segunda-feira, 6 de março de 2017

É BOM ESTARMOS AQUI

É BOM ESTARMOS AQUI
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O episódio da transfiguração de Jesus está todo ele envolto na glória eterna que deslumbrou o apóstolo Pedro que exclamou: “Senhor é bom estarmos aqui” (Mt 17,1-9). Entretanto, a finalidade do que ocorria naquela montanha era deixar uma mensagem clara sobre a divindade de Cristo e mostrar a seus seguidores o destino glorioso que os aguarda na vida eterna. O cerne desta mensagem era uma pessoa, o filho bem-amado do Pai. Moisés e Elias que apareceram junto de Jesus transfigurado haviam transmitido preceitos que deveriam orientar a vida do povo judeu. Agora com a pessoa de Cristo, a nova Aliança não consistiria, em acolher determinações, mas em crer na obra da graça manifestada no Filho de Deus. A graça redentora seria a semente da glória perene após a trajetória neste mundo. Lá na eternidade é que as palavras de Pedro e de todos que conhecessem a salvação seriam uma realidade sem fim. Com efeito, os que chegarem ao céu é que poderão, de fato, poder repetir: “É bom estarmos aqui”, pois significará estar envolto numa ventura sem fim. Para que isto se torne um dia uma realidade faustosa é preciso escutar Jesus, como ordenou a voz do Pai.  Trata-se de viver conforme a fé no divino Redentor, seguindo tudo que Ele ensinou. Este Jesus que venceu a morte e ressuscitou imortal e impassível no qual o Pai colocou todas as suas complacências é quem garante este final feliz para seus discípulos. Eis i por que Cristo deu a Pedro, Tiago e João a ordem de não falarem a ninguém sobre a visão que tiveram até que Ele ressuscitasse dos mortos.  A ressurreição faria brilhar aos olhos de seus seguidores a realidade da comunhão profunda de Jesus com a vida divina que não seria vencida pelo pecado que ele repararia lá em outro monte, ou seja, no Calvário. Esta vida divina Ele comunicaria aos que O escutassem, pois seu discípulo estaria numa relação via e atual com Ele. Tanto isto é verdade que Cristo pôde posteriormente dizer aos Apóstolos e, assim, a todos que lhe fossem fiéis: “Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).  No Tabor, onde se deu a transfiguração, ele deixou uma mensagem de coragem: “Não temais”. Com ele seus seguidores atravessariam as provas e dificuldades da vida. Com efeito, as provações seriam a expressão do combate da luz e das trevas no coração de cada um e no contexto social em que vivessem. Aos vitoriosos estava selada a recompensa eterna, pois na vida deles Jesus seria sempre o grande triunfador. Na pessoa do cristão se manifestaria a aliança que o Pai concluiu com seu Filho único e daria aos que Lhe fossem fiéis a participação na sua vida e na luz perene lá na Jerusalém do alto. A mensagem da Transfiguração é deste modo  mensagem da Boa Nova do Amor do Pai, manifestado Jesus sob a assistência do Divino Espírito Santo bem simbolizado na nuvem luminosa que envolver a todos lá no Tabor. A presença da Santíssima Trindade na vida de cada um deve ser permanente e reconfortante, impedindo que se extravie e se venha a perder a glória lá do céu.  Esta presença trinitária é preciosa e importante, especialmente nas turbulências do dia a dia. Como /Pedro não se pode querer apenas momentos privilegiados, bem tranquilos. Jesus desceria do Tabor para depois conhecer todos os sofrimentos de sua Paixão e Morte. É com Ele que o cristão leva de vencida as dificuldades da vida, olhos fixos na glória que um dia se manifestará. Esta glória será a expressão de uma existência vitoriosa sobre o mal. No Tabor o rosto de Jesus brilhou como o sol e suas vestes se tornaram brancas como a luz Todo batizado deve fazer transparecer através da beleza interior da graça santificante o fulgor do amor de Deus a envolver todas as suas ações.   Deste modo o cristão é por toda parte o arauto de felicidade que um dia possuirá lá na Casa do Pai, mas da qual já degusta uma porção nesta terra de exílio. A Pedro, Tiago e João que caíram de rosto por terra Jesus lhes disse: “Levantai-vos!"!  Ele continua a clamar a cada um de nós: “Erguei vossas cabeças, pois sois filhos e filhas de Deus nos quais mora a semente da ressurreição fruto do amor infinito do Pai”. Sejamos sempre agradecidos a Deus que pelo batismo revelou para todos a beleza interior que nos transfigura em outros Cristos destinos à glória eterna. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.  

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

AS TENTAÇÕES DE JESUS

AS TENTAÇÕES DE JESUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

No limiar da quaresma, tempo de conversão, Jesus se apresenta como modelo, ensinando a vencer as tentações diabólicas (Mt 4,1-11). Em duas célebres passagens o Evangelho mostra um combate de Jesus, a saber, um antes de inaugurar sua vida pública e outro antes de entrar na sua Paixão. As tentações do deserto e a aceitação da cruz no Horto das Oliveiras são dois marcos significativos que patenteiam Cristo vitorioso. Este concita seus seguidores a trilharem o caminho da salvação. As tentações do deserto foram precedidas por uma proclamação clara de sua identidade divina após seu batismo no Jordão. O Espírito Santo descera sobre Ele em forma de pomba e ouviu-se a voz do Pai a anunciar que Ele era o seu Filho bem-amado. Foi, portanto assim confortado que Jesus se dirigiu para o deserto, lugar propício de comunicação com o Pai e o Espírito Santo e onde se daria seu singular triunfo sobre satanás. Este, por sinal, duas vezes repetiria: “Si tu és o Filho de Deus”, desejando uma prova da teofania descrita pelos Evangelistas.  Tratava-se de uma demonstração de poder divino, transformando as pedras em pão e se projetando do pináculo do templo, pois do céu viriam os anjos para ampará-lo. Jesus era, de fato, o Filho de Deus e nisto o demônio tinha razão, mas as consequências eram incorretas e eram o cerne das tentações. O espírito do mal queria que Cristo usasse de maneira errônea sua divindade. Deste modo, através de prodígios espetaculares o Redentor demonstraria sua independência pessoal indo contra os planos eternos traçados desde toda a eternidade. Seria uma violação inútil da ordem natural das coisas e, na verdade, para satisfazer satanás. Uma dominação sem nexo das leis naturais. O orgulho humano prevaleceria. Jesus, contudo, foi claro: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda coisa ordenada por Deus”. e na insinuação seguinte: “Não tentarás o Senhor teu Deus”.  Estava, assim, superada uma subversão das leis estabelecidas pelo projeto divino, recusando milagres sem motivo plausível. Na terceira tentação ambição, poder e riqueza, numa visão fantasiosa dos reinos do mundo, foram os artifícios do maligno, aliás, confirmando que o demônio é “mentiroso e o pai da mentira” (Jo 8,44). O objetivo final era evidente, ou seja, levar Jesus a um ato de idolatria. A pronta atitude do Mestre divino foi taxativa numa mensagem a ser seguida por todos os seus discípulos: “Vai-te, satanás, pois está escrito: ”Adorarás ao Senhor teu Deus e a Ele só prestarás culto”. Era uma ordem ao adversário e uma lição para todos os homens. De fato, somente ao Ser supremo se deve render toda honra e toda glória, mas, infelizmente, muitos cairiam nas garras do inimigo de Deus e se curvariam perante as imposições mundanas adorando os prazeres terrenos e se entregando a tantas formas de idolatria. Através dos tempos o ser humano querendo ser um rival do Criador de tudo. Jesus, entretanto, ensinou como se pode sair vitorioso contra as tentações e o ponto de partida é querer sempre fazer a vontade do Pai, expressa nos dez mandamentos. Cada um dos batizados teria seu calcanhar de Aquiles a ser explorado pelo diabo. O desrespeito à vida, ou o desprezo das práticas religiosas, as paixões desenfreadas, o menoscabo dos deveres familiares, ou os ataques à reputação do próximo e a falta justiça, enfim a transgressão de tantos preceitos do Decálogo seria a vitória de satanás. Na verdade, porém, haveria também milhões de batizados que, na alheta de Jesus, multiplicariam triunfos contra o espírito das trevas. Quaresma é um tempo de revisão de vida, quando cada um deve verificar quem está sendo vitorioso na sua existência: Deus ou o diabo. Trata-se uma conversão completa e de uma resolução decidida da fuga de todo mal para que não se caia nas malhas do inimigo de Deus. Para isto é preciso saber sempre interpretar corretamente a Bíblia e colocá-la em prática. O diabo invocava as Escrituras ardilosamente e foi repelido através das mesmas por Jesus. Este então afrontou a fome, o orgulho, o desejo de poder e saiu triunfante. Com Jesus e como Jesus o cristão deve vencer as tentações do demônio, procurando se identificar ao máximo com o Mestre divino.* Professor no Seminário de Mariana durante quarenta anos.  

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AFASTAR AS INQUIETAÇÕES

AFASTAR AS PREOCUPAÇÕES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus convida a todos a afastar e vencer as preocupações: “Não vos preocupeis pela vossa vida” (Mt 6,24-34). Apesar de todas as turbulências que envolvem a criatura humana neste vale de lágrimas, o Mestre divino, que é sumamente realista, aconselha a superar as naturais inquietações cotidianas. Oferece, porém, uma solução admirável: “Vosso Pai celeste sabe que precisais de todas estas coisas. Buscai primeiramente o reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo”.  Portanto, ao recomendar que não se deve se inquietar, Jesus não faz apologia da passividade, a cruzar simplesmente os braços. O que Cristo quer ensinar é que a aflição não é uma arma adequada para fazer face às dificuldades da vida. Ela, com efeito, não permite que se contornem os problemas e lhes dê uma solução coerente. A ansiedade pode levar ao fatalismo e a inação. Ensina então o divino Redentor: “Olhai as aves do céu que não semeiam nem ceifam nem enceleiram, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta”. Entretanto, estas aves não estão nunca inativas, pois procuram os grãos ou os insetos da manhã ao por do sol. Fazem um trabalho necessário para o seu cotidiano, mas não estão preocupadas com o dia seguinte. Fazem o que devem fazer e quando é preciso. Aqui se aplica plenamente o provérbio: “Ajuda-te que o céu te ajudará”. Deus não passa nunca recibo à preguiça, à indolência, à falta de esforço pessoal. Não se pode colocar barreira ao dinamismo, grande aliado do Divino Espírito Santo, pois a ação tranquila, mas eficiente,  provoca o desejo de agir e se opõe à fatídica resignação. Cumpre, entretanto, analisar o que pode provocar a angústia. Muitos ficam impacientes quando a situação não lhes satisfaz e lhes é desagradável. Sem invocar as luzes divinas ficam sem saber como melhorar aquela circunstância incômoda. A reação imprópria pode levar inclusive ao egoísmo. Este conduz a uma conduta irracional e até gera o desespero. Invocada a iluminação celeste, aquele que faz o que pode e como pode está conformado com a vontade de Deus e procura o Reino do Céu e sua justiça, sabedor que o futuro a Deus pertence. Assim sendo no meio das tribulações passa a reinar a calma, mesmo porque a felicidade completa que se dará na outra vida, deve ser já partilhada nesta terra sem se deixar envolver nas amarguras. As inquietações são tapumes na confiança e na esperança do auxílio do Pai que está nos céus que recompensa toda diligência humana. Tudo isto supõe uma fé arraigada. A inquietação se caracteriza por uma falta de autoestima e uma má visão do porvir. É uma negação implícita do amor de Deus, mas também não é uma justificativa de preguiça, de inatividade passiva esperando que Deus faça o que devemos realizar com coragem e determinação. Lembra claramente Jesus: “A cada dia basta a sua tarefa” e esta deve ser feita com a graça divina. A proteção celeste torna o cristão dinâmico, mas em tudo confiante face às ocorrências de cada momento. Um cristão que age tranquilamente leva fatalmente os outros a esta louvável atitude. Retira o próximo quer da passividade, quer de um terrível desespero ante as intempéries da existência. Eis porque o verdadeiro seguidor de Cristo não deixa de denunciar a repressão dos poderosos, a tirania dos que dilapidam o patrimônio público e condena o morticínio que ocorre em tantos lugares com horripilas barbaridades. É preciso que todos colaborem ativamente para estabelecer o império do Evangelho neste mundo a começar na comunidade em que cada um vive. Jesus está a clamar: ”Procurai o Rei de Deus e sua justiça”. Esta justiça conduz à valorização da vida a qual deve ter prioridade sobre outros valores que agridem o ser humano. Tudo que favorece a existência e seu desenvolvimento revela a retidão de Deus. Deste modo é que tudo mais acontecerá em abundância para a humanidade. Para concluir estas reflexões nada melhor do que as palavras de quem compreendeu profundamente os ensinamentos de Jesus aqui reocrdados que foi o Apóstolo Paulo. Este assim concitou os filipenses: ”Não vos inquieteis com coisa alguma, mas que em tudo, pela oração e pela súplica acompanhadas de ação de graças, se tornem presentes a Deus vossos pedidos” (Fil 4, 6-). Jesus quer seus discípulos tranquilos, desapegados dos bens terrenos, mas sempre dinâmicos e confiantes no Pai que está nos céus.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A IMPORTÂNCIA DE LEI E DOS PROFETAS

01 A IMPORTÂNCIA DA LEI
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O cumprimento dos preceitos de que fala Jesus se aplica à Lei e aos Profetas. (Mt 5,17-37). A Lei estava expressa no Pentateuco e nos Profetas estavam englobados todos os restantes Livros Sagrados. Cristo afirma que Ele não viera abolir nada, mas cumprir. Entre abolição e conservação o Mestre divino inculta o cumprimento integral de tudo. Ele aperfeiçoaria a lei moral, exigindo sua observância em toda sua plenitude. É o que Ele quis dizer ao afirmar: “Eu, vos digo”, ou seja, Ele atesta a veracidade de suas palavras e a autoridade com que exigia de seus seguidores um rigor ainda maior em acatar as prescrições divinas com os detalhes que Ele proclamava. Tratava-se do ritmo do Evangelho a ser observado por seus discípulos. Era a novidade que viera trazer para formar na santidade os que desejassem, de fato, segui-lo. Um novo caminho cristão a ser percorrido, sendo captado o sentido profundo de suas mensagens. Uma nova via de progresso espiritual que deveria caracterizar seus epígonos. Para tanto cumpre um ato de fé em Jesus. Tudo que se acha compendiado no Sermão da Montanha exigiria tenacidade, radicalidade, transformação, adesão, uma escolha rumo à pratica perfeita das virtudes. Isto exigiria coragem, destemor. Uma atitude drástica, profunda, ou seja, não apenas não matar os outros, mas também afastar toda ira, todo insulto ao próximo, reconciliando com ele antes de fazer a oblação a Deus. Abolição do adultério a começar dos olhares maliciosos até os desejos impuros no íntimo do coração. Acrescenta a intrepidez em se mortificar quanto às vistas, com relação a tudo que é imoral, desonesto. Penitência corporal para não ceder aos embustes do diabo. Adite-se que Jesus é radical no que tange à fidelidade matrimonial, condenando abertamente todo tipo de infidelidade. Ajunta a tudo isto que seu discípulo não deveria nunca jurar em qualquer hipótese, mas “seja o seu falar sim, sim, não, não”. Tudo implicaria numa transformação da vida de quem o seguisse, pois “tudo que não passa disto procede do maligno”. Não é fácil aderir a este programa de vida, mas a história dos inumeráveis santos elevados ou não às honras do altar demonstra que um sem números de adeptos do Evangelho fizeram com sabedoria a escolha por Jesus, afastando-se das veredas tenebrosas do erro, do pecado, dos desvios morais, das alucinações do mal. Entre o amor, Eros, e a morte, Thanatos, uma vitória da vida divina e a morte a todas as insinuações satânicas de um mundo perverso que despreza a Lei e os Profetas, mundo que  decreta a abolição daquilo que Cristo veio aprimorar para a grandeza de seu seguidor. Neste deveria esplender sempre a verdade em toda sua fulgurância. Jesus oferece todos os meios para o aperfeiçoamento completo do ser humano. Um horizonte belo diante da renovação interior. Não se trata de perfeccionismo estéril, condenável, sobre-humano, mas de um consentimento voluntário na caminhada para a felicidade nesta terra e na eternidade. Aprovação sincera de toda boa ação dentro das limitações humanas, pois grande é a luta para triunfar das prevaricações, jamais, porém, cedendo à desesperança Como observa o Frei Guillaume Dehorter, é preciso estar atento “aos determinismos físicos, sociológicos e psicológicos que condicionam tantas vezes a conduta de cada um”. Esta consciência deve servir  para a lucidez de cada um e não paralisá-lo. É preciso, contudo estar alerta contra tudo que acentua estes determinismos, sobretudo o que chega a cada um pelos meios de comunicação social. Estes quase sempre fazem a apologia dos procedimentos imorais, exaltando falsos ídolos, um modo de viver bem diferente daquele traçado pelo Filho de Deus.  Olhos fixos, isto sim, naqueles que testemunham sua fé e resistem às vozes das sibilas do mal. Seguir Jesus cumprindo tudo que Ele preceituou é encontrar paz, imperturbabilidade e se sentir realizado. O objetivo de Cristo é realmente o engrandecimento da pessoa humana no que diz respeito a sua dignidade de filhos e filhas de Deus. Os preceitos hoje recordados estão a serviço da promoção pessoal de cada um, se tornam um escudo para sua integridade e sua total liberdade. O cumprimento do que Cristo propõe ultrapassa o simples respeito da Lei e dos Profetas e de tudo que Ele detalhou. Sob a luz da fé cada ação do cristão vai além do que Jesus preceituou, porque se trata da visão mesma do Filho de Deus, pedagogo inigualável a apontar a beleza da perfeição cristã, a grandeza de ser seu seguidor. * Professor no seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

SAL DA TERRA, LUZ DO MUNDO

SAL DA TERRA, LUZ DO MUNDO.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus, grande pedagogo, empregou duas imagens significativas para caracterizar seus seguidores: “Vós sois o sal da terra [...] Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13-16). Já no antigo mundo bíblico o sal era apresentado como um produto precioso, por dar gosto aos alimentos, sendo importante agente de conservação. Ao empregar esta imagem, Cristo quer que seus discípulos deem ao mundo o gosto e o ardor difundido pelo seu ensinamento, conservando sempre a plenitude da verdade que Ele veio proclamar ao mundo. Assim sua doutrina se torna desejável, porque salvífica. Além disto, a Bíblia mostra que se utilizava o sal para concluir um pacto, uma aliança. Lemos no Levítico: “Toda oblação que ofereceres será temperada com sal, e não deixarás faltar em tua oblação o sal da aliança com o seu Deus” (Lev 2,13).  O cristão selou com o Criador uma aliança e, por isto também, se faz sal da terra, anunciando a amigável união do Senhor com seu povo redimido. Aliás, o Antigo Testamento já falava de uma “aliança de sal”.  Deus disse a Aarão: “Todos os tributos das coisas sagradas que os filhos de Israel oferecem ao Senhor, dou-os a ti, a teus filhos e a tuas filhas por direito perpetuo; é um pacto  inviolável, pacto de sal,  eterno diante do Senhor contigo e por ti com os teus descendentes” (Num 18,19). Por causa da fidelidade ao pacto divino, o cristão, sal da terra, deve ser fiel, leal, a seu Senhor. Trata-se de uma relação permanente. Grande então a responsabilidade dos batizados. É por isto que se canta num dos hinos penitenciais: “Quem não te aceita quem te rejeita, por não crer por ver cristãos que vivem mal. Cristo piedade!”. Jesus alertou: “Se o sal se tornar insípido, com que se lhe há de restituir o sabor”?  Eis porque o aludido cântico acrescenta: “Hoje se a vida é tão ferida, deve-se a culpa e indiferença de tantos cristãos”. Um sal saudável como aquele que proporcionou a Jesus uma excelente metáfora do fervor de seus discípulos, supõe, porém, toda sua vitalidade. Seus seguidores deveriam ostentar sempre total constância, respeitando uma aliança, um pacto firme com Ele de acordo com as promessas batismais. Aos colossenses São Paulo aconselhava: “Que a vossa linguagem seja sempre cortês, temperada com sal, de modo que saibais como deveis responder a cada um” (Col 4,6). Apenas assim é que o cristão se torna ao mesmo tempo também luz do mundo, iluminando a todos que estão a sua volta. De fato, as duas imagens do sal e da luz se articulam admiravelmente uma com a outra. Será, contudo, sempre Jesus que comunicará a todos o sabor, o elã, a vida e a luz verdadeira. A luz dissipa as trevas, ela aclara tudo que ela toca, Cabe aos fiéis difundir por toda parte a luz que vem do alto, combatendo as penumbras do mal e do pecado causados pela ignorância, pela ambição, pelo egoísmo, pelo hedonismo. Entretanto, quanto mais o cristão volta seu olhar para Jesus, mais luminosidade recebe e é transfigurado por Ele. Deste modo, a ordem do Mestre divino se cumprirá: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, a fim de que, vendo as vossas boas obras glorifiquem vosso Pai que está nos céus”. Para tanto é preciso a sinceridade de um coração identificado com Ele. É deste modo que o cristão afasta a escuridão da decepção, da fadiga, da indiferença, do temor e dos desentendimentos mútuos. Torna-se um clarão luzente em casa, no trabalho, nos lugares de diversão, enfim, onde quer que esteja. Por seus gestos, por suas atitudes os epígonos de Cristo são chamados a exercer uma influência lucífera neste mundo. Do contrário, seriam eles inúteis, lâmpadas debaixo do alqueire, e não sobre o candelabro das boas obras para clarear a todos. Pelo seu testemunho de vida o fiel comunica de maneira vital a beleza da história da salvação e os conteúdos da fé da Igreja. Para que isto aconteça não há necessidade de notáveis carismas. Basta que se façam de maneira extraordinária as tarefas ordinárias da vida numa união profunda com Aquele que é a Luz que veio a esta terra envolver a todos na sua iluminação. Desta maneira, se revela ao mundo os segredos da sabedoria divina, a qual, segundo São Paulo, “está envolta em arcano, sabedoria escondida, antes dos séculos” (1 Cor 2, 7). Em síntese, para ser sal da terra e luz do mudo o cristão deve viver em função da graça de Deus, desta vida interior recebida no Batismo, desenvolvida pela prática das virtudes, defendida pela oração, fortificada pelos sacramentos. Torna-se assim sal da terra e luz do mundo.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

AS MENSAGENS DAS BEM-AVENTURANÇAS

AS MENSAGENS DAS BEM-AVENTURANÇAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

As Bem-aventuranças relatadas por São Mateus apresentam tocantes versículos que oferecem sublimes mensagens do Mestre Divino. Estas mensagens condensam um programa de vida para os seguidores de Cristo, incitando-os a viver cada um destes recados lançados pelo Filho de Deus. Um verdadeiro refrão que ressoa bem de acordo com o desejo mais profundo do ser humano que busca sempre a felicidade. Bem-aventurados, felizes, repete Jesus várias vezes, tracejando um caminho luminoso para seus discípulos. Cumpre então sempre saborear estre trecho, mesmo porque nele se pode descobrir a figura mesma do divino Redentor. Sua luz celestial vem então aclarar os passos dos fiéis. Com efeito, Jesus é por excelência aquele que foi pobre em espírito. Ele foi manso e humilde de coração. Chorou sobre a miséria humana. Teve fome e sede de justiça. Foi extremamente misericordioso. Ostentou uma alma pura. Ofertou a todos a paz, revelando a verdade do Amor. Foi perseguido e insultado por causa da justiça. Assim sendo, entrar no mistério das Bem-aventuranças é penetrar no mistério mesmo de Cristo. Elas são o retrato falado daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida e devem ser a imagem do verdadeiro cristão. A vocação dos fiéis é viver então as Bem-aventuranças para levar ao mundo a verdadeira ideia de Cristo. É ostentar por toda parte o júbilo que Deus quer para todos que devem, de fato, ser felizes. Eis porque nas Bem-aventuranças há uma dimensão missionária extraordinária, pois cabe ao cristão irradiar perspectivas otimistas onde quer que esteja. Ser testemunha das Bem-aventuranças é ser profeta da dileção imensa de Deus para com todos. É caminhar levando a figura de Jesus, irradiando contentamento por entre tantos infortúnios deste vale de lágrimas. É ainda fazer crer na irrupção do Amor de um Deus sumamente misericordioso que transfigura o coração humano e transforma espinhos em pérolas para a eternidade. Dom precioso que é preciso saber cultivar e espalhar no meio em que se vive. É certo que a felicidade completa só será possuída na eternidade, mas precisa ser degustada já aqui nesta terra. Fixemos então cada uma das Bem-aventuranças para que sejam vividas e transmitidas a todos. “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque o reino dos céus lhes pertence”. São os que possuem um coração livre, que não é prisioneiro de sua autossuficiência, não se apegam aos bens materiais. Não se vangloriam de suas virtudes, Reconhecem os seus erros e deles se arrependem Estes estão livres do orgulho. “Bem-aventurados- os mansos, pois eles possuirão a terra”. Felizes porque não cedem à engrenagem da violência e vão até o amor dos inimigos. São os que conhecerão o caminho do Reino. São pacientes e não se deixam dominar pela ira. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”. São os que são capazes de vibrar com a pena dos outros e de seguir Jesus no seu combate contra todas as formas de sofrimento. São os que aceitam chorar seus próprios pecados. Esta tristeza segundo Deus é a primeira meta da conversão. “Felizes os que têm fome e sede da justiça, pois serão saciados”. São os que procuram se ajustar a Deus e não desesperam de progredir no caminho da santidade, procurando o Reino de Deus e sua justiça. Querem que o mundo seja mais fraterno e verão, sem dúvida, este desejo se realizar um dia. “Bem-aventurados os misericordiosos, dado que obterão misericórdia”. Não abrigam a represália, anistiam a todos e amam os inimigos. “Felizes os puros de coração, pois eles verão a Deus”. Não têm a mente poluída, seus olhos não se comprazem nos sites pornográficos, evitam as ocasiões de pecado. “Bem-aventurados os artesãos da paz, dado que serão chamados filhos de Deus”. Evitam tudo que possa causar discórdia. Vigiam suas línguas e condutas, fogem da maledicência, difundem a imperturbabilidade por toda parte, contornando os conflitos e levando os outros à reconciliação. “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, o Reino dos céus lhes pertence”. Não se envergonham de ser cristãos, não traem o Evangelho, sabem defender a Igreja de Cristo. Felizes os que são injuriados e perseguidos por causa de Jesus, uma vez que grande será a recompensa nos céus. Saibamos viver estas bem-aventuranças, pois é deste modo que seremos felizes e o mundo nos reconhecerá como seguidores de Cristo. * Professor no seminário de Mariana durante 40 anos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SANTA RITA AGOSTINIANA

SANTA RITA AGOSTINIANA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Se antes de receber o hábito da Ordem Agostiniana Santa Rita fora um modelo perfeito de vida cristã como filha, esposa e mãe, ao entrar no Convento atingiu o ápice da santidade. Em primeiro lugar, com raro fervor ela procurou cumprir todas as prescrições da Regra e Constituições da Ordem agostiniana como um caminho seguro rumo a sua entrega total a Cristo. Esplendeu então sua profunda caridade bem dentro daquilo que Santo Agostinho havia escrito no começo de sua Regra Monástica: “Antes de tudo que Deus seja amado e depois o próximo”. Eis porque Santa Rita observava com profundo esmero os Mandamentos do Decálogo e da Igreja, sendo também fidelíssima a seus votos religiosos. Sua dileção para com todos com quem convivia estava inflamada deste afeto sobrenatural ao Criador de tudo. Nos seus julgamentos, nas suas palavras, nas conversas ela sabia exaltar as qualidades alheias. De acordo com os costumes agostinianos de Cáscia ela exercia fora do Convento obras de misericórdia.  Dava bons conselhos, reconfortava e encorajava os fracos, consolava os infelizes e levava os transviados às veredas do bem. Deste modo, convertia a muitos. Os doentes eram objeto de sua especial atenção. Visitava-os e aos moribundos assistia no momento da morte.  Entretanto, não era apenas a caridade a marca de sua santidade. Ela crescia sempre mais na humildade. Considerava-se a menor das religiosas. Sua conduta mostrava a sinceridade de sua convicção íntima. Ela agia como se fosse uma serva de todos e multiplicava sua generosidade nas menores ações. Donde também sua obediência a suas superioras. Primava em acatar as ordens daquelas que lhe eram mais jovens. As determinações que poderiam parecer até esdrúxulas ela as aceitava. Célebre o fato de ter durante muitos meses regado o tronco de uma videira seca, a qual acabou desabrochando graças à sua obediência. O tronco seco deu galhos e frutos e até hoje lá  em Cáscia está exaltando esta sua virtude. Adite-se o cultivo da pobreza. Sua vestimenta era de um pano grosseiro. Sua cela a menor de todas. Nenhum móvel, nem mesmo uma cama, pois ela dormia no chão. Acrescente-se sua admirável castidade que a levava a vencer de imediato qualquer pensamento maldoso que o demônio lhe pudesse trazer à mente. Em toda a circunstância ela agia com rara prudência e reserva, possuindo uma atitude recolhida e modesta. Vigilância contínua sustentada por suas fervorosas orações e penitências. A mortificação era o apanágio de sua existência. Rudes suas austeridades. Tudo que pudesse ser uma condescendência a qualquer tipo de sensualidade era logo banido.  Rigoroso o seu regime alimentar, pois tomava cotidianamente apenas um pouco de salada ou de outros legumes com um pedaço de pão. Vivendo numa cultura italiana na qual se serve o vinho às refeições ela dele se privava, bem como de toda a espécie de carne. Constantes eram os jejuns que fazia, aplicando este sacrifício para alívio das almas do purgatório, ou pela conversão dos pecadores, ou pelos benfeitores do Convento. Alguns dos biógrafos, seus contemporâneos, registraram o fato dela ter costurado espinhos no seu hábito aumentando seus sofrimentos para mais se assemelhar a Cristo crucificado. A prece era, porém, seu sustentáculo, dando-lhe coragem para tudo suportar para glória de Deus e bem das almas. O mundo sobrenatural era sua verdadeira a felicidade. Assim ela degustava já na terra um pouco das delícias do céu, A fé vivificava toda a sua existência. Na parede de sua cela uma pintura do Crucificado lhe dada energias para se entregar a tantos sofrimentos. Por tudo isto ela aos 62 anos mereceu o estigma do um espinho da coroa de Jesus, pois havia atingido um alto grau de santidade. Como São Francisco de Assis, Santa Catarina de Sena, Santa Clara de Montefalco, Santa Faustina Kowalska, Padre Pio e alguns outros santos privilegiados ela estaria no rol daqueles que foram marcados com sinais da dolorosa paixão do Redentor. Em Santa Rita o espinho lhe causou um ferida na fronte, causando odor malcheiroso e a isolando ainda mais na cela longe da comunidade.  Ela, contudo, longe de desolar com os tormentos se rejubilava no Senhor agradecendo-Lhe e bendizendo-O por lhe fazer participar assim do cálice das dores do Salvador. Tão grandes os merecimentos desta Santa admirável explica a devoção universal a ela dedicada. Todo aquele que devotamente implora sua proteção sempre alcança graças maravilhosas. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.