LUZ QUR ILUMINA TODAS AS GENTES Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho* Natal! Qual é a natureza a desta solenidade? Festejamos o nascimento de uma criança. Este Menino que é Deus em pessoa. Um nascimento como todos os outros, mas um nascimento extraordinário, que foi assumido pela maternidade e na virgindade, A maternidade de Maria que nos festejaremos daqui a uma semana no dia primeiro de Janeiro de 2023. Maternidade divina que termina na oitava do Natal e que abrirá o ano civil, ano da graça de 2023, maternidade assumida numa virgindade, no ser mesmo de Maria a qual fora Imaculada em sua Conceição. Jesus é verdadeiramente um homem, mas cuja pessoa é divina. Não é Deus que vem em uma pessoa é a segunda Pessoa da Trindade, o Filho, o Verbo, o Único, gerado, não criado, que toma carne de Maria e neste momento sua alma humana é criada e Jesus terá esta dupla vontade, que não é de uma vontade divina na sua única Pessoa que é a Pessoa do Verbo a qual assume a natureza humana que obedece, que entra em comunhão íntima com a Pessoa do Verbo. É o que se chama “comunicação dos idiomas”: tudo o que podia passar da divindade na humanidade e da humanidade na divindade se realiza na Pessoa do Verbo e, dizendo isto, estamos no limiar do Mistério e não seremos nunca capazes de explicar na sua totalidades quem é Jesus ou quem é a Trindade. Deus nos ultrapassa e ultrapassará sempre, mas a revelação que Deus nos oferece sobre seu ser e nosso próprio ser nos introduz realmente neste nosso conhecimento e em nossa comunhão com Ele. A luz de Deus e a grandeza de Deus nos ultrapassa. Nós somos chamados a entrar neste Mistério de amor do qual não somos a fonte, mas os beneficiários. Devemos nele adorar a Deus, pois “o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) Como diz São Paulo, “dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. (“Rm11,36), Ele é, de fato, a luz quer ilumina todas as gentes. Em Jesus Deus se faz vulnerável, e o Todo-Poderoso se torna uma pequena criança, se faz semelhante a nós, e a Ele acessível. Ele esconde sua glória, seu poder. Deus não tem necessidade de mostrar seu poder, como nós os seres fracos que temos por vezes a precisão de nos mostrar fortes, não obstante nossa fraqueza. Nós somos convidados a escutar a Palavra, o Verbo de Deus que nos é dirigida neste seu Natal. A voz do Senhor que fala ao nosso coração. Deus nos fala sem cessar. Ele fala à nossa consciência. Temos uma alma espiritual, o que caracteriza nessa pessoa. Somos chamados a escutar, a receber o Verbo que vem até nós. Como Maria saibamos O acolher. Portanto, receber Jesus, contemplá-lo e escutá-lo o que Ele nos quer dizer neste seu Natal. Procurar sabem o que Ele solicita de nossa vida pessoal, o que podemos melhorar em nossa existência cristã, para que sua palavra seja fecunda em nossa vida. Jesus é sempre fonte de vida, vida que é luz. O Natal nos convida a sermos luz, canais que transmitem a vida divina aos irmãos e irmãs, ajudando-os a crescer espiritualmente. Cumpre levar por toda parte Jesus que é a fonte de vida, a plenitude da vida. Ele que transfigura nossa existência. Acolhamos o Menino Deus com fé, com respeito e muito amor. Deixemo-nos transformar por esta Palavra que se fez carne e habitou entre nós e se fez o nosso Salvador. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos
quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
quarta-feira, 30 de novembro de 2022
VINDE
A MIM, DISSE JESUS
Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O
Evangelho nos diz que Jesus “Vendo as multidões, teve compaixão delas porque
estavam fatigadas e abatidas como ovelhas sem pastor/” (Mt, 9,36-10.8).
Percorrendo nosso mundo deparamos, de fato, esta triste realidade descrita pelo
Filho de Deus. Os dirigentes muitas
vezes mais se preocupam com o poder e dinheiro próprio e não têm olhos
para ver a miséria em seu derredor. Muitos os desesperados, torturados,
esfaimados, É a eles que se dirige Jesus, Aquele que pode trazer esperanças de
uma vida melhor através de seus ministros dedicados que, com generosidade, podem dulcificar tantos sofrimentos
por meio da luz de sua doutrina, desanuviando as trevas do sofrimento e fazendo
degustar a alegria perdida, mas tão
desejada O povo de Israel podia melhor
que nós captar a ideia do papel de um bom pastor e sabia
exatamente a importância de sua missão na assistência a suas ovelhas. Jesus por
meio de seus ministros, bons pastores, desejava e deseja sempre através dos
tempos que haja bons pastores que possam direcionar os desorientados que
almejam bem conceituar o sentido da vida. Eis porque Jesus escolheu os doze
apóstolos que teriam seus sucessores séculos afora para virem de encontro aos
sofredores, pregando a solução de seus problemas, expulsando os demônios,
valorizando seus sofrimentos oferecidos em reparação dos pecados que são a fonte
de tantos males. A mensagem de Jesus condoído pelos moléstias que tantos
padecem é uma mensagem de paz, de amor que pode sanar as enfermidades, curar
suas feridas, oferecendo a certeza de uma felicidade perene junto dele numa
eternidade feliz, esperança esta que ampara sempre nas tormentas da vida. Jesus
veio a este mundo como o Messias salvador e nele se pode inteiramente confiar e
com Ele vencer nas procelas que surgem na existência humana neste vale de
lágrimas. É a verdadeira fé que leva cada um a poder afirmar: “Jesus é o meu
salvador”. Então se compreende o valor da prece confiante a sustentar o cristão
nos momentos mais tenebrosos. Hoje mais do que nunca cumpre se peça a Jesus que
envie operários para sua messe que possam continuar sua obra redentora.
Entretanto, se é verdade que cabe aos
sucessores dos Apóstolos estarem na primeira linha de amparo aos
sofredores, cabe a cada cristão, seja onde ele estiver; ser também a guarida
corajosa a seus irmãos. O batizado não pode ser um mero usufruidor do amor de
Jesus. Deve ajudar o Mestre divino na sua obra de consolação dos aflitos nas
mais diversas circunstâncias. São Vicente de Paulo, que afirmou que “o estado
de sofrimento é uma felicidade porque
ele santifica as almas”, declarou que “o amor não pode ficar ocioso, é
preciso socorrer o doente e o assistir tanto quanto se pode em suas
necessidades e em suas misérias, cuidando de o livrar das mesmas em tudo ou em
parte”. Nunca o cristão pode se esquecer das palavras de Jesus “o que fizerdes
ao menor de meus irmãos foi a mim que o fizestes”. Socorrer o irmão doente é
socorrer o próprio Cristo. À sombra da Cruz de Jesus ir ao encontro dos que
padecem males físicos ou morais, os que sofrem violências familiares, que
padecem nas ruas, os alcoolizados, os drogados. Trata-se da caridade redentora,
de toda forma de generosidade e de amor para com os que sofrem e que jazem numa
necessidade de amparo fraternal. Isto significa viver o espírito de Cristo,
fixando nele nossa fé e a dedicação ao próximo que sofre. Segundo o Profeta Isaias Jesus na sua Paixão
se tornou “familiar do sofrimento” e assim durante seu ministério mostrou sua
compaixão, reflexo da compaixão do Pai. Cristo bebeu o cálice do absoluto
despojamento do amor próprio, e se fez nosso modelo. Como escreveu São Paulo
aos Filipenses Ele “subsistindo na natureza de Deus, não julgou o ser igual a
Deus um bem a que não devesse nunca renuciar, mas despoujou-se a si mesmo,
tomndo a natureza de servo , tornando-se semelhante aos homens e reconhecido como homem
por todo o seu exterior, humilhou-se a si memso fazendo-se obediente até a
morte e à morte de cruz (Fil 2,6). Tornou-se assim para nós um modelo de total abnegação. Ele dissse aos peregrinos
de Emaus que era preciso que Ele sofresse para entrar na sua glória (Lc
24,26). É sobretudo no serviço aos sofredores que o cristão pode, de fato,
imitar o Mestre divino, fazendo-se tudo para todos. Seus sofrimentos foram o
fruto maduro de sua imensa caridade e
seu amor o levou até a dar sua vida por todos os homens. Ele se fez o Cordeiro
que tira os pecados do mundo na sua grandiosa dileção pelos que padecem os
males nessta terra. O autêntico cristão imita a Jesus e vai de encontro a todos
as dores do próximo, aliviando-lhe seus padecimentos. * Professor no Seminário
de Mariana durante 40 anos.
segunda-feira, 28 de novembro de 2022
AS GRANDES
VERDADES DO NATAL
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O dia do Natal de Jesus relembra para todos os cristãos verdades
fundamentais da fé. Uma delas é que à natureza divina da Segunda Pessoa da
Santíssima Trindade, se uniu, no dia da Anunciação, a natureza humana recebida
da Virgem Maria pelo poder do Espírito Santo. Os teólogos empregam então, com
propriedade, o termo união hipostática.
Santo Agostinho explica este dogma de fé ao dizer que o Verbo de Deus recebeu o
que não era, não perdendo o que era.
Cristo, de fato, como ensina São Leão Magno, “desceu de tal modo, sem diminuição
de sua majestade ao tomar a condição de nossa humildade, que, uniu a verdadeira
condição de servo àquela condição em que é igual ao Pai e ligou ambas as naturezas
com o vínculo de tão íntima aliança que nem a inferior com tão grande
glorificação ficou absorvida, nem a superior diminuída com a assunção que
realizou”. Note-se que o vocábulo assunção é tão técnico como a
expressão hipostática. Trata-se de uma união cuja iniciativa cabe à Segunda
Pessoa divina e que resulta na elevação da natureza assumida, uma vez que o
resultado final é algo humano-divino que se dá. Por isto andou em clamoroso erro
Eûtiques, heresiarca grego, que, no século quinto, ensinava que a natureza
humana de Cristo se dissolvera na natureza divina, o que, evidentemente, jogava
por terra todo efeito da Encarnação de Jesus que veio para resgatar a
humanidade pecadora. O Concílio de Calcedônia em 451 condenou esta heresia. O
Redentor pagaria o que a nossa condição terrena tinha em dívida para com Deus. É,
deste modo, que Jesus se tornou o único Mediador como convinha ao remédio
necessário à raça humana, ou seja, que Ele pudesse morrer em virtude de uma das
naturezas e ressuscitasse em virtude da outra. Enquanto Deus, foi o médico
celestial; enquanto homem, pôde resgatar a estirpe à qual passou também a
pertencer. Daí resulta imensa gratidão ao Criador que, pela muita misericórdia
que nos devotou, tendo compaixão de nós, estando nós mortos por causa do
pecados, nos fez reviver em Jesus para sermos nele uma nova criação de suas
poderosas mãos. Corresponder à
gratuidade de Deus, renascendo para uma vida nova, eis aí a obrigação de todos
que têm fé. Cumpre revestir o homem novo de que fala o Apóstolo Paulo, deixando
para trás tudo que não está de acordo com o que Jesus ensinou. É o conselho de
Leão Magno num de seus mais belos sermões do Natal: “Reconhece, ó cristão, a
tua dignidade, e, já que foste feito participante da natureza divina, não
queiras voltar à antiga vileza com procedimentos indignos de tamanha nobreza”.
Jesus nasceu, de fato, para nos transladar para a luz do reino eterno do Ser
Supremo, do qual é preciso começar a participar já nesta terra. Diante do
Presépio é necessário que o batizado se lembre que, ao ser regenerado na pia
batismal, se tornou o templo vivo da Trindade Santa e que, portanto, não pode
cometer ações por cuja perversidade expulse de si tão grande Senhor para se
submeter à escravidão ignóbil do Diabo. Importância tal tem cada um daqueles
que Jesus veio remir que o preço desta redenção, a qual se iniciou em Belém, é
o próprio sangue divino. Que, então, perante a manjedoura se renuncie às obras
da carne de que fala São Paulo na Carta aos Gálatas (5,19). Apenas assim as alegrias
do Natal serão consistentes e não uma mera comemoração externa de um fato
histórico. O referido São Leão Magno frisa no seu texto a palavra HOJE: “Nasceu hoje o nosso Salvador”. A
mesma eficácia salutar que, um dia, tal acontecimento trouxe em Belém, se dá
para aqueles que se imergem nesta festa singular através da participação na
liturgia. Este é o grande sinal de que os atos salvíficos de Cristo se realizam
novamente, conferindo à alma fiel as graças vinculadas a tal evento. Hoje nasce
Jesus para as almas dispostas com fé viva e ortodoxa a recebê-lo com júbilo no
seu coração! Verdadeiro Deus Jesus viveu a condição
humana para nos mostrar a proximidade de Deus Pai, seu amor infinito,
incondicional, pessoal e personalizado para cada pessoa. A mensagem do Natal é,
de fato, esta: Deus quis participar da vida dos homens com as alegrias do
cotidiano, mas também aa dificuldades, o sofrimento e até mesmo a morte. A
mensagem do Natal é portanto um convite a uma absoluta entrega nos desígnios
divinos, pois Jesus nos leva até Deus seu Pai e nosso Pai agora neste mundo e
depois por toda a eternidade. *
Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
quinta-feira, 24 de novembro de 2022
56 A CAMINHADA DE SÃO
JOSÉ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Professamos no
Credo que Jesus “foi concebido por uma ação única do Espírito Santo e nasceu da
Virgem Maria”. Esta afirmação nos coloca na linha direta da primeira e da segunda
gerações cristãs através das narrativas de São Mateus (1, 18-24) e de São
Lucas. Lucas viu os acontecimentos sobretudo sob o ponto de vista de Maria e
Mateus do ponto de vista de São José, e esta convergência não é profundamente significativa,
mas nos leva ao seio mesmo da tradição primitiva. É evidente que gostaríamos de
mais detalhes. No Antigo Testamento Deus se serve de casais estéreis para
realizar seu plano, mas seguindo os processos ordinários da natureza. Porque
neste caso de José e Maria não procedeu da mesma maneira? Somente Deus o sabe,
Cabe a nós aceitar o plano divino. São Mateus não penetrou fundo na psicologia
de São José, mas quis esclarecer teologicamente os fatos e deles tirar uma
espécie de catequese para seus leitores, os cristãos vindos do mundo judaico.
Sua narrativa sublinha duas ideias principais: “Jesus vem ao mundo na linhagem
de Davi”, respondendo deste modo à expectativa de seu povo, e Ele o faz por
intermédio de José que O adotou como filho. No que concerne a Jesus assim Ele é dito que veio ao mundo na grande família
de Abraão, descendente do rei Davi e deste modo se expressa: “Matã gerou Jacó, Jacó gerou José o esposo de Maria, da
qual nasceu Jesus, chamado o Messias” (Mt 1,15-16) São Paulo nos confirma isto a sua maneira: Ele
nasceu da raça de Davi e desde a aurora do cristianismo, na comunidade na qual ensinava São Mateus, reconhecia em Jesus, nascido de Maria, o Messias , isto
é, o Eleito de Deus, repleto do Espírito Santo para realizar sua missão no meio
dos homens. O nome que recebeu aquele menino esperado por Maria é pleno de
significado. No Antigo Testamento o nome
indica o que é e o que deve fazer um ser racional nos desígnios de Deus. É um
resumo da pessoa e um programa de vida. Este Jesus que devia nascer seria “o Senhor
que salva” e Ele seria aquele que libertaria seu povo de seus pecados, ou seja,
a libertação de ordem moral e espiritual, e toda a libertação que, operada por Cristo,
devia promover a restauração da relação
entre o homem e Deus. Libertação universal que se estenderia não somente ao
povo da antiga aliança, mas a todos aqueles que pela fé se tornassem filhos de
Abraão. O título Emanuel vem completar este retrato teológico do Filho de
Maria. Ele vem do profeta Isaias e constitui, ele também, um programa, uma missão.
Este Jesus seria “Deus conosco”, Deus presente na história dos homens que Ele
veio remir, Deus caminhando com os homens para os reconciliar com Ele. Este título
Emanuel Jesus o reivindicará solenemente no momento de deixar seus discípulos e
depois de os ter enviado a todas as nações: “Eis que eu estarei convosco até o
fim do mundo”. Entretanto, este Jesus que entra assim na missão de Messias na história
do povo de Deus é por meio de São José que isto se dá. José que O adota
legalmente como filho e este o outro. ponto sobre o qual São Mateus insiste.
José era o homem justo. Justo no sentido bíblico, ou seja, alguém que acreditava
e era coerente com sua fé, um homem disposto pela sua santidade a entrar no
desígnio de Deus, seja qual fosse, um homem justo, porque totalmente “ajustado”
ao querer divino. José sabia a importância que tinha a Lei para ele, e também
que um fracasso perante a Lei teria terríveis consequências para Maria e o
Menino; ele sabia a importância do querer de Deus. Ele decidira pela solução a
mais discreta, a mais próxima do plano divino, simplesmente abandonando Maria,
cuja gravidez ele inovava. Deus que estava já agindo pelo Espírito Santo na
existência de Maria, interveio paralelamente na vida de José e lhe descore o
essencial de seu plano. José imediatamente dá rumo certo a sua trajetória e recebe
Maria como sua esposa e vai ter assim um papel importantíssimo nos desígnios
divinos. No fundo a grande força de São
José foi acolher a iniciativa de Deus. É
nisto sobretudo que ele intimamente estava de acordo no que Maria vivia. Eis
porque São José contesta nossas lentidões, nossas reticências e vem nos revelar
que nunca devemos fazer de Deus um nosso satélite e de O colocar a nosso
serviço. Diante da vontade divina cumpre jamais duvidar. Admiremos ainda a
discrição de São José e a imitemos sempre. A discrição foi para São José uma
forma heroica de adesão aos planos de Deus. Diante das situações aflitivas e
até desesperadoras jamais reagir com agressividade e intransigência, mas
saibamos sempre imitar o estilo da conduta de São José. Nada de gerar rupturas,
incompreensões. Em tudo é preciso paciência, muita paciência, reanimarmos a nós
mesmos e reanimar os outros, dispostos a acatar a vontade de Deus. Ficar sereno nas tensões sejam elas quais
forem. Agir sempre cristãmente, confiantes em Deus. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos
segunda-feira, 21 de novembro de 2022
OS ENVIADOS DE JOÃO BATISTA
Côn.
José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O trecho do Evangelho de São Mateus focalizando o
Precursor que, estando no cárcere, envia discípulos até Jesus interrogando-O
sobre sua missão, de início, levanta, algumas questões (Mt 11,2-11). Assim, por
exemplo: o Evangelho de Jesus é ainda capaz de falar a nossos contemporâneos,
ou é preciso inventar um discurso diferente? O estilo da ação de Cristo, aquele
das Bem-aventuranças, pode ainda salvar o mundo ou é necessário um outro tipo
de manifestação? Estas questões podem ter surgido para João Batista ao
verificar a maneira de falar de Jesus que era bem diversa do seu modo de agir.
Ele conheceu então uma rude prova para sua fé, uma incerteza tal que o levou a
colocar sua dúvida através de seus próprios seguidores. Em síntese a questão
decisiva proposta a Jesus foi esta: “És tu Aquele que deve vir, (o Messias
aguardado por Israel) ou devemos esperar um outro?” Ninguém melhor do que o Batista
havia sentido as aspirações de seu tempo, o extraordinário desejo de liberdade,
autenticidade, que borbulhava no povo judaico. Os tempos, naquele momento, eram
duros para todos que desejavam ser fiéis. Havia os Romanos, ou seja a paz pela
força. Havia também a propaganda oficial a favor dos deuses do Império. Havia outrossim
o poderio das transações comerciais do ocupante e as práticas fáceis de uma
civilização já decadente. João Batista iniciara sua pregação de preparação dos
caminhos de Jesus, vindo do deserto longe das grandes cidades. Centenas tinham
ido até ele, o asceta, o homem que lutava para purificar os costumes, aparando os vícios,
cortando os erros. Eis porque seus ouvintes haviam escutado uma palavra
estranha, até então não ouvida, até revolucionária clamando veementemente:
“Arrependei-vos porque o Reino de Deus está próximo”. João Batista era um homem
de uma só ideia: “Deus não admite o pecado”. Era isto que ele havia dito nas
bordas do Jordão ao povo, aos soldados, aos funcionários. No palácio de Herodes
ele foi claro: “Tu não tens direito de ter a mulher de teu irmão!” Agora ele
estava na prisão. Entretanto o que lhe importava era que ele havia podido
reconhecer o Messias que se esperava e falado dele aos seus ouvintes como
“Aquele que iria tirar o pecado do mundo”. Ele sempre se julgou inferior a
Jesus: “Ele deve crescer e eu diminuir”. Ele mesmo disse que ele era uma a voz
que gritava no deserto. Agora, na prisão, ele ouvia falar das obras de Cristo,
de sua pregação, de seu estilo peculiar. João jejuava, Jesus comia e bebia com
todo mundo, mesmo com os pecadores. João havia predito: “Já o machado está
posto à raiz das árvores e toda árvore que não der frutos será cortada e
lançada ao fogo”. Jesus recusou o
estilo de um messias guerreiro e nacionalista, pregando a ternura de Deus. João
gritava, Jesus em vez de agitar as massas, dedicava o tempo para reencontrar
cada um e cada uma, como um ser insubstituível. Como Messias recusava toda
libertação pela força e mostrava o essencial: Deus vindo ao encontro do homem.
João estava na prisão confuso sobre a obra que realizara e manda seus
discípulos perguntar a Jesus: “És tu aquele que deve vir ou devemos nós
aguardar um outro”? Jesus responde através de fatos e por uma citação da
Escritura: “Releia Isaias e verás isto: Então os cegos recuperam a vista, os
coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e
aos pobres é anunciada a boa
nova. Feliz aquele que não encontra em mim uma ocasião de queda”. Eis aí o drama da esperança que nós também
vivemos hoje. Nós sabemos que, em Jesus, Deus nos deu tudo: o perdão, um
caminho de vida, a esperança da glória eterna. Alguns, porém, estando agitados
perguntam: “Senhor a quem iremos nós? Somente vós tendes palavras de vida eterna
e mais ninguém nos pode ajudar!” Dizem também ser Ele a Cabeça do Corpo que é a
Igreja, mas que o modo como esta Igreja cresce na terra muitas vezes os
desconcerta. É que quereriam uma Igreja triunfante e a veem tantas vezes
perseguida e envolvida nos percalços da história. Nós muitas vezes desejamos
uma Igreja mais audaciosa, mas ela avança ao passo de pecadores que são os seus
membros. Não se trata assim da Igreja que imaginamos. Ela é santa e pecadora,
ou seja, santa na sua estrutura estabelecida por seu Fundador, mas pecadora nos
seus membros, frágeis criaturas. É preciso que creiamos ser Cristo o Redentor
absoluto do mundo, mesmo que sua mensagem não nos coloque no mundo em posição
de força, porque a atitude do cristão no mundo deve ser a do serviço, visando o
futuro de nossas comunidades e para isto é preciso atravessar o deserto de
nossas incertezas. É necessário atestar com convicção que Cristo hoje ainda é a
força da salvação para o mundo em marcha. Ele abre um caminho de doçura e de perdão. Em
todas as circunstâncias Ele é nossa salvação e é aquele que se manifestou aos seguidores de João Batista como o Messias que deveria vir a este mundo. * Professor no Seminário de Mariana durante 40
anos
quarta-feira, 16 de novembro de 2022
CONVERTEI-VOS
Côn. Jose ‘Geraldo Vidigal de
Carvalho*
Ao aproximarmos
do Natal, Deus nos leva ao deserto para aí escutar o apelo do Precursor, um
novo convite à conversão (Mt 3,1-12), Mateus começa sua narrativa da vida
pública de Jesus descrevendo o ministério de João Batista: “Naqueles dias
apareceu João Batista que proclama no deserto da Judéia: “Convertei-vos que está próximo o reino dos céus”. A insistência
está colocada em sua mensagem e é em seguida somente nos versículos 7 a 13 é que São Mateus
falará de seu batismo. Paradoxalmente, João escolheu para pregar no deserto junto
de colinas áridas batidas por um sol intenso, local que convidava à solidão e ao
recolhimento interior. Era situado a
alguns quilômetros de Jerusalém. João não se colocou nas praças das cidades ou
nas grandes encruzilhadas onde as pessoas são forçadas a passar. Ele preferiu o
deserto. Deste modo, todos aqueles que desejassem ouvi-lo deveriam procurar um
caminho e deixar de lado qualquer comodidade. É que a linguagem de João é de
austeridade e do esforço: “Convertei-vos”. Proclama ele. Tratava-se de um
programa de vida espiritual. Isto porque a conversão não é somente uma mudança
de mentalidade, mas, sim, de toda uma caminhada para Deus. Imagina-se que a
conversão é um instante privilegiado numa existência, mas é, porém, muito mais
que isto. É toda uma vida que recomeça a partir de um momento de reencontro. A conversão
é um rumo a ser adotado. Um retorno, certamente, mas sobretudo um retorno que
deve durar a vida toda. Não se trata de algo passageiro que conduz o ser humano
a refletir sobre si mesmo ou sobre suas faltas, mas uma peregrinação de amor
que leva o homem para Alguém, para aquele que chama para o Reino de Deus, ou seja,
para o Deus que oferece a paz e a alegria. Se há conversão é porque “o Reino de
Deus está próximo”. O Reino de Deus, ou
seja, o Reino dos céus, é o estabelecimento na terra da autoridade soberana do
Ser Supremo, a realização de seu plano de salvação. Este Reino de Deus nos
atrai, dirá Jesus (Mt 12,28), porque é lá que se encontra o Messias, que se
tornou próximo de nós para sempre. É o encontro com o Enviado de Deus,
pessoalmente, em casa, na fraternidade, na comunidade, é a grande empreitada de
uma vida, é o momento que não se pode perder, é o caminho que não se deve
abandonar. Depois de haver resumido a mensagem do Batista, São Mateus para um
instante sobre sua personalidade fora de série e o seu papel na história da
salvação. O alimento de João Batista eram gafanhotos e mel silvestre numa
sobriedade admirável. Quanto a vestimenta era -uma túnica de pelos de camelo e
um cinto em volta dos rins, lembrando Elias (Rãs 1,8) e sua simplicidade, por
seu modo de vestir pois sua intenção era colocar toda sua vida no rastro do
grande profeta de Javé. O Evangelista Mateus aliás inseriu explicitamente o Batista na linha dos
grandes profetas: “Este João é aquele
do qual falou o Profeta Isaias: “No deserto
uma voz clama: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas (Si 40,3)
Como o Profeta que anuncia o retorno dos deportados no século 6º. antes de Cristo, João inaugurava
os tempos novos. Deus por Jesus vai livrar seu povo de toda escravidão. Depois
São Mateus retorna à mensagem do Batista e, especialmente, à sua severidade
para com os Fariseus e os Saduceus: “!
Raça de víboras”, e de novo diz “Vós não produzis senão obras de morte”. É
certo que eles chegam em grande número, mas João não desejava que recebessem o
batismo por esnobismo. Ele era claro:” Produzi um fruto que exprime vossa conversão”.
Deus, com efeito não se contentará com simples sentimentos nem com práticas
puramente exteriores: Ele quer atos concretos, que envolvam o homem todo
inteiro. A fé mesma deve se purificar de toda a procura de comodidade. “Não
digais a vós mesmos: Temos Abraão por pai!”. Segundo a doutrina judia corrente,
Israel usufruía os méritos de Abraão, mas, para o Batista, contar sobre estes méritos
seria simplesmente ainda se apoiar sobre um privilégio religioso, A conversão
seria incompleta. Os verdadeiro filhos de Abraão são todos aqueles, Israelitas
ou não, que imitam sua fé e seu engajamento total no projeto de Deus. Através
dos Fariseus e dos Saduceus, é nós que somos tomados a parte pelo Precursor.
Porque nós também somos ameaçados pela
rotina e nossos retornos ao Senhor ficam frequentemente algo passageiro. *
Professor no Seminário de Mariana durante
40 anos.
segunda-feira, 14 de novembro de 2022
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A glória de Maria procede de sua dignidade de Mãe de Jesus Cristo, mas
esta prerrogativa outorgou a ela outros privilégios, de sorte que em
redor do título de Genitora do Filho de Deus Encarnado florescem todas
as perfeições que nela contemplamos. Entre os privilégios desta mulher
singular fulge a Imaculada Conceição, ou seja, a isenção do pecado
original no mesmo momento em que a sua alma foi criada e unida ao
corpo. Todos nós nascemos privados da graça santificante, da pureza
primitiva, da amizade de Deus. Ela, porém, foi pura, imaculada, como
outrora nossos primeiros pais no paraíso terrestre. Eles desobedeceram
a Deus, perderam sua amizade e nos legaram o pecado original. Para a
Rainha das Virgens, entretanto, tudo é luz. Ela entrou no mundo
destinada a ser a progenitora do Redentor da humanidade, brilhando com
todos os esplendores da divindade de Cristo a quem conceberia pelo
poder do Espírito Santo. Eis porque todas as belas-artes, cujo ideal é
a beleza sem mancha e sem defeitos, inclinaram-se diante da Virgem
imaculada, prestando-lhe homenagens, proclamando-a a sua rainha e
procurando reproduzir lhe os traços nos mais primorosos trabalhos
humanos. Foi a beleza imaculada de Maria que arrancou do gênio de
Rafael as suas Madonas, do pincel de Murilo as suas Conceições, da
virtude de Fra-Angélico as suas Virgens. Foi a beleza imaculada de
Maria que fez vibrar a alma de Mozart e de Gounod, entoando a
“Ave-Maria”; foi a beleza imaculada de Maria que guiou o buril dos
artistas na pureza das linhas, na graciosidade dos contornos, na
harmonia do conjunto dessas estátuas que fazem o encanto de nossas
igrejas e o ornamento das nossas cidades. Foi a beleza imaculada de
Maria que fascinou e encantou o coração da humanidade, a ponto de
reformar os seus costumes e de purificar os seus sentimentos; foi a
beleza imaculada de Maria que suscitou através dos tempos as virgens
cristãs em sua radiante pureza e na sublimidade do seu heroísmo. Foi
quem depositou na fronte de nossas mães a modéstia, a graça, uma doce
majestade que são ao mesmo tempo a honra, a segurança e a felicidade
da família. Ela é a cheia de graça, a bendita entre todas as mulheres.
Na vida de Maria Santíssima não houve um só momento em que ela
estivesse sujeita ao pecado, e esta crença universal de todos os
séculos cristãos foi solenemente proclamada dogma de fé a 8 de
dezembro de 1854 pelo Papa Pio IX: «Declaramos que a Bem-aventurada
Virgem Maria, desde o primeiro instante de sua concepção, por uma
graça especial e um privilégio do Altíssimo, em vista dos méritos de
Jesus Cristo, o Salvador da raça humana, foi preservada da mancha do
pecado original». Este privilégio excepcional, esta glória sem igual,
lhe vieram unicamente dos merecimentos infinitos do Verbo de Deus que
em seu seio se encarnou, para redimir o gênero humano. Como a nuvem da
tarde reveste-se de púrpura e de luz, refletindo os últimos raios
solares, quando o astro do dia vai desaparecendo no horizonte, assim
Maria, recebendo a eficácia dos méritos do Redentor, apareceu na terra
iluminada e foi sempre pura, santa, sem mancha original. Jesus é
realmente o Deus feito Homem e, por conseguinte, a humanidade lhe é
tão necessária como a divindade. Maria entrou nos planos salvíficos do
Ser Supremo. O sangue que correu nas veias do Cristo procedeu da vida
de Maria, e a fonte desse sangue não poderia ser impura, o princípio
dessa vida não poderia ser manchado. A Virgem santa, que apresenta ao
mundo o vencedor do pecado, não deveria estar um instante sequer sob a
lei do pecado. Aquela por cujo intermédio a graça divina derrama-se
sobre a criatura não viveria, ainda que um só momento, fora da graça.
A desonra materna tornar-se-ia a ignomínia do Filho, e ainda que
Cristo destruísse o império do pecado, haveria sempre uma sombra em
sua glória, pois antes de ser o vencedor do mal, não teria podido
vencer o mal em sua santa Mãe, e a graça, que tudo purifica, teria
sido impotente na Conceição de Maria. Não nos basta, porém, recordar
toda a grandeza da Virgem Imaculada. Cumpre imitar sua pureza sem
mancha numa pugna constante contra tudo que possa conspurcar a alma
numa fuga perseverante das ocasiões de pecado, das novelas imorais,
dos sites pornográficos, enfim de tudo que a mídia sob inspiração do
Maligno oferece para perdição eterna. Observância total, absoluta do
sexto e do nono mandamentos sagrados da Lei de Deus. Por isto, o
cristão está sempre a repetir: “O Maria concebida sem pecado original,
rogai a Deus por nós que recorremos a vós”! * Professor no Seminário
de Mariana durante 40 anos.