segunda-feira, 29 de agosto de 2016

COMO SER SEGUIDOR DE CRISTO

01 COMO SER SEGUIDOR DE CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Jesus deixou claramente três instruções para aquele que quer, de fato, se tornar seu seguidor (Lucas 14,25-33). Primeiro colocar todos os liames afetivos, sejam quais forem, sobre o eixo da referência a Ele, que deve ser a razão última de todos os amores. Ninguém, nada neste mundo, a se sobrepor ao liame que prende seu discípulo a seu Senhor absoluto. Depois, aceitar levar a cruz pessoal de cada instante. Enfim, em terceiro lugar, um completo desapego de tudo. Se estas clausulas não são observadas não se pode afirmar que se é adepto do Filho de Deus. São elementos basilares que caracterizam essencialmente o partidário do Evangelho. Do contrário, ostenta-se o nome de cristão e nada de positivo se realiza. Com duas parábolas narradas nesta oportunidade Jesus ratifica seu pensamento e propõe uma decisão sem limitações. De uma maneira pedagógica o pensamento do Mestre divino fica transparente e exige uma reflexão profunda. Trata-se de um programa de vida para religiosos ou leigos. Todos engajados na aventura maravilhosa da fé. Radical dependência daquele que veio estabelecer na terra um discipulado que não tinha nem teria exigências tão rigorosas, exatamente porque Ele é, realmente, o único caminho, a única verdade e a única vida verdadeira. É a lógica maravilhosa da inserção nele do que resulta fatalmente o autêntico amor, a força sobrenatural para transformar os espinhos da existência em joias para a eternidade, Amar a Deus com todas as potências da alma não é algo facultativo, pois se trata da exclusiva e imprescindível necessidade da vida do cristão. Esta dileção para com o Ser Supremo leva evidentemente à observância de todos os seus preceitos e a um trabalho evangelizador que visa a expansão de seu reino e a execução de sua vontade, conforme se reza na oração que Cristo nos ensinou. A existência do seguidor de Cristo é então impregnada pela realidade divina de tal forma que Deus passa a agir integralmente em tidas as ações. É a tomada de consciência de que Ele habita na alma de quem está em estado de graça. Disto resulta que nada numa sociedade consumista e globalizante venha a afetar o liame com Ele e se dá então uma independência dos bens materiais e de todas as ilusões terrenas. É unicamente Deus que passa a dar sentido àquele que O coloca sobre todas as coisas. Tal atitude é perfeitamente viável uma vez que Ele se encontra por toda parte e basta um ato de afeto para usufruir de sua inefável presença. Isto se torna tanto mais viável quando se sabe que é o próprio Jesus anda a procura de cada um como se lê no Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,:20) Quem para e reflete, percebe que as referidas condições estabelecidas por Cristo para ser seu discípulo calham maravilhosamente com os mais recrescentes anelos do ser humano que é levado a alçar voos altaneiros além dos horizontes terrenos. É o que se deu com Santo Agostinho que assim se dirigiu a Deus: “Inquieto está no nosso coração enquanto não repousa em Ti”. Portanto, para se seguir as instruções de Jesus e se tornar seu autêntico seguidor é estar unido a Deus e sempre O escutar. O poeta Kalil Gibran deixou este conselho: “Esforçai-vos por procurar o Pai como o rio procura o mar”. Deste modo, o amor a Deus estará acima de tudo, a cruz de cada dia será carregada com total paciência e jamais o cristão será escravo das coisas materiais deste mundo. As convenções terrenas não sufocarão jamais suas aspirações espirituais. É deste modo que se entra na relação que precisa haver entre discípulo e mestre nos três caminhos objetivos traçados pelo Mestre divino, nestas três maneiras que levam a progredir no discipulado que faz de cada um o verdadeiro cristão. Jesus exige, portanto, uma ruptura fecunda e criadora se libertando cada um das categorias ou preconceitos das convenções humanas. Livre das preocupações terrenas, o cristão permite que intuição de Deus o tome inteiramente e raia assim a liberdade apesar da cruz que deve ser carregada seguindo os passos de Jesus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


terça-feira, 23 de agosto de 2016

O CAMINHO DA FÉ

O CAMINHO  DA FÉ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O cristão que procura  progredir no caminho da perfeição realiza a ordem de Cristo: ”Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Além, é óbvio, de observar fielmente os preceitos do Decálogo e estar continuamente na presença de seu Senhor, mostra-se atento para nunca contar consigo mesmo, com suas luzes e seu próprio julgamento. Por isto implora sem cessar o auxílio divino a fim de pensar e agir com sabedoria de acordo com os desígnios divinos. Desconfia de si mesmo, reveste-se de humildade e reza com simplicidade e total sinceridade. Evita as ilusões advindas da soberba interior e presta toda a atenção à ação do Espírito Santo que sopra onde quer e quando quer. Não impede jamais a operação divina e, por isto mesmo, não se deixa abater ante as provações permitidas pela Providência. Deste modo, se verifica o domínio soberano de Deus que almeja levar seu seguidor a uma imolação contínua da vontade humana numa adesão ininterrupta a Ele. Para não se deixar enganar e desanimar, cumpre ao cristão total abandono à graça e absoluta confiança naquele que é a fonte da luz sobrenatural. Deus passa então a governar toda a vida daquele que Lhe é fiel.  Quem assim consegue avançar na vida espiritual há de batalhar contra a presunção, o desânimo, as tentações do demônio. Não faltando, porém, generosidade, a união com Deus se robustece e os momentos de reflexão solidificam o desejo de agradá-lo em tudo, apesar dos obstáculos da fragilidade humana. A abertura para o Transcendente é a porta aberta para que não haja retrocesso, mesmo ante as naturais fraquezas de um ser humano. O anseio da auto superação coloca o cristão em condições de cooperar com o auxílio celeste rumo à conquista da maturidade cristã. Esforços contínuos conduzem a um desenvolvimento integral dentro dos planos divinos, segundo “a medida da estatura da plenitude de Cristo”.(Ef 4,13). Mediante sua inserção na vontade divina o fiel tem acesso ao desenvolvimento pleno de sua personalidade, ideal a ser perquirido com constância e firmeza interior.  É o que São Paulo falou aso Coríntios: “Por isso é que não nos deixamos abater, mas ainda que o homem exterior se vá desfazendo em nós, o nosso homem interior vai se renovado de dia para dia” (2 Cor 4, 16). Para isto, é preciso estar conectado com a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, pois está na Carta aos Hebreus “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como no lugar da exasperação, no dia da prova no deserto” (Hb 3,7). Neste empenho para atingir a maturidade espiritual o cristão vai assim dia a dia desenvolvendo  plenamente t as potencialidades da graça em todos o níveis do organismo espiritual. É o caminho da fé iluminado pela esperança e alimentado pela caridade.  O crescimento das três virtudes teologais dão vitalidade ao fiel na busca da santidade. Eis o que   São Paulo observava nos tessalonicenses: “Recordamos continuamente a vossa fé operosa, a vossa caridade paciente e a vossa esperança constante em nosso Senhor Jesus Cristo, sob o olhar de nosso Deus e Pai” (1 Ts 3). Os germes de vida nova recebidos no Batismo precisam ser desenvolvidos numa ascensão ininterrupta.  Para Roberto Zavalloni, professor  de psicopatologia religiosa em Roma, estes são os sinais da maturidade espiritual: convicção profunda que gera uma espécie de vidência da existência de Deus; a transformação e a renovação da mente e do coração; a docilidade ao Espírito Santo; a capacidade espiritual de penetrar  até o fundo no mistério de Cristo e aceitá-lo; o comprometimento  de forma radical e total com Deus e com a salvação do mundo; a estabilidade da conversão da mente e do coração; a integração da própria personalidade em Cristo;  “o compromisso com a Igreja e com o mundo, superando os estreitos limites do próprio “eu” e de entrar em relação  construtiva e criativa com os outros”. Através  da correspondência às inspirações do divino Espírito Santo o cristão, seja onde for o lugar onde Deus o colocou, pode e deve atingir a maturidade espiritual. Quando isto acontece, cresce também a espiritualidade de toda a Igreja. Trata-se da participação efetiva de cada um nas implicações do Evangelho na salvação de toda a humanidade. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

FAZER TUDO COM HUMILDADE

FAZER TUDO COM HUMILDADE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus que na última ceia com seus apóstolos lhes daria uma lição de profunda humildade, lavando-lhes os pés, antes, por ocasião de uma refeição na casa de um dos principais fariseus, fixou para todos a importância desta virtude. (Lc 14, 7-14). Através dos tempos ecoaria sua sentença lapidar: “Quem se humilha será exaltado, quem se exalta será humilhado”. Sempre atento às atitudes dos que o cercavam Ele observou que, não havendo à mesa os nomes dos convidados para aquele festim, aqueles que haviam chegado primeiro procuravam os melhores lugares mais próximos ao anfitrião. Corriam o risco, alertou Jesus, de chegar outros mais importantes e a estes caberiam estar junto do dono da casa. Donde o conselho do Mestre divino de ninguém se julgar o mais respeitável, devendo, depois, ceder seu lugar a outro. E isto seria vexatório. Cumpre, porém, ir além do ensinamento provindo de uma situação social, mas é preciso apreender neste episódio o convite que Deus faz a todos para o banquete de seu Reino. Ser um convidado para a mesa divina significa estar em intimidade com o Ser Supremo. Para Deus os mais dignos não são necessariamente os mais cultos e sábios, os mais ricos aos olhos humanos, mas aqueles que correspondem com muito amor ao convite amoroso deste Senhor Onipotente.  São aqueles e aquelas que se empenham em cumprir a cada instante a obra do Pai, levando a sério seu projeto de salvação. Corresponder a este plano de Deus é a condição basilar para se chegar um dia ao banquete das Bodas eternas. Conhecedor de tudo Ele sabe quem são os merecedores desta felicidade perene, ou seja, os mais puros e cumpridores de seus deveres. Estes, aliás, nunca se julgam credores de uma recompensa extraordinária, pois agem sempre com muita humildade, reconhecendo suas vulnerabilidades e fraquezas. Consideram as ações luminosas daqueles que, como São José, Santa Rita de Cássia, Santo Antônio e tantos outros, chegaram ao festim celestial com enormes merecimentos que os colocam bem próximos do trono do Criador de tudo. Há porem, outro aspecto a ser observado: o fariseu do Evangelho fez convites.  Deus também convida para o banquete de seu Reino. É preciso que cada cristão faça convites levando parentes e amigos a procederem de tal forma que não percam um lugar lá no céu. É necessário ser o arauto daquela felicidade que será concedida aos que corresponderem ao apelo divino para não perder o seu lugar na eternidade venturosa preparada por Deus para os que O amam e servem. Jesus deixou claro: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. Lá Ele aguarda os que lhe forem fiel nesta terra e, sobretudo, aqueles que colaboraram para que esta lealdade existisse em seu derredor, afastando toda indolência no trabalho evangelizador Isto sem esperar compreensão, amizade, gratidão dos homens. Cumpre, por isto mesmo, que ao lado de imitar a generosidade do Pai que convida para o seu festim, que cada um seja humilde e se reconheça indigno do Reino celeste, ferido muitas vezes nas batalhas da vida, mas jamais duvidando do amor de Deus. Tudo, porém, realizado na mais completa humildade não se avaliando superior aos outros. Consciência de que enquanto alguém está neste mundo há precisão de conversão contínua. Nunca se deve permitir que o orgulho venha a poluir os mais recrescentes desejos de perfeição. Cada um reconhecendo os talentos que recebeu de Deus, procurando desenvolvê-los para melhor servir o próximo e ao Doador de tudo. É, porém, até um ato de humildade ter uma justa estima de si mesmo, mas aceitando a ajuda dos outros para se aprimorar espiritualmente. Todos em marcha para o festim celestial no qual ninguém entrará sozinho, pois pelo exemplo e pela palavra deve arrastar a muitos para o mesmo venturoso destino. Este espírito de humildade é a alma de todo apostolado, mesmo porque Jesus alertou: “Aquele que quer se tornar o primeiro entre vós, se torne o servidor de todos”. O humilde não quer dominar, mas irradiar a alegria, a felicidade de não ser admirado, imolando-se pelo próximo. Jesus deu o exemplo e se fez humilde e o Servidor por excelência. Evangelizar é deixar Cristo viver em si mesmo, dando credibilidade ao trabalho evangelizador. Deste modo muitos irão para o festim da Casa do Pai. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

AGRADECIMENTO AO DR. ROQUE CAMÊLLO

AGRADECIMENTO AO DR. ROQUE CAMÊLLO

Viçosa, 18 de agosto de 2016
Prezadíssimo Dr. Roque Camêllo,
Cordiais saudações!
Foi com enorme admiração e movido por singular emoção que percorri a monumental obra MARIANA – ASSIM NASCERAM AS MINAS GERAIS: UMA VISÃO PANORÃMICA DA HISTÓRIA.
Mariana, templo do devotamento à pátria, orgulho de um povo, pois “nenhuma outra cidade mineira apresenta as tradições de cultura e civismo” como esta gloriosa urbe e “mineiro não seria quem deixasse de amar a mais antiga cidade de Minas”; berço da democracia, uma vez que foi nela que se elegeu a primeira edilidade erigida na região do ouro, erguendo-se a consciência pública, relampejando o espírito nacional, merecia, de fato, uma enciclopédia como esta.
Nestas páginas o esplendor da Arte Barroca fulge por entre relatos históricos que patenteiam a grandeza daquela que foi, com toda justiça, a 6 de julho de 1945, proclamada Cidade Monumento.
 Mariana sempre guiou para os mais altos ideais elites pensantes de Minas e do Brasil e continuou através dos tempos um estímulo para uma autêntica valorização da cultura nacional.
Sítio mágico pelas suas realizações tão caras a Minas e ao Brasil, desferindo “sonora cítara de David com plectro de Epicarmo”, terra abençoada que dispõe, o que não é comum entre as cidades de envergadura através dos tempos, da disposição de meditar, de refletir, de voltar para a contemplação da natureza com seus montes, colinas, luares, é digna de uma homenagem como esta.
 Tudo isto  ressumbra neste livro magnífico.
 Apenas um ilustre filho de Mariana, como o ilustre amigo, para ressaltar de uma maneira tão fulgurante os tesouros de uma arte autenticamente criada e nascida em Minas Gerais em seus atraentes templos e demais monumentos que não se repetem, cada um guardando seus segredos centenários, ressaltados também pelas belíssimas paisagens tão bem apresentadas nestas páginas maravilhosas.
Resta-me então uma saudação: “Feliz de ti Mariana,  “alma prestantum genitrix virorum”  e que neste terceiro milênio tem um Roque Camelo para continuar a cantar  brilhantemente a tua glória”.!
Ita in fide magistri et sacerdotis.

         Gratíssimo ex corde pela honrosa oferta com uma dedicatória que fluiu  da generosidade de um grande coração
         Atenciosamente se subscreve

         Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O SER HUMANO PERANTE DEUS

O SER HUMANO PERANTE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Se pessoas não sem fé, muitas vezes, se posicionam contra Deus O ultrajando, pior se torna a atitude daqueles que creem, mas querem manipular o Ser Supremo das formas mais variadas. A mais comum é a revolta contra Ele quando surgem as provações e contrariedades inerentes à condição humana ou permitidas pela Providência divina no intuito de purificar aquele que proclama que O ama. Manifesta-se então uma audaciosa revolta contra o Senhor de tudo. O endeusamento dos bens terrestres ou uma falsa espiritualidade se opõem ao verdadeiro posicionamento da criatura perante o seu Criador. No primeiro caso, o homem, girando tudo em torno de si, aspira a posse de riquezas, de glórias, de prazeres mundanos, afrontando os preceitos do Decálogo. Na outra hipótese, Deus é trazido à barra do tribunal do fiel que arrogantemente quer impor a Ele sua própria vontade e faz da oração uma ordem atrevida Àquele que é o seu Soberano. As promessas transformam muitas preces num negócio com o Criador. Cristo ensinou simplesmente a pedir, a buscar, a bater humildemente na porta da Misericórdia divina. Graças obtidas devem, contudo, ser agradecidas num louvável hino gratulatório. O ser humano ignora ou se esquece de que o Onipotente deve ser objeto de um total amor, precisa ser continuamente adorado e servido e nele se deve ter a mais radical confiança. Isto por ser Ele o Ser Supremo, o único subsistente por si mesmo, Aquele que é, existindo desde toda a eternidade. Não se pode desconhecer que Ele é a regra, a medida e o centro de tudo e que não existe nada sem o seu querer todo-poderoso.  Possuidor de todas as perfeições e a fonte de todos os benefícios merece todo acatamento. Na sua infinita bondade Ele se dispõe sempre a dialogar com suas criaturas racionais, mas é naturalmente avesso a todo tipo de empáfia, fatuidade ou soberba. O orgulho humano bate, sacrilegamente, tantas vezes de frente com Seu domínio absoluto como se Ele fosse um seu rival a ser descartado ou até um escravo a receber ordens. A dependência que a própria razão exige perante Ele condena tais atitudes. Requer-se um mínimo de bom senso para saber conversar com Aquele que conhece o que é melhor para cada um e que tem o poder para vir de encontro às necessidades de quem nele deposita fé sem limites. É necessário não se deixar levar pela mesquinhez que paralisa a ação das graças, pois Ele resiste aos arrogantes como aparece claramente em inúmeras passagens da Bíblia. O orante deve se entregar sinceramente a Deus, repousar nos seus braços paternos, sabedor de que sem Ele ninguém é forte, ninguém é santo. É do contato humilde com o Todo-Poderoso que o cristão pode vencer o amor-próprio, fruto do pecado original e, fortificado pela luz divina, triunfar das paixões. Robustecida a vontade, já não se faz mais uso incorreto do dom da liberdade. As infidelidades vão desparecendo e as vitórias sobre satanás se multiplicam, mas são atribuídas unicamente aos auxílios celestes. O ser humano já não se apropria da ação de Deus e está convencido de que com Ele fará continuamente proezas, porque é Ele quem calcará aos pés os seus inimigos (Sl 108.13).  Estabelece-se, desta maneira,  uma relação frutuosa com a Santíssima Trindade. O cristão, que assim se situa perante o seu Senhor, crê no Espírito Santo, Doador de tudo, adorando-O juntamente com o Pai Onipotente e o Filho Salvador. Reconhece-se amado do Pai, guiado pelo Espírito, numa valorização a contínua dos méritos redentores da Cruz. São Paulo assim se expressou: “O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus” (Rm 8,16). Assim o fiel goza a sabedoria e o gosto pela oração bem feita em todos os momentos. Resta sempre vigilante à espera do encontro definitivo com Deus na hora de deixar este mundo. Captando por toda parte os sinais da presença do Ser Supremo, conhece nesta trajetória terrena a integração perfeita entre fé e vida.  Então a presença divina se torna sem cessar princípio de vida sobrenatural e de luminosidade celeste. Isto porque, como se lê no Livro da Sabedoria, Deus “se deixa encontrar pelos que não o tentam, revela-se aos que nele têm fé.  Os juízos tortuosos afastam de Deus e a Onipotência, posta à prova confunde os insensatos. (Sab 1, 3-4). Em síntese, o ser humano perante Deus necessita uma fé neste Deus pessoal e vivo que está presente por toda parte e que admite um afortunado diálogo entre Ele e sua criatura racional*Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

UM PROGRAMA DE VIDA ESPIRITUALO

UM PROGRAMA DE VIDA ESPIRITUAL
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Os fiéis que observam corajosamente os mandamentos da lei de Deus e da Igreja não estão isentos das investidas de satanás. Aliás, Deus as permite para provar a fidelidade dos que O temem e O amam. Disto resulta inclusive uma proveitosa purificação interior. Diante das perplexidades que, por vezes, envolvem almas piedosas há necessidade de uma conduta correta para que o inimigo não venha a causar malefícios. Dentre estes, o desânimo seria um dos mais graves obstáculos ao desenvolvimento espiritual. É preciso nesse caso que o cristão humildemente se lance nas mãos divinas e se disponha a enfrentar com galhardia tais dificuldades. O auxílio celeste não deixará de lhe vir em socorro, se ele assim proceder. Daí a importância  das orientações recebidas no Confessionário, as quais são dadas sempre que solicitadas ao sacerdote, o qual nunca deixa  de concitar à perseverança. Adite-se a recepção da graça medicinal própria do Sacramento da Penitência. Cumpre então a correspondência total a este medicamento celeste, pois nenhum poder tem o espírito maligno sobre aquele que procura a força divina. Esta vence aquele que foi derrotado pela Cruz de Cristo, pois de suas chagas jorram as energias que fortalecem o cristão nos embates contra o maligno. Eis por que o discípulo do Redentor  deve ficar calmo perante as tempestades armadas pelo diabo, pois elas passam e Deus não permite nunca que alguém seja tentado acima de suas possibilidades. A tática é nunca ceder ao demônio, seguindo a recomendação de São Tiago: “Resisti ao diabo e ele se afastará de vós” (Tg 4,7). O demônio pode ocasionar agitação, mas quem confia em Deus não soçobrará jamais. Deus quer maleabilidade em acatar as inspirações do Espírito Santo, hauridas também  na Eucaristia e nas orações cotidianas que não podem ser abandonadas. Elas são a armadura do cristão e o tornam invencível ante o mal. Aos poucos o fiel vai se apartando cada vez mais da malícia do mundo, mas sem se deixar sugestionar pela ação satânica que o quer longe da familiaridade com Deus. Esta é afetada todas as vezes que o cristão não foge corajosamente das obras e vaidades de satanás ou é levado por ele a esmorecer na prática de uma piedade sincera. A tática do perverso inimigo de Deus é levar, por vezes, o cristão a questionar os valores sobre os quais se alicerça uma vida espiritual sólida, concitando ao afastamento da dependência e da submissão a seu Senhor. É preciso que se tenha continuamente a certeza de que nenhuma atividade humana é irrelevante para o reino de Cristo, inclusive os momentos de possíveis desânimos na caminhada nas veredas da santidade. O demônio é ardiloso e aí daquele que não se dispõe a vencê-lo sem se armar contra seus rugidos que são diferentes  para cada um. O importante  é o cristão colocar sua fé em Deus e não numa ideia de progresso espiritual sem as dificuldades provindas daquele que deseja confundir os amigos de Jesus. Este dá a quem nele confia o poder para desbaratar todos os influxos do inimigo. Este pretende impedir o cristão de ser um autêntico seguidor do Filho de Deus. Entretanto,  é na fragilidade humana que Cristo manifesta seu poder. Ele está ininterruptamente a dizer a cada um aquilo que Ele falou a São Paulo: “Basta-te a minha graça,  pois é justamente  na fraqueza que a força da graça mostra a sua potência” (2 Cor12,9). Nem as distrações nas orações, nem um menor fervor ao participar das Missas, nem a multiplicação das tentações advindas dos pecados capitais, nem as imperfeições inevitáveis a seres contingentes são obstáculo intransponível. É quando o cristão percebe ainda mais claramente que felicidade perfeita é só lá no céu e que neste vale de lágrimas o combate é ininterrupto. Aceita com muita humildade sua condição de peregrino nesta terra e  continua renunciando ao mundo como inimigo de Deus. Afasta qualquer tipo de idolatria da riqueza, das aberrações sexuais,  abominando tudo que, ainda de longe, se configure como uma ofensa ao Criador. Tudo que conspurca a dignidade do ser humano apresentado nos meios de comunicação social são execrados e jamais  o   seguidor de Cristo se expõe às ocasiões de pecado. Dá-se uma marcha firme rumo à Casa do Pai, superando as trevas do erro. Deste modo, os obstáculos da restauração em Cristo são afastados, resultando uma sublime configuração com Ele (Ef 1,4-10). * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O ÍCONE PERFEITO DA FÉ

O ICONE PERFEITO DA FÉ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O contraste que há entre as leituras do Apocalipse (11,9.12,1-3) e do Evangelho (Lc 1,39-56) apresentadas na Missa da solenidade da Assunção de Maria aos céus merece reflexão e tem uma instrutiva explicação. Passa-se, com efeito, de Maria de Nazaré, a humilde serva do Deus Altíssimo, à mulher revestida de sol e coroada de doze estrelas, descrita por São João. Esta transformação, porém, tem seu esclarecimento nas palavras de Isabel: “Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento das palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor”. O Papa Francisco assim se expressou na sua Encíclica Lumen Fidei: “A Mãe do Senhor é o ícone perfeito da fé. [...] Na Mãe de Jesus, de fato, a fé trouxe todo o seu fruto”. A razão pela qual a fé de Maria teve efeito tão extraordinário foi dada pelo mesmo Papa: “Na plenitude dos tempos, a Palavra de Deus foi endereçada a Maria e ela a acolheu com todo o seu ser, no seu coração” Ela, realmente, se imergiu inteiramente na mensagem que o Arcanjo Gabriel lhe trouxera da parte de Deus. O “sim” de Maria foi sem condições e sem tergiversações, sem cláusulas restritivas, segundo alguns comentaristas foi um cheque em branco passado a Deus. A plenitude da fecundidade de sua fé se liga à culminância de sua adesão à vontade divina. Por isto grande é o júbilo que se apossa de todos os fiéis ao contemplar a Virgem Fiel indo de corpo e alma para o céu, antecipando o que se dará a todos que acreditaram na palavra salvadora vinda de Deus. Trata-se de um gaudio fundamentado nesta realidade sublime: a Assunção de Maria prefigura a ressurreição futura daqueles que viveram e vivem em função de tudo que Deus revelou. Estes estão destinados ao mesmo itinerário da Rainha triunfante, cujo coração foi trespassado pela espada de dor profetizada por Simeão. Maria está então a lembrar a seus filhos que a glória passa sempre pela cruz deste exílio terreno, contanto que seja carregada com paciência, olhos voltados para a eternidade. Como bem se expressou o Frei João-Alexandre do Cordeiro, isto significa uma livre resposta de fé à proposta vantajosa do Deus de amor! Este Deus, contudo, exige uma doação integral de todo o ser a Ele como ocorreu com Maria. Apenas assim a graça divina pode realizar maravilhas na vida dos cristãos, sendo tudo em todos.Todos modelados inteiramente pelo amor de Deus como aconteceu com a Virgem Santa. Esta é a mensagem fulcral da solenidade deste dia, convidando a todos a deixar se transformar pela graça celeste sem óbices e dubiedades, sem qualquer indocilidade. Com coragem lutando pela justiça contra toda injustiça, levando ternura lá onde há incompreensão e violência, tudo dulcificando pelo afastamento do desprezo e da indiferença. Enfim, uma pugna constante contra o dragão do pecado sob todas as suas manifestações. É a batalha constante entre as forças da luz e as forças das trevas. De um lado os que temem a Deus, os humildes de coração, os famintos das realidades espirituais e de outro lado os soberbos, os adoradores das riquezas, os opressores. O destino dos bons, porém, está traçado na solenidade de hoje, ou seja, um dia, a exemplo de Maria, ir para a Casa do Pai, para a glória do céu. Ela nos precedeu e a todos aguarda na outra margem da vida. Ela é o sinal de toda nossa esperança. A felicidade que Deus um dia deu a ela, por ela e com ela, Ele quer para todos os que Lhe são fiéis como esta Mulher Bendita. Nesta solenidade de hoje a fé fica reavivada, intensificado o liame com o divino Redentor e pulsa maior forte o anelo de caminhar com destemor para a Jerusalém celeste. Como bem se expressou São Bernardo, Maria a irmã de Lázaro ofereceu a Jesus a hospitalidade sob seu teto, Maria a Mãe do Salvador, o albergou no apartamento nupcial de seu seio, podendo afirmar que “Aquele que me criou repousou no meu tabernáculo” (Ecl 24,12). Foi por isto que como Filho agradecido Jesus, logo depois que a morte visitou sua mãe a ressuscitou e a levou de corpo e alma para o céu e lá ambos estão a nossa espera. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.