quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE MARIA

A SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE MARIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A Assunção de Maria aos céus é o coroamento da glória daquela que é Mãe de Deus por ser a mãe de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por isto, logo após sua morte, ela conheceu a ressurreição gloriosa e foi elevada aos céus pelo poder divino. Aí a diferença radical entre sua Assunção e a Ascensão de seu Filho, o qual foi para o céu pelas suas próprias forças. Hoje contemplamos a Virgem Mãe em uma outra dimensão da existência que ainda não é dado aos mortais conhecer por lhes ser inacessível. Dá-se exatamente o que ela mesma disse no seu Cântico, o “Magnificat”, ou seja, “O poderoso fez em mim maravilhas”. O poder de Deus é sua Palavra e esta Palavra vive em Maria, visibilizando nela prodígios extraordinários que culminam com sua Assunção. Este dogma da fé católica vem, entretanto, lembrar que todos os cristãos estão destinados à mesma glorificação. No Oriente e no Ocidente, nos textos mais antigos deparamos à crença firme nesta verdade teológica e no seu esplêndido apelo. Maria, a nova Eva, sem a mancha do pecado original tinha todas as condições para partilhar a glória de seu divino Filho Ressuscitado. Ela, já na Jerusalém celeste de corpo e alma, é um convite vivo a que o batizado se eleve espiritualmente muito além de suas preocupações puramente terrestres  Ela nos torna atentos aos valores importantes que tantas vezes são negligenciados. Incita a que se coloque no céu toda esperança. Tudo isto o Papa Pio XII quis recordar ao proclamar dia 10 de novembro de 1950 na Constituição Apostólica “Munificentissimus Deus” este dogma de fé. Era a  expressão legitima e necessária daquilo em que sempre acreditaram os fiéis. A Assunção foi um ato de Deus que contribui para firmar o desejo de estar com Ele por toda a eternidade, como aconteceu com Maria logo após sua morte. Maria morreu a exemplo de Jesus, mas foi imediatamente transfigurada, ela a Mãe da Luz, a Teotokos, Mãe de Deus que é luz, e por isto ela logo entrou no gloria que vai além do esplendor das hierarquias celestes. Vitoriosa sobre o pecado, venceu a própria morte. Transfigurada, ressuscitada, ela já realizou o objetivo pelo qual Deus criou e salvou o ser racional, criado à sua imagem e semelhança. A Assunção é um penhor da união do batizado com seu Filho glorificado. Por tudo isto, esta celebração é, igualmente, um louvor ao divino Redentor, pois a Assunção de Maria não foi senão uma extensão especial de tudo que Ele mereceu para a humanidade. Maria é a perfeita imagem da Igreja triunfante do céu. Deus quis antecipar o fim dos tempos para ela e isto é um sinal para todos os fiéis e para toda sua Igreja peregrina nesta terra. De fato, o corpo humano sujeito à fragilidade e a tantos sofrimentos no dia da ressurreição dos mortos conhecerá o mesmo destino da Mãe de Jesus, quando ressurgir espiritualizado Neste dia é bem que se recordem as palavras de São Paulo: “Ao clangor da última trombeta, pois soará a trombeta, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. É de fato necessário que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade, e que este corpo mortal se cubra da imortalidade” (1 Cor 15,53). Desta inefável realidade a Assunção de Maria é o luminoso indício. Ela já conheceu a plena vitória sobre a morte, como acontecerá a todos que aderirem plenamente a Deus. A salvação não é algo ilusório, mas real, concreto. Como aconteceu com Maria, também para os verdadeiros seguidores de Cristo os limites de sua condição humana, de sua debilidade, cessarão, sua fronteira será ultrapassada na ventura perene do esplendor do Paraíso. Isto então não apenas para a alma que já gozava da visão beatífica, mas também para o corpo glorioso que se unirá novamente à alma. Corpo e alma reunidos para o festim da eternidade junto com a Rainha de todos os anjos e santos. Tudo isto deve encorajar o cristão para que não se deixe levar pelas ilusões terrenas, procurando sempre viver de acordo com os preceitos divinos, ajudados pela proteção daquela que lá do céu acompanha cada um de seus filhos que por ela clamam neste vale de lágrimas. Uma vida ajustada à Palavra de Deus é a grande mensagem desta solenidade na qual todos os corações se voltam para o céu. Ela deseja que cada um se enraíze na escuta e no acolhimento das inspirações celestes. Porque sempre viveu na certeza da presença de Deus, intensamente unida a Ele, Maria mereceu uma honra antecipada. Dela se aprende o sentido do poder do amor que Deus manifestou na vida de Jesus. Com ela seus filhos se tornam capazes de degustar o louvor ao Ser Supremo, pois ela proclamou: “Minha alma exulta no Senhor, rejubila meu e espírito em Deus meu salvador” Ela entoou um cântico magnífico porque “Deus olhou para a humildade de sua serva”, este Deus que resiste aos soberbos, mas aos humildes oferece a sua graça”. Que a figura da Virgem Assunta aos céus esteja em cada um de nós para que com Ela saibamos exaltar o Senhor. Ela a todos aguarda para os gozos eternos. Magna expectativa, mas fulgente alerta para que não se perca tamanha felicidade! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.




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terça-feira, 13 de agosto de 2013

A ENCÍCLICA 'LUZ DA FÉ"

A ENCÍCLICA “LUZ DA FÉ”
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A publicação pelo Papa Francisco da Encíclica “Luz da Fé” trouxe à baila a análise do estilo de Bento XVI e de seu sucessor. Com efeito, como o próprio Papa Francisco declarou, seu antecessor havia praticamente concluído uma primeira redação de um texto sobre a fé. Entretanto ”na fraternidade de Cristo” ele assumiu o precioso trabalho já escrito, “ajuntando ao texto algumas contribuições ulteriores". Uma dupla assinatura nesta Carta encíclica seria canonicamente impossível. De fato, dois papas não podem ter autoridade para assinar ao mesmo tempo um documento oficial. Quem lê com atenção as páginas da “Lumen Fidei” percebe logo a maneira clássica com que Bento XVI se expressou nas Encíclicas “Caridade na Verdade”, de 29 de junho de 2003; “Salvos pela Esperança”, de 30 de novembro de 2007 e ”Deus é amor”, de 25 de dezembro de 2005. Referências teológicas e literárias que, aliás, incomodam certos articulistas que vivem de comentários sensacionalistas, pontos relevantes didaticamente fixados, ilustrações hauridas na doutrina dos Santos Padres, tudo isto logo revela que a grande parte da redação é de Ratzinger.
O Papa argentino tem outro estilo facilmente reconhecido, ou seja, é objetivo, vivo, direto. Evita dissertações e vai logo ao âmago da questão em tela. Tanto isto é verdade que suas frases sonantes, retumbantes têm repercutido nas manchetes dos jornais do mundo inteiro. O Papa Francisco de preocupa antes de tudo com o “leitmotiv” do assunto e emprega muitas analogias e cita exemplos vivenciais a cada passo.  Ele visa a conversão do coração pela ação.
 Já Bento XVI reflete longamente no “porque” do tema abordado e baseia suas sentenças em termos bíblicos, explicados de acordo com a exegese dos vocábulos e a hermenêutica dos biblistas. Daí o fato dele recorrer aos pensamentos dos teólogos, dos filósofos, dos literatos, dos historiadores. Seu objetivo é a inteligência da fé.
O certo, porém, é que ambos atingem a meta que é evangelizar, iluminado as mentes dos fiéis e levando-os à adesão total a Cristo.  Ainda uma vez vale a assertiva de que “o estilo é o homem”.
 Após estes prolegomenos, cumpre salientar alguns pontos luminosos desta primeira Encíclica do Papa Francisco. A fé não é um obscurantismo, nem um salto no vazio. Ao contrario, é uma visão luminosa da existência humana, enriquecendo-a em todas as suas dimensões. Ela aclara os caminhos do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para que se possa percorrê-los com alegria. Envolve então na paz, na imperturbabilidade. A fé, contudo, está ligada à escuta de Deus e pede uma reposta a uma Palavra que interpela pessoalmente cada fiel. Conduz ao que há de mais seguro e firme. Santo Agostinho é lembrado: “O homem é fiel quando ele crê nas promessas que Deus lhe faz; Deus é fiel quando Ele dá ao homem o que Ele promete”. Cumpre, porém, abertura sincera à ação do Ser Supremo e fugir da tentação da incredulidade e do culto aos ídolos propostos pelos descrentes.  A fé consiste então “na disponibilidade de se deixar transformar sempre no novo apelo de Deus”. A fé do cristão está centrada em Cristo que veio remir a humanidade, Ele que o Pai ressuscitou dos mortos. Não se pode, realmente, esquecer que “o olhar da fé culmina na hora da Cruz, hora na qual resplandecem a grandeza e a amplidão do amor divino”. Jesus é o apoio sólido da fé do cristão. Através de seu Filho o Pai faz resplandecer a plenitude da vida. Lamenta então o Papa: ”nossa cultura perdeu a percepção desta presença concreta de Deus, de sua ação no mundo”. Jesus, “especialista das coisas de Deus” conduz a uma confiança total no Absoluto. A salvação vem, deste modo, pela fé, quando o cristão a deixa operar em si, fecundando sua vida, plena de bons frutos. Donde ser de vital importância a presença de Cristo no batizado. São Paulo é citado: ”Não sou eu quem vive, mas Cristo é que vive em mim” (Gl 2,20). Doutrina, contudo, o Papa que “a fé tem uma forma necessariamente eclesial, ela se confessa vindo do interior do Corpo de Cristo, como comunhão concreta daqueles que crêem”. A Encíclica ressalta ainda a relação entre a fé e a verdade e o diálogo entre a fé e a razão. Coloca em relevo o papel dos sacramentos na transmissão desta virtude, a qual tem um papel social de incomensurável valor e “oferece uma força de consolação no sofrimento”.
 Esta Encíclica oferece um alimento substancioso para dilatar a crença profunda naqueles que buscam chegar um dia à Casa do Pai na eternidade beatífica. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

DESAPEGO DOS BENS TERRENOS

DESAPEGO DOS BENS TERRENOS
Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Notável o alerta de Jesus: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância” (Lc 12,16). O cupidez é uma espécie de idolatria (Gl 3,5). A avidez, a ambição desmedida, querer bens materiais com imoderação está condenado veementemente nas diretrizes do Mestre divino.  Cumpre, segundo Jesus, isto sim, ser “rico diante de Deus”. As coisas terrenas devem estar a serviço da realização pessoal sem qualquer excesso condenável. Este afasta o ser racional de Deus e ocasiona a ruína espiritual. São Paulo foi taxativo: “Nem os idólatras, nem os ambiciosos herdarão o reino de Deus” (1 Cor 6,10). Acumulação de riquezas sem dar ao dinheiro uma aplicação transcendental é estabelecer um empecilho na caminhada para a felicidade eterna. Cristo aconselhou a ajuntar um tesouro no céu (Mt 6,19) e acrescentou: “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração” (Mt 6,21). Ensinou também que a vida de um homem não depende de seus bens (Lc 12,15). Todo cuidado então é pouco para não cair nas armadilhas do demônio só pensando em ajuntar valores materiais o que é inclusive fonte de inúmeros outros pecados atinentes à justiça. É que o dinheiro pode ser um servo útil e até necessário, mas é possível também se tornar um senhor implacável. O que é uma bênção divina não deve ser transformado em maldição. A advertência de Jesus é clara: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A cobiça se torna para muitos um ditador inexorável, afastando o ser racional de seu Senhor verdadeiro. No Antigo Testamento inúmeros os personagens que se entregaram a crimes nefandos para possuir mais e Cristo por meio de sábios ensinamentos orientou sabiamente a seus seguidores. Na hora da morte cada um se sentirá feliz não pela opulência obtida, mas pelas virtudes praticadas. Muitos vivem como se nunca tivessem que deixar este mundo. O atual Papa tomou o nome de Francisco exatamente para lembrar o desapego do Santo de Assis. Jesus havia ensinado: “Procurai antes de tudo o reino e a justiça de Deus e todas as coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt 6,33). Embora as coisas materiais sejam até necessárias para a subsistência elas não devem impedir o progresso espiritual do cristão. A confiança do autêntico discípulo de Cristo o leva a confiar na Providência de Deus, fazendo, contudo, o que estiver a seu alcance para que nada lhe falte para seu sustento e o alimento dos que dependem de seu trabalho. Orientando durante mais de cinqüenta anos grupos jovens o autor desta reflexão sempre incentivou a serem eles ótimos profissionais para poderem sustentar a si e a sua família. Quando algum jovem idealista vem dizer que está preocupado por pensar em ganhar dinheiro na sua profissão, o que é dito é o seguinte “Parabéns, jovem, pois com isto você fará um bem imenso a sua casa, a seus filhos nada deixando lhes faltar, mas não se esqueça nunca de ajudar os mais necessitados, os pobres que nada possuem”. Se algum deles, por exemplo, quer ser médico ou advogado, o conselho é este: “Não deixe de atender de graça, na medida do possível, os indigentes, porque grande será a recompensa lá no céu”. São advertidos, porém, de que, quando o dinheiro fala mais alto, a caridade se estiola. A mais triste condição é a daquele que tendo recursos passa estupidamente por necessidades só para se aumentar o que possui.  A arguição de Jesus é esta: “Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?” (Lc 12,20). Tudo na vida, porém, exige o meio termo e ai também daqueles que gastam a torto e a direito levados pela sociedade de consumo. É que o dinheiro é difícil de entrar, mas muito fácil para sair. A previdência não vai nunca contra a providência de Deus. O ideal é ter sem reter o que serve para ajudar a si e aos outros. Então, sim, o cristão depara em Deus sua única riqueza e lhe é grato pelo que possui sem ambicionar o desnecessário e supérfluo. Foi a ambição que fez de um Apóstolo um traidor e Judas vendeu Jesus por trinta peças de prata. Entretanto, se o amor e a fé tomam conta do coração, varrida a ganância, o próprio bem material ajuda a chegar ao céu. Fruto de um trabalho honesto, abrindo as portas da caridade, à ajuda às obras sociais da Igreja, ao culto divino, o que cada um ganha pode render para o tempo e para a eternidade. O principal é, portanto, o desapego das riquezas e o desejo de “ser rico diante de Deus”. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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terça-feira, 30 de julho de 2013

PERSEVERANÇA E CONFIANÇA NA ORAÇÃO

PERSEVERANÇA E CONFIANÇA NA ORAÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
 Jesus Cristo ministrou a seus discípulos uma aula sobre a oração. (Lc 11,1-13). Na verdade, ele atendeu a um pedido: “Senhor, ensina-nos a orar”. A maneira como os discípulos viam Jesus absorvido na prece, sem dúvida, suscitou neles o secreto desejo de ter parte na vida profunda do Mestre. Queriam, eles também, gozar do verdadeiro repouso do contato com Deus. Aspiravam a consolação para seu coração. Desejavam luz para suas vidas. Admirável a pedagogia de Cristo. Ofereceu uma fórmula que seria repetida através dos tempos e receberia o título de “oração dominical”, porque ensinada pelo próprio Senhor. Duas partes bem distintas, ou seja, a glorificação de Deus e a maneira de ser daquele que crê. O ser humano precisa do pão material e espiritual para poder subsistir; deve perdoar, imitando o Ser Supremo e nunca sucumbir às tentações. Em seguida, como se fosse um comunicador do terceiro milênio, é Cristo admiravelmente suscinto, pois sintetiza seu ensinamento na perseverança e na confiança. Isto através de uma parábola didaticamente exposta na qual estas duas condições, que devem caracterizar o orante, claramente rebrilham. Pedir, procurar, bater insistentemente na porta daquele que é o Todo-poderoso Senhor. Afiança Jesus,  então, que o objetivo será colimado, pois “todo aquele que pede, recebe e quem procura, encontra; e ao que bate, abrir-se-á a porta”. Embora Ele centre a atenção na súplica, cumpre se ater que o fiel se dirige não a um Deus inteiramente alheio à sua criatura, mas a um Pai extremoso que deve ser sempre o referencial primordial de autêntica prece. Já no Antigo Testamento, ao invocar o auxilio divino nos assaltos dos inimigos assim se expressa o salmista: “Elevai-vos, ó Deus, acima dos céus, e em toda a terra derramai a vossa glória!” (Sl 57,6).  É de todo interesse para o ser humano, criado, contingente, que a glorificação divina seja uma realidade fulgente, pois somente dentro de seu reino é que existe paz, felicidade. Longe dele apenas trevas e ignomínia. Deste modo, os pedidos têm como objetivo a libertação daquele que se abre ao mistério mesmo da pessoa do Pai. Dá-se então uma verdadeira iniciação à relação íntima entre o homem e Deus, o finito e o Infinito, o que está no tempo e Aquele que é Eterno. Em virtude, porém, da repetição, muitas vezes mecânica do início desta prece ensinada pelo Redentor, não se passa a viver no interior desta afinidade filial e não se dá a devida atenção às necessidades essenciais para as quais incidem os pedidos seguintes. Perfeito, porém, o ensinamento de Cristo, pois quem entende o sentido profundo da prece não se dirige a um Ente abstrato, nem anda em busca de interesses pessoais. Quer o perdão divino, deseja viver no amor que perdoa sempre e quer estar longe, bem longe, de tudo que desagrada ao seu Senhor, porque longe dele não há ventura possível. Então, ao se dirigir ao Todo-poderoso a alma do orante deve querer se adequar à vontade divina e que seus pedidos  estão envolvidos inteiramente pela reversibilidade do amor. Desta maneira, “o Pai celeste dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem”. Unido a Deus que é Pai e aos irmãos a quem se perdoa, surge, de fato, o lugar interior do encontro de cada um com o Espírito e a alteridade se faz unidade. O modo como Jesus ensinou a orar permite o fiel entrar com tudo que ele é e por tudo que ele faz na sinergia com o ato criador e iluminador da Sabedoria divina. Aquele que se deixa possuir pelo amor a Deus e ao próximo tudo alcança de Deus, porque a obra mesma do Espírito Santo se exerce por excelência na efusão do perdão e da vitória sobre as tentações do maligno. Como estas fazem parte do combate e o vitorioso é que será coroado, cumpre rezar com perseverança e confiança, porque a tentação é uma passagem pela crise, uma experiência de julgamento e nunca se pode deixar que o inimigo cante vitória. Deste modo o que se pede a Deus é que a  força de gravitação ou de atração da ação do tentador seja transmutada em força ascensional, devido ao dinamismo que se obtém da graça de Deus que deve ser assim continuamente solicitada e com aquela certeza que tinha São Paulo: “Eu tudo posso naquele que é a minha fortaleza” (Fp 4,13). Deste modo, a oração que Jesus ensinou, levando conscientemente, a entrar no mistério da filiação divina e na realidade das verdadeiras necessidades humanas coloca o fiel em condições de tudo pedir a Deus e alcançar, porque todo pedido estará enquadrado dentro do ensinamento do Mestre divino. Daí a necessidade óbvia da perserverança e da confiança na oração que se torna a chave que abre todos os tesouros do Pai celeste. É assim que a prece dá ao instante terrestre seu peso de  um valor sem medidas. A perseverança e a confiança  não atravessam o tempo, mas faz o tempo parar por assim dizer perante a eternidade do Ser Supremo que tudo concede àqueles que sabe pedir como Jesus ensinou. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A PRECE QUE JESUS ENSINOU

A PRECE QUE JESUS ENSINOU
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Um dos discípulos pediu a Jesus que os ensinsse a rezar [Lc 11,1-13], O Mestre imediatamente atendeu o pedido. Na prece ensinada por Ele se percebe claramente que Deus quer ser considerado como Pai amoroso. O homem deve assim se dirigir filialmente a Ele. Gesto grandioso do Ser Supremo, Ele o Absoluto, a considerar como filhos as suas criaturas finitas, limitadas. Diante de tamanha generosidade necessário assim se faz pedir que seu nome seja santificado nas atividades humanas. Isto significa a honra que Lhe deve chegar  como fruto do reconhecimento de sua grandeza. Trata-se de sua realidade divina fulgindo continuamente nos atos humanos.  Os homens santificam o nome do Pai como o santificam os anjos no mais alto dos céus. Deus deve, portanto, ter o seu nome glorificado na terra pelos seguidores de Jesus os quais ostentam na sua existência a luminosidade do Todo-poderoso Senhor. Com efeito, vendo as boas obras dos que crêem, outros podem render honras ao Pai celeste [Mt 5,16]. Seu reino precisa, de fato, se estender por toda parte, eis o que se suplica em seguida. .O reinado do Pai consiste no ato pelo qual Ele atua no mundo e pelo qual Ele o governa. A providencia paterna inegável precisa ser reconhecida e que suba  junto de seu trono todo o louvor, quer nos momentos favoráveis, quer nas horas dolorosas. Entende-se, desta maneira, que o reino de Deus inclui uma escolha livre de cada um que necessita compreender os planos salvadores da sabedoria deste Pai. Disto resulta a conformidade com o projeto divino individual e o atinente ao processo universal. Vivem-se deste modo as oito beatitudes proclamadas por Cristo no sermão da montanha. Tal atitude conduz a um abandono total aos desígnios celestes, Um SIM absoluto que representa a entrega cabal a este Pai, sapiente e desejoso da felicidade dos que nele confiam. Que o reino de Deus venha e que todos os homens e mulheres acolham suas diretrizes em suas vidas. Assim nesta terra se realiza o acatamento afirmador de um Bem eterno  a ser possuído em plenitude na Jerusalém do alto. Trata-se de uma entrega filial ao Absoluto, acreditando-se na Sua misericórdia. Isto envolve a profundeza da alma imersa no seu Criador. Esta passa a contemplar por toda parte os sinais de Deus, apesar dos riscos da caminhada terrestre. O batizado se revela cada vez mais maleável perante as mensagens paternas. Reconhece sua insuficiência e vai se transfigurando num filho que acata e respeita o Pai celeste. Percebe-se Sua assistência ininterrupta. Ficam afastados o desespero, a fobia, a inquietude. Passam a imperar a serenidade, a imperturbabilidade. Entretanto, como tudo isto depende de coragem, combate por causa da fraqueza humana, se suplica o alimento cotidiano para o corpo e sobretudo  para a alma. Este vem a ser a Palavra de Deus que ilumina a mente e a Eucaristia que fortifica a vontade. Cumpre, contudo, pedir anistia pelos pecados. Esta clemência divina, entretanto, se acha condicionada ao perdão  global dado ao próximo. Pedagogo inigualável, Jesus mostra também ser preciso suplicar ao Pai que livre seu filho dos embustes do demônio e de suas invectivas. Por tudo isto cumpre se evite rezar maquinalmente a prece que Cristo ensinou. O significado de cada termo precisa ser penetrado para se obter o que se suplica ao Pai celeste. Por tudo isto quem profere atenciosamente o Pai Nosso recebe uma verdadeira torrente de luzes. Esta prece mede a autenticidade e a legitimidade  da suplica pessoal e litúrgica do batizado. Leva ao verdadeiro dialogo com Deus. Envolve silenciosamente na união com Cristo, O ser humano se repleta de luzes e se percebe envolto na paz e na alegria dos mistérios insondáveis do Pai celeste.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

terça-feira, 2 de julho de 2013

COMO ESCUTAR A PALAVRA DE DEU´S

02 COMO ESCUTAR A PALAVRA DE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Segundo Santo Agostinho, “escutar a palavra de Deus é como se alimentar de Cristo”. Ele explicava que há duas mesas na Igreja: a mesa da Eucaristia e a mesa da Palavra. Com isto ele patenteava que a Palavra de Deus é um alimento espiritual. Quem bem se nutria desta refeição santificadora era Maria, a irmã de Marta e Lázaro, elogiada por Jesus pelo fato de O escutar atentamente, deixando todos os outros afazeres (Lc 10,38-42). Aliás, o próprio Cristo aconselharia: “Procurai, antes de tudo o reino de Deus e tudo mais vos será dado em acréscimo” (Mt 6,33). Portanto, estar atento à Palavra constitui a melhor parte da vida do batizado. Ao deixar Deus entrar na mente pela sua Palavra, meditando-a profundamente e fazendo dela a força e o sustentáculo de cada instante o cristão age menos pela emoção, mas solidificado em profundas raízes espirituais. Isto porque há então uma conexão admirável dos esforços humanos com o pensamento divino e se colhe um fruto tanto mais saboroso, quanto maior for a docilidade em se acatar as inspirações celestes advindas da Palavra. A grande questão é saber discernir a voz de Deus da voz humana. Ele fala a cada um de maneira diferente. Faz ressoar a sua Palavra por meio de outras pessoas; por meio dos acontecimentos tão repletos dos gestos divinos; das provações de cada hora; mas, sobretudo, é claro, pela Escritura Sagrada ouvida na Liturgia que é o lugar privilegiado no qual Deus se faz ouvir; e, ainda, na conversa pessoal com ele numa leitura bíblica individual. Tanto isto é verdade que a mesma passagem da Bíblia cada vez que é refletida traz novas mensagens para a alma de acordo com suas necessidades naquele momento. O citado Santo Agostinho lia e relia muitas vezes certos trechos da Bíblia para que pudesse entender o que Deus lhe queria comunicar. Quem assim procede percebe a reciprocidade da parte do Espírito Santo que exige uma persistência em querer discernir sua luz que ilumina, guia e salva. Desenvolve-se desta maneira uma amizade pessoal com Deus, a capacidade de perceber as minúcias de seus recados, que, muitas vezes, parecem interpelações que cumpre sejam analisadas. Elas dizem a respeito a nós mesmos, aos que estão em nosso derredor e à nossa relação com Ele. Por tudo isto, cumpre que se viva na presença de Deus que quer falar a cada um a cada instante num colóquio repleto de luzes, mas tantas vezes exigente, provocador, requerendo sempre um esforço maior em busca da própria santificação e da do próximo. Com efeito, o ato de escutar a Palavra que gera a fé é não só a escuta da palavra escrita, mas também a escuta da palavra interior pronunciada pelo Espírito Santo no íntimo da consciência. Isto supõe evidentemente empenho existencial que envolva todas as potencialidades humanas, uma vez que é Deus que quer agir em cada um e com cada um. No Evangelho Cristo compara a sua palavra a uma semente que produz mais ou menos abundantemente de acordo com a qualidade do terreno. Esta palavra segundo a Carta aos Hebreus é como a “espada de dois gumes” que “penetra até dividir alma e espírito, junturas e medulas. Ela julga as disposições e as intenções do coração” (Hb 4,12). Eis por que sempre que ouvida com humildade ela é transformante, operando uma cristificação radical. Donde ser necessária sempre a atitude de Maria que disse ao Anjo: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). O efeito da Palavra divina depende, assim, do empenho de cada um sempre aberto ao diálogo com o Criador. É preciso deixar que a Palavra se apodere inteiramente do coração que vai assim ao encontro com as realidades divinas, ou seja, ao diálogo inefável da dileção profunda na qual se responde sinceramente a Deus que fala e que exige uma atitude contemplativa como ocorria com Maria, a irmã de Marta.  * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.




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LIÇÕES DA PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO

LIÇÕES DA PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O bom Samaritano da parábola de Jesus agiu de uma maneira eficiente : “Acercando-se do que estava caído no caminho e vendo as feridas, derramou nelas o azeite e vinho; o fez montar na sua própria  cavalgadura, o levou a uma estalagem, e teve cuidado dele. Pela manhã tirou dois dinheiros, e deu-os ao estalajadeiro, e disse-lhe: “Tem cuidado dele, e quanto gastares a mais eu to satisfarei quando voltar”(Lc 10,34-35). Ele tirou do que levava consigo. Não receou os assaltantes que haviam massacrado  aquela vítima, os quais poderiam estar por perto armando outra emboscada. Não se preocupou, de imediato, com seus negócios. Deixou de lado sua comodidade. Gastou de seu dinheiro. Assim é a caridade efetiva, prática, disponível. Não admite omissões nem retardamentos. Deve se estender a todos os seres humanos sem racismos, sem exclusões, sem discriminações. Como é impossível estar com todas as pessoas e em todos os lugares, este amor  pode e deve se manifestar também em primeira instância através das preces pelos enfermos, pela conversão dos pecadores, pelos agonizantes, pelas almas que padecem no purgatório. Em segundo lugar, supõe prontidão real, total disponibilidade,  para ir ao encontro das necessidades alheias seja de quem for, se assim as circunstâncias o exigirem, como foi o caso do bom Samaritano. Além disto, a misericórdia pregada por Cristo nas suas pregações inclui também o perdão das ofensas  e isto deve se estender universalmente a todos e abranger todo tipo de injúria. Jesus em outra ocasião foi bem claro: “Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo, e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: Amai vossos inimigos, fazei o bem a quem vos odeia, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e faz cair a chuva sobre justos e injustos” ( Mt 5,43-45). É possível que pelas estradas da vida se encontrem aqueles que procederam injustamente, com traições, difamações, ódio, perseguições. Ótimo campo para a caridade universal que tudo anistia. Não se pode justificar nunca o erro, mas se desculpa sempre aquele que errou. É deste modo que Deus procede com cada um de nós, pois diz o salmista: “Se conservares a lembrança dos delitos, ó Senhor, quem, Senhor, poderá subsistir?” (Sl 130 (129),3). Esta universalidade da caridade é própria, exclusiva do cristianismo. Os filósofos e demais fundadores de religião não vislumbraram esta extraordinária totalidade do amor, com dimensões tão luminosas. A caridade sendo sobrenatural e desinteressada ela tem  como nota esplendente ser sincera. Isto significa que o amor deve jorrar do coração e não dos lábios.  O mundo vive da comédia, da farsa, da dobrez, do fingimento, da insinceridade, da dissimulação, da perfídia. Não assim o fiel seguidor de Jesus Cristo, pois seus sentimentos correspondem às palavras e gestos. Para o verdadeiro cristão os lábios são sempre intérpretes do coração. Aos  Romanos aconselhava Paulo: “O amor seja sem fingimento” (Rm12,9). É que a dileção evangélica brota do íntimo do ser, é uma expansão da própria alma. Consiste a caridade antes de tudo e sobretudo de uma disposição da alma. Se é superficial, epidérmica, artificial não é autêntica e verdadeira. O epígono do Filho de Deus não vive de aparências nem alimenta as usinas da ilusão ludibriando diabolicamente os outros. Para o cristão verdadeiro a sinceridade desabrocha como uma flor, exalando perfume que enleva o próximo e embrandece os ânimos mais impetuosos. É apanágio da caridade ser também efetiva , ou seja, ela deve se traduzir em obras lucipotentes com foram os gestos do bom Samaritano. Na sua primeira carta São João afirmou: “O que tiver bens deste mundo, vendo seu irmão passar necessidade e lhe cerra suas entranhas, como mora nele a caridade de Deus? Filhinhos, amemos não com palavras ou com língua , se com obra e verdade”(I Jo 3,17-18).  De fato, apiedar-se dos sofrimentos alheios é bom, mas melhor ainda é aliviá-los. Cumpre, como ensina São Paulo, “chorar com os que choram” (Rm 12,15), e isto já é uma virtude, mas é preciso ir além, secando as fontes de tais lágrimas. A caridade é efetiva, ativa, produtiva, generosa, pródiga, munificente, magnânima. Não é negativa, é sumamente positiva, pois leva a agir. Passa dos sentimentos e afetos para atos concretos; do coração para os lábios e destes para as mãos que se fazem dadivosas, obsequiosas, doadoras, mimoseadoras. São Tiago declarou: “Se o irmão ou a irmã está desnudos e carecem de alimento cotidiano e algum de vós lhes diz: “Ide em paz,  aquecei-vos e saciai-vos, porém não lhes dando as coisas necessárias ao corpo, de que lhes aproveitará?” (Tg 2,15-17). Grossa trapaça, grande logro, para não se dizer escárnio imperdoável, zombaria condenável. Ao refletir sobre a Parábola do bom Samaritano, cumpre mentalizar todas estas características do autêntico amor ao próximo .* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.