terça-feira, 25 de junho de 2013

VIVER NA PRESENÇA DE DEUS

VIVER NA PRESENÇA DE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Não obstante o bulício do trepidante contexto social hodierno, inúmeros são aqueles que encontram a paz de espírito estando conscientes da presença de Deus. Não apenas enquanto “nele nós existimos, nos movemos e somos” (Atos 17,2), mas também enquanto pela graça santificante a Trindade Santa habita no íntimo de cada um. É da qualidade da escuta do Ser Supremo que depende a grandeza daquele que crê. Uma escuta que conduz a colocar em prática o que, na fé, o ser racional percebe da Palavra divina, Palavra que o precede e que ordena sua vida envolta no amor divino. Como bem se expressou o Papa Bento XVI, “o nosso eu é libertado do seu isolamento” e os batizados se tornam “portadores da alegria e da esperança cristã no mundo”. Muitos são aqueles que experimentam na sua existência esta realidade sublime. A voz interior os toca e os transforma de tal modo que prevalece sempre o desejo de em tudo aderir aos desígnios de Deus. É que Deus é o Deus dos vivos, daqueles que sabem se imergirem nele, oceano infinito de felicidade e amor, libertando e salvando quem se inclina para Ele. É lógico que somente na eternidade é que se possuirá uma ventura sem limites, dado que na sua temporalidade terrena, na sua condição humana, só é possível a cada um degustar nesta terra apenas parcelas da bem-aventurança perene da visão beatífica do céu. Na presença de Deus, porém, o ser racional percebe Sua assistência e pode atravessar impavidamente as provações físicas, psíquicas ou espirituais. Esta presença providencial de Deus é a pedra fundamental de todas as grandes certezas do homem, o farol que o orienta na obscuridade, a bandeira que o inflama cada dia no combate que tem que enfrentar a toda a hora, dado que ele vive num exílio. Foi para isto também que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade veio a este mundo e assumiu o sofrimento até o fim. Ele pôde salvar o homem de sua absurdidade, dando um sentido de redenção ao seu viver, abrindo para a existência humana a possibilidade real daquela paz e daquele bem-estar aos quais aspira no coração de cada um. Bento XVI explicou: “O meu próprio eu me é tirado e é inserido num novo sujeito maior, no qual o meu eu existe de novo, mas transformado, purificado, ‘aberto” mediante a inserção no outro, no qual adquire o seu novo espaço de existência Tornamo-nos assim “um em Cristo” (Gl 3.28)”. Dá-se o que Jesus falou: “Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a ele e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). Deste modo a presença de Deus se concretiza, uma vez que o “Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) e amando-O temos a Trindade Santa dentro de nós, conforme sua sublime promessa. Cada vez que um cristão contempla a pessoa de Jesus, se ligando a suas palavras, imitando seus gestos e atitudes, se realiza a aproximação plena de Deus, passando a viver intensamente na Sua presença. É na companhia de Cristo que o batizado, como membro de seu Corpo Místico que é a Igreja, é também convidado a tornar Deus presente naqueles que se entregam à depressão, se acham tomados pelo isolamento no sofrimento, abrindo-os à perspectiva e ao conforto da dileção divina. Trata-se de se ter uma vontade sincera de viver a vida sobrenatural, engajando o batizado no caminho que lhe é oferecido pela graça. Cumpre, portanto, apreciar o tesouro infinito que é o contato contínuo com o Deus três vezes santo. Jesus falou do talento estéril que o mau servidor esconde inutilmente na terra (Mt 25,18). Por isto é preciso continuamente renovar a reta intenção de tudo fazer para glória de Deus, mesmo as mais pequeninas ações. É o que se lê no salmo: “Meus olhos estão sempre fixos no Senhor, pois Ele há de tirar meus pés do laço” (Sl 24,15). Breves momentos de recolhimento no meio das ocupações, dos trabalhos diários ajudam a elevar a mente a Deus e a falar confidencialmente com Ele. É evidente também que para conservar a presença de Deus é  necessária a mortificação dos sentidos exteriores e interiores evitando a dispersão, moderar as paixões, submeter os apetites desordenados à razão iluminada pela fé. Quem faz esta experiência de Deus vive longe do pecado, procura tudo fazer com a máxima perfeição possível e se vê envolto na alegria. A presença de Deus deve, de fato, ser a luz que ilumina o cristão, a força que o sustenta, a consolação que o conforta, o motivo da esperança que o alenta. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sábado, 22 de junho de 2013

O ALLICERCE DA IGREJA

 O ALICERCE DA IGREJA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Com sua autoridade divina Cristo deu a Simão um nome novo e revelou seu destino admirável: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Fez uma profecia: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela”, “Acrescentou uma promessa: “Eu te darei as chaves do reino dos céus, e o que ligares na terra ficará ligado nos céus e o que desligares na terra ficará desligado nos céus” (Mt 16,20)”. Após sua ressurreição, este primado sobre a Igreja é conferido ao príncipe dos Apóstolos: “Apascenta as minhas ovelhas [...] apascenta os meus cordeiros” (Jo 21, 15-19). Pedro é então constituído chefe supremo da Igreja e a deveria governar. Não se tratou de um mero primado de honra, mas primazia de direito, fundado cristologicamente em palavras claras do Fundador desta Igreja. É de se notar que Cristo prometeu à Igreja uma duração perene, enquanto durar o mundo atual. Tal indestrutibilidade baseia-se no fato de que Pedro seria seu fundamento. Este é também o ponto de apoio para a exigência de que ele tenha sucessores, não como apóstolo, mas como rocha da Igreja de Cristo. Eis porque é um erro afirmar que o papado é o resultado de evoluções históricas. Ele se fundamenta na vontade explícita de Cristo. Pedro no pleno exercício de seu mandato veio a falecer como bispo de Roma e seus substitutos seriam sempre os pontífices romanos. Seus sucessores teriam, assim, uma posição primacial por causa do nexo entre a incumbência dada a Pedro por Cristo e a perenidade de sua sublime missão. À igreja de Roma competiria, através dos tempos, a primazia do poder ordinário sobre todas as outras Igrejas, e, na verdade, competência jurídica que tem caráter episcopal e é imediata. Por tudo isto, o Papa, enquanto supremo pastor da Igreja exerce sua autoridade a qualquer tempo como é exigido por seu cargo. É de se notar que o primado de jurisdição papal é um primado pastoral, como serviço prestado a toda a Igreja. O papado é a concretização e a visibilidade da essência mesma desta Igreja, sendo que, através do Papa, Cristo permanece o único mediador entre Deus e o homem. Eis porque esta função integrativa deve ser entendida como símbolo sacramental da unidade eclesial, e, consequentemente, o primado de jurisdição do Papa é sinal eficaz da unidade cristã.  Desta, ele é o representante na medida em que também ele é o representante de Cristo, o fundamento último da Igreja una. Deste modo, a unidade da Igreja não se funda primariamente no fato de ter um governo central unitário, mas no fato de viverem todos os cristãos unidos a Cristo e àquele que é seu Vigário nesta terra. O magistério papal em geral e a infalibilidade pontifícia, ou seja, quando ele defina ex cathedra proposições de fé e de costumes, estão sempre a serviço da fé unificante. Cumpre observar que a fé dos cristãos não é prestada ao Papa, mas à verdade testemunhada por ele, ou seja, não se baseia esta fé no testemunho autoritativo da Igreja, mas na autoridade da verdade do Deus que se revela. Pedro recebeu de Jesus as chaves do reino nos céus para exercer, por isto mesmo, o seu poder na terra. Ele não seria um mero porteiro da Casa do Pai. As chaves são aqui o distintivo do administrador que representa o próprio dono da casa que é o Filho de Deus. Com as chaves Pedro recebeu a autoridade de permitir a entrada no reino celeste e de excluir do mesmo. Trata-se de uma jurisdição completa, poder que lhe foi atribuído pelo Fundador da Igreja. Este ao dizer que Pedro poderia ligar e desligar mostrou que sua autoridade não se limitava ao âmbito doutrinal, mas compreenderia também a faculdade de promulgar disposições obrigatórias.  Todas estas reflexões bíblicas e teológicas remetem às indeclináveis obrigações dos fiéis para com o Cristo visível neste mundo. Cumpre fixar tudo isto, tanto mais que, por ocasião da renúncia de Bento XVI, os maiores absurdos foram publicados na mídia. Textos diabólicos até daqueles que se denominam teólogos, mas para lançar o veneno num jogo espúrio de textos bíblicos e de acontecimentos históricos deslocados de seu contexto. Ao verdadeiro fiel cabe obediência ao Papa e uma veneração especial por ser Ele o Cristo visível na terra. Devido os ataques ferozes das forças do mal contra o Chefe da Igreja é preciso muita oração para que Deus o fortaleça em tão espinhosa missão, dando-lhe firmeza total para sanar os erros que surgem das fraquezas humanas, vindos mesmo de tantos eclesiásticos. O Papa conta com cada um de nós. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

TESTEMUNHAS DE DEUS

TESTEMUNHAS DE DEUS
Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Num mundo que se mostra indiferente à presença de Deus mais do que nunca cumpre que os que possuem fé sejam vibrantes testemunhas de Deus na sociedade. O Papa Paulo VI afirmou: “O homem contemporâneo escuta mais espontaneamente as testemunhas do que os mestres, ou se ele escuta os mestres é porque eles são testemunhas do que eles falam”. De fato, o modo de ser, de encarnar aquilo em que se crê vale bem mais do que as palavras. Daí a responsabilidade do cristão atento com relação aos atos que ele pratica voluntariamente de acordo com o que o Filho de Deus ensinou. Bento XVI mostrou como São Paulo anunciou aberta e publicamente “aquilo que viu e sentiu no encontro com Cristo, aquilo que experimentou na sua existência já transformada por aquele encontro”. A exemplo do Apóstolo, conclui este Papa, ser testemunha “é levar aquele Jesus que se sente presente em si e se tornou a verdadeira orientação de sua vida, para fazer compreender a todos que Ele é necessário para o mundo e decisivo para a liberdade de todo homem”. Trata-se de envolver inteiramente a própria existência na grande obra da fé. É deste modo que se proclama que Jesus está vivo e que Ele continua a ser para todos a única tábua de salvação. Para isto é necessário que o coração e a vontade de quem tem fé estejam sempre dispostos a agir em coerência com esta realidade sublime para poder comunicá-la aos outros. Estes devem perceber como é feliz aquele no qual age o Filho de Deus.  Testemunhar é amar com convicção o divino Redentor. No batismo se recebe a capacidade de “anunciar as ações do Senhor” (Sl 117), mas é necessário caminhar colocando os passos nos passos de Jesus, a fim de O fazer conhecido e amado. O cristão verdadeiro é aquele que conceitua a vida em relação ao Pai como acontecia com Jesus. Desta maneira Deus se torna uma realidade concreta e ativa, não um Deus abstrato, mas um Deus que existe e que está presente na história de cada um. Tudo isto supõe então a superação do individualismo, do egoísmo, da indiferença no que tange as realidade sobrenaturais para podê-las transmitir numa sociedade materialista, hedonista, atéia. É através daquele que é sua testemunha que Cristo continua sua obra, suscitando novos discípulos, arrancados das trevas da descrença. Uma característica de quem é testemunha do Evangelho é ser justo, numa vida de fé, de perseverança, de atração para Deus, de intensa caridade para com o próximo. Tudo isto significa a fidelidade no amor do Ser Supremo, vivendo o batizado numa santidade de vida que reluz no mundo fazendo brilhar a feliz harmonia psicossomática que há naquele que segue unicamente a Jesus. Fica então afastada qualquer hipótese de pusilanimidade que impeça testificar a grandeza de ser cristão. Isto pela atividade contínua da graça correspondida. Fortificada por ela o seguidor de Cristo não sucumbe aos assaltos do Inimigo, negando pelas ações o que  proclama pelas palavras. O espírito do mundo deixa de contaminar este epígono do Evangelho e uma corrente de espiritualidade se expande por toda parte. Não há obstáculo que não se vença porque se crê nas palavras de Cristo: “Coragem, eu venci o mundo”! Eis por que o batizado tem obrigação de ser um profeta, ou seja, aquele que manifesta a presença de Deus por toda parte. É o sinal vivo da redenção que Jesus oferece a todos. A conduta do profeta dá aos acontecimentos uma interpretação de acordo com os desígnios salvíficos de Deus. É uma missão-vocação que exige persistência, fidelidade. É colocar Deus no coração do mundo sem temer o contra-ataque dos falsos profetas. Em casa, na escola, no trabalho, nas diversões é belo ser testemunha da esperança lá onde há desespero. Ser artesão da paz e da unidade onde reina a divisão e o ódio. Ser testemunha da reconciliação, do perdão cordial é fazer com que a vida exista no centro de uma cultura da morte. Afirmação corajosa da possibilidade da salvação para todos, demonstrando o valor da pessoa humana. Deste modo, se faz entender a Palavra de vida que Cristo trouxe a esta terra, tocando aqueles que estão fechados para o transcendente por causa do pecado. Ser testemunha de Deus é realizar a mais importante tarefa que alguém pode executar para o bem da humanidade, despertando o desejo da autenticidade, o anseio pela transcendência, a sensibilidade para se perceber aquela felicidade que o mundo não pode oferecer. Ser testemunha de Deus é ser assim sal da terra e luz do mundo. É ser um cristão santo, agradável ao Senhor não conformado com este mundo, mas discernindo em tudo aquilo que é bom e perfeito (cf. Rom 11, 1,2).* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



quinta-feira, 20 de junho de 2013

VIVER INTENSAMENTE A FÉ

VIVER A FÉ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Neste ano da fé a Igreja convida a todos a refletir sobre o essencial da crença em Deus, Pai, revelado por Cristo, seu Filho único, e que habita no coração dos que crêem pelo dom do Espírito Santo. Ser cristão é ter uma fé arraigada, vivida na comunidade eclesial, na qual a fé de cada um desenvolve e madurece. Assim se expressou o Papa Bento XVI: “Desde os inícios a Igreja é o lugar da fé, o lugar da transmissão da fé e o lugar no qual pelo batismo, fomos imersos no mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, que nos liberta da prisão do pecado, nos concede a liberdade de filhos e nos introduz na comunhão com o Deus trinitário”. O bem-aventurado João Paulo II alertou: “A fé se reforça doando-a”. Refletir sobre isto é tanto mais importante quando se vive numa civilização dominada pelo individualismo. Ora, precisamente a Igreja é a comunidade dos que crêem. A grandeza da liberdade humana chama o batizado a regular seu comportamento, não cedendo a seus caprichos pessoais, mas, se santificando, para poder espalhar por toda parte o bem e a verdade. Por isto, Bento XVI mostrou que “um cristão que se deixa guiar e plasmar paulatinamente pela fé da Igreja, não obstante as suas fragilidades, os seus limites e a suas dificuldades, se torna como uma janela aberta para a luz do Deus vivente, recebe esta luz e a transmite ao mundo”. Aliás, Jesus havia falado que seus seguidores são luzes do mundo. (Mt 5,14). A fé e a sabedoria cristãs têm assim um papel importante na tomada de consciência comum. Eis porque o Mestre divino acrescentou: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, a fim de que vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). É pela sua conduta, pelas suas ações e suas palavras, em suma, pelo seu modo de ser que o discípulo de Cristo clarifica esta terra. Uma vida pautada pelo Evangelho possibilita brilhar como seres luminosos num mundo de trevas. São Paulo explicou: “Procedei como filhos da luz, pois o fruto da luz consiste em toda a sorte de bondade, de justiça e de verdade” (Ef 5,8-9). Eis por que viver a fé é caminhar como aquele de onde emana luminosidade. Isto faz a identidade de quem vive o seu batismo. É o que ocorre quando a vida do batizado se une à vida de Deus. Lançado na morte e na ressurreição de Cristo, aquele que  recebeu a água batismal se tornou o templo da Santíssima Trindade.  Sua missão é então ser a presença de Deus neste mundo. Habitado pelo fulgor de Deus, o cristão, firme na fé, afasta a escuridão do pecado.  Eis aí a incumbência de todo aquele que crê no Filho de Deus. Sem o cristão verdadeiro o mundo deixa de ser alumiado e se torna impossível a muitos deparar o caminho da vida eterna. São Paulo alertou os Colossenses mostrando que deviam dar graças ao Pai o qual os tinha tornado “dignos de participar da herança do santos na luz”. Explicou: “Ele nos subtraiu do domínio das trevas e nos transferiu para o reino de seu Filho muito amado, no qual temos a redenção e remissão dos pecados”. (Cl 1, 12-14). Tudo isto se dá mediante a vida da graça e da fé.  O reino do mundo e da iniqüidade é um o reino tenebroso; o reino do Filho Unigênito de Deus que remiu a humanidade é um reino de cintilação. É através do cristão repleto de fé que o amor de Deus se irradia por toda parte, manifestando a iluminação daquele que asseverou: “Eu sou a luz do mundo”. Tal então a missão do cristão levar por toda parte esta Luz que é vida, salvação, fonte de beatitude. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



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terça-feira, 18 de junho de 2013

SOBRE A ONDA DE PROTESTOS

O BRASILEIRO NÁO É TOLO
Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*, da Academia Mineira de Letras
A onda de protestos que invade o país vem sendo analisada pelos cientistas sociais, todos de acordo em afirmar que não se trata apenas do aumento da passagem de ônibus em algumas capitais. Com rara perspicácia um Editorial do jornal “Folha de São Paulo” diagnosticou o fenômeno: “O que aflige os brasileiros é a perda de poder aquisitivo, com a inflação, e a incapacidade do Estado de apresentar soluções concretas para a crise nas áreas vitais de saúde, educação, segurança e transportes. Mais consumo e mais futebol não resolvem nada disso”. Tais soluções não aparecem e um dos motivos é o gasto astronômico do Governo que não aplica com sabedoria o que arrecada. Na verdade, sufocado anda, há muito tempo, o cidadão neste país, pagando impostos escorchantes. O que vê, porém, são estádios erguidos para a Copa do Mundo com gastos enormes e superfaturados e em locais nos quais depois ficarão ociosos. As notícias envolvendo as viagens dos políticos a ocuparem os mais luxuosos hotéis do mundo, inclusive a atual Presidente que está sempre acompanhada de uma comitiva de numerosos convidados a usufruírem as mesmas mordomias à custa do povo sofrido. Por outro lado, a segurança pública é mínima haja vista a multiplicação de crimes nefandos por toda parte. Escolas mal aparelhadas, hospitais à míngua, trânsito caótico abriram os olhos do brasileiro. Trata-se de dar agora um basta à enganação, à exploração, à inversão de valores. O futebol está sendo apenas um referencial, mesmo porque o esporte mais popular do Brasil não é formativo, mas está deformando a consciência do cidadão. Técnicos das equipes principais ganhando uma fortuna O salário mínimo é R$678,00 e um treinador recebendo seiscentos mil reais por mês, aliás, alguns até mais. Um certo jogador pediu recentemente a um clube brasileiro um milhão e duzentos mil reais por mês para retornar ao Brasil. Este articulista na rua  certa manhã, tendo à sua frente uma mãe com seu filho de aproximadamente sete anos, escutou esta a aconselhar o garoto: "Procura treinar e você ganhará muito dinheiro como o Neimar”. (sic) Adolescentes, como mostrou a televisão, a clamarem impudicamente a este jogador: “Coloque um “neimarzinho” em mim”! Em que mundo estamos? É em tudo isto que se deve pensar diante da movimentação geral que está ocorrendo. Como o mau exemplo vem de muitos políticos está na hora de uma transformação geral o povo que deve se dispor a colocar no poder pessoas honestas, sensatas e que visem realmente o bem estar geral da nação. O culto aos verdadeiros valores, uma melhor distribuição da riqueza, um interesse real pelas necessidades básicas da população é o que no fundo deseja cada habitante desta gloriosa pátria, infelizmente tão dilapidada. A esperança é a última que morre, portanto mais do que desejar que o Brasil seja novamente campeão do mundo de futebol, cada um aspire dias melhores para todos os brasileiros com administradores mais competentes e menos demagogos.

CONFIANÇA NA PROTEÇÃO DE MARIA

CONFIANÇA NA PROTEÇÃO DE MARIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Quando em 1202 os ingleses sitiaram a cidade de Poitiers na França, surgiu um traidor que, por uma soma vultosa, lhes entregaria as chaves da cidade para que pudessem livremente nela entrar. Ele não encontrou estas chaves com o Chefe daquela localidade e não as pôde passar aos invasores.  É que, não se sabe como, estas chaves foram parar nas mãos da imagem de Nossa Senhora na monumental Igreja lá a ela dedicada, construida em 1140, com pedra calcária branca. O certo é que os ingleses desistiram de tomar Poitiers e daí a grande devoção a “Notre Dame des Clés”.  A imagem original foi destruída pelos calvinistas em 1539, mas, mais tarde, foi esculpida uma outra representando Maria sentada e tendo na mão direita um molho de chaves de prata. Grande o simbolismo desta imagem sempre visitada por inúmeros devotos e romeiros de várias partes da França e de outros países. O devoto da Mãe de Deus deve entregar a ela a chave de seu coração para que nele ela faça entrar seu divino Filho. Além disto, abrirá, sem dúvida, as portas do céu para quem a souber homenagear neste mundo. Ela acolheu com amor o Verbo divino no dia da Anunciação, concebendo-o por obra do Espírito Santo, quando, como bem ressaltou o Papa Bento XVI, “a aliança entre Deus e a humanidade foi selada de forma perfeita”.  Foi então, segundo o referido Pontífice, que “o Verbo eterno começou a existir como ser humano no tempo”. Ela se tornou então Mãe de Deus, mas sua maternidade espiritual com relação a todos os discípulos de Jesus começou efetivamente no Calvário. Foi lá que Cristo do alto da Cruz lhe disse: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,26). Uma observação atilada fez o citado Bento XVI, mostrando que Jesus “se dirigiu a Maria chamando-a “mulher” e não “mãe”, termo que, porém, utilizou confiando-a ao discípulo: “Eis a tua mãe” (Jo 19,27). Jamais se agradecerá demais a Jesus por ter dado a seus seguidores uma tão poderosa mãe, capaz de obter todas as graças para os que nela confiam. São Boaventura assim se expressou: “Ó bondade verdadeiramente estupenda de nosso Deus, pois nós somos culpados e, no entanto, ó Maria, Ele vos estabeleceu nossa advogada com poder tão grande para nos obter tudo que vós quereis”. De fato, por entre as vicissitudes de um exílio, sempre que alguém recorre a ela, se refugia sob seu manto materno, ela vem em encontro de suas necessidades. Ela é mãe poderosa, advogada misericordiosa e desejosa de beneficiar a seus filhos espirituais. Jesus é todo-poderoso por natureza, dado que é Deus junto com o Pai e o Espírito Santo, mas Maria é todo-poderosa por graça, isto é, ela obtém por sua intercessão tudo que ela pede. Isto já ocorria nesta terra, como aconteceu em Cana da Galiléia, a fortiori, se dá lá no céu onde é Rainha cheia de poder junto do trono de seu Filho. Ela, contudo, tem seus olhos voltados não apenas para os justos, mas também para os pecadores a fim de os livrar da condenação eterna. A Mãe de Cristo sobretudo sabe valorizar o sangue de seu Filho derramado pela reparação dos erros humanos. É por este sangue divino que o ser racional é purificado. Lepicier explica: “A incomparável santidade de Maria é bastante, por si só, para aplacar a Deus". Isto se dá certamente com os pecadores que buscam sua proteção. Não só desarma Maria a justiça divina, senão que obtém para seus devotos a graça de uma verdadeira e sincera conversão”. Eis por que todos devem recorrer a Ela, pois, como diz a Escritura, ninguém está isento de alguma falta.  Assim, bem se compreende o valor da mais antiga das preces composta pelos cristãos a qual remonta a tempos anteriores ao Concílio de Nicéia: “Sob tua proteção nos refugiamos Santa Mãe de Deus; não desprezeis nossas súplicas em nossas necessidades, mas de todos os perigos livrai-nos sempre, Virgem gloriosa e bendita”. A consciência da culpabilidade pessoal conduz a este pedido de proteção. Pronto é o atendimento desta Mãe poderosa, pois está sempre atenta aos dizeres de Cristo: “Quero a misericórdia e não os sacrifícios, porque eu não vim salvar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13). Apraz-se Maria em ser invocada como refúgio dos pecadores, pois Cristo os recebia e comia com eles. Desvalidos neste vale de lágrimas, presos tantas vezes nos laços do demônio, os homens tinham necessidade desta Mãe que os abrigasse nos instantes de abandono e perseguição dos poderes infernais. Cristo veio para livrar o homem do pecado, e aquela que se fez a cooperadora da redenção da humanidade participa desta sublime missão, mesmo porque a salvação tem como fundo a realidade das transgressões humanas à lei divina. Acolhendo os pecadores, Maria os converte a Deus e, segundo o que está no Apocalipse, aos bons conduz à perfeição: “Aquele que é justo justifique-se mais, e aquele que é santo, santifique-se mais” (Ap 22,11). Ela tem, realmente, a chave dos corações e a chave do céu” * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sábado, 15 de junho de 2013

O CRISTO DE DEUS

O CRISTO DE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Admirável a profissão de fé do Apóstolo Pedro, quando Jesus interrogou aos discípulos quem Ele era, pois tomando a palavra respondeu: ”O Cristo de Deus” (Lc 9,20). De fato, Ele era o Ungido de Deus, o Messias, o Messias sofredor segundo a interpretação cristológica de Isaias (52 e 53). Aliás, logo após as palavras de Pedro, diz São Lucas que Jesus afirmou que o Filho do homem tinha que sofrer muito, ser rejeitado e morto. Cumpre ao cristão desejar conhecer sempre melhor Aquele que veio a este mundo como o Redentor prometido, se mobilizando num processo existencial de conversão e de seguimento daquele que é a fonte e a plenitude da vida. Isto foi compreendido perfeitamente por São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). É preciso descobrir nele a “imagem do Deus invisível e o “primogênito de toda criação” (Cl 1,15). Na sua pessoa divina que se fez carne se deu o encontro do mistério do divino e do humano para a realização dos planos salvíficos da Trindade misericordiosa. Disto resulta a necessidade de reconhecer, na prática, que Jesus é o Senhor o Salvador de cada um. Entretanto ostentar os padrões desta crença na existência diária supõe disposições que levam a ostentar uma percepção acutilante da profundidade de tudo que Ele ensinou. O seguidor de Cristo deve manifestar ao mundo  o rosto do Mestre divino  que uma fé profunda vai pintando em seu coração. Trata-se de um comprometimento sério  com aquele que é a única tábua de salvação, o verdadeiro manancial da felicidade, da imperturbabilidade. A vinculação a Cristo ocorrida no dia do batismo traz uma responsabilidade enorme e da consciência da mesma depende cada um se fazer “luz do mundo e sal da terra”.  Apenas assim se demonstra que Jesus, que foi morto, ressuscitou e está vivo, presente na existência de seu discípulo que, deste modo, o faz cada vez mais conhecido e amado. Nisto consiste basicamente o anúncio do Evangelho. Aquele que busca desta maneira  a plenitude de sua conformidade com o modelo divino está a proclamar por toda parte  que Cristo vivo e vivificante  preside a história humana, fecundando-a com seu poder e glória. O verdadeiro cristão é, assim, o instrumento basilar para que a obra redentora se prolongue através dos tempos. Jesus aparece então não como um mero exemplar de uma religiosidade abstrata, mas como um companheiro  de jornada “autor e consumador da fé” de que fala a Carta aos Hebreus e que leva à conquista da vida eterna (Hb 12,2). Para isto é necessário aceitá-lo para que Ele possa comunicar a vida divina, segundo o seu ardente desejo: “Eu vim para que todos tivessem a vida e a tivessem em plenitude” (Jo 10,10). Então  a presença de Jesus  se converte em força transformadora a envolver todo o ser humano que a Ele adere. Ele se faz contemporâneo de cada um e da sociedade na qual age este seu epígono. Realiza-se o contato vivo sacramental com Cristo, fruto da identificação pessoal e da incorporação nele. O estar nele equivale então ser Ele mesmo na realização total da célebre definição: “O cristão é outro Cristo”. Para que este ideal seja colimado os meios estão ao alcance de todos. A Palavra que está na Bíblia, meditada, vivida e que, sobretudo, é apresentada em cada Missa dominical como um roteiro semanal de raro valor espiritual. Na celebração eucarística se oferece o momento culminante da união com Ele através da Comunhão pela qual se dá uma presença reduplicada: Ele em nós e nós nele. Clara sua mensagem: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele” (Jo 6,17).  Deste modo, terminada a Missa começa a missão de levá-lo por toda parte. Brilham então os sinais do reino de Cristo e seu discípulo se torna o fermento na massa social, impregnando-a da Boa Nova trazida por Ele do céu a esta terra. Nisto consiste o dinamismo do autêntico apostolado e Jesus amoroso é empaticamente acolhido, inundando a todos com raios luminosos de sua divindade. O espírito de Cristo deve penetrar a mente de todos aqueles com quem o cristão convive, devido a uma conaturalidade que se torna, por assim dizer, perceptível. Por força de tanto repetida perderam sua pujança primitiva as sentenças que diziam que o importante é o testemunho de vida e que “palavras sem obras são tiros sem bala”, atroam, mas são sem efeito.  Nunca se tem demais convicção de que o exemplo é que arrasta e quem sabe que Jesus é o Cristo de Deus não deixará desta forma de ser o intermediário pelo qual Ele possa prosseguir sua missão salvífica a bem próprio, do próximo e de todo o mundo. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.