quinta-feira, 25 de agosto de 2022

 

CARREGAR A CRUZ DE CADA DIA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

No Evangelhos de hoje Jesus nos deixa três advertências, três renúncias às quais devem aderir todos os que querem se tornar seus discípulos (Lucas 14, 25-33). Cumpre encher todos os lugares afetivos, sejam quais forem, sob o ângulo da resposta sincera a Ele; carregar a cruz de cada dia, seguindo-o em tudo; estar disposto a se desapegar de tudo que é da ordem do ter e não do crescer espiritual. Duas curtas parábolas tem por finalidade fixar a atenção nestas realidades. Tal o objetivo da parábola do homem que quer construir uma torre e a do rei que quer partir para a guerra. Trata-se do planejamento que garante o bom êxito do empreendimento em vista. O Mestre divino, porém, foi claro mostrando que quem não renuncia a tudo que tem não pode ser seu discípulo. É de se notar, como o fazem diversos comentaristas, que Cristo não se dirige especialmente a monges e religiosos que fizeram votos de pobreza, mas a todos e todas que vivem na cidade dos homens e se dizem cristãos. É que isto faz parte da sublimidade   das Bem-aventuranças, da excelsa aventura da fé. Quando se trata de construir uma torre ou de enfrentar uma guerra é facultativo a cada um se entregar a tal empreendimento, mas quando se trata de seguir Jesus a disponibilidade deve ser absoluta. Com efeito, amar a Deus sobre todas as coisas, se tornar discípulo de Jesus não é facultativo, mas sim a única urgência da vida do batizado.  Eis porque a prudência consistirá frequentemente a tudo   sacrificar para estar unido a Deus que nos ama e para trabalhar pelo seu reino, a resposta sensata será se tornar preso à vontade divina, a tudo transferir na conta de Cristo, dado que a verdadeira riqueza será encontrar-se livre de todo entrave terreno e deixar que Deus nos livre de todas as nossas misérias terrenas. O autêntico cristão deverá poder sempre afirmar que ele ajuda os outros a viver, servindo-os, pois é isto que é ser cristão, porque Deus tudo sabe e quer que assim se proceda. Tal a exigência de nossas reponsabilidades cristãs, de nossas necessidades familiares e comunitárias, dando cotidianamente, livremente, nossa resposta a Deus numa renúncia consciente e real, tomando a cruz de cada dia. A vida é um dom de Deus e Jesus veio nos mostrar de que maneira vivê-la em plenitude, porque ela não é uma finalidade em si, mas ela nos abre para a vida eterna. À hora de nossa morte seremos julgados não por aquilo que tivermos ajuntado, não pela nossa notoriedade ou nossos sucessos sociais, mas pela fé que tenhamos realmente vivido e sobre o amor que tenhamos partilhado. Quando Cristo nos fala em tomar a cruz de cada dia, Ele nos diz simplesmente que saibamos nos ultrapassar, renunciar à nossa própria vontade para fazer a vontade divina. Renunciar a si mesmo é uma cruz que não se pode carregar senão com um amor a qualquer coisa maior do que aquela que se deixa de lado, qualquer coisa superior a nós mesmos que no caso é Deus. Carregar a cruz não significa nada de masoquismo, de dolorismo, mas uma escolha de conduta por amor a Deus e aos outros. É de se notar que a vida está repleta de provas e de contrariedades contra as quais não adianta simplesmente revoltar. O Mestre   divino nos chama a viver com Ele, porque Ele é o único que pode tudo fazer concorrer para o nosso bem e o bem do próximo e para a glória dele, Todo-poderoso Senhor. Acatar com fé e confiança todas as provações por maiores que sejam, grandes ou pequenas, isto é carregar a cruz de cada dia. Isto não é fatalismo, ou renúncia a todo combate, mas, ao contrário, é fazer face a todo esforço de cada hora por amor a Deus e aos irmãos. Deus, contudo, nunca nos deixa sós, mas para se chegar a viver com Ele, por Ele e nele é preciso orar e sobretudo ter sempre para Ele um lugar dentro do nosso coração. Assim sendo, o cristão a cada dia vai se tornando uma pessoa nova.  É que discípulo significa seguidor, ou seja, na alheta do Mestre ser como Ele, pensar como Ele, existir como Ele. Viver com Jesus e o acompanhar seja onde for. Ele deve ocupar o primeiro lugar na vida de seu seguidor. Colocar a confiança nas coisas terrenas é impedir entrar em plenitude no reino de Jesus. Ninguém pode obter o dom da vida eterna se não estiver disposto a sacrificar as coisas terrestres para a obter. Um cristão rico pode entrar no reino dos céus, como o pobre, com a condição dele sujeitar seu coração e suas afeições à vontade de Deus e a Jesus que   é o caminho, a verdade e vida. Suas afeições e suas esperanças não se acham nos bens passageiros deste mundo. O verdadeiro seguidor de Jesus ajunta tesouros mas no céu e não nesta terra, carregando a cruz de cada dia. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

 

TODO AQUELE QUE SE EXALTA SERÁ HUMILHADO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus tomava refeição em casa de um dos principais fariseus que o havia convidado (Luc 14,1.7-14). Como notam os exegetas, geralmente, os convidados mais importantes eram os últimos a chegar e talvez fosse preciso dar o lugar no último momento para um fariseu de renome. Seja como for, um detalhe não escapou a Jesus, dado que não havia sobre a mesa pequenos cartões nominativos, e assim cada um ao chegar procurava se assentar nos melhores lugares, o mais perto possível do senhor da casa. A preocupação com a questão da honra Cristo a reprovava frequentemente aos escribas e fariseus, isto é, aos intelectuais e praticantes da sinagoga, sendo que Ele censuraria o mesmo aos seus apóstolos, isto como uma atitude censurável. O Mestre divino se aproveitava sempre das circunstâncias para dar uma lição. Trata-se, no caso, da relação do homem com Deus, do homem convidado com Deus que o convida.  O banquete das bodas era, no tempo de Jesus, uma imagem clássica do Reino de Deus e os ouvintes compreenderam muito bem o provérbio que conclui a parábola:” Aquele que se eleva será humilhado por Deus! Aquele que se humilha será exaltado por Deus”! Cada um de nós é um convidado pelo Criador à sua mesa, portanto à sua intimidade, mas cada um é convidado entre outros. Ao olhos de Deus há os que são mais dignos não necessariamente os mais cultos, os mais ricos, os sacerdotes, os religiosos, mas aqueles e aquelas cuja vida inteira é uma resposta de amor ao seu convite amoroso, aqueles e aquelas cuja alegria é fazer cada dia a obra do Pai   e cujas ações coincidem com o projeto divino de salvação. Deus conhece os mais merecedores, os mais santos, isto é, os mais perfeitos, mas não colocou indicativos na mesa para ninguém. Ninguém conhece os nomes e o mais seguro para cada um é ficar humildemente no último lugar. Isto não implica nenhuma negligência de nossas responsabilidades como cidadãos e cristãos. Ser chefe, ser responsável, ser educador, mas sem dureza ou fraqueza é frequentemente uma maneira autenticamente evangélica de ficar no último lugar. É, outrossim, uma magnífica escola de humildade e uma ocasião diária de oferecer a Cristo a participação no seu cuidado de Pastor. Deste modo, cada um de nós é convidado, chamado, amado. Acontece, porém, que cada um de nós tem que fazer de sua parte convites e assim o ensinamento de Jesus se multiplica em novas perspectivas. Cristo, como sábio Mestre, parte sempre da vida concreta. Convidar é agradável e fácil quando se trata de parentes ou de amigos com os quais facilmente se convive, mas surgem problemas desde que se trate de modificar nossos hábitos, ultrapassar mentalidades arraigadas ou ignorar certas barreiras da vida social. Nossos convites muitas vezes supõem reciprocidade no acolhimento não tanto pela estreiteza de mente ou avareza, mas pela facilidade ou porque o horizonte de nosso coração é tocado muito facilmente pelo egoísmo. Jesus está a nos dizer:” é preciso ir além das categorias, saber deixar a atmosfera que tu amas, abrir tua vida àqueles que não têm nada a retribuir, nem serviço nem compreensão, nem amizade nem gratidão”. Cristo quer nos ver imitar a generosidade do Pai que nos reúne sempre para seu festim, nós os pobres, pobres de bens materiais ou de recursos culturais, pobres de amizade ou de esperança, nós os estropiados, feridos nos caminhos da vida e que guarda  as cicatrizes  do passado, nós os coxos que após anos de graças vamos a Deus sem ousar crer no seu amor, nós os cegos que cremos  ver e que cremos saber, mas   que  tropeçamos  nas incongruências  nossa própria vida e que pretendemos, não obstante, aprender de Deus por qual caminho devemos seguir. É um dever para nós deixar transformar por esta generosidade de Deus, por esta largueza do coração divino. Diante de Deus não há de um lado uma Igreja dos puros, dos lúcidos e emancipados e de outro lado a Igreja dos enjeitados. Para o festim de Jesus muitos são os convidados com suas diferenças e suas preferências, mas todos necessitados de perdão, todos assentados humildemente nos últimos lugares, mas contentes por fazerem parte do banquete divino. Cumpre portanto compreender as atitudes surpreendentes propostas no Evangelho de hoje, ou seja, “quando fores convidado vai te colocar no último lugar”, [...] “quando deres um banquete convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”. Jesus indica, porém, um benefício futuro: “ser-te-á retribuído na ressurreição dos justo”. Sábias lições a serem colocas em prática! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

 

A ASSUNÇÃO DE MARIA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Ao celebrarmos a Solenidade da Assunção da Virgem Maria de corpo e de alma ao céu recordamos que todo esplendor que envolve este glorioso dogma de nossa fé procede da profunda humildade da Mãe de Jesus. Ao ensejo da Visitação de Maria a sua prima santa Isabel no seu belíssimo hino o “Magnficat” ela, num instante de pulcra inspiração, afirmou que Deus olhou para a humildade de sua serva (Luc 1, 39-56). São Bernardo nos diz que a Virgem subindo ao céu aumentou consideravelmente a felicidade de quantos já lá estavam. Este santo ajunta estas palavras preciosas: “Nossa terra oferece ao céu um presente valiosíssimo, para selar com este fato uma aliança feliz entre o mundo humano e o mundo divino, a terra e o céu. O melhor fruto    da terra subiu até os lugares donde descem os dons e as graças.  Estabelecida nas alturas, a Virgem bem-aventurada, de sua parte ofereceria   presentes aos homens. O primeiro dom que ela faz chegar até nós é a Palavra que ela soube guardar fielmente no seu coração, fazendo frutificar depois seu silêncio acolhedor. Com esta Palavra no seu espaço íntimo, no seu seio imaculado, ela gerava a Vida para todos os homens e foi quando Ela se pôs a caminho para uma cidade de Judá, entrou na casa de Zacarias, saudou Isabel e então raiou o júbilo. Tanto que Isabel que estava grávida de João Batista lhe diz:” Logo que eu escutei tuas palavras de saudação, o menino vibrou de alegria dentro de mim (Lc 44). Maria então brindou a humanidade com um dos mais belos hinos registrados na Bíblia: “Minha alma exalta o Senhor, meu espírito exulta em Deus meus Salvador (Lc 1, 46-47). Que sublime presente o céu nos deu com o Cântico de Maria. Neste Cântico encontramos os elementos para compreender como o humano e o divino, o terrestre e o celeste se mesclam e podem assim reagir. O dom de Deus aos homens e um presente da humanidade para Deus. A humildade que contemplamos em Maria é condição basilar para ascender até Deus. O dogma da Assunção de Maria ao céu de corpo e alma é um mistério que nos toca diretamente, porque é Deus que vem alimentar nossa esperança nos chamando por Maria à finalidade de nossa vida destinada a uma glória eterna. Se formos fiéis a este Deus no fim de nossa trajetória terrena seremos em plenitude tomados por Deus e em Deus. São Bernardo compara as virtudes da virgindade e da humildade de Maria e sublinha: “A   virgindade merece recompensa, a humildade é uma exigência. Vos podeis ser salvos sem a virgindade, mas não sem a humildade.  A humildade foi a virtude que abriu o céu a Maria, Ela é Mãe da obediência da fé e da docilidade ao Divino Espírito Santo. Nesta solenidade da Assunção rendendo graças a Deus pela glorificação desta Virgem bendita saibamos imitar todas as suas exímias virtudes. É deste modo que cada um estará preparando o instante de sua partida desta terra repousando na esperança da glória eterna. Podemos, de fato, repetir com Santa Isabel o louvor que ela dirigiu a Maria: “Feliz aquela que acreditou no cumprimento das palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor”. Em Maria todos os mistérios de Deus se realizaram.  A realização das promessas divinas foi a resposta à fé de Maria, atitude que a guiou durante todos os dias de sua vida.  Ela sempre acreditou e se tornou um modelo acabado de fé. Suportou as mais duras provações sobretudo durante a Paixão de seu divino Filho que veio a morrer no alto de uma cruz tendo-a corajosamente de pé junto a si, jamais duvidando do mistério salvífico de Jesus. Também ela foi a primeira a acolher a Ressurreição de seu divino Filho reconhecendo a fidelidade de Deus, pois ela nunca duvidou das promessas divinas. A exemplo de Jesus ela um dia morreria, mas sua morte foi qual suave sono do qual logo despertou para entrar na glória celeste como hoje estamos festejando. Ela não conheceu a corrupção do túmulo, pois seu Filho logo a tomou para sua glória e sua assunção foi um fruto da ressurreição de Jesus. O povo cristão sempre acreditou que ela não conheceu a degradação do sepulcro mas que seu Filho a tomou logo em sua glória.  Imitemos suas virtudes e um dia estaremos com ela lá no céu. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

 

JESUS VEIO ATEAR FOGO SOBREA TERRA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Como Jesus vislumbrava sua missão nesta terra está bem sintetizado no Evangelho de hoje (Lc 12, 49-53), no qual aparecem palavras relevantes do Mestre divino. A primeira é a imagem do fogo: "Eu vim lançar fogo sobre a terra e que mais desejo senão que ele já esteja ateado?” De acordo com os antigos profetas de Israel o fogo evocava o julgamento de Deus no fim dos tempos. Aqui, porém, se trata de outro aspecto, porque João Batista tinha anunciado a respeito de Jesus: “Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”, fato que iria se realizar no dia de Pentecostes, quando Jesus ressuscitado O enviaria em línguas de fogo sobre seus discípulos reunidos no Cenáculo. Foi então que, segundo São Lucas, “ficaram todos repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o mesmo Espírito Santo lhes concedia que exprimissem” (Atos 2,3) O incêndio de Jesus neste mundo é, portanto, o fogo do Espirito Santo, purificando tudo, abrasando tudo, iluminando todos os homens. Tudo isso graças à palavra levada até o fim do mundo pelas testemunhas do Evangelho. Jesus dizia: “E que mais desejo eu, se este fogo já está ateado”? A este anelo de Cristo devemos responder pessoalmente, porque o fogo de Jesus arde em nós depois de nosso batismo até a hora de nossa morte. A este desígnio divino precisamos corresponder pessoalmente. De fato, depois que o Pai   pôs em nós no dia do batismo o selo de seu Espírito, Ele deve arder em nós como todos os fogos que abrasam e crépida. Desta imagem do fogo Jesus passa para a figura da água: “Num banho devo ser imergido e que ânsia que eu sinto até que ele se realize!”  O batismo é um mergulho na água em vista da purificação. Entretanto, Jesus já havia sito batizado por João Batista no Jordão e, além disto, Ele nunca teve necessidade de qualquer limpeza espiritual, Ele que era o Santo de Deus. É que, na verdade, o mergulho que Jesus entrevia era, porém, uma imersão nas águas do sofrimento. Ele percebia que breve ocorreria a Paixão que o iria submergir nas grandes águas de terríveis tormentos, a Ele o justo para que fosse purificado todo o gênero humano. Ele ansiava que este batismo fosse cumprido. Deste modo, se realizariam os intentos do Pai, pois sua dolorosa Paixão e Morte dariam a vida eterna a todos os homens. Além disto, ele mesmo o próprio Filho de Deus deste modo mundo era um pensamento familiar a Jesus.  No episódio envolvendo Tiago e João Jesus Lhes pergunta se eles seriam capazes de O seguir até o martírio. Deste modo Jesus deixava claro que pagara purificar este mundo com o fogo do Espírito Santo ele mesmo devia passa pelo batismo dos sofrimentos. Quanto a seus seguidores Ele deixaria claro: “Se alguém quiser ser meu discípulo renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. É assim que se pode compreender outra palavra misteriosa de Jesus: “Julgais que eu vim estabelecer a paz nesta terra? Não, mas vim estabelecer a divisão”. É que no caminhar terreno se Jesus incita a paz, por vezes, por entre as incompreensões as lutas diárias a fidelidade a Cristo deve superar todas esta dificuldades e os discípulos de Jesus tantas vezes são incompreendidos, rejeitados mesmo entre os que lhe são caros.  Muitas vezes se deve sair de um certo conforto espiritual optando pela total aldesão ao Mestre divino. Torna-se por vezes o cristão sinal de contradição que não é intransigência nem mau humor mas umaquestão de coerência no total seguimento do Filho de Deus. Este exige sempre correção em tudo e não admite qualquer falsidade. Deste modo o engajamento em Cristo até à cruz para a salvação dos homens deverá corresponder à coragem do batizado em testemunhar sua completa adesão a Ele, sendo para todos e em tudo modelo de uma completa fidelidade a seu Senhor antes de tudo e de todos. Belas lições do Evangelho de hoje. Ser cristão não é ter uma vida isenta de sofrimento, mas é ter uma vida na qual se ame a Deus e aos outros mais do que a si mesmo. Ser cristão é viver o desafio do amor no coração de nosso mundo. É deste modo que o Espírito Santo, que é verdade, chama à santidade. Este Espirito Santo, fogo devorador   no fundo de cada coração * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

 

sexta-feira, 29 de julho de 2022

 

  JESUS VOLTARÁ DE NOVO

Côn. Jose Geraldo Vidigal de Carvalho*

Claro o alerta de Jesus:” Estai preparados porque na hora em que menos pensais o Filho do homem chega “(Lc  12,32-48). Um dia Ele voltará e exigirá de cada um as mais estritas contas de todas as coisas e retribuirá proporcionadamente à correspondência individual aos dons e às graças que Ele lhe concedeu. Esta verdade exige de nós um sério exame de como temos correspondido aos favores divinos neste nosso caminhar terreno. Na verdade, cada um de nós tem já tudo o que é necessário para viver plenamente unidos a Deus. Cada um de nós sabe plenamente o que Ele quer de nós, que Ele vive conosco e em nós e que, através de nós, Ele prossegue sua obra no mundo.  Nós temos os sacramentos da fé que prolongam até nós os gestos salvíficos de Jesus salvador e sempre nos reunimos para receber Cristo, Pão de Deus. Jesus está invisivelmente entre nós e, no entanto, Ele nos diz e rediz que Ele voltará. Ele, de fato, voltará não para demolir o que tivermos construído com Ele e por Ele, mas para tudo remodelar à sua maneira, à maneira de Deus. Ele virá novamente para inaugurar “os céus novos e a terra nova” Ele virá colocar o selo de Deus sobre toda a obra do homem realizada com amor. Falou claramente: “A todo a quem muito foi dado, muito será exigido e àquele a quem muito de entregou, mais ainda se pedirá”. Nós não sabemos quando e menos ainda como, mas o certo é que Ele voltará e o cristão deve viver como quem está a sua espera. Há entretanto maneiras de O aguardar:  vivendo piedosamente ou de um modo relaxado, agindo ativamente como um verdadeiro seguidor do Evangelho ou   pactuando, muitas vezes, com os desígnios mundanos. Eis por que Jesus preconiza a vigilância, dado que não sabemos nem o dia nem a hora em que Ele voltará. O essencial é que à chegada dele cada um esteja luminoso pelas boas obras, como servos fiéis, seus bons seguidores em tudo e por tudo, dando frutos para a vida eterna. Pouco importa a lugar onde a Providência divina nos colocou para dar frutos. O importante é que Ele nos encontre como seus verdadeiros discípulos e não como aqueles que vivem superficialmente a sua fé.  Ai daqueles que tenham perdido o gosto de viver a vida cristã e perdido o sentido que o amor às coisas espirituais exigem de uma verdadeira fraternidade para com todos que professam a mesma fé ou pouco fazendo para ajudar os outros a crescerem na prática das virtudes. Ao voltar Ele deve nos encontrar a postos seja a que hora for, prontos porém para O acolher. Então a medida de nossa fidelidade será a medida de nossa felicidade para poder comer o repasso servido pelo próprio Cristo: Ele passará e Ele servirá os servos bons e fiéis. Donde ser necessário esperar com sabedoria a visita do Senhor. Infelizes os que vivem na ilusão de poder realizar por si mesmos sua própria vida e alcançar por si mesmos o caminho das pessoas que o   cercam. Como cristãos devemos estar preparados reconhecendo os sinais que Deus não cessa de nos oferecer através dos diversos acontecimentos de nosso caminhar terrestre. Fazer tudo do melhor modo possível é, sem dúvida, a melhor maneira de aguardar a volta de Deus, da qual não sabemos nem o dia nem a hora. Cada um correspondendo o mais fielmente possível de acordo com os dons recebidos, trabalhando sempre para a glória de Deus e bem das almas do próximo, daqueles que Deus nos confiou. Nem sempre se reflete sobre a responsabilidade de fazer multiplicar as luzes divinas através das boas obras num esforço permanente, mas tudo isto numa imensa confiança nas graças divinas. É preciso estar ininterruptamente no serviço de Jesus e trabalhar segundo sua palavra, seu desejo que é a salvação de quantos estejam em nosso derredor. Cumpre então ser testemunha do amor do divino Redentor, sendo fiel em nosso caminhar de todos os dias. É preciso estar continuamente consciente de que é mister praticar tudo que Jesus ensinou. Ele sempre se mostrou o servidor de todos e quer todos seus seguidores no serviço aos outros. Nada de viver assentado em um confortável sofá e de se contentar em dizer “Jesus te ama”. É necessário agir demonstrando em nossos atos como Jesus, realmente, ama. Isto significa estar com as lâmpadas acessar como aquele que espera o retorno de seu Senhor para Lhe abrir a porta no momento de seu retorno. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

 

RICO COM RELAÇÃO A DEUS

Côn. Jose Geraldo Vidigal de Carvalho*

O Evangelho deste domingo trata da importante relação dos seguidores de Cristo com os bens materiais (Lc 13, 13-21). Questão delicada, porque é preciso evitar tanto o angelismo no que diz respeito às necessidades humanas, quanto o materialismo que não respeita nossa dimensão espiritual. Assunto importante que nos esclarece quando se vislumbra o verdadeiro sentido da vida. A existência humana pode ser vista de duas maneiras, ou seja, considerando que tudo termina com a vida terrestre ou avaliando esta existência como um etapa preciosa rumo à vida eterna. Disto depende a maneira como cada um vive sua peregrinação neste mundo. É preciso então, total coerência entre o que se crê e o que se vive. De acordo com nossas convicções filosóficas e espirituais somos levados a práticas diferentes, sobretudo no que diz respeito aos bens materiais. É o que advertem os comentaristas do supra citado Evangelho. Se tudo termina com a morte, para os que assim erroneamente pensam, cumpre aproveitar ao máximo os prazeres sem outro cuidado que não seja a satisfação pessoal. Entretanto, para os que a vida presente não é senão o começo da vida eterna, uma preparação para o derradeiro encontro com o Senhor Deus, então é este objetivo que deve orientar a caminhada do viver nesta terra. No Evangelho Cristo nos lembra que o aumento dos bens materiais não ajuntará em nada a duração da vida terrestre. Um dia, quer queiramos ou não, será necessário deixar esta vida, tal como a conhecemos, para entrar na vida perene com Deus   para a qual o ser humano é destinado. Nossa vida eterna é desde já  aquilo na terra foi começado e é preciso sempre tender para as realidades espirituais as quais serão inteiramente possuídas após a morte. Nossa vida está oculta em Deus e o batizado, ressuscitado com Cristo, deve estar sempre voltado para as coisas do alto. São Paulo na sua Primeira Carta aos Coríntios precisa qual é a realidade espiritual que ultrapassa a morte, que é o amor. Compreende-se então que Deus sendo amor, somente em mim a capacidade de amar e de ser amado pode acolher o Amor supremo. Tudo que não é o verdadeiro amor no cristão é estranho a Deus e assim não pode subsistir na sua presença. Trata-se então da importância, durante nossa vida terrestre, de trabalhar para aumentar a capacidade de amar que nos dará a possibilidade de passar pela porta da morte para entrar na vida eterna junto de Deus. Assim sendo, o critério do amor autêntico é aquele com o qual podemos julgar a nossa maneira de utilizar os bens materiais. Pode-se, deste modo, compreender que nada terrestre levamos para a outra vida e que os bens materiais não oferecem em si felicidade. Há no coração do homem dois receios e dois desejos que o impulsionam a procurar os bens materiais. Nós procuramos a posse dos bens terrestres para apaziguar o temor do futuro ou a satisfação de nosso desejo de poderio e glória efêmeros. É certo, porém, que há uma certa legitimidade no agir de maneira responsável quanto ao futuro, especialmente quando se tem a reponsabilidade de uma família, de uma comunidade. É também legítimo querer ter sucesso nas tarefas diárias. Não se pode é perder de vista o objetivo final de toda a vida humana. O desapego que o Evangelho de hoje inculca não impede de se ter uma vista prospectiva do desejo de viver, de crescer, de possuir, mas utilizando-se de bens terrenos, visando o bem próprio e o dos irmãos sem endeusar o que é transitório. Em tudo o importante é ser rico em relação a Deus. Do contrário, no final da vida muitos terão que lamentar a vacuidade de vãos esforços que giraram unicamente em torno do que é efêmero, vaidade de tudo que passa. É necessário se convencer que o único bem é amar a Deus de todo coração e de ser pobre de espírito. Para entrar nesta dinâmica do desprendimento em relação aos bens materiais é preciso não somente compreender que nossa finalidade consiste em fazer tudo para a glória de Deus e bem do próximo, entendendo que com o verdadeiro amor partilhado o nosso trabalho gerará uma melhor segurança em face às incertezas do futuro. Diante de tudo isto é de bom alvitre indagar como é nossa relação com os bens materiais e o dinheiro? Nas nossas prioridades que lugar damos à procura e acumulação de riquezas? Como posso ser rico para com Deus? * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

   JESUS ENSINOU A REZAR  

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho* 

Contemplar Jesus em preces daria desejo ardente de rezar. Eis então o pedido que alguém lhe faz: “Senhor, ensina-nos a rezar, como João ensinou a seus discípulos (Lc 11, 1-13). O que se queria era aprender de Jesus uma nova maneira de orar que fosse a característica de sua comunidade. A prece ensinada por Jesus se tornaria então um sinal de convergência de todos os seus seguidores e um bem a ser repartido; Quando orardes dizei “Pai”. É o essencial aos olhos de Jesus. Ele mesmo, em quando homem, falava a Deus: “Aba” uma palavra intraduzível, cujo sentido, como notam vários comentaristas, é um meio caminho entre Pai e Pai querido. É, pois, por aí que é preciso começar dizer “Pai” a nosso Criador. Dizer “Pai” Àquele que é o senhor do espaço e do tempo e que conduz a história do mundo como o destino de todo o ser humano. Dizer “Pai” colocando neste nome mais confiança, mais segurança, mais ternura que pai algum neste mundo haja jamais podido merecer. Dizer “Pai” com a certeza de ser amado como nós o somos e como nós o temos sido. Quando se reflete nisto há uma audácia desconhecida de nossa parte e da parte de Deus, uma oferta de amor que nos ultrapassa inteiramente, ao ponto que certos homens e mulheres que não guardaram de sua juventude senão uma imagem paterna bastante desvalorizada lutam por vários anos, no íntimo de si mesmos, antes de poder dizer verdadeiramente com felicidade, no início de sua prece: “Pai”, tu que é Pai à maneira de Deus. É somente quando nós nos aproximamos de Deus, dando-lhe seu nome de bondade e de ternura que nós começamos nossa prece falando-lhe dele mesmo: “Que teu nome seja santificado”, isto é, que o mistério de teu ser e de teu agir seja reconhecido e adorado pelos homes do mundo inteiro. Que venha o teu reino, isto é, que teu plano de amor e de salvação se realize entre os seres humanos como tu o queres, nos momentos que tu determinastes. É somente quando nós nos aproximamos de Deus e nele damos seu nome de bondade e de ternura que nós começamos de fato nossa prece nela falando: “Que teu nome seja santificado”, isto é, que o mistério de teu ser e de teu agir seja conhecido e adorado por todos os homens. “Que teu Reino venha”, ou seja que teu plano de amor e de salvação se cumpra entre todos os homens como tudo que queres, nos momentos que determinastes. Com o Nome e o Reino de Deus, eis aí uma questão da glória deste Deus que é Pai, mas nós lhe associamos nisto que nós pedimos, dado que está glória pelo louvor deverá vir a partir desta nossa prece, provinda do íntimo de nosso coração. Deste modo, a prece segundo Jesus, visa imediatamente o que Deus espera do homem, mas tudo naturalmente em virtude da reciprocidade da Aliança, pois num segundo momento, de fato, a prece aborda o que o homem espera de Deus. Que vai então dizer o homem: “Dai-nos o pão do qual temos necessidade cada dia de nossa vida”. Mesmo quando rezamos sozinhos a prece de Jesus nos leva a pedir “dai-nos”. Isto mostra que a dimensão comunitária, universal, deve estar presente sempre em nossa prece pessoal. Realmente, quando nós dizemos Pai nosso mesmo orando individualmente trata-se de uma prece universal É uma prece que concerne a bens materiais, mas, Deus que nos criou seres de carne, não receia de nos dar coisas materiais. Finalmente últimas preces com as mesmas dimensões individuais e universais, ou seja, “perdoa os nosso pecados, pois também nós perdoamos a todos que nos ofenderam e não nos deixeis cair em tentação”. Trata-se da pedagogia do perdão e da recusa de tudo que não estiver de acordo com a vontade do Pai, Recusa de todo poder desviado e de todo prazer condenável. Deste modo o Pai Nosso oferece momentos preciosos de união com Deus, deixando lições que visam o corpo e a alma. Jesus, Mestre divino, ensinou solidariedade com nossos irmãos, rezando como Jesus e com Jesus. Receberemos então do Pai o Espírito que Jesus glorioso nos enviará porque rezaremos com Ele e nele. Podemos então suplicar: “Senhor, Escuta teu servidor que fala”, Desta maneira, nossa prece se torna um cainho de purificação e a nossa oração do Pai Nosso será sempre o diapasão de nossa união com Deus, fonte de graças extraordinárias, porque expressam súplicas que possuem o sentido de Deus, ou seja, o seu nome o seu reino e uma postura humilde na presença do poderoso Senhor que é |Pai amoroso a quem pedimos assistência nas tentações e apresentamos nossas disposições de perdão. Dá-se então uma verdadeira purificação de todo o nosso ser. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.