segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

JESUS, SALVAÇÃO DE TODOS OS POVOS


JESUS, A SALVAÇÃO DE TODOS OS POVOS.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
A solenidade da apresentação de Jesus no templo de Jerusalém, cumprindo o que estava escrito na lei mosaica, recorda a presença de Maria, tendo em seus braços a oferenda do mundo, o próprio Filho de Deus, e José trazendo o donativo dos pobres, a saber, dois pombinhos (Lc 2,22-40). O Menino Deus é então consagrado ao serviço divino para salvação de toda a humanidade, colocado à disposição de Deus para vencer a morte. Lemos na Carta aos Hebreus: “Pela sua morte reduziu à impotência aquele que detinha o poder da morte, isto é, o demônio” (Hb 2, 14). Ali estava Aquele que era a luz do mundo, conforme proclamou o velho Simeão: “Luz para esclarecer as nações e glória de Israel seu povo”. Simeão prediz a Maria que uma espada de dor traspassaria seu coração. Deste modo a apresentação de Jesus foi uma antecipação do mistério pascal, pois Ele por amor, no alto do Calvário, seria o Cordeiro imolado. Simeão não era nem sacerdote, nem rabi, nem levita, mas era um homem ajustado ao querer divino, um filho de Israel que esperava a promessa totalmente associada ao destino de seu povo. Foi, portanto, bem escolhido pelo Espírito Santo para anunciar o Messias. Com o Menino Deus em seus braços ele estava apto a bendizer o Criador e a proclamar o destino do Redentor e de sua mãe. Ele já podia morrer em paz, porque havia visto e tocado aquele que se sacrificaria para a vida do mundo, Deus fiel que tinha se lembrado de seu povo. Disto tudo fluem mensagens luminosas para a vida dos seguidores de Cristo. Por entre os acontecimentos que envolvem a caminhada neste mundo o cristão se sente muitas vezes na fronteira entre o dom de si mesmo a Deus e a atração para o endeusamento dos bens materiais, vítima do minimalismo que impera no atual contexto histórico. Precisa, deste modo, o seguidor de Cristo da luz e da paz anunciadas por Simeão. Esta luz e esta paz devem reinar no coração de cada discípulo daquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, garantia da autêntica felicidade e da real liberdade humana. Daí a importância da presença de Maria que não vacilaria perante os sofrimentos desconhecidos, imprevistos, incompreensíveis, mas, segundo Simeão, incluídos nos planos eternos de Deus. Ela se torna deste modo o modelo da submissão completa ao projeto divino da redenção de cada um. Cristo, depois, deixaria claro em suas pregações que quem quisesse ser seu discípulo deveria tomar a sua cruz e segui-lo. Não se trataria de estar envolvido em nuvens negras da dor e da angústia, pois Ele, como disse Simeão, era a luz que não deixa haver trevas em derredor dos O acompanham, É por isto que, apesar dos sofrimentos inerentes ao atual exílio, o cristão não desanima nunca e, com entusiasmo, a exemplo de Maria coloca seus passos nos passos de seu Filho. O esplendor divino em hipótese alguma deixa o cristão esmorecer. É que Ele é, de fato, a luz vinda a este mundo, iluminando os que jazem as trevas, Ele o Sol nascente que veio do alto nos visitar, fazendo-se companheiro de viagem na nossa trajetória terrena. Saibamos, assim, a exemplo de Maria, José, Simeão e Ana ir ao encontro de Jesus e cada um se tornará um iluminado, colaborando na salvação do mundo inteiro. Nada de se lançar nas escuridões da angústia e do pecado, mas confortados pela certeza de estar indo rumo à luz gloriosa e eterna do céu, ficando firmes na total adesão aos preceitos do Senhor. Pela fé no divino Salvador, que vem sempre a nosso encontro, nos tornamos membros do povo de Deus, dado que Ele é a salvação oferecida pelo Pai que está no céu. De fato, indo sempre até o Filho de Deus encarnado, acolhendo-O em nossos corações passamos a fazer parte do novo Israel. Daí um profundo júbilo diante desta realidade. Nosso encontro com o divino Salvador ocorre em inúmeras circunstâncias, mas, sobretudo, na liturgia que nos faz reviver ao longo do ano as etapas da vida do Filho de Deus neste mundo. Batizados, nos tornamos filhos amados do Pai, e, se, infelizmente, ocorrer algum pecado grave, o sacramento da Confissão restaura a presença divina no íntimo de cada um. Então, recuperada a graça santificante, pode o cristão novamente comungar. Aliás, seria uma falta gravíssima ousar diabolicamente ir à mesa eucarística machado com o pecado mortal. A comunhão é o encontro sublime com aquele que afirmou: “Quem come a minha carte e bebe o meu sangue permanece em mim eu nele”. Trata-se de um encontro com a Luz verdadeira que se manifesta a seu seguidor num gesto admirável de amor. É através destes vários encontros com o divino Salvador que o cristão corresponde a seu desejo de transformar o mundo, iluminando-o pela sua cooperação, vivendo uma vida santa, praticando todas as virtudes. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A CONVERSÃO E O REINO DE DEUS


A CONVERSÃO E O REINO DE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No início de sua pregação da boa nova neste mundo, começo de seu ministério público, na sua primeira admoestação, antes mesmo de chamar seus primeiros discípulos, Jesus recomenda solenemente: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 4,12-23). Esta conversão significa mudança de mentalidade, verificando se a Palavra de Deus tem tido plena aplicação na vida cotidiana de cada um. Existência iluminada pela luz divina que deve ser irradiada por toda parte. Trata-se da libertação das insídias diabólicas e da entrega total ao serviço de Deus na justiça e na santidade. É o reviver no Espírito Santo que leva a repudiar pecados num retorno absoluto às realidades celestes. As primeiras mensagens de Jesus ao iniciar sua evangelização foram assim palavras de arrependimento e purificação do coração. Assim se estará caminhando na luz do Senhor e não nas trevas longe do reino de Deus. É que neste reino não entrarão os orgulhosos, os perversos, os pecadores renitentes. Entretanto, a imagem do Reino do Céu não deve causar temor, mas, sim, o desejo de não o perder através da humildade, do remorso, da mudança de vida, pelo repúdio de toda ação indigna do cristão. É o caminhar nobremente como em pleno dia, agindo sempre na claridade, resplandecendo diante dos outros pelas boas obras. Com efeito, como bem se expressou Elisabeth Leseur, “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”. Graças aos bons exemplos e as palavras oportunas muitos são os que reencontram o Mestre da Vida que a todos criou para a alegria interior, para a paz da consciência durável e profunda, para um júbilo todo divino. E deste modo que se caminha para o Reino do céu, arrastando muitos para também o conquistar. Trata-se de deixar de lado os falsos ídolos e de se entregar inteiramente a Deus. Isto porque somente Deus é a vida verdadeira. A idolatria dos falsos prazeres, da ambição, do afã de dominar leva à frustração, à tristeza, à decepção. É preciso então se converter para Aquele do qual vem toda autêntica salvação. Cumpre poder dizer o que o salmista asseverou no salmo 26: “O Senhor é minha luz e salvação, de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida, perante quem eu tremerei? [...] Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver na terra dos viventes”. Assim, será possível proclamar: “Espera no Senhor e tem coragem, espera no Senhor”. Foi de propósito que Jesus iniciou sua pregação na Galileia, bem o símbolo da salvação universal que Deus oferece a todos.  Como salientou São Mateus, “Galileia dos gentios, o povo que jazia nas trevas”, dela fez Jesus o centro da irradiação do Evangelho, indo inicialmente pregar nas suas cidades e nas suas aldeias. O chamamento dos primeiros apóstolos, após lançamento do cerne de suas preleções, tem também um sentido profundo. Com efeito, isto significa que Jesus desde o início de seu apostolado escolheu discípulos que após seu retorno para junto do Pai no dia de sua Ascensão, iriam prosseguir o seu trabalho no tempo e no espaço. Na Galileia nasce assim uma evangelização que caracterizaria sua Igreja séculos afora. Antes, como notou São Mateus Jesus havia deixado Nazaré e fora morar em Cafarnaum uma cidade agitada, cruzamento de várias nações e culturas, de variadas religiões onde imperava a diversidade e a desordem. Nem sempre se observa que foi nesta região que Jesus escolheu os primeiros colaborados, de plano, pescadores de peixes que deveriam se tornar pescadores de homens de todas as raças e línguas. Ele os instruiria e por isto o evangelista diz que aqueles rudes homens simplesmente se puseram a segui-lo. Caminhariam junto com Ele abertos à diversidade, aprendendo que não há maior amor do que dar sua vida pelos que precisam de conversão, como os excluídos da sociedade, os que têm fome de esperança. Conflitos e tensões haveriam de existir no seio de sua Igreja, mas nada deveria impedir a expansão do Evangelho. Inúmeros movimentos evangelizadores se sucederiam através dos tempos.  Deste modo, por exemplo, com o Concílio Vaticano II o notável apostolado dos leigos foi incentivado com todos os seus desdobramentos. Atividades apostólicas que propendem para o grande anseio de Cristo: a extensão e a consolidação do reino de Deus. Todos cooperando para a expansão deste reinado porque todos somos súditos deste soberano Senhor. Para todos há lugar nos mais diversos ramos de apostolado, segundo o carisma próprio de cada um. Assim pela prece, pelo exemplo e pela palavra surgem maravilhosas conversões. É preciso, de fato, que o desejo de Jesus ressoe por toda parte: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus”. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

JESUS, O FILHO DE DEUS


JESUS, O FILHO DE DEUS.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Ao apresentar Jesus como o Cordeiro de Deus, João Batista O mostrou como quem existia desde sempre, portador do Espírito Santo, o Messias, o Filho de Deus (Jo 1,29-34). A imagem do cordeiro era em si um resumo da história da Aliança, dado que ela evoca o cordeiro pascal do Êxodo, cujo sangue, indicando a casa dos hebreus, os protegeu na noite de sua libertação. Figurava também o Servidor sofredor descrito pelo profeta Isaias, levado ao matadouro como cordeiro por causa dos pecados de seu povo. Além disto, prefigurava o cordeiro vencedor que devia destruir o mal no mundo. Ali estava aquele que era o Verbo Encarnado, que assumira a natureza humana a fim de resgatá-la com seu sacrifício redentor. É de se notar que o evangelista sublinhou que o Espírito no batismo desceu sobre Jesus que O comunicaria aos homens que viessem até Ele pela fé. Maravilhoso o testemunho de João Batista que deixou claro ter o Pai santificado Jesus e O enviado ao mundo para construir a paz. Ele foi dado aos homens como o salvador que se tornou um companheiro de seus seguidores na caminhada para o céu. O importante seria sempre uma crença profunda naquele que era o Messias, o Filho de Deus. Para todas as gerações cristãs São João Batista estaria assim apontando o Cordeiro de Deus como único meio de salvação. Daí o significado profundo das palavras do celebrante antes da comunhão dos fiéis: “Eis o Cordeiro de Deus que tira pecado do mundo”. Este divino salvador teria sempre compaixão de seu povo, dando-lhe o perdão de suas faltas por entre a miséria dos males morais que devem levar não à desesperança, mas à mais total confiança. De fato, arrependidos, graças a Jesus, os pecadores podem deparar o perdão divino. Trata-se da vitória sobre o pecado, desde que o arrependimento seja sincero e absoluto.  Cordeiro de Deus triunfador do mal que afasta todas as diferenças e triunfa sobre todas as indiferenças, sempre mostrando que a fraternidade deve reinar entre os seus discípulos. Deste modo, novos caminhos se abrem dentro dos corações. É Jesus assim oferecendo através dos tempos sua paz garantindo a esperança na vida eterna. Fica claro, porém, que para receber Cristo no seu mistério redentor as luzes do Espírito Santo são indispensáveis. Iluminados por este Espírito os cristãos podem ultrapassar o visível para atingir as maravilhas invisíveis, penetrando fundo nas revelações trazidas pelo Filho de Deus a esta terra. O fiel pode então atinar com a verdadeira personalidade de Jesus a qual escapa aos olhos terremos, bem como sua presença insubstituível. Isto se dá com um crescimento de cada um que se transforma dia a dia, docilmente, até poder repetir com São Paulo: “Já não sou eu quem vive é Cristo quem vive em mim”! É desta forma que o cristão se torna testemunha viva do Evangelho com uma mente incorrupta, imune aos dardos terrenos e armado com as armas da fé. Trata-se de fazer a experiência da graça neste encontro com Cristo, o Cordeiro de Deus, que age em cada um através do Espírito Santo. Deste modo, a revelação feita por São João Batista se perpetua pelos séculos afora até s extremidades da terra. O essencial é que todos os cristãos estejam sempre dispostos a acolher Jesus, o Cordeiro de Deus, com confiança e amor para se tornarem luminosos e intrépidos num mundo hostil às verdades sobrenaturais. Jesus, realmente, é o Cordeiro que tira o pecado do mundo numa missão divina sublime. É que o amor de Jesus é um amor infinito que o levará a ser imolado no Calvário para assim resgatar toda a humana linhagem. É de bom alvitre fixar que o pecado que este Cordeiro de Deus remove é a recusa do ensinamento que Ele nos transmitiu, enquanto homem, da parte de Deus, é a recusa a ouvir as inspirações celestes, é não querer ver as maravilhas que o Criador opera em derredor de cada um. Jesus veio para salvar aqueles que estão na sombra dos erros e os quer colocar no caminho da virtude, praticando o bem e evitando o mal. Aquele que não reconhece seus erros morais não conhece Jesus. Este, com efeito, vem àqueles que O procuram para mostrar como remover o pecado e suas consequências funestas. É este também o papel do Espírito Santo (Jo 16 8-9). Cabe ao cristão estar atento a tudo isto. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

JESUS BATIZADO POR JOÃO


 JESUS BATIZADO POR JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Batismo de Jesus foi a sua primeira manifestação pública e o início de seu ministério após deixar Nazaré (Mt 3,13-17). Ele se mostra nas margens do rio Jordão a João e ao povo de Israel. O batismo de João era uma ablução exterior para levar à penitência e dispor quem o recebesse a se tornar apto para ganhar o perdão de Deus. Jesus, que havia tomado a natureza humana, humildemente quis, enquanto homem, se submeter àquele ritual para também santificar a água que Ele, o Messias, empregaria para transmitir o Espírito Santo. O sacramento que Ele instituiria haveria de encher os batizados com os dons celestes, purificando-os de toda impureza, conduzindo-os a uma vida mais solidária com Deus na plenitude da adesão ao Evangelho. Seu batismo no Jordão foi ocasião da revelação do mistério trinitário, pois, como registrou São Mateus, “apenas batizado, Jesus subiu da água e eis que se lhe abriram os céus e viu o Espírito de Deus em figura de pomba descendo sobre Ele. E veio uma voz do céu que dizia: “Este é o meu filho amado no qual ponho as minhas complacências”. O Pai identifica o Filho e o apresenta ao povo. Para Ele havia convergido o Espírito Santo e tudo isto confirmando o testemunho de João Batista sobre a superioridade daquele que se submetia a seu batismo. Jesus, verdadeiro Deus, mas também verdadeiro homem, assistiu sua missão consagrada pelo Pai e pelo Espírito Santo. O batismo que Ele instituiria seria ministrado em nome da Trindade Santa e faria os cristãos verdadeiramente filhos e filhas de Deus Na solenidade de hoje este Deus convida a todos os batizados a examinar se, de fato, têm vivo o seu batismo, ou seja, suas vidas de cristãos. Filhos e filhas de Deus, muitas vezes pecadores, mas sempre perdoados e sempre amados. Acolhendo o Espírito Santo, recebido no dia do batismo, o seguidor de Cristo percebe que este Espírito Santo nele opera coisas novas, pois o cristão é chamado à santidade, vivendo dentro de si a presença de Deus através da graça santificante. Misteriosa solidariedade com a Trindade Santa, unido em tudo  com a vontade divina. Comunhão com Deus  e com todos os irmãos. Deste modo, o nosso batismo que foi um ato do passado, marca toda a nossa existência ao longo da trajetória neste mundo. O cristão é aquele deve levar por toda parte a esperança do amor de Deus, elevando sempre ao Pai preces por um mundo mais espiritualizado e menos preso às ilusões terrenas. Com Jesus o batizado ilumina esta terra e Jesus foi claro: “Vós sois a luz do mundo”. Maravilhosa a missão do cristão onde quer que ele esteja. Trata-se de testemunhar por toda parte através da fraternidade que todos somos irmãos em Jesus Cristo, o Filho bem amado no qual o Pai colocou todas as suas complacências. Cabe ao cristão lutar contra os falsos messias, os falsos deuses apresentados nos meios de comunicação social através dos maiores absurdos morais que levam de roldão aqueles que atraiçoam sua vocação de batizado, deixando-se poluir pelas iniquidades diabólicas. Trata-se da batalha contínua que leva pecadores contumazes à conversão e faz perceber o sentido profundo de sua dignidade de batizados. Jesus estará sempre com aqueles que querem mudar de vida e ter uma existência unida a Ele. É preciso vivificar o mundo com a Palavra de Deus, com a água viva do Evangelho e isto a cada dia, a cada hora em virtude do dinamismo de nosso batismo. O verdadeiro cristão a viver intensamente no fluxo e refluxo da contemplação das maravilhas divinas numa ação para ajudar a Cristo na sua obra redentora, voltando, porém, sempre da ação à contemplação dos desígnios divinos. Para não traírem sua vocação de batizados os santos que se acham em nossos altares muito se penitenciaram para não caírem nunca nas garras de satanás. A exemplo deles milhares de cristãos a exalarem o suavíssimo perfume das virtudes. Nunca se medita demais nas palavras de São Leão Magno: «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Não te esqueças de que foste libertado do poder das trevas e transferido para a luz e para o Reino de Deus». * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

UMA ESTRELA BRILHOU PARA OS MAGOS

 UMA ESTRELA BRILHOU PARA OS MAGOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Preciosas lições oferece a ida dos Magos até Belém guiados por uma estrela para adorar o Menino Deus aí nascido (Mt 2,1-12). Com grande disposição eles partiram do Oriente e, apesar dos percalços, não desanimaram e em Jerusalém cuidadosamente indagam sobre o lugar onde deveria nascer o Messias e rumam para Belém. São tomados de alegria ao encontrar aquele que procuravam. Sua perseverança foi recompensada. Não haviam ficados acomodados, não foram indolentes e logo se puseram na rota indicada pelo astro. Valorizaram seus conhecimentos e se mostraram competentes astrônomos. Estava escrito no livro dos Números: “Surgirá uma estrela de Jacó”. Esta profecia se verificou num sentido mais sublime e completo no Messias prometido.   Era um meteoro extraordinário criado especialmente por Deus para dar às nações a alvissareira notícia do nascimento do Salvador da humanidade. Os magos decodificaram sabiamente o fenômeno e deixaram exemplo de disponibilidade e persistência. Chegaram até um Menino pobre, mas que era o Rei que atrairia a si todas as gentes, soberano imortal dos séculos futuros. O evangelista ressaltou que “viram o Menino com Maria sua Mãe”. Mais tarde São Bernardo, num momento de pulcra inspiração, não hesitou em proclamar “per Mariam ad Jesum”, pois, de fato, somos conduzidos a Jesus através de sua Mãe. Ela ensinaria sempre os cristãos a receber e a seguir seu divino Filho pelas estradas da vida, abrindo seus corações ao sentido mais profundo da obra redentora. Os Magos ao oferecerem àquele Menino que estava ali com sua mãe presentes típicos de sua região mostraram com o ouro que ele era rei, com o incenso que era Deus, com a mirra que era um homem que se sacrificaria para a salvação de todos que nele cressem, seguindo seus ensinamentos. Uma admirável visão teológica estava assim contida nas dádivas daqueles sábios que voltaram por outro caminho para evitar o ímpio rei Herodes. Alertavam assim que sempre se deve fugir dos inimigos de Cristo. Todas estas verdades alimentariam a grande fé dos seguidores de Jesus. Esta fé chegaria à maturidade em milhares de cristãos pelo mundo afora não obstante a resistência daqueles que, como Herodes e seus sequazes, lutariam em vão contra o divino Redentor. São os que desconhecem os caminhos espirituais traçados pelo Mestre divino. No mundo da criação com sua dimensão, tanto física quanto psíquica, é preciso deixar sempre um lugar para o mundo religioso a ser iluminado pela Palavra divina contida na Bíblia e nas inspirações do Espírito Santo. Este até em sonho se comunicou com os Magos. É preciso, porém, estar sempre atentos às ambiguidades suscitadas pelo espírito das trevas. Os magos, apesar de sábios, humildemente consultaram em Jerusalém os grãos-sacerdotes e os escribas do povo, os entendidos nas Escrituras, e depois se ajoelharam perante uma criança inerme. Maria já havia dito no seu cântico  Magnificat que Deus dispersa os soberbos com os desígnios que eles conceberam e exalta os humildes (Lc 1,31-32). Eis aí outro aspecto fundamental da revelação do mistério epifânico num acontecimento tão simples, claro e maravilhoso em seus pormenores. Astrônomos notáveis, ricos, poderosos a legarem ensinamentos teológicos ao procurarem o lugar onde tinha nascido o Messias que lhes merecia uma visita surpreendente. Esta resultou na manifestação, na revelação do Deus feito homem, o Salvador do mundo anunciado pelos profetas e tão aguardado pelo povo da Bíblia. Desta visita bem fundamentada em fatos reais resultou um notável ensinamento espiritual. Jesus nasceu em Belém da Judéia no tempo do rei Herodes. Tal fato, que revolucionaria a História, tinha uma significação profunda. Os Magos eram as primícias das nações e figuravam a humanidade caminhando para Cristo. Ele que poderia depois se proclamar a Luz do mundo (Jo 8,12; 12,46). Os Magos saem de cena, pois já haviam reconhecido em Cristo o Redentor. Abriram as portas de um reconhecimento universal àquele que deveria ser amado e adorado como o Senhor da glória de acordo com o que escreveu São Paulo aos Coríntios (1 Cor 2,8). Deste modo, a Epifania vem mostrar ao vivo o mistério de Cristo, a manifestação de Deus neste mundo, a revelação de sua presença viva no nosso meio. Cristo, a imagem do Deus invisível, o primogênito dos redivivos e que tem em tudo o primado. (Col 1,15.18). Ele mostrou um Deus que de fato ama os seres humanos e seres humanos que devem apaixonadamente amar este Deus que veio à terra para a todos redimir. Este Deus que quer ser tudo em todos. Assim a Epifania é o grande mistério do amor divino. Por tudo isto esta solenidade deve nos levar a oferecer a Jesus o ouro de nosso amor, o incenso contínuo de nossos louvores, a mirra dos sacrifícios de cada dia. Desta maneira, o cristão se torna, de fato, um iluminado, rendendo-lhe todas as homenagens como fizeram um dia aqueles sábios vindo do Oriente. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O VERBO SE FEZ CARNE E HABITOU ENTRE NÓS


O VERBO SE FEZ CARNE E HABITOU ENTRE NÓS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Este é o maravilhoso acontecimento que a cristandade em festa jubilosamente comemora. Nasceu entre nós o próprio Filho de Deus. O nascimento do Senhor Jesus proporciona o jubilo de todo natalício por se tratar de uma nova vida que surge. Em se tratando do natal do Redentor da humanidade este gaudio é ainda mais intenso e expressivo, porque veio a esta terra o Príncipe da Paz, o Deus-Forte, o Unigênito do Pai, a Luz verdadeira que ilumina toda a trajetória humana. Ele abriu as portas da eternidade feliz para todos que O acatarem e seguirem. Trata-se de uma novidade inaugurada na história, mas novidade definitiva, dado que aquela criança nascida em Belém é a verdade absoluta e a salvação perene. O próprio Jesus explicou a razão de ser de sua vinda entre os homens “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Isto seria a prova definitiva do imenso amor que o Deus Todo-poderoso devota a suas criaturas. Como, porém, o nascimento provoca encontros beatificantes, embora nascendo na pobreza de uma manjedoura, em torno do Menino Deus estavam exultantes não apenas seus pais José e Maria, mas também anjos do céu a proclamarem a glória divina, pastores jubilosos da redondeza e, depois, até Magos vindos do Oriente. É que sua luz atravessaria as fronteiras religiosas e sociais e, através dos séculos todos deveriam se pronunciar acatando-o, se transformando, ou desprezando-o e se imergindo definitivamente nas trevas do erro. Com efeito, felizes seriam os que o recebessem, pois Ele veio quebrar todas as falsas imagens de Deus. Quem tivesse a felicidade de acolhê-lo não diria nunca que Deus não o ama que Deus está ausente de sua vida por ser Ele um Ser longínquo. Razão teve Santa Terezinha de Lisieux ao escrever: “Eu não posso temer um Deus que se fez por mim tão pequenino, Eu o amo porque Ele não é senão amor e misericórdia”. A ternura divina é a chave do mistério do Natal. Sua mensagem é um convite para que cada um se deixe tocar pela graça de Deus. O Menino Jesus estende sua mão a todos de boa vontade para que todos experimentem que sua misericórdia é infinita. A vida do cristão deve ser um contínuo renascimento para receber a vida de Deus oferecida por Jesus. Ele é a imagem do Deus invisível, como proclamou São Paulo aos colossenses (Col 1,15). Aliás, Jesus mesmo dirá: “Quem me viu, viu o Pai” (...) Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Eis porque Ele pôde também declarar: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas”. (Jo 12.46). Trata-se de uma luz que deve atingir o mais profundo do ser humano, podendo então se dizer do verdadeiro cristão que ele é lucífero, portador da luz que é o próprio Deus. Donde fulgir no Natal uma profunda paz, aquela que jorra de Deus e não está sujeita ao frágil equilíbrio das forças humanas. De fato, foi na noite de Belém que a luz da esperança e da vida se levantou sobre a terra. Um Salvador nasceu para todos os homens. Seu esplendor brilha nas trevas e as trevas não o ofuscaram, porque a luz de Cristo passa através da história, não obstante a negação daqueles que o contradizem com suas más ações. Ela continuará sempre vivificando todos aqueles que lhe abrem o coração. Aos que recusam a Deus com suas inconsequências, feridos pelo materialismo ou imersos na depravação dos vícios, o Ser Todo-poderoso estará sempre apresentando o Verbo, a Palavra que dá sentido a tudo e que a todos pode salvar. Para acolher este seu amor é preciso escutar sua voz e se despojar dos erros e ser humilde. O nascimento de Jesus revela o oposto dos critérios terrenos. Por isto é preciso ano a ano penetrar no mistério do Natal e aprofundar as mensagens que fluem de um presépio, mensagem de um amor de Deus que quer a felicidade daqueles que têm a ventura de viver intensamente o significado da encarnação do Verbo divino que habitou entre nós. Ele vem a cada um de nós para uma obra revigorada de misericórdia, de cura e de perdão. Trata-se de um convite para uma renovação de cada um, seja qual for o estágio espiritual no qual se encontre. Natal nos convida, como outrora a José e Maria, aos pastores e aos magos, a nos engajar em uma aventura espiritual ainda mais profícua, a  um encontro especial com o Filho de Deus que se fez carne e habitou entre nós. * Professor no Seminário de. Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

JESUS, O EMANUEL


JESUS, O EMANUEL
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e o Nascimento virginal de Maria, focalizados por São Mateus, mostram a missão de São José nos admiráveis planos de Deus (Mt 1,18-24).  A vinda do Redentor da humanidade a este mundo se enraíza na história de Israel. O menino que nasceria de Maria é obra do Espírito Santo e pertenceria à linhagem de Davi através de José, homem justo, bondoso e humilde. Sua esposa estava grávida e, por não conhecer ainda o projeto redentor de Deus, ele pensou, para lhe salvar a honra, em se desvincular secretamente dela. Foi preciso então que um anjo lhe explicasse o papel do Espírito Santo naquela maternidade. São José confia então em Deus e lhe obedece, aceitando aquela missão paternal perante a lei. O grande objetivo de São Mateus foi salientar a filiação divina de Jesus, o Emanuel, Deus conosco. Aí está a perspectiva teológica ressaltada pelo Evangelista. É o próprio Deus quem revela ser Jesus o Cristo, o Salvador da humanidade, cuja identidade fica assim bem retratada. São José deixou o exemplo de como se comportar perante fatos tão maravilhosos, ou seja, como proceder na aceitação pela fé da iniciativa de Deus. Este naquele acontecimento visava a redenção de todos os homens. É importante, portanto, que o cristão esteja sem cessar preparado para acolher com fé e humildade o roteiro de salvação estabelecido por Deus. Jesus é este Deus conosco e isto para que os fiéis enfrentem todas as dificuldades inerentes a este exílio terreno no que toca à família, à sociedade, à própria Igreja, às diversas comunidades. A proximidade do Natal deve, deste modo, lançar raios de esperança para superar todos os momentos difíceis, imergindo o seguidor de Cristo no amor divino. Momentos de turbulência interior passou São José até o esclarecimento celeste, mas ele depois aderiu inteiramente aos desígnios celestes. É através de seus seguidores que Jesus quer se mostrar a este mundo tão materializado e no qual se multiplicam ataques à verdadeira Igreja de Cristo e um desprezo assustador dos dez mandamentos. Multiplicam-se exemplos degradantes de falsos ídolos criados pelos meios de comunicação social e todo o cuidado é pouco. Necessário, portanto, um ajustamento total à vontade de Deus e eis aí a grande mensagem que flui da atitude de São José. A ele o anjo lhe diz: “Não tenhas medo”. O mesmo é dito a todos que desejam perseverar, pois a verdade há sempre de permanece, não obstante os erros que se multiplicam por toda parte, numa traição ou negação do autêntico Evangelho trazido a este mundo pelo Emanuel. Como São José, o autêntico seguidor de Cristo tem sua inteligência atenta à iniciativa de Deus. Por isto deve estar repleto das luzes do Espírito Santo para realizar sua missão no meio dos homens, levando por toda parte a mensagem redentora do Emanuel, mostrando que, de fato, Ele é o Deus conosco. Este Deus liberta na ordem moral e espiritual pela união profunda entre o ser humano e seu Senhor. Uma libertação universal que precisa atingir todos os que têm a ventura de ter fé. Deste modo, o título de Emanuel vem completar o retrato teológico do Filho de Deus, é um programa e um ministério de apostolado para fazê-lo sempre mais conhecido e amado. É que este Jesus, Deus conosco, se faz presente na história dos homens através de seus discípulos. Ser fiel no sentido bíblico da palavra é ser coerente com sua fé, um cristão que pela sua santidade de vida realiza os desígnios de Deus. São José foi denominado um homem justo, porque totalmente ajustado ao querer divino e, por isto, não só exerceu uma função tão importante como Pai legal do Messias, como se tornou um exemplo de fidelidade a Deus. O mérito de São José foi acolher a iniciativa salvadora deste Deus e através dos tempos ele contesta as lentidões, as reticências de tantos cristãos que acabam impedindo a ação divina que deve se expandir por toda parte. Cumpre não fazer de Deus o nosso satélite, colocando-O a nosso serviço. São José mostrou que não há temor quando é Deus que age na vida de seu servidor. Venturosos os que adotam a atitude de São José. É do interior que flui a maleabilidade para seguir as inspirações divinas. Para isto é dentro de cada um de nós que devem borbulhar os eflúvios de todas as virtudes, gerando uma vida responsável e solidária. Apenas assim Jesus, o Salvador, será para nós o Emanuel, o Deus que estará sempre conosco. A preparação para o Natal já é um sinal de um desejo ardente da salvação daquele que, vindo ao encontro de nossas fraquezas, não nos abandonará jamais, Tudo isto porque o Natal deverá significar para nós um Encontro com uma Pessoa e não com uma ideia que se diluirá com o passar dos dias. O Natal vem nos recordar que a presença de Jesus é a expressão real de seu interesse por suas criaturas.  Deixemo-nos possuir por este inefável amor e seremos felizes! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.