quarta-feira, 27 de outubro de 2021

 

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Côn. Jose Geraldo Vidigal de Carvalho*

A solenidade de Todos os Santos é uma etapa do ano litúrgico que pode induzir os incautos a um erro, ou seja, festejar o mistério celebrado, olhando unicamente para o céu. A tentação é forte de prestar atenção somente aos Santos que se acham no paraíso junto de Deus. Eles, de fato, são os frutos mais preciosos e maduros da árvore da perfeição espiritual. Atraem uma admiração abismada, mas que pode impedir vislumbrar a santidade e o engajamento na vida cotidiana dos santos que ainda labutam no cotidiano deste mundo terrestre. Entretanto o Evangelho nos orienta de maneira decisiva em outra direção e deve nos levar a evitar este erro (Mt 5,1-12). São Mateus na narrativa das bem-aventuranças   indica o caminho a seguir na vida para poder recolher os frutos da adesão integral na vivência do dia a dia nesta terra. A colheita será abundante se hoje somos efetivamente pobres em espírito, se temos fome e sede de justiça, se somos misericordiosos, tendo uma vida inteira pura, se construímos a paz. Além disto, se suportamos as injúria, as perseguições e os falsos testemunhos por causa da justiça, quando somos provados durante o nosso caminhar terreno. Aí está uma descrição viva da santidade como convém aos que se comportam como filhos de Deus que um dia gozarão dele por toda a eternidade   Trata-se de trilhar um caminho da perfeição cristã, no esforço cotidiano se tornar semelhantes ao Pai que está lá no céu. É a vivência completa da nossa vocação batismal. Dois os pilares a sustentarem este edifício da vocação à santidade: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O viver de quem foi batizado deve ser um caminho de uma conversão contínua, como aconteceu, por exemplo, com Santo Agostinho depois de sua mudança radical de atitude perante Deus. A vida cristã parte sempre de um chamado divino, de um encontro com a verdade de Cristo como aconteceu com Pedro e André às margens do mar da Galileia, ocasião em que estavam ocupados em suas atividades de pescadores. Eles souberam abandonar uma existência feita de fatos de cada hora para seguir a Verdade e se tornarem pescadores de homens, pregoeiros corajosos de uma Palavra capaz de transformar o mais íntimo do ser humano, tanto o coração dos sábios como o das pessoas simples e dos pequenos, uma Palavra salvadora para todos. A solenidade de Todos os Santos nos interroga antes de tudo sobre nossa vocação, sobre nossa capacidade de renunciar a nós mesmos, às nossas falsas seguranças e mesmo à ideia que nós fazemos daquilo que   é ser santo. Como Pedro e André, como tantos outros na milenar história da Igreja, devemos pedir sempre a Deus a coragem de saber abandonar os numerosos entraves da vida que a aprisionam nossa vocação para a santidade, a saber, as barreiras que se opõem às sábias exigências do Evangelho, como o egoísmo, o individualismo que limitam nossa real participação ativa no crescimento da comunidade na qual estamos inseridos, o terrível empecilho da guerra conosco mesmos e com os outros. Isto destrói as relações sinceras com o próximo. Adite-se a preguiça que nos impede de colocar à disposição dos outros nosso tempo e nossos talentos. Todos estes obstáculos anulam o espírito das beatitudes e são empecilhos na caminhada da santidade Além disto, por exemplo, a imagem bíblica de São Pedro na prisão deve levar a refletir nas consequências da disponibilidade até o sacrifício pessoal para seguir a Verdade como vemos também em tantos lances da existência dos outros santos. Antes da Paixão e Ressurreição de Jesus, Pedro era tímido, temeroso e mesmo sujeito a falhas clamorosas. Depois, porém, de receber o dom do Espírito de Pentecostes Ele se fez testemunha intrépida de uma liberdade particular, aquela lhe foi comunicada por Cristo, ou seja, liberdade com relação a lutar contra o pecado e o mal. Paradoxalmente o anúncio desta liberdade levou Pedro e Paulo para a prisão.  Em nossos dias aquele que tem a coragem demonstrada por estes Apóstolos e os demais santos através dos tempos, destemor para anunciar a liberdade das beatitudes, liberdade diante da hipocrisia, da ira, da injustiça social, do enriquecimento egoísta, são marginalizados, condenados e, até perseguidos. A estes é imposto silêncio por uma sociedade corrupta e pelos interesses mesquinhos dos homens perversos. No entanto, é a luta pela liberdade de ação que devemos proclamar, se bem compreendemos as beatitudes. Nenhuma injunção humana deve colocar um limite no caminho da perfeição cristã, pois o amor a Deus e ao próximo precisa ser total e desinteressado. Não se deve, porém se deixar iludir uma vez que o caminho da santidade não é fácil. A luta é empregando as armas oferecidas pelas bem aventuranças. Para nós, portanto, ser santo deve significar vencer graças ao poder extraordinário da Palavra de Jesus, * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

 

AMAR A DEUS E AMAR O PROXIMO.

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*  

No tempo de Jesus algumas pessoas mais esclarecidas em sua fé procuravam estabelecer uma hierarquia entre as múltiplas obrigações da Lei. Daí de um deles perguntou a Jesus “Qual o primeiro de todos os mandamentos?” (Mc 12, 28-34)  O  Mestre divino respondeu inicialmente citando o Deuteronômio (6,5) um belo texto que todos sabiam de cor, porque já no tempo de Jesus todos os judeus deviam recitá-lo ao menos duas vezes por dia: “Escuta Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único. Tu amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu pensamento e de toda tua energia”’. Para nós ocidentais hodiernos o coração serve sobretudo para amar, para um hebreu o coração tem também sua parte na atividade intelectual Deus dai-me um coração para compreender (Dt 29,3). Para os judeus do tempo de Jesus, o coração era às vezes consciência e memória, intuição e força moral. No coração ressoam todas as afeiçoes, mas é também no coração que as impressões e as ideias se transformam em decisões e em projetos. É sobretudo no coração que se enraízam a postura de quem crê e a fidelidade sincera a Deus, Assim sendo o coração no sentido bíblico, é assim o homem inteiro interior e lugar privilegiado da manifestação da fé. Deste modo, “Tu amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração” significa que toda a pessoa humana será mobilizada pelo amor de Deus, tendendo para Deus com o melhor de si mesmo. Jesus, contudo, ajuntou imediatamente, citando desta vez o Levítico (19,18): “Tu amarás o teu próximo como a ti mesmo” É o segundo mandamento sempre inseparável do primeiro e, entretanto, sempre distinto. Isto porque o amor do próximo não pode tomar o lugar do amor para com Deus, ou seja, o próximo não deve substituir Deus. Entretanto, os dois mandamentos são semelhantes porque o amor do próximo, como o amor por Deus devem mobilizar toda a pessoa e todas suas energias. Não se pode verdadeiramente se aproximar de Deus sem começar a amar tudo o que Deus ama. Mais se está perto de Deus, mais se torna próximo dos outros filhos de Deus. Santa Terezinha do Menino Jesus dizia que a caridade é tudo nesta terra e alguém é santo na medida em que ela é praticada. O escriba que interrogara Jesus responde então a Ele que o que Ele disserta era a pura verdade. Cristo vendo que seu interlocutor havia entendido perfeitamente o ensinamento lhe diz: “Tu não estás longe do Reino de Deus”. Note-se que Jesus assevera que este escriba não está longe o que significa que ele ainda não praticava totalmente o que lhe fora falado, isto é, que cada um de nós deve se examinar para diagnosticar se vive na prática, em plenitude, o amor a Deus e ao próximo. Não basta proclamar que é verdade o que jorrou dos lábios de Cristo, querer dar um sentido à própria vida, ao seu trabalho, aos seus sofrimentos, enfrentando o turbilhão dos acontecimentos diários, mas é preciso ainda tudo fazer e aceitar com muito amor no coração, tudo fazendo para a glória de Deus e bem do próximo. Nada de se deixar levar pela engrenagem da rotina, pelas relações superficiais para com o Criador e suas criaturas. A fé em Deus deve nos conduzir à observância de seus mandamentos. Jesus leva a seu termo a plenitude da lei. Ele ama o Pai como Deus verdadeiro, nascido do Deus verdadeiro e, enquanto Verbo feito homem, Ele criou uma nova humanidade de Filho de Deus, irmãos que se amam sem restrições. O apelo de Jesus nos atrai para o amor de Deus invisível e humanamente inacessível e, ao mesmo tempo, é um caminho para nos permitir reconhecer o amor na vida na relação com os irmãos visíveis e presentes a nosso lado. Nossa união com Cristo, união de conhecimento e de amor, insuflado pelo Espírito Santo, deve nos levar ao cumprimento cabal dos deveres a Deus e a todos os seus filhos. Não basta conhecer os principais preceitos de Lei do Senhor, mas é preciso continuar sempre a avançar por transformar estes preceitos em realidade, pois a adesão plena a Deus se manifesta no caminho da vida de cada um. O perigo é se deixar levar pelos apelos mudamos que são sutis. Ídolos escondidos na própria personalidade, na maneira de viver, Eles devem ser procurados e destruídos São Tiago alertou sobre o amor pelas coisas do mundo hostil à vontade de Deus, pois quem ama as coisas do mundo é inimigo de Deus (Tiago 4,4).  Portanto, amar a Deus e ao próximo fielmente, sinceramente, constantemente! *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

 

VAI, TUA FÉ TE CUROU

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus, antes de iniciar sua viagem para Jerusalém, atravessou Jericó, situada no vale do Jordão. Saiu desta cidade acompanhado de uma multidão, pois inúmeros peregrinos iam como Ele para a Páscoa na cidade Santa. Eis aí o momento preciso no qual São Marcos situa o famoso episódio do cego Bar Timeu (Mc 10,46-52). Podemos analisar o que se passou examinando os fatos do ponto de vista da multidão, depois do ponto de vista de Jesus e, em terceiro lugar, segundo a visão de Bar Timeu, para depois fazermos total aplicação em nossa vida cristã. Para os circunstantes Bar Timeu era um sofredor, não somente um dependentes dos outros para suas longas caminhadas, pois como outros mendigos ele se punha a gritar, naturalmente incomodando a todos. Na nossa peregrinação nesse mundo quantos homens e mulheres, jovens e crianças estão à beira do nosso caminho estendendo as mãos pedindo um pouco de ajuda, de amizade, um olhar, um momento de diálogo, mas que são até impedidos de clamar e lamentar sua sorte numa sociedade de egoístas! Para Jesus a presença do cego Bar Timeu, porém vai ser a ocasião de contestar o egoísmo dos que pouco caso faziam daquele mendigo. Jesus pela sua atitude mostrará que no meio do povo é Ele quem dá exemplo de compaixão. Não obstante o alarido escuta a voz de Bar Timeu e chama à parte aquele mesmo que a multidão despreza, e querem calar, Aos olhos de Jesus ele será um privilegiado de seu amor. Jesus como de hábito se mostra um educador. Ele dá então o exemplo de uma caridade ativa, pois sem repreender aqueles que passam ignorando o cego, sem lhe dar a mínima atenção, diz simplesmente: “Chamai-o”. Os circunstantes se tornam assim os transmissores da caridade de Cristo. Quanto ao cego é sua fé que vai também ser educada. O Mestre, assim que ele chega, pergunta-lhe: “Que queres que eu te faça?” Pode parecer evidente o que ele desejava. Jesus, porém, sabia a importância das palavras para aquele homem. Bar Timeu nada podia captar nos olhos de Cristo, por isto se devia estabelecer uma comunicação entre eles. Jesus queria também dar ocasião para uma manifestação explicita de confiança: “Meu Mestre que eu volte a enxergar”. Através dos tempos quantos cegos se aproximam de Jesus mas que deveriam se postar diante dele como o cego Bar Timeu. Este ao ouvir falar que era Jesus quem passava não perde a oportunidade de Lhe solicitar o grande milagre. Era aquela a grande chance de sua vida! Já dizia um grande santo: “Temo a Jesus que passa e que pode não voltar”! Aquele doente não titubeara, pois, ao saber que Jesus o chamava, levantara-se de um salto e, jogando fora o seu manto, foi correndo até o poderoso Senhor. Tenhamos sempre a mesma atitude expondo sinceramente a Cristo nossas dificuldades, para poder sentir o seu poder divino para si, os familiares e demais amigos. Seja qual for a dificuldade Cristo tem solução para tudo. Jesus ensinará sofrer com a Igreja, pela Igreja, para a Igreja e a salvação do mundo. É preciso, contudo, depois se colocar no seguimento fervoroso do Mestre divino. Não julgar, sem razão, um marginal qualquer pessoa que de nós se aproximar, não sendo nunca um osbstáculo à graça de Deus na vida dos que nos cercam. Saibamos também levar outros cegos até o poderoso Redentor. Ele o Senhor, o Deus vivo quer sempre curar de tudo que nos separa dele, de tudo que nos cega e não deixa que vejamos a beleza da vida de Deus que está em nós. Com Bar Timeu somos chamados a clamar com força e com convicção a quem pode, realmente, salvar. Portanto, Ir sempre a Jesus com um profundo elã de confiança em busca de tesouros espirituais. Pedir também saúde do corpo para melhor servir o próximo no que lhe for preciso. Perceber que cumpre sempre detestar o pecado convictos de que há necessidade da cura dos olhos do coração, cura de toda cegueira espiritual. Assim cada um será o verdadeiro testemunho do poder do Salvador. Então a vida de cada um terá uma dimensão maravilhosa. Uma vivência em tudo segundo o ensinamento de Jesus e não conforme os ditames do mundo. Olhar o coração misericordioso de Jesus, invocando-o de uma maneira positiva num contato vivo com o Senhor, dizendo-Lhe “Jesus ajuda-me” e isto com aquela fé que demonstrou Bar Timeu. Procuremos valorizar o dom da fé. Foi essa fé de Bar Timeu que permitiu a Cristo cura-lo.  Jesus foi claro: “Vai, tua fé te salvou”. Cumpre se lembrar sempre que a fé do cristão não é algo que se pode adquirir ou ganhar pelo exercício da própria vontade ou dos próprios esforços. É, de fato, uma dádiva que se adquire através da prece humilde e constante. Recebida no batismo esta graça deve crescer continuamente e daí a prece “Senhor, aumenta a minha fé”! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

 

 

QUEM QUISER SER O PRIMEIRO, SEJA SUBMISSO A TODOS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Indiscreto o pedido que os filhos de Zebedeu, Tiago e João, fizeram a Jesus, uma solicitação especial, em particular, reservada, pois os dois irmãos temiam expressá-la claramente (Mc 10,35-45). O Mestre, contudo, os obrigaria a falar detalhadamente. Eles queriam estar a sua direita e a sua esquerda na glória vindoura, no esplendor de seu Reino. Pedido surpreendente! Eram eles os que foram entre os primeiros chamados, mas não tinham ainda compreendido o projeto salvífico de Cristo.  Eles pensavam que Jesus ia organizar um governo terrestre e já tratavam de garantir os melhores lugares, postos honoríficos no novo reino. No entanto, Jesus pela terceira vez, enfaticamente, havia predito sua paixão e morte: “O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens que o hão de matar, mas três dias depois de morto ressuscitará” (Mc 9,31) Não obstante, seus discípulos discutiam uma questão de preeminência! Jesus, contudo, mais uma vez com toda paciência vai lhes explicar a realidade de sua missão neste mundo. Interroga-os se eles beberiam do seu cálice ou se receberiam o batismo com o qual Ele é batizado. O cálice para aqueles homens que liam os Profetas não era apenas o símbolo dos sofrimentos, cálice amargo, mas o cálice de vertigem merecido pelo povo pecador, este cálice seria o próprio Jesus quem o beberia. No entanto, Jesus deixa claro que os apóstolos participariam de sua paixão, de seus sofrimentos, mas o sentar-se à sua direita ou esquerda era para aqueles para os quais tais lugares foram preparados. Aqueles discípulos, porém, ante a morte violenta, injusta, revoltante do Mestre parece que deixavam de lado os padecimentos, porque o senso do poder, da glória   daquele que eles seguiam para eles era mais importante e que, no serviço de Jesus, há bons lugares para conquistar e poder, posses, como recompensa. Pedagogo admirável Jesus, contudo, se serve deste episódio para, como educador da fé, calmamente, lançar lição que abrange o futuro e depois o presente. Para o que virá, de fato, os dois irmãos o seguirão nas veredas das tribulações até a morte como todos os seus discípulos quando forem chamados para a outra vida. Todos devem um dia morrer, mas a diferença dos que creem é que eles vão até o fim seguindo o Ressuscitado. Quanto ao presente qualquer recompensa só Deus o sabe e Jesus lança uma sentença definitiva: “Quem quiser ser o primeiro seja submisso a todos”. Os verdadeiros primeiros lugares não são aqueles que humanamente se imagina, mas esses se encontram no serviço do próximo, no dia a dia de cada um. Desejar o que é o melhor para nós, nossos parentes e amigos não é um mal em si, mas cumpre fazer tudo que se puder no cumprimento de nossas obrigações e de uma ajuda contínua aos outros, nunca querendo ser superiores a quem quer que seja. Querer triunfar na vida não é um mal, o erro seria desejar sobrepujar os outros. Desejar ir para o céu é um salutar anelo, errado seria viver em função dos valores do mundo, criando a ilusão de ser autêntico cristão. Jesus deixou claro para os apóstolos que os carismas o Pai é quem os dá a quem Ele quiser, mas é preciso saber aceitar a cruz, ou seja, ir até o fim no serviço aos outros e no esquecimento de si mesmo. Não há fé sem provações, vida cristã interior sem o desapego dos próprios interesses, É preciso se lembrar sempre do que disse Jesus: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos “. A prática constante da prece, a frequência aos sacramentos, sobretudo da confissão e da Eucaristia, aumentam o amor a Deus e impedem querer ser superior aos outros. Jesus foi o servo do Pai e, como tal, Ele constantemente prestou atenção às necessidades de quantos o seguiam. Ele intentava inculcar a Tiago e João esta realidade de se preocupar antes de tudo com os sacrifícios que o trabalho apostólico exigiria, deixando o julgamento nas mãos do Pai. Seus autênticos discípulos deveriam ser capazes de estarem unidos à cruz de todos os dias por amor, com um sorriso nos lábios. Cruz que se manifesta nos hábitos de um quotidiano voltado para o bem do próximo, na fadiga dos trabalhos apostólicos, nas dificuldades que a implantação do reino de Deus exige. Estar submisso a tudo isto sem nada querer exigir de Deus. O esforço para tentar se identificar com Cristo exige muita abnegação. Eis porque São João Paulo II explicava que a submissão de Jesus atingiu o seu ápice na sua morte na cruz, ou seja, no dom total de si mesmo. No entanto, Tiago e João estavam mais preocupados em glórias advindas de seu ministério e não no significado profundo de um ardoroso apostolado. Restava-lhes ainda um longo caminho num serviço constante a todos sem distinções de ricos ou pobres, cultos ou ignorantes, jovens ou idosos para a implantação do reino de Deus. Jesus estaria ensinando a Tiago e João, aos demais apóstolos e a todos que quisessem ser seus autênticos pregadores do Evangelho um apego salutar à cruz de cada dia, deixando tudo nas mãos do Pai e não na dependência de uma gratificação pessoal. * Professor no Seminário de Mariana durnte 40 anos.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

 

QUE SE DEVE FAZER PARA ENTRAR NA VIDA ETERNA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Entre aqueles que abordaram Jesus enquanto Ele ia pelo caminho, de repente, surge um homem que, de joelhos, se pôs diante dele.  Estava agitado   Certamente iria solicitar a cura de algum doente ou   outro favor estupendo como os muitos que Cristo já fizera. Nada disto!  Ao Mestre divino aquele homem apresentava, inesperadamente, uma questão, em si, de grande importância: “Que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (Mc 10,17-30) De plano, poderíamos pensar que Ele estava psicologicamente abalado, pois quem se julga equilibrado emocionalmente não tem necessidade de pensar com agitação numa vida eterna. Ou quem sabe se tratasse de alguém que tendo tudo para viver podia se dar ao luxo de sonhar com uma outra vida além túmulo. Entretanto, na verdade, estas explicações não passariam de um esclarecimento forjado. É preciso entender a questão apresentada como partindo de alguém realista, ou seja, tratava-se de alguém que, desde agora, queria um caminho seguro para atravessar com total êxito a morte, alguém que desejava com as coisas que passam construir desde já algo definitivo. Se penetramos a fundo no problema suscitado, passamos a perceber que, de fato, temos precisão de refletir em salvaguardar com boas ações o que virá após a morte e que vai durar para sempre.  A maturidade espiritual deve ser uma preocupação constante de quem crê na vida eterna, pois não sabemos nem o dia nem a hora em que deixaremos este mundo. Neste caso a questão então apresentada merece toda atenção. Um balanço no nosso trabalho apostólico, no cumprimento dos deveres de cada hora, o bom aproveitamento do tempo de vida que Deus vai concedendo a cada um. Jesus deixou uma orientação preciosa: observar os mandamentos, fazendo sempre o que agrada a Deus, o que é bom e digno de quem recebeu o batismo e vive imerso nas graças divinas Aquele homem de joelhos diante de Jesus pôde afirmar que praticava o que era do agrado de Deus, o que era bom e perfeito e isto desde sua juventude. Programa que, aliás, qualquer batizado deve seguir em todos os instantes de sua vida. Àquele que assim já procedia Jesus propõe algo mais além de sua fidelidade, uma nova sabedoria cristã, indo além do afeto às coisas terrenas, indo além do poder e da vontade de possuir o que é deste mundo, ou seja, um total desapego de tudo o que é desta terra, um apego somente ao que é sobrenatural e isto por amor inabalável e exclusivo do Divino Mestre e dos bens celestiais. Quem bem examina sua vida certamente deparará algo que ainda não é inteiramente de Deus. Isto, porém, ocorreu na existência de tantos santos que souberam explorar com discernimento o desapego de que falou Jesus a seu interlocutor. Não é fácil atingir o cume da perfeição cristã num seguimento radical do sábio Mestre. A todos, porém, cumpre examinar sempre como se tem observado o decálogo, constante inteiramente em professar as inspirações do Espírito Santo, sabedor de que quem não é   fiel no pouco não o será também no que Deus pedir a mais na trajetória rumo à vida eterna. Lealdade completa às diretrizes da Igreja, aos ensinamentos do Papa, longe das enganosas evidências de tudo que é hostil aos desígnios de Deus. Cristo completou seu ensinamento perante os apóstolos dizendo que condenável é, contudo, o endeusamento das riquezas deste mundo. É preciso todo cuidado em viver as Bem-aventuranças com corações voltados para a eternidade.   É preciso não se deixar absorver por algo terreno que comprometa a entrada no reino celeste. Seja como for, o principal é estar desligado afetivamente dos bens materiais para poder dizer na verdade que se é seguidor de Jesus. Este espera uma total renúncia daquilo que é terreno, passageiro, ilusório. Saibamos sempre fazer ecoar no fundo de nosso coração os apelos de Cristo. O personagem do Evangelho de hoje foi embora triste, exatamente por causa de seu apego a sua riqueza. É preciso dar sempre o primeiro lugar a Jesus e estar disposto a lhe oferecer sinceramente tudo que Ele pedir, a entregar a Ele sem reserva o que somos ou possuímos. Ultrapassar sempre uma visão limitada da fé, pois esta supõe uma adesão do ser humano a Deus, indo além do conformismo que impera na mente de tantos cristãos incapazes de dar um passo a mais na caminhada para a vida eterna, crescendo sempre na dileção a Deus. Deus quer não apenas um espírito sincero, mas também uma alma generosa aberta à grande afeição de seu Coração e a suas exigências profundas e radicais. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

 

A UNIDADE E A FIDELIDADE DOS CÔNJUGES CRISTÂOS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus deixou clara e categórica a exigência cristã da unidade e da fidelidade dos esposos cristãos (Mc 10,2-16)   Esta clareza e taxatividade devem tanto mais ser ressaltadas quando se considera o contexto atual. Com efeito, para muitos é chocante as palavras do Mestre divino: “Todo o que repudiar sua mulher e casa com outra comete adultério contra ela: e se uma mulher repudia o seu marido e casa com outra, comete adultério”, Ele aliás alertou: “não separe o homem o que Deus uniu”. Não obstante o grande número de casais que vivem santamente, o sacramento do matrimônio, é público e notório que há casais que se separaram, que se divorciara e inúmeras são as feridas nas consciências de muitos cristãos e como sofrem os filhos cujos pais romperam os laços matrimonias legítimo! É óbvio que estas pessoas devem ser ajudadas na medida do possível, mas sem deturpar o que Jesus abertamente ensinou. Um meio valiosíssimo para preservar a unidade e a fidelidade dos cônjuges cristãos é a preparação eficiente para recepção do sacramente do matrimônio. Aqueles que já convolaram núpcias, mas se encontram com problemas familiares devem procurar soluções justas para firmar e reafirmar sua relação conjugal, imitando aqueles que anos e anos veem mantendo a união prometida no dia do casamento. Para viver plenamente o que Jesus ensinou sobre a unidade e fidelidade matrimonial é preciso força espiritual, preces ardentes dentro e fora do lar. Esta dimensão religiosa se baseia também no que Cristo asseverou dizendo que pelo matrimônio os batizados não são dois, mas uma só carne e sua ordem expressa foi esta: “Não separe, portanto, o homem do que Deus uniu” Isto mostra como o homem e a mulher, pelo casamento, deverão estar bem de acordo entre eles em tudo e sempre. Foi Deus que os uniu. É Deus que lhe dará luz e força para permanecerem unidos. Trata-se de um engajamento total neste tripé sagrado: unidade, fidelidade e fecundidade. Isto é possível quando há o esforço sincero de transformar o amor mútuo no amor mesmo de Deus. Este Deus que é amor é verdadeiramente único, fiel e fecundo. Deste modo maravilhosamente fica sublimado a dileção sincera o que os cônjuges manifestam um ao outro. Eis aí o que quer expressar o que Jesus disse ao falar em “o que Deus uniu”.   Refletir sobre isto é importante, porque o amor humano é limitado se ele é deixado a si mesmo sem esta força sobrenatural sem a presença do Deus Todo Poderoso. O homem e a mulher precisam muitas vezes se ultrapassar a si mesmos  e até mesmo em algumas circunstâncias serem heróis, mas com a graça divina é possível manter a unidade e fidelidade prometidas ao receber o santo sacramento do matrimônio. O Espírito Santo presente no coração dos cônjuges transforma o amor humano que é limitado no amor imenso do Ser Supremo. É este Espírito divino que dá a verdadeira dimensão do amor que deve reinar entre os batizados  unidos pelo sacramento do matrimônio e imersos nesse oceano infinito do amor divino. Há então a percepção da fortaleza interior ofertada pela graça divina que é mais potente do que as forças humanas. Torna-se assim possível praticar em plenitude o amor conjugal. Na escola de Jesus se aprende a dialogar, a perdoar sempre, a sacrificar um pelo outro a própria vida. Deste modo, as infidelidades devidas às fraquezas humana são superadas porque   sólido é o fundamento que uniu dois corações através do sacramento do matrimônio. O projeto de Deus há de sempre prevalecer não obstante as fraquezas humanas e, por vezes o endurecimento das mentes que se deixam dominar   pelos males que afligem os incautos.  O liame que deve unir os cônjuges é objeto de ataques de rara violêncis em nossos dias e se multiplicam em certos países os processos atinentes ao divórcio, afetando, portanto, o plano estabelecido pelo Criador. Deve-se sempre lembrar que
Deus não pode nem se enganar, nem enganar os homens e, assim sendo, a unidade e a fidelidade conjugais são imprescindíveis para a felicidade no lar. O que Deus estabeleceu deve ser aceito em sua globalidade e em todas as suas dimensões. Eis porque a presença do Ser Supremo é fundamental para a vivência cristã dos que contraíram o matrimônio.   Deus deve ser colocado no centro do amor conjugal. São três vontades que devem interagir:  a do homem, a da mulher e a de Deus. É esta presença do Todo Poderosa Senhor no seio da família que une duravelmente os corações.  Eis por que a oração é imprescindível para a durabilidade do amor conjugal e o que Deus uniu o homem não separará! *`Professor no Seminário de Mariana durante 40 aos.