viver na presença divina, já que o ser humano é criado à imagem de Deus. Ao Estado pagamos cada dia, direta ou indiretamente, impostos, mas nossa relação com Deus deve também ser ininterrupta. A pressão espiritual do Senhor sobre seus fiéis é claramente menos forte que a coação fiscal do Estado, mas cabe ao fiel, usando sua liberdade, voltar-se sempre para o seu Senhor, consagrando-Lhe com fervor tempo reservado à oração e se dirigindo a Ele com fervorosas invocações durante todo o dia. Marcado com o selo do Espírito, durante toda a vida, o fiel deve ser uma oferenda contínua ao seu Senhor  e estar no serviço ao  próximo, vendo nele a imagem de  Cristo. Além disto, o engajamento nas diversas pastorais é outra meneira de dar a Deus o que é de Deus. Trata-se de organizar sabiamente a vida espiritual. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

 

O BANQUETE NUPCIAL

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

A parábola do banquete nupcial (Mt 2,1-14) tem oferecido aos hermeneutas, aos intérpretes da Bíblia, inúmeras interpretações. Aqueles que fazem uma leitura histórica deste texto reconhecem nesta página do Evangelho o drama da aliança no Antigo Testamento. Deus convidou seu povo para entrar em aliança com Ele, partilhando seu amor. Este convite figurado então num chamado para um festim de núpcias, uma união celebrada entre seu Filho e a humanidade. Infelizmente, os homens têm respondido mal a este chamado divino ou com indiferença, ou com desprezo e até com rejeição dos profetas que falaram em nome do Senhor. O plano traçado por Deus entretanto permanece, uma vez que a malquerença e até a hostilidade para com seu próprio filho da parte de alguns permitiu que o convite para aquele banquete nupcial fosse estendido a um grande número de pessoas. Isto se deu na Nova Aliança. Jesus foi claro ao afirmar que Ele veio a este mundo “para que todos tivessem a vida e a tivessem em abundância” (Jo 10,10). Esta ampla abertura das novas núpcias na Nova Aliança foi uma demonstração de afeição sem limites para com toda a humanidade, causa de um imenso júbilo. Tudo isto proporcionando uma gratidão imensa para com este Deus três vezes santo. Imersos nesta alegria os que procuram corresponder a tanta bondade não lhes cabe julgar os ingratos para com o honroso convite divino. Adite-se que o fato de um dos convidados ter entrado no banquete sem a vestimenta apropriada e ter sido expulso e atado de pés e mãos. sendo lançado nas trevas exteriores, é um alerta para o comportamento daqueles que desejam ser fiéis a Jesus Cristo. O rei da parábola condenou severamente o ousado que entrou sem ter traje adequado para aquela celebração. Para os cristãos através dos tempos cabe aqui uma leitura simbólica, ou seja, a vestimenta das núpcias simboliza bem as boas obras realizadas pelos batizados. A graça santificante conservada pelas boas ações cotidianas são indispensáveis para estar no banquete do grande Rei Jesus. Aliás, punição semelhante a desta parábola merece aquele que ousa ir ao banquete eucarístico, comungando em pecado mortal, sem estar em estado de graça. É o alerta de São Paulo a quem vai comungar: “Examine-se, pois, cada qual a si mesmo e assim coma deste pão e beba deste cálice, pois quem come e bebe sem fazer distinção de tal corpo come e bebe a própria condenação” (l1 Cor 11,27-30). Torna-se, de fato, réu ao participar indignamente, não estando em estado de graça. São Jerônimo comenta esta passagem do Evangelho sobre o banquete nupcial dizendo que o traje deste banquete sagrado são as obras realizadas segundo a lei do Evangelho. Trata-se do traje do homem novo. Com razão, o sacerdote antes de iniciar a distribuição do pão eucarístico proclama: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”, ou seja, os que se acham preparados para uma fervorosa comunhão, para participar do banquete de Jesus. O banquete eucarístico nesta terra é o anúncio e uma antecipação do grande festim da eternidade lá na Casa do Pai. A graça santificante supõe que o coração do fiel se acha revestido de ternura, bondade, humildade, doçura, paciência. Pela sua conduta os convidados para este banquete por suas boas obras se ajustam à grandeza deste festim entrando em comunhão com Deus. Eis porque o cristão que se prepara para comungar está numa transformação contínua, transformação exterior e interior. A Eucaristia é um banquete maravilhoso oferecido a todos de boa vontade. A participação digna na Eucaristia, porém, está ligada a uma maneira de viver que torna o cristão apto para compartilhar da mesa eucarística e para entrar um dia no banquete das núpcias eternas. Como falou São Paulo aos Gálatas, “todos quantos em Cristo fostes batizados, de Cristo vos revestistes” (Gal 3,27). Nisto consiste a santificação: (1 Ts 4, 3a). Deste modo esta Parábola do banquete nupcial lembra esta realidade sublime de que o cristão é o homem novo de que fala São Paulo, assim revestido  de Cristo com o qual estará por toda a eternidade, após recebê-lo em comunhão aqui na terra. Isto se formos encontrados “vestidos e não despidos”, como lembra o Apóstolo. (2 Cor 5,3), Este homem novo foi criado segundo Deus na justiça e na santidade da  verdade (Ef 4,22-24). Numerosas lições oferece, deste modo, o Evangelho de hoje. Convidados para as núpcias do Cordeiro o cristão deve consciente e livremente dar uma sábia resposta ao convite de Deus para participar de tão honroso convite da aliança com Ele nesta e na outra vida. Todo descuido trará consequências funestas. Impedindo o acesso aos espaços de tão sublimes banquetes, no tempo e na eternidade. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

 

CRISTO, PEDRA ANGULAR, BELA E SÓLIDA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Com a parábola dos vinhateiros homicidas Jesus ofereceu uma síntese da história da Antiga e da Nova Aliança (Mt  23,33-43). A Israel sua vinha escolhida e bem amada, Deus enviou profetas que não foram bem recebidos. Nos últimos tempos, numa nova expressão de misericórdia e de manifestação de compaixão, mandou seu próprio Filho, o verdadeiro herdeiro das promessas feitas a Abraão. Jesus, o Verbo Encarnado, confirmou sua missão e inclusive anunciou   qual seria o seu destino, sendo que Ele seria lançado fora da vinha e da cidade, lá onde seria morto por seus inimigos. Eis porque os Sacerdotes e os Fariseus logo decodificaram esta parábola. De fato, eles teriam uma enorme responsabilidade no suplício e na morte do Filho de Deus. Entretanto, uma das frases de Jesus vem merecendo peculiar atenção através dos tempos, a saber, a passagem do salmo l18 por Ele citada: “A pedra que os construtores rejeitaram se tornou a pedra angular”. É que muitos através dos tempos deliberadamente ou por ignorância desprezaram esta pedra que é Jesus Cristo. Isto ocorreu ou por não quererem aceitar os valores que Ele pregou ou por recusarem as perspectivas que Ele ofereceu, ou por não acatarem as exigências que Ele estabeleceu concernentes aos direitos de Deus e os deveres do ser humano. Mesmo não se podendo cientificamente negar a figura singular de Jesus de Nazaré, nem sua influência através dos séculos, sua mensagem é deixada de lado como uma pedra inútil, tudo se fazendo para apagar sua influência. Jesus é apenas arrolado, muitas vezes, entre os fundadores de uma nova religião. Muitos de seus seguidores têm sido privados de liberdade ou sua Igreja desqualificada através de campanhas caluniosas. Uns tudo fazendo para apagar sua influência, outros perseguindo seus seguidores e, entre eles, inúmeros a não acatarem em plenitude seus ensinamentos. Toda uma maquinação diabólica para marginalizá-lo, para rejeitar Jesus, Salvador do mundo. Trata-se de uma diabólica desestabilização da fé. Não obstante tudo isto, Jesus permanece como a pedra angular bela e sólida. Ele a verdadeira esperança da salvação da humanidade. Através dos tempos, porém, há também uma multidão a produzir frutos para a vida eterna. Isto, afirmou Jesus, “é uma maravilha a nossos olhos”, porque “é obra do Senhor Deus”. Esta reflexão sobre a parábola dos vinhateiros homicidas deve conscientizar os que querem dar bons frutos a serem pedras vivas na construção do reino de Deus, fugindo de toda e qualquer infidelidade às inspirações do divino Espírito Santo. Trata-se desta certeza dos que pertencem à vinha daquele senhor, o novo Israel, que realmente, frutifica. Este novo Israel é a Igreja na qual todos os povos encontram a salvação. É que se trata de uma fé que não é individualista, fechada, mas que é preciso comunicar a quantos não a possuem. Os que pertencem à vinha do Senhor formam uma comunidade apostólica que sabe que é edificada sobre a pedra angular, eminentemente missionária. Ela deve então atrair pela força e pela beleza do Ressuscitado, por palavras, gestos, ações os que não acatam plenamente, que não aceitam plenamente o Enviado do Pai e, assim, não pertencem a sua vinha. É de se notar que quem tem Jesus como a pedra angular, jamais a rejeitando, possui o Evangelho no qual se encontra a solução de todos os problemas. Na parábola de hoje Jesus espera ser considerado como esta pedra angular através do reconhecimento da soberania divina sobre todos os atos dos que lhe pertencem e que sabem que é Ele quem sustenta realmente a história de cada um que diz pertencer à sua vinha.  Entretanto, um outro critério para saber se o Mestre divino é a luz de sua existência, é verificar se, em tudo, sempre, Deus é o referencial de todos os seus atos e, assim, ininterrupta é a ação de graças por tudo que dele se recebe. Então verdadeiramente se poderá adorar o Redentor, alegrando-se, não obstante a indigência espiritual de cada um, pois o culto devido a Deus estará purificado. Deste modo é que se vive por Ele, com Ele e nele e sua vontade estará realizada em cada um. Jesus sendo assim a pedra angular da vida do cristão que estará dando frutos opimos para a eternidade e, um dia, entrará no Reino que para todos Ele abriu. A graça de Deus vem sempre socorrer o bom que persevera e o pecador arrependido que deixa a humildade reinar dentro de si. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.           

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 

ARREPENDER-SE PARA CRER

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

A parábola dos dois filhos é concisa, mas deixa claro quão abominável é a falsidade e como é digno de louvor o arrependimento que leva à boa ação (Mt 21,28-32). De fato, não basta dizer “sim” a Deus,  ou “Jesus eu te amo’, ou ainda “Senhor, eu creio em ti”, para entrar no Reino de Deus. É preciso obedecer às ordens de Deus, colocando sempre em prática a vontade divina. Não são suficientes belas palavras, ou meras práticas religiosas externas, destituídas, entretanto, de sinceridade. É necessário um amor vivo, traduzido em gestos concretos. Um dos filhos da parábola disse que não iria trabalhar na vinha do pai, mas se arrependeu e foi. Aderiu à vontade do pai, ao contrário do irmão que falou em obedecer a ordem recebida, mas não obedeceu. É o que acontece com cada um diante dos desejos de Deus, que conhece cada coração humano e sabe suas resistências, seus problemas interiores, suas fobias, suas indecisões. O que conta, porém, é a deliberação final, fruto de um arrependimento sincero que leva a aderir ao que Deus preceitua, adesão plena de afeição. Trata-se da verdadeira conversão de vida, vinda do fundo do coração. A vida do verdadeiro cristão deve estar sempre de acordo com o que quer o seu Senhor, desejo manifestado em seus ensinamentos. A arrogância do primeiro filho deve sempre ser banida, mas seu arrependimento demonstra que a bondade reinava em seu coração. Isto o   levou a um comportamento dentro de uma lógica de valor universal. Numa mesma situação os dois irmãos reagiram de maneira inteiramente diferente, A verdadeira conversão que brilhou na atitude do  primeiro irmão patenteia que a autêntica conversão se realiza unicamente por atos concretos e não por palavras. Jesus falou claramente: “Não é dizendo ‘Senhor, Senhor!’ que se entrará no Reino dos céus, mas fazendo a vontade de meu Pai que está nos céus”(Mt 7,21). Foi o que aconteceu com tantos publicanos que se converteram, como São Mateus, e tantas pecadoras, que mudaram de vida, como Madalena. Por tudo isto, esta parábola deve levar, seja quem for que se diz cristão, a verificar sempre qual tem sido sua atitude no seu relacionamento com Deus. De fato, ou se age desobedecendo como o primeiro filho ou como o segundo que se arrependeu e foi trabalhar na vinha do seu pai. Há necessidade de lutar sempre para que se manifeste em nós o que há de melhor no fundo do coração e jamais perseverar no erro. Não obstante as falhas, a pequenez de cada, um, Deus nos olha e nos diz como o   pai aos dois filhos: “ide para a vinha”. Esta ordem é dada  com doçura, com misericórdia, porque é o coração que Deus perscruta. Nunca é tarde para ser evangelizador na vinha do Senhor e, em tudo, fazer a sua vontade. Dizer sim e agir, ver e crer, Nada de simplesmente prometer, mesmo porque nunca é tarde para acertar a própria vida com o desejo de Deus que quer uma existência santa e virtuosa, estando sempre cada um num processo de conversão. Tal vai ser a surpresa no juízo final quando estarão no reino de Deus aqueles que se arrependeram e tiveram coragem de mudar de vida, reparando, enquanto tiveram tempo, seus erros e extravios. Como mostra a parábola de hoje Jesus deixa patente a exortação ao arrependimento. É preciso captar o que é justo, compreender, discernir, mas isto não basta. Algo mais é necessário, ou seja, sempre uma radical mudança de vida, isto é, pensar corretamente e agir em consequência. Deve haver a primazia dos atos sobre as palavras, da prática da fé sobre o conhecimento da verdade. Nada pior na vida do cristão do que promessas feitas a Deus e não cumpridas. Jesus foi taxativo: “A glória de meu Pai é que deis muito fruto” (Jo 15,8). Durante sua vida nesta terra o cristão diz tantas vezes “sim” a Deus, como na sua profissão de fé através do batismo, do sacramento da crisma, na recepção dos outros sacramentos, ou estando a serviço dos irmãos e irmãs ao assumir uma atividade  específica  nos seus afazeres de cada dia. Seja como for, é sempre tudo isto um trabalho na vinha do Senhor. Ele espera sempre de cada um fidelidade e perseverança. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

 

OS OPERÁRIOS DA VINHA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalh*

É bastante intrigante a parábola dos trabalhadores da vinha, por muitos exegetas denominada os operários da undécima hora (Mt 20, 1-16). Com efeito, o lógico seria, à primeira vista, trabalhar mais para ganhar mais e foi o que reclamaram aqueles que foram contratados pela manhã e, no entanto, receberam o mesmo que os obreiros que trabalharam menos tempo. Aos primeiros o proprietário fixa um dinheiro por dia. Aos seguintes, ele diz simplesmente: “Eu vos darei o que é justo”. Aos últimos ele lhes propõe o trabalho, mas não lhes promete nada, pois deviam simplesmente confiar no contratante.É preciso, porém, penetrar o significado desta narrativa assim pormenorizada por Jesus. Deve-se ver inicialmente nesta parábola a ilustração de uma situação que se vivia no tempo de Jesus e era destinada, inicialmente, aos judeus.  Foram, porém, os gentios os que a abraçaram, enquanto que o povo judeu no seu conjunto recusava recebê-la. Entretanto, a mensagem evangélica consistia na realização das promessas seculares das quais era Israel o povo depositário. Os últimos passavam a primeiros e os primeiros a ultimos beneficiários do Reino. É de se notar que a reclamação dos trabalhadores não foi quanto a ordem do pagamento, ou seja, os últimos recebendo primeiro, mas quanto a desigualdade da quantia que foi paga. É que Jesus queria chamar a atenção sobre o apelo feito a Israel que devia preparar-se para receber o dom supremo anunciado ´pelo Evangelho e isto não aconteceu. Este foi o momento em que Israel perdeu seu primeiro lugar. Quando Jesus pregava a Boa Nova a situação tinha por parte dos judeus inteiramente mudado, como aliás várias vezes o divino Mestre salientou na sua pregação. Isto ficava claro na maneira como Ele se dirigia aos mestres da Lei. O cerne, portanto, da parábola era ser desigual o salário diante de serviços tão desiguais. Ter conhecido Jesus durante sua existência terrestre foi sem utilidade para os que se haviam tornado “artesãos da iniquidade”. Jesus deixará patente esta explicação: “Não é aquele que me diz Senhor, Senhor que entrará no Reino céus, mas sim o que faz a vontade do meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Eis aí a grande lição desta narrativa.  Isso bem sintetizado também nesta sentença lapidar do Evangelho de hoje: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos”. A pregação de Jesus não seria bem entendida por aqueles que estivessem dominados por preconceitos e paixões. Os corações deveriam sempre estar abertos para receber as mensagens divinas. A advertência de Deus foi clara “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos e nem os meus caminhos são os vossos caminhos” (Is. 55,8). É preciso ter o coração aberto para receber as surpresas de Deus. Nem sempre o ser humano compreenderá, de imediato, a lógica da ação divina. Na sua perplexidade falta muitas vezes por parte dos seguidores de Cristo a humildade para se adequar à vontade do Senhor de tudo. Seja como for, esta parábola dos operários da vinha mostra a essência do pensamento de Jesus sobre a salvaçáo dos que não pertenciam ao povo judeu.  Como foi dito, fica bem claro que o contrato do trabalho e seu pagamento não infligiram a estrita justiça. Nem mesmo esta estrita justiça foi violada pelo fato do contratante da parábola ter mostrado liberalidade para oom os chamados por último. Ele tinha todo o direito   de fazer o que ele quisesse com o que lhe pertencia, como habilmente se defendeu o dono da vinha. Sua liberalidade o levou além do que ele devia pagar aos últimos contratados. Eis aí a grande mensagem desta parábola:  Deus é justo, é misericordioso, nele nós podemos sempre inteiramente confiar!  E assim que Deus age porque Ele é bom e ama suas criaturas que nele confiam.  É assim que Deus age, porque sua benevolência nâo se opõe à sua justiça, mas a ultrapassa. Jesus mostra que Deus ostenta sua ternura perante a miséria humana. Davi então já aconselhava proclamar agradecimentos ao Senhor de tudo: “Dai graças a Deus, pois eterno é o seu amor” (Sl 107,1) Ele é um Deus de desvelo, lento em irar-se e rico em bondade e fidelidade. Felizes os que nele esperam, pois Ele terá piedade deles como se expressou o profeta Isaias (Is 30,18). Sua ternura é sem limites: “Eterna é a sua misericórdia” (Sl 136). É isto que Jesus quis inculcar através da parábola dos operários da vinha. Nele, portanto, confiemos sempre, porque Ele é o Sumo Sacerdote poderoso e misericordioso (Hb 2,17) * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.