quarta-feira, 14 de junho de 2023

 

RETIRA A TRAVE DO TEU OLHO;

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Claro o preceito de Jesus com relação ao julgamento do próximo (Mt 7,1-5). Somente Deus é o juiz  (Sl 75,8). Ele é, de fato, o julgador supremo de todas as criaturas e nenhum ser humano  tem o direito de julgar seja quem for.  Mesmo que nós escutemos as palavras de Jesus, mas não a observamos, não é  Jesus que, nos julgará, porque  Ele veio ao mundo não para julgar o mundo, mas para o salvar (Jo12,47). Nós mesmos é quem nos julgamos, pois, como bem mostra a psicologia, transferimos muitas vezes para os outros nossos próprios defeitos. Eis porque é de bom alvitre pedir ao Mestre divino que seu amor misericordioso habite em nosso coração para que saibamos dar graças a Deus por tudo de positivo que  se acha em nossos irmãos. Isto nos impedirá querer tirar a trave do olho dos outros. Além disto, com a medida com que julgamos os outros é com ela que nós mesmos somos julgados. Pelo exemplo da trave  e do argueiro Jesus quer nos dizer que nós devemos melhorar a nós mesmos antes de procurar melhorar os outros. De uma parte nosso amor próprio nos impede de ter uma visão objetiva de nossos atos em relação aos dos outros.  Como diz Rupert de Deuz, talvez  o que tu vês  ou crês ver no olho de teu irmão, não seja mesmo uma trave, mas a sombra de uma trave e tu vês mal e tu discernes mal, porque  tu não vês a trave de teu olho. De outra parte não se trata de ter a falsa humildade de me purificar de minhas pequenas faltas para mostrar o exemplo a meus vizinhos que devem se corrigir de enormes pecados. Não se trata da verdadeira humildade que consiste de ser convencido desta verdade que sou, tantas vezes, bem pior que os outros. Além disto, se eu vejo os outros cometer os pecados mais horríveis, que sei eu de suas intenções ou das circunstâncias  daquela ação? E quem me diz  eu não cairei na mesma tentação um dia? Era a convicção de Santa Teresinha do Menino  Jesus: “ Eu reconhecia que sem Ele eu teria podido cair  tão baixo que santa Madalena e  a profunda palavra de Nosso Senhor a Simão repercutia com uma grande doçura  em minha alma (Eu o sei: ”Aquele a quem se perdoa menos, menos ama” (Lc 7,40-47) , mas eu sei também que Jesus me remiu mais que a santa Madalena pois que Ele me remiu preventivamente impedindo-me de cair”.  Esta Santa compreendeu perfeitamente o que o Mestre divino ensinou sobre a relação de seus seguidores uns com os outros. Ele foi  taxativo “Não julgueis os outros para que não sejais vós mesmos julgados!”. É de se notar que  a palavra julgar  pode ser interpretada  de vários modos, ou seja, condenar, discernir entre o que o bem e o mal  ou ainda disciplinar o próximo. Quando, porém se examina  outras declarações de Jesus  e do Novo Testamento, fica claro que Cristo interdiz é uma condenação que não  é de acordo com a justiça.  Pelo contrário, trata-se da capacidade de discernir entre o que é bem e mal, ilusão e realidade, o verdadeiro e o falso, o que é direito e injusto. Cumpre ter cuidado de não criticar a torto e a direito sem conhecer os verdadeiros motivos que levara àquela ação. Julgar é delicado e exige muita humildade. Deus quer que saibamos discernir o que é conforme a sua vontade e o que é uma violação de sua santidade e  de sua justiça.  O que Jesus interdiz é um julgamento que provém de um espírito amargo e crítico, que quer se vingar, que se exalta simplesmente rebaixando o outro. Condena os hipócritas que  condenam o próximo ficando cegos sobre seu  próprio modo de ser. Antes de levantar  uma acusação contra o próximo, devo me assegurar que eu sou  Isento daquela culpa por dois motivos. Primeiramente porque eu serei medido da mesma maneira  pela qual eu avaliei o meu próximo e, depois, porque é fácil de me enganar, se meus valores  são motivações egoístas. Portanto antes de julgar e condenar alguém, convém prudência e um sério exame de si mesmo. Preciosíssimas lições que fluem das palavras de Jesus, as quais devem orientar nosso modo de tratar os outros. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

segunda-feira, 5 de junho de 2023

 

VINDE A MIM, DISSE Jesus

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O Evangelho nos diz que Jesus “Vendo as multidões, teve compaixão delas porque estavam fatigadas e abatidas como ovelhas sem pastor/” (Mt, 9,36-10.8). Percorrendo nosso mundo deparamos, de fato, esta triste realidade descrita pelo Filho de Deus. Os dirigentes muitas   vezes mais se preocupam com o poder e dinheiro próprio e não têm olhos para ver a miséria em seu derredor. Muitos os desesperados, torturados, esfaimados, É a eles que se dirige Jesus, Aquele que pode trazer esperanças de uma vida melhor através de seus ministros dedicados  que, com generosidade, podem dulcificar tantos  sofrimentos  por meio da luz de sua doutrina, desanuviando  as trevas do sofrimento e fazendo degustar  a alegria perdida, mas tão desejada O povo de  Israel podia melhor que nós   captar  a ideia do papel de um bom pastor e sabia exatamente a importância de sua missão na assistência a suas ovelhas. Jesus por meio de seus ministros, bons pastores, desejava e deseja sempre através dos tempos que haja bons pastores que possam direcionar os desorientados que almejam bem conceituar o sentido da vida. Eis porque Jesus escolheu os doze apóstolos que teriam seus sucessores séculos afora para virem de encontro aos sofredores, pregando a solução de seus problemas, expulsando os demônios, valorizando seus sofrimentos oferecidos em reparação dos pecados que são a fonte de tantos males. A mensagem de Jesus condoído pelos moléstias que tantos padecem é uma mensagem de paz, de amor que pode sanar as enfermidades, curar suas feridas, oferecendo a certeza de uma felicidade perene junto dele numa eternidade feliz, esperança esta que ampara sempre nas tormentas da vida. Jesus veio a este mundo como o Messias salvador e nele se pode inteiramente confiar e com Ele vencer nas procelas que surgem na existência humana neste vale de lágrimas. É a verdadeira fé que leva cada um a poder afirmar: “Jesus é o meu salvador”. Então se compreende o valor da prece confiante a sustentar o cristão nos momentos mais tenebrosos. Hoje mais do que nunca cumpre se peça a Jesus que envie operários para sua messe que possam continuar sua obra redentora. Entretanto, se é verdade que cabe aos  sucessores dos Apóstolos estarem na primeira linha de amparo aos sofredores, cabe a cada cristão, seja onde ele estiver; ser também a guarida corajosa a seus irmãos. O batizado não pode ser um mero usufruidor do amor de Jesus. Deve ajudar o Mestre divino na sua obra de consolação dos aflitos nas mais diversas circunstâncias. São Vicente de Paulo, que afirmou que “o estado de sofrimento é uma felicidade porque   ele santifica as almas”, declarou que “o amor não pode ficar ocioso, é preciso socorrer o doente e o assistir tanto quanto se pode em suas necessidades e em suas misérias, cuidando de o livrar das mesmas em tudo ou em parte”. Nunca o cristão pode se esquecer das palavras de Jesus “o que fizerdes ao menor de meus irmãos foi a mim que o fizestes”. Socorrer o irmão doente é socorrer o próprio Cristo. À sombra da Cruz de Jesus ir ao encontro dos que padecem males físicos ou morais, os que sofrem violências familiares, que padecem nas ruas, os alcoolizados, os drogados. Trata-se da caridade redentora, de toda forma de generosidade e de amor para com os que sofrem e que jazem numa necessidade de amparo fraternal. Isto significa viver o espírito de Cristo, fixando nele nossa fé e a dedicação ao próximo que sofre.  Segundo o Profeta Isaias Jesus na sua Paixão se tornou “familiar do sofrimento” e assim durante seu ministério mostrou sua compaixão, reflexo da compaixão do Pai. Cristo bebeu o cálice do absoluto despojamento do amor próprio, e se fez nosso modelo. Como escreveu São Paulo aos Filipenses Ele “subsistindo na natureza de Deus, não julgou o ser igual a Deus um bem a que não devesse nunca renuciar, mas despoujou-se a si mesmo, tomndo a natureza  de servo , tornando-se  semelhante aos homens e reconhecido como homem por todo o seu exterior, humilhou-se a si memso fazendo-se obediente até a morte  e à morte de cruz (Fil  2,6). Tornou-se assim     para nós um modelo  de total abnegação. Ele dissse aos peregrinos de Emaus  que era preciso que  Ele sofresse para entrar na sua glória (Lc 24,26). É sobretudo no serviço aos sofredores que o cristão pode, de fato, imitar o Mestre divino, fazendo-se tudo para todos. Seus sofrimentos foram o fruto maduro de sua  imensa caridade e seu amor o levou até a dar sua vida por todos os homens. Ele se fez o Cordeiro que tira os pecados do mundo na sua grandiosa dileção pelos que padecem os males nessta terra. O autêntico cristão imita a Jesus e vai de encontro a todos as dores do próximo, aliviando-lhe seus padecimentos. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

 

quarta-feira, 31 de maio de 2023

 

  

ACOMPANHAR SEMPRE JESUS

     Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O Evangelho fala de um chamado especial de Jesus, a vocação do publicano Mateus (Mt 9.9-13). O Mestre divino preparou um pequeno grupo de discípulos que deveriam continuar sua missão de salvação. Ele toma aqueles que Ele quer: pecadores ou pessoas de uma tarefa humilde. Assim sendo. Ele chama inclusive um publicano, quem exercia uma profissão que era mal vista pelos judeus, dado que os publicanos recebiam impostos em nome do governador romano ao qual eles não queriam se submeter. O apelo de Jesus foi claro: “Segue-me”. Mateus então abandona sua profissão e envolto numa profunda alegria oferece a Cristo um festim para expressar seu agradecimento. Muitos publicanos e pecadores se puseram à mesa com Jesus. Os fariseus não se calaram e abordaram os discípulos: “Porque vosso Mestre come com os publicanos e pecadores”? Tendo escutado isto, Jesus imediatamente dá a resposta em nome dos seus discípulos: “Não precisam de médico os que têm boa saúde, mas os doentes “. A analogia era perfeita: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. Atualíssimas estas palavras de Cristo, pois Ele continua a nos chamar para segui-lo, cada um segundo o sua condição e sua profissão. Seguir Jesus quer dizer muito frequentemente abandonar paixões desordenadas, maus comportamentos familiares, a perda do tempo que deveria ser consagrado à oração, ao banquete eucarístico, à evangelização. Enfim, tudo isto quer dizer que um verdadeiro cristão, conforme ensinou Santo Inácio de Antioquia, não é seu próprio mestre, mas se oferece sempre ao serviços de Deus. É certo que Jesus exige mudanças na vida de quem acatou seu chamado, tanto mais que o ser humano pode e deve aprimorar-se continuamente. O que passou entre Jesus e Mateus nós não o sabemos, mas pelo texto do Evangelho sabemos que houve um chamado bem correspondido. Sob o olhar de Jesus aquele que Ele chamou e outros que constituiriam o Colégio apostólico, cada um pôde se conhecer, reconhecer sua fraqueza   e o caminho pessoal de cada um lhe permitia reconhecer os outros para os atrair para o Mestre divino. A Boa Nova não era para indivíduos   isolados, era para um grupo de pessoas e Jesus deixou claro que Ele viera chamar não os justos, mas os pecadores arrependidos. Esses então atrairiam outros para o ideal pregado por Cristo.  Eis aí o valor da palavra e do bom exemplo pelos quais se pode evangelizar num acolhimento que não exclui, mas salva.  Ser salvo é ser acolhido por Jesus no seu reino de Justiça e de Paz. Além disto, de numa maneira espiritual, há também a salvação na participação na vida trinitária, pois nos tornamos filhos adotivos do Pai. Trata-se, portanto de viver numa comunhão pessoal e íntima com Deus nosso Pai. Deve-se então compreender a salvação como a expressão do amor de Deus que nos estabelece numa nova relação com Deus e, assim sendo, devemos entender a salvação como um dom e acatar em tudo a santíssima vontade divina.  Ao seguir os planos divinos o homem não pode se tornar Deus, mas Deus pode fazer do homem seu filho. Ao seguir em tudo a vontade de Deus o homem se estabelece numa relação nova com Deus. Seguindo o desígnios divinos cada um pode e deve participar do amor infinito que existe entre o Pai e o Filho no Espírito Santo. Significa, portanto, ser amado e participar do amor de Deus. Foi o que aconteceu com Mateus e fez dele um admirável seguidor de Cristo. Mais tarde Mateus, tornando-se um notável evangelista registrará estas palavras de Jesus: “Não é aquele que diz Senhor, Senhor, que entrará no reino dos céus, mas sim, aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. (Mt 7,21). Portanto, seguir em tudo o chamado de Deus representa viver o dom deste chamamento A questão que se põe não é saber o cristão o que ele deve fazer para merecer o céu, mas saber como se obedece ao apelo de Deus e isto tão prontamente como ocorreu com Mateus. Note-se que a infidelidade mata o dom recebido, pois não seguir logo o apelo de Deus se mata o dom precioso de seu chamado. Está no Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo.” (Ap 3,20). Foi o que fez Mateus e nos deixou tão valioso exemplo. Ele abandona imediatamente o seu serviço e segue Jesus! Isto significou uma conversão total. Jesus chamou um pecador que se converte plenamente   Vemos que Jesus nos mostra duas verdades: Deus olha o coração do homem que Ele chama quando quer e como Ele quer. Deus vem a cada um não importa sua situação espiritual. Ele o santificará. Em segundo lugar o importante é nunca fechar a porta ao chamado divino. Cumpre atendê-lo e se colocar ao serviço dos outros e da palavra com fez Mateus. Abrir-se sempre a porta do coração e se esteja atento aos desígnios divinos. O que disto resultará está nãos mãos de Deus * Professor no seminário de Mariana durante 40 anos.

terça-feira, 23 de maio de 2023

 

SANTÍSSIMA TRINDADE

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

A Fé de todos os cristãos se concentra na Santíssima Trindade. O amor de Deus alcança seu mais alto grau ao sacrificar o seu Filho unigênito, isto é, Jesus, o Verbo encarnado, por todos e cada um dos homens. Deus quer, portanto, a salvação de todos e não sua condenação e todos os homens ao crerem nele, isto é, em Jesus Redentor, podem ter a vida eterna. (João 3, 16-18). Deus salvou o mundo através de Jesus, porque Ele é amor e se Ele é amor é Trindade e esta revelação está no centro da mensagem cristã. Com efeito, se entende que Deus é amor neste sentido que Deus age a nosso respeito com misericórdia, solicitude e ternura, e isto o povo de Israel o sabia e o Corão não o rejeita também. Neste caso se pode dizer somente que Deus nos ama, mas não que Deus   é amor. Como nós podemos dizer de cada um de nós que nós amamos tal ou tal pessoa ou coisa, mas isto não nos permite de dizer que nós somos amor. Ora a revelação do Novo Testamento vai até dizer que Deus é Amor. A revelação cristã chega à vida íntima de Deus, sobre seu ser e não sobre o seu simples agir ou sentimento. O Senhor se revelou junto dos homens pela sua solicitude por nós, por intenções benevolentes junto dos homens. Com Jesus Cristo, porém, vamos além da simples compreensão da manifestação do amor de Deus. Nós podemos compreender que não somente Deus age com amor e por amor, mas que Ele e é o amor mesmo. Com Jesus Deus se revelou como comunhão de amor entre o Pai e o Filho no Espírito Santo. Se podemos dizer que Deus é por essência amor, é porque   nós cremos que Ele não é solitário. Com efeito, não há amor senão se há uma pessoa que ama e uma pessoa amada. Se eu não amo nada nem pessoa alguma, a rigor eu posso ter um desejo de amor, mas eu não posso dizer que eu amo. Eu não posso dizer que eu amo senão se há uma pessoa ou um objeto para o qual meu amor se orienta. Ao dizer que Deus é amor significa que nele mesmo e independentemente da criação há nele uma possibilidade de relações. Dizer que Deus é amor é dizer que   há nele mesmo uma pessoa que ama e uma pessoa amada.  Isso porque o amor não existe em teoria, nem de maneira abstrata, ele não existe senão na realidade de uma relação.  Eis porque a revelação da Trindade vai de par com a revelação da essência de Deus como amor. É o mistério mesmo do amor que está no princípio e no fim de nossa existência. Cada uma das três pessoas não existe por ela mesma, ela não existe senão sendo pelas duas outras pessoas. O Pai não existe como Pai distinto do Filho ao qual se dá inteiramente. O Filho não existe como Filho distinto do Pai senão sendo todo inteiro um elã de amor para com o Pai. O Pai não existe como uma pessoa constituída nela mesma e por ela mesma, mas é o ato de engendrar o Filho que O constitui como pessoa. O Espírito Santo é por sua vez o dom do Pai ao Filho e a resposta do Filho ao Pai. O que é assim revelado é que a relação de amor é a forma original de ser, isto é que o fundo do ser divino é esta comunhão de amor. Deus nos ama porque o amor está nele. Esta realidade do amor de Deus, como uma característica de seu ser, nos assegura também a realidade de seu amor. Ele não pode deixar de nos amar, ou Ele não o seria o que Ele é.  Seu amor para conosco é abertura da comunicação do amor que constitui o seu ser. Nós não fazemos senão partilhar o que constitui a relação do Pai com o Filho no Espírito Santo.  Deus me ama porque Ele é amor (1 Jo 4, 7-10).  No lugar de uma força obscura, de uma energia prodigiosa, mas sem visão, nós descobrimos na criação e na origem desta a visão de um Amor que é Deus. Estas revelação de Deus Trindade é capital porque ela permite ao ser humano se compreender a si mesmo. Criado à imagem e semelhança de Deus o homem se compreende como fruto do amor divino.  Criado à imagem e semelhança de Deus o homem se descobre fundamentalmente como um ser de relações e comunhão. Todo homem possui este desejo de amar e de ser amado, anelo que não se realiza plenamente senão entrando em si mesmo e no acolhimento do outro. Nossa vocação fundamental ao amor e à felicidade é, portanto, uma vocação, o dom e o acolhimento do outro.  O mistério da Santíssima Trindade é portanto também essencial para aclarar nossa vida. Este mistério nos revela que nos dispomos ao trabalho de uma conversão permanente que consiste em ultrapassar nossa maneira equívoca de amar. Por tudo isto podemos compreender que o mistério da Santíssima Trindade é o mistério do amor de Deus que é amor. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

.

 

quinta-feira, 18 de maio de 2023

 

RECEBEI O ESPIRITO SANTO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

No Evangelho de hoje Jesus nos mostra que seus seguidores, após Pentecostes, entram plenamente de corpo de alma no movimento dinâmico, na nova maneira de ser: “Assim como o Pai me enviou, também eu envio a vós [...] Recebei o Espírito Santo” (Jo  20, 19-23). Cristo nos envia a falar e a fazer as maravilhas de Deus. Maravilhas, de fato, da misericórdia que é preciso anunciar de verdade. Ele nos envia como Ele mesmo foi enviado, não somente a comparação vale para a evangelização, mas também vale para a maneira de a fazer, porque nós evangelizamos pela e com nossa humanidade, nossas palavras e nossos gestos, mas uma humanidade renovada dado que num liame direto e muito íntimo com a sua santa humanidade que depois da Ascensão está junto do  Pai. Esta relação é tão intima que com São Paulo é preciso falar de uma real unidade, ou seja, aquela de um só corpo cuja Cabeça está no céu. Entretanto os membros deste corpo ficariam sem vida se o Sopro de Deus que repousava outrora sobre as águas não viesse a soprar com uma respiração divina neles mesmos. Jesus foi claro: “Do mesmo modo que o Pai me enviou, eu também vos envio”. Tendo assim falado, Ele soprou sobre eles e lhes diz: “Recebei o Espírito Santo”. Os discípulos já estavam repletos de uma alegria inteiramente humana, ou seja, aquela de ter encontrado seu Mestre e Amigo. Júbilo, outrossim, santo de reencontrar Jesus que veio até eles estando as portas fechadas, com uma humanidade ressuscitada, mas verdadeiramente humana dado que eles reconheceram os traços da efusão do sangue. Nova efusão nesta manhã, ou seja aquela do Espírito Santo. O Verbo a eles se dirige e os convida a ´receber, a acolher neles não algo que teriam que descobrir ou reconhecer com suas forças, mas um Dom infinitamente além de tudo o que lhes era capaz de conceber e esperar, dado que se tratava de Deus em pessoa, o Espírito Santo e é de se notar que é Jesus que nos ordena de O receber: “Recebei o Espírito Santo”. Neste final do Evangelho segundo São João, neste fim do tempo de Páscoa, escutamos ressoar no fundo de nosso coração a voz da santa humanidade de Jesus cujas palavras o Evangelista maravilhosamente gravou. Escutamos esta voz que nos pede receber o Espírito Santo. São Paulo então emprega um termo bem forte: “Todos fostes embebidos em um só Espírito” (I cor 12,13), Ora não se pode ser embebido se antes não tenha provado e, na verdades, com uma sede que faz intensamente desejar beber, tomar desta água. Isto conforme está no Salmo: “Senhor meu Deus, de vós tem sede a minha alma, por vós anela o meu corpo languente como terra árida sem água” (Sol 62,2). Abramos então a medida de nosso coração para desejar um Dom tão precioso. Pentecostes é assim uma solenidade extraordinária, pois nela inclusive a Igreja começou a existir, neste sentido em que ela começou a se manifestar. Sua formação real e concreta é bem mais antiga. Certos primeiros teólogos fazem remontar esta formação   no começo da Encarnação do Verbo na Virgem Maria no dia da Anunciação. A Igreja não pode se desenvolver exteriormente com justeza no mundo senão na medida em que   ela não cessa de retornar aos fatos de sua formação. Há um duplo movimento a viver neste dia para nós. Um movimento retrospectivo e um movimento prospectivo. Este mostra a Igreja que sai de si mesma quando Jesus envia ao mundo os Apóstolos. Cumpria vencer os temores ao experimentar a paz e a alegria pela presença do Ressuscitado que imprime confiança ao degustar seu amor misericordioso. Receber o Espírito Santo é fundamentalmente para a libertação nossa e dos outros. A maravilha de Pentecostes deve nos levar a sermos os arautos desta libertação prometida. Devemos fazer de nossos dias um Pentecostes contínuo onde quer que estejamos. Como é então que anunciamos estas verdades? Trata-se de levar o Evangelho onde quer que agimos. Cumpre partilhar com os irmãos a Boa Nova. Nossa fé não pode ser uma doce ilusão, mas deve ser real e concreta nos levando às últimas consequências de nossa adesão completa ao divino Ressuscitado. É por isto que Ele está a nos mandar: “Recebei o Espírito Santo”. Saibamos cultivar e colher seus sete dons vivendo sempre na sua presença santíssima. Peçamos sempre a Ele seus doze frutos e Ele nos santificará e iluminará em todas as circunstâncias de nossa vida.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.