terça-feira, 2 de julho de 2013

REZAR PELAS VOCAÇÕES

REZAR PELAS VOCAÇÕES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A determinação de Jesus foi clara: “Pedi ao dono da messe que mande operários para a colheita”  (Lc 10,2). Uma questão, porém, se pode levantar: “Porque pedir pelas vocações e, sobretudo, pelas vocações sacerdotais”? Há muitos cristãos que julgam que isto está ultrapassado, julgando, com certa arrogância, que isto é problema de Deus. Outros, se tornam céticos, declarando que após tantos anos de súplicas poucos são os candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa em geral. Concluem que se trata de uma prece sem sentido. Quem aprofunda, contudo, a reflexão sobre a ordem dada por Cristo logo percebe que não se trata de uma mera opção orar para que numerosas sejam as vocações. Quem esclarece esta questão de maneira muito sábia é Santo Agostinho. Na sua Carta a Proba, notável dama romana,  membro da ilustre família dos Probos, ele mostra que Deus sabe o que nos é necessário antes que o peçamos a Ele. Portanto, Ele não quer ser informado do nosso desejo, que Ele não pode, evidentemente, ignorar. O que Ele visa é que nosso anseio se excite pela prece e nós sejamos capazes de acolher o que Ele se dispõe a nos conceder. Em outras palavras, Deus deseja que nos mergulhemos em nosso pedido e recebamos verdadeiramente como um dom o que Ele vai outorgar. Nem sempre se reflete naquilo que São Paulo escreveu aos Efésios, afirmando que Deus foi quem “a alguns constituiu apóstolos; a outros profetas; a outros evangelistas e a outros  pastores e doutores, para tornar os santos aptos a cumprirem o seu ministério, para a edificação do corpo de Cristo, até chegarmos todos juntamente à unidade da fé,  ao pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, até alcançarmos a medida da plena estatura de Cristo” (Ef 4,11-13). Hoje, felizmente, se multiplicam aqueles que se dizem jovens leigos consagrados,  irradiando o Evangelho pelo exemplo e pelas orações os quais são o sustentáculo daqueles que lutam na linha de frente para que as almas se salvem vivendo num engajamento total  como acontece com os padres diocesanos ou religiosos ou com as Religiosas das mais diversas Congregações. Tudo isto é um dom de Deus que deve ser insistentemente solicitado. Entretanto a existência dos que são ordenados sacerdotes ou ingressam na vida inteiramente consagrada se trata de uma aventura  espiritual a ser sustentada pela prece dentro da comunhão dos santos. Mais as comunidades cristãs se apaixonam por Cristo, por seu Evangelho e pela urgência da evangelização, mais tais comunidades se deixam possuir pela audácia, pela força e pela convicção de pedir a Deus operários para sua messe. Que se multipliquem os servidores da graça de Deus é um santo, necessário e constante augúrio dos que verdadeiramente desejam que o Reino do Senhor se estenda por toda parte. É necessário que se entre na visão espiritual e evangélica da Igreja. É ptrvido, além de tudo isto, deter atenção ao que Jesus disse  aos setenta e dois discípulos; “Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos”. Cumpre então pensar também que a vocação cristão é a vocação de todos os batizados e, se estes forem autênticos cristãos o número de lobos diminuirá e eles mesmos os bons discípulos de Cristo ajudarão na expansão do Reino de Deus, mesmo porque todo batizado participa do múnus sacerdotal do Filho de Deus. Não há, deste modo, um exclusivismo de preces apenas para os padres, os religiosos e as religiosas. Estes últimos têm um chamado especial, que não elimina a ação apostólica dos demais fiéis. Quanto mais todo cristão penetra fundo no mistério da morte e da ressurreição de Jesus tanto melhor fica o mundo. Deste modo, a oração pelas vocações sacerdotais e religiosas deve incluir também a prece para que haja sempre cristãos autênticos que os auxiliem na implantação do bem nesta terra. São os diversos ministérios na Igreja: o celibato e o casamento, o ministério leigo e o ministério ordenado, os institutos seculares e  os institutos religiosos de vida contemplativa ou de vida apostólica. Eis porque se deve rezar também pela conversão dos que se dizem católicos e não o são na prática. Se todos os católicos fossem realmente fiéis o mundo seria muito diferente. É que na Igreja a vocação de uns sustenta a vocação dos outros. Eis a razão pela qual a prece pelas vocações  é para que a existência na graça  divina em plenitude seja vivida  por todos os cristãos. Aí entra, então, decisivamente a prece pelas vocações sacerdotais e religiosas para que haja aqueles que animam as comunidades e se tornam o fermento na massa, segundo a bela comparação de Cristo. A resposta ao apelo de Jesus deve abrir, alargar, aprofundar a vocação especial daqueles que se consagram a Deus de modo especial, graças às preces recomendadas por Cristo no Evangelho. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



.










domingo, 30 de junho de 2013

O MESTRE DA ORAÇÃO

O MESTRE DA ORAÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na sua passagem por esta terra Jesus não apenas ensinou a prece do “Pai Nosso”, mas também, através de seu exemplo, desvendou como deve se comportar o orante. Embora vivesse continuamente unido ao Pai, enquanto homem, os locais marcantes para ele entrar em oração são sumamente sugestivos. Retirava-se muitas vezes longe do bulício dos homens para um ambiente deserto, o qual facilita a contemplação, uma aplicação demorada e absorta do espírito numa sublime tertúlia. Outras vezes escalava o monte para orar, sublinhando que a oração é mesmo uma elevação do ser humano rumo ao Ser Supremo. Preferiu em diversas ocasiões a calada da noite que propicia tranquilidade, imperturbabilidade, para a união com o Pai.  No Horto das Oliveiras e no alto de uma Cruz sua prece, que se transformou num sacrifício vivo, regenerou a humanidade com clamores profundamente significativos.  Eis a razão pela qual o Papa Bento XVI sabiamente ensinou: “Também em nossa oração nós devemos aprender, sempre mais, a entrar nessa história de salvação da qual Jesus é o ápice, renovar na presença de Deus a nossa decisão pessoal de nos abrimos à sua vontade, pedir a Ele a força de conformar a nossa vontade à sua, em toda a nossa vida, em obediência ao seu projeto de amor por nós”. É que orar não significa pronunciar palavras, mas vivenciar as palavras. Jesus ensinou um modo como se deve orar, ou seja, transformar a vida em prece, tudo conformando aos desígnios do Pai. A prece então metamorfoseia inteiramente a existência do seu discípulo, a transfigura. Mais do que pensar em Deus, é preciso ter a mente repleta de idéias sobre Deus. Esta é a audácia conferida pelo Mestre divino a quem tem fé. Pode se dirigir a Alguém que é o Criador increado, o infinitamente grande, mas que devota a quem foi criado à sua imagem e semelhança um amor paternal. Eis porque uma das características da oração é a simplicidade. Cumpre um elã do coração, um simples olhar para o Céu, um clamor de reconhecimento e de amor seja no momento de angústia, seja no instante de júbilo. Isto resulta de uma confiança inabalável no Todo-poderoso Senhor. Vale sempre, porém, a grande norma teológica: “É rezando que se aprende a rezar”. Então se poderá chegar a encontrar Deus coração a coração. Prece intensa, colocando-se entre parêntesis o que é material para só se concentrar na Fonte da Luz. Cumpre receber esta luminosidade em plenitude. Nesta luz o apelo de Deus encontra a resposta do homem e o clamor humano encontra o coração repleto de compaixão de um Pai amoroso. Antes da vinda de Jesus a esta terra a prece do homem muitas vezes estava envolta em certa penumbra. Em Jesus se cumpriu totalmente a promessa salvífica de maneira irrevocável e definitiva. O Pai celeste não apenas atende as preces, mas dá a cada um de seus filhos o melhor, pois o grande tesouro que se recebe ao se dirigir a Ele é Ele mesmo. A oração introduz assim na comunhão com o Pai. Orar é estar na presença do Deus três vezes santo, permitindo que Ele venha habitar no seu filho para o deificar. À medida que reza quem tem fé vai se purificando e também se tornando um mediador autêntico do amor de Deus junto dos irmãos e de toda a humanidade.  Esta comunhão na vida divina é possível graças ao batismo no qual se recebe o Espírito Santo e o cristão se torna um com Cristo. Com ele se pode repetir “Abba”, pois Deus é, de fato, Pai. Entra-se assim no coração de um Deus que é misericórdia. Tal foi a grande revelação que Jesus trouxe para a humanidade. No Antigo Testamento se dirige a Deus, se clama por Deus. No Alcorão se diz que Deus é grande, Deus é Deus. Cristo mostra que este Deus é um Pai que olha cada um como filho predileto. Daí a necessidade de se entrar filialmente em sintonia com Ele. Disto resulta uma segurança íntima porque Sua ternura é infinita. Um amor sem fim supera as fraquezas humanas, todos os erros, dado que o perdão é continuamente possível lá onde reinar a sinceridade de um firme arrependimento. A Parábola do Filho Pródigo retrata bem o que se dá então. A retribuição que este Pai espera é o acolhimento de sua bondade. Foi isto que Cristo ensinou ao se tornar o Mestre da oração. É preciso imitar Maria, a irmã de Marta e saber sempre escutar Jesus no instante de uma prece fervorosa. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O POVO TEM RAZÃO

O POVO TEM RAZÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*, da Academia Mineira de Letras.
Diante das manifestações populares por todo o Brasil algumas medidas tomadas pelos governantes mostram claramente que o povo tem razão. Os jornais publicaram agora que o Governador de São Paulo cortou gastos de R$ 350 milhões, decidindo vender 4 mil carros e helicópteros e fundir autarquias. O senador Aécio.Neves, pediu à presidente diminuísse o número de ministérios e que cortasse pela metade o número de cargos comissionados na União, hoje cerca de 22 mil!. Dilma também é cobrada a explicar os gastos astronômicos com suas viagens no Brasil e no exterior. A repercussão na imprensa mundial está também ajudando e muito a que os políticos tomem consciência de suas responsabilidades na administração do dinheiro público. O Brasil é um dos países do mundo no qual os impostos são altíssimos e o povo não recebe em troca os serviços básicos a que tem direito.  Tonitruante é a propaganda governamental de combate à pobreza no Brasil. No entanto, quem procura se eximir dos sofismas, percebe que o alvo não é atingido, exatamente porque o cerne da questão não é focalizado. O grande problema brasileiro é a desigualdade social. A tese defendida por cientistas sociais é a de que o Brasil não carece de recursos, mas estes é que não são direcionados sabiamente para erradicar o pauperismo que reina nesta nação. Daí ser inócua a luta para que haja bem-estar para todos os patrícios. Adite-se que, segundo os jornais, a Bolsa Família tem problemas em 90% de cidades auditadas! A desigualdade na distribuição da renda vem também do desestímulo para um trabalho eficiente e com renda suficiente para o sustento de uma família. Poucas são as oportunidades de inclusão econômica e social do que resulta que o cidadão que nasceu pobre, vai morrer na penúria. Donde a necessidade da promoção do investimento social dirigido à educação em todos os níveis, nutrição, saúde, habitação, abastecimento d’água potável e saneamento, assim como a projetos de desenvolvimento de infra-estrutura com uso intensivo de mão-de-obra, a fim de reduzir a pobreza. Triste a declaração de um antigo jogador de futebol de que uma Copa do Mundo não se faz com hospitais. O resultado está aí: gastos fabulosos com estádios que vão ficar às moscas em muitas cidades, inclusive em Brasília. É triste, além disto, o que se observa nas favelas das grandes Metrópoles brasileiras e na periferia das demais urbes e vilarejos. Por tudo isto, mecanismos financeiros inovadores de caráter multilateral são instrumentos essenciais para alcançar a erradicação da pobreza. O dispêndio não adequado dos gastos públicos, se dirigidos aos setores sociais, à infra-estrutura básica, sem dúvida, contribuem eficazmente para melhorar a situação dos que se acham mergulhados numa inditosa situação. Que as manifestações ordeiras continuem, pois mostram que o povo tem razão!








quinta-feira, 27 de junho de 2013

A ALMA DA ORAÇÃO

A ALMA DA ORAÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Numa de suas admiráveis alocuções o Papa Bento XVI mostrou que, não obstante o secularismo que impera neste início de milênio, “vemos muitos sinais que nos indicam um despertar do sentido religioso, uma redescoberta da importância de Deus para a vida do homem, uma exigência de espiritualidade, de superar uma visão puramente horizontal, material da vida humana”. De fato, se percebe de um lado a busca do Ser Supremo por parte de muitos que se desligaram das realidades eternas, e, mesmo entre os cristãos, o anseio de um contato mais profundo com Deus. Multiplicam-se os “Grupos de Oração”. Nota-se uma participação mais fervorosa nas Missas. Contemplam-se nas Igrejas durante o dia pessoas diante dos Sacrários numa postura reflexiva. Em muitas casas voltaram a ter espaços oratórios que propiciam momentos de uma prece ardente. Por tudo isto nada melhor do que uma reflexão sobre a alma da prece, ou seja, desta tensão para o Criador, desta necessidade de se relacionar com o Ente Superior do qual ontologicamente cada um em tudo depende. Prece que indica a passagem para um mundo no qual tudo é consagrado à divindade. Por isto a oração é a fonte inesgotável que oferece uma luminosidade que regenera, purifica, salva. É como uma mina abundante repleta de um sem número de veios com incomparáveis riquezas espirituais. Fonte da água viva a qual sacia a sede de infinito que está no mais íntimo do ser humano. É que no coração da oração está a Presença do Criador de tudo e, deste modo, a prece desaltera, reidrata a alma daquele que crê. Ela oferece todos os bens de ordem sobrenatural. Trata-se daquela água que jorra para a vida eterna de que Jesus falou à Samaritana (Jo 4,14). A oração é o instrumento a serviço da renovação contínua desta fonte. São João da Cruz na sua poesia sobre a “Noite Obscura” assim se expressou: “Eu não percebia nada para me guiar senão a luz que brilhava no meu coração”. A alma marcha na obscuridade clarificada pela oração a qual é, no dizer de Santo Tomás de Aquino, “a expressão do desejo que o homem tem de Deus”. Este Deus é a luz que ilumina o ser humano. O fogo do amor divino alumia o orante. Este então se distancia sempre mais das trevas caliginosas do pecado. É, entretanto, importante que o cristão esteja certo de que o entretenimento com Deus é aprazível e acessível a todos que sinceramente O procuram. Segundo Santo Afonso de Ligório se deve falar com Deus sobre todas as preocupações, desabafando tudo com Ele que é o mais fiel e poderoso dos amigos. Embora, de fato, Ele saiba de tudo que cada um necessita, quer que lhe exponhamos nossas apreensões para que o ser racional possa atingir objetivamente aquilo de que precisa. Ele socorrerá dando o que for mais importante para a salvação individual. Se tal é o melhor para sua criatura, Ele fará com que Sua graça a sustente nos momentos de provações, dando neste caso muita paciência para tudo suportar como meio de santificação. Aliás, uma excelente prece é dizer a Ele: “Tua graça me basta, é nela que eu confio”! Tal súplica inclui em si uma total aceitação da Sua vontade santíssima. O salmista recomenda: “Descobre teu caminho ao Senhor” (Sl 36,5) e dá o motivo: “Ele sara os corações quebrantados e pensa-lhes as feridas” (Sl 146,3). Este foi o conselho que o pai deu a seu filho Tobias: “Pede a Ele que dirija teus passos e que todos os teus intentos estejam firmes nele” (Tb 4,20). O referido Santo Afonso ensina: “Na aflição, na doença, na tentação, nas afrontas do próximo e em outra prova qualquer, rapidamente, recorrei ao Senhor para que Sua mão vos sustente”. Tem razão o grande santo, pois Jesus afirmou: "Vinde a mim vós todos que estais fatigados e sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e assim encontrareis conforto para as vossas almas, pois o meu jugo é suave, e o meu peso é leve” (Mt 11,2830). “Bento XVI explica que neste olhar para Deus, nesse dirigir-se para “além” se encontra a essência da oração como experiência de uma realidade que supera o sensível e o contingente”. De fato, se dá então o que falou Davi: “O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem eu temerei”? (Sl 26,1) [...] "A vós Senhor recorro; não seja eu jamais confundido; livrai-me na vossa justiça”! (Sl 30,1). Tudo isto supõe o trinômio: familiaridade, confiança e respeito, ou seja, entregar a Ele o problema que aflige e  deixar a Ele a solução. O erro de muitos orantes é quererem manipular o Senhor Todo-Poderoso, fazendo-lhe exigências descabidas, ousando assim ostentar uma soberba que é a negação mesma da prece filial. Quem, porém, sabe orar com facilidade passará então da súplica para uma prece contemplativa, meditando diante de Deus as grandes verdades que Ele revelou contida nas Escrituras e nisto encontra um valioso alimento espiritual. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

quarta-feira, 26 de junho de 2013

PERSEVERANÇA E CONFIANÇA NA ORAÇÃO

PERSEVERANÇA E CONFIANÇA NA ORAÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
 Jesus Cristo ministrou a seus discípulos uma aula sobre a oração. (Lc 11,1-13). Na verdade, ele atendeu a um pedido: “Senhor, ensina-nos a orar”. A maneira como os discípulos viam Jesus absorvido na prece, sem dúvida, suscitou neles o secreto desejo de ter parte na vida profunda do Mestre. Queriam, eles também, gozar do verdadeiro repouso do contato com Deus. Aspiravam a consolação para seu coração. Desejavam luz para suas vidas. Admirável a pedagogia de Cristo. Ofereceu uma fórmula que seria repetida através dos tempos e receberia o título de “oração dominical”, porque ensinada pelo próprio Senhor. Duas partes bem distintas, ou seja, a glorificação de Deus e a maneira de ser daquele que crê. O ser humano precisa do pão material e espiritual para poder subsistir; deve perdoar, imitando o Ser Supremo e nunca sucumbir às tentações. Em seguida, como se fosse um comunicador do terceiro milênio, é Cristo admiravelmente suscinto, pois sintetiza seu ensinamento na perseverança e na confiança. Isto através de uma parábola didaticamente exposta na qual estas duas condições, que devem caracterizar o orante, claramente rebrilham. Pedir, procurar, bater insistentemente na porta daquele que é o Todo-poderoso Senhor. Afiança Jesus,  então, que o objetivo será colimado, pois “todo aquele que pede, recebe, e quem procura encontra; e ao que bate, abrir-se-á a porta”. Embora Ele centre a atenção na súplica, cumpre se ater que o fiel se dirige não a um Deus inteiramente alheio à sua criatura, mas a um Pai extremoso que deve ser sempre o referencial primordial de autêntica prece. Já no Antigo Testamento, ao invocar o auxilio divino nos assaltos dos inimigos assim se expressa o salmista: “Elevai-vos, ó Deus, acima dos céus, e em toda a terra derramai a vossa glória!” (Sl 57,6).  É de todo interesse para o ser humano, criado, contingente, que a glorificação divina seja uma realidade fulgente, pois somente dentro de seu reino é que existe paz, felicidade. Longe dele apenas trevas e ignomínia. Deste modo, os pedidos têm como objetivo a libertação daquele que se abre ao mistério mesmo da pessoa do Pai. Dá-se então uma verdadeira iniciação à relação íntima entre o homem e Deus, o finito e o Infinito, o que está no tempo e Aquele que é Eterno. Em virtude, porém, da repetição, muitas vezes mecânica do início desta prece ensinada pelo Redentor, não se passa a viver no interior desta afinidade filial e não se dá a devida atenção às necessidades essenciais para as quais incidem os pedidos seguintes. Perfeito, porém, o ensinamento de Cristo, pois quem entende o sentido profundo da prece não se dirige a um Ente abstrato, nem anda em busca de interesses pessoais. Quer o perdão divino, deseja viver no amor que perdoa sempre e quer estar longe, bem longe, de tudo que desagrada ao seu Senhor, porque longe dele não há ventura possível. Então, ao se dirigir ao Todo-poderoso a alma do orante deve querer se adequar à vontade divina e que seus pedidos  estão envolvidos inteiramente pela reversibilidade do amor. Desta maneira, “o Pai celeste dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem”. Unido a Deus que é Pai e aos irmãos a quem se perdoa, surge, de fato, o lugar interior do encontro de cada um com o Espírito e a alteridade se faz unidade. O modo como Jesus ensinou a orar permite o fiel entrar com tudo que ele é e por tudo que ele faz na sinergia com o ato criador e iluminador da Sabedoria divina. Aquele que se deixa possuir pelo amor a Deus e ao próximo tudo alcança de Deus, porque a obra mesma do Espírito santo se exerce por excelência na efusão do perdão e da vitória sobre as tentações do maligno. Como estas fazem parte do combate e o vitorioso é que será coroado, cumpre rezar com perseverança e confiança, porque a tentação é uma passagem pela crise, uma experiência de julgamento e nunca se pode deixar que o inimigo cante vitória. Deste modo o que se pede a Deus é que a  força de gravitação ou de atração da ação do tentador seja transmutada em força ascensional, devido ao dinamismo que se obtém da graça de Deus que deve ser assim continuamente solicitada e com aquela certeza que tinha São Paulo: “Eu tudo posso naquele que é a minha fortaleza” (Fp 4,13). Deste modo, a oração que Jesus ensinou, levando conscientemente, a entrar no mistério da filiação divina e na realidade das verdadeiras necessidades humanas coloca o fiel em condições de tudo pedir a Deus e alcançar, porque todo pedido estará enquadrado dentro do ensinamento do Mestre divino. Daí a necessidade óbvia da perserverança e da confiança na oração que se torna a chave que abre todos os tesouros do Pai celeste. É assim que a prece dá ao instante terrestre seu peso de  um valor sem medidas. A perseverança e a confiança  não atravessam o tempo, mas faz o tempo parar por assim dizer perante a eternidade do Ser Supremo que tudo concede àqueles que sabe pedir como Jesus ensinou. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

A ESSÊNCIA DA ORAÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Numa de suas admiráveis alocuções o Papa Bento XVI mostrou que, não obstante o secularismo que impera neste início de milênio, “vemos muitos sinais que nos indicam um despertar do sentido religioso, uma redescoberta da importância de Deus para a vida do homem, uma exigência de espiritualidade, de superar uma visão puramente horizontal, material da vida humana”. De fato, se percebe de um lado a busca do Ser Supremo por muitos que se desligaram das realidades eternas e, mesmo entre os cristãos, o anseio de um contato mais profundo com Deus. Multiplicam-se os “Grupos de Oração”. Nota-se uma participação mais fervorosa nas Missas. Contempla-se nas Igrejas durante o dia pessoas diante dos Sacrários numa postura reflexiva. Em muitas casas voltaram a ter espaço oratórios que propiciam momentos de uma prece ardente. Por tudo isto nada melhor do que uma reflexão sobre a alma da prece, ou seja, desta tensão para o Criador, desta necessidade de se relacionar com o Ente Superior do qual ontologicamente cada um em tudo depende. .






Cette Source inépuisable (le Christ) offre ainsi une eau qui régénère. Dans le Cantique spirituel A, recourant à une autre image, saint Jean de la Croix évoque ce caractère inépuisable : « Ce qui est dans le Christ est inépuisable ! C’est comme une mine abondante remplie d’une infinité de filons avec des richesses sans nombre ; on a beau y puiser, on n’en voit jamais le terme. Bien plus, chaque repli renferme ici et là des richesses nouvelles… » Ces eaux sont riches, positives ; leurs vertus se situent aux antipodes des eaux tumultueuses et dangereuses des fleuves en crue qu’évoque le texte d’Isaïe que nous venons d’entendre (Isaïe 43, 2) ; précisément parce qu’au cœur de l’oraison, la Présence du Seigneur, semblable à une eau bienfaisante, rafraîchit, désaltère, réhydrate l’âme et le cœur du croyant. Dans la version B du Cantique Spirituel (12, 3), la foi est comparée à « une source, parce qu’elle verse à flots dans l’âme tous les biens de l’ordre spirituel. Le Christ Notre Seigneur a lui-même appelé la foi une source lorsque, appelant la Samaritaine, il dit que ceux qui croiraient en lui auraient en eux-mêmes une source d’eau jaillissant jusqu’à la vie éternelle (Jn 4, 14) » ; et celui qui en boit n’a plus jamais soif. L’oraison : instrument au service du renouvellement de cette source ! La source, comme une image de la foi !… Un autre symbole, également cher à saint Jean de la Croix transparaît à la fin du psaume 138, (versets 11-12) que nous avons chanté : il s’agit du thème de la nuit. Dans sa poésie de la Nuit Obscure (str. 3), le saint nous dit ceci : « …Et je n’apercevais rien pour me guider que la lumière qui brûlait dans mon cœur. ». Commentant ce poème Jean de la Croix nous dit : en quelque sorte, « on oblige l’âme à marcher dans l’obscurité et la pureté de la foi ». Et précise, plus loin : « Cette nuit obscure du feu d’amour, tout en purifiant l’âme dans les ténèbres… l’éclaire peu à peu dans les ténèbres. »
Nous voici exactement à dix jours de la Nuit de Noël, et c’est vraiment une aubaine et une grâcede fêter saint Jean de la Croix, d’être au contact de ses écrits dans ce contexte de l’Avent, si proche de la Nativité. Pour Jean, la nuit correspond à la nuit spirituelle de la foi, éclairée cependant de l’intérieur par cette même foi, qui, appuyée sur le Christ, est semblable à un flambeau, à un feu ; la foi éclairant comme de l’intérieur le chemin (« Au milieu d’une nuit obscure étant d’amour enflammé » écrit-il). Le type de nuit que l’on évoquera et chantera la veille de Noël est d’un autre ordre : il s’agit de « la nuit du péché » (Cf. Edith Stein, Le mystère de Noël), du refus de Dieu et plus encore de l’ignorance, de la souffrance des hommes privés de la pleine connaissance du Seigneur. Ainsi, « Le peuple qui marchait dans les ténèbres a vu se lever une grande lumière, sur les habitants du pays de la mort une lumière a resplendi. » (Isaïe 9, 1). Puissions-nous unifier ces deux nuits, les aborder de façon complémentaire, comme deux solidarités à vivre avec l’humanité : la nuit qui relève du combat spirituel, selon Jean de la Croix (et beaucoup mènent de rudes combats), et celle qui nous rend proches « des joies et des espoirs, (et surtout) des tristesses et des angoisses des hommes de ce temps » (Vatican II, GS 1). A l’invitation du Christ dans l’évangile de ce jour, puisse « notre unité », notre communion « être parfaites » afin de nous tenir devant Dieu pour tous ceux qu’Il nous a donnés à aimer et accueillir dans notre prière (Jn 17, 23-24).
Demandons à saint Jean de la Croix, qui a tant médité le mystère de l’Incarnation d’intercéder pour nous. Reprenons ses propres paroles (Romance 5, lignes 15-22) pour nourrir l’attente de la Naissance du Sauveur :
Les uns disaient : ‘Oh ! Si venait de mon temps la joie !’
D’autres :

AS VIRTUDES TEOLOGAIS E A VIDA CRISTÃ

AS VIRTUDES TEOLOGAIS E A VIDA ESPIRITUAL
Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Riquezas inestimáveis oferecem as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. Estas três virtudes divinas são o sustentáculo da vida espiritual. Trazem a consoladora certeza de que Deus existe, mostram que nas suas promessas reside a confiança de se ter o que mais aspira o ser humano e afirmam o quanto o Ser Supremo ama sua criatura e deseja ser por ela amado, fazendo com que  todos sejam irradiadores de sua dileção sem limites. O Papa Bento XVI assim se expressou: “A fé nos convida a olhar para o futuro com a virtude da esperança, na espera confiante de que a vitória do amor de Cristo chegue à sua plenitude”. Segundo São Francisco de Sales a fé diz respeito à inteligência, a esperança se relaciona com a memória e caridade se liga à vontade. Para este santo a fé honra o Pai, porque ela se apóia sobre Seu poder infinito; a esperança honra o Filho, dado que ela esta fundada na Sua redenção; a caridade exalta o Espírito Santo, uma vez que ela expande Sua dileção infinita. Célebre a assertiva de São Paulo: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade, mas a maior delas é a caridade” (1 Cor 13,13). O citado São Francisco de Sales explica então que na terra estas três virtudes são necessárias, mas somente agora, porque no céu só permanecerá a caridade. Com efeito, “lá não entra a fé, porque lá se contempla tudo; a esperança, ainda menos, porque lá se possui tudo, mas lá só a caridade tem lugar, porque se trata de amar a Deus em tudo, por tudo”. Eis porque nada mais importante do cultivar neste mundo a fé, a esperança e a caridade. Para se conservar e aumentar a fé o primeiro meio é a oração, repetindo o cristão sempre com os Apóstolos: “Senhor aumenta-nos a fé” (Lc 17,5). A recitação do Credo, fixando a atenção em cada um dos artigos, alimenta a fé. A meditação da Palavra de Deus contida na Bíblia faz crescer uma crença profunda. Além disto, cumpre tudo fazer com espírito de fé, visando unicamente agradar a Deus. Para crescer na esperança é preciso ter sempre uma boa consciência, dado que não pode esperar os bens futuros aquele que se deixa dominar pelo pecado e se mostra contrário a seu Criador.  Eis porque as boas obras são o alimento da esperança. Faz o cristão consciente de que “não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da futura” (Hb 13,14). Cultivar a esperança é se deixar atrair pela bondade divina, se apoiar em Seu poder, se firmar na Sua misericórdia e se imergir na certeza de Sua fidelidade. Foi o que aconteceu com o Apóstolo Paulo que assim falou sobre o que se espera  na Jerusalém celeste: “Nem olho viu, nenhum ouvido escutou, nenhum entendimento jamais compreendeu o que Deus tem reservado para os que o amam” ( 1 Cor 2,9). Pela caridade o ser racional se une com Deus e esta virtude o transforma. É ela que aumenta as energias para se praticar o bem e envolve a alma numa imensa alegria. Quem ama a Deus acima de todas as coisas vence os obstáculos deste exílio terreno, suporta as tribulações, degusta de certo modo um pouco das delícias celestiais. O cristão então entende que o amor que deve a Deus é sem limites, porque a medida do amor divino é amar sem medida e amor com amor se paga. Quem está impregnado da caridade, amará necessariamente o próximo. Tanto isto é verdade que Cristo associou as duas dileções. Quando o doutor da lei O interrotou sobre o maior mandamento, Ele respondeu: “Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento. Este é o primeiro e o maior mandamento. O segundo é semelhante a este: “Ama o teu próximo a ti mesmo”. (Mt 22,35-40). Tanto o amor a Deus como ao próximo deve ser universal, sem demarcação alguma; perseverante, abrangendo todos os momentos; sincero, isto é, interno, afetivo. Em suma, nada mais importante para o cristão do que cultivar a fé, a esperança e a caridade. É por meio destas virtudes que se está unido intimamente a Deus, participando de Sua vida divina, sendo Seus filhos adotivos, consortes de Sua natureza e co-herdeiros do reino dos céus. Pela fé conhecemos as verdades sobrenaturais; pela esperança os bens eternos e os meios que conduzem à eterna felicidade; pela caridade o batizado se prende a Deus com o vínculo do amor no tempo e na eternidade. A fé ilumina, a esperança fortifica, a caridade diviniza. Pela fé conhecemos o caminho, pela esperança corremos para a meta, pela caridade chegaremos a possuir de uma ventura sem fim.  Nestas três virtudes fundamentais está sintetizada toda a vida ascética e mística do seguidor de Cristo. * Professor no Seminário de Mariana durante 40anos. .


.