segunda-feira, 27 de julho de 2020


O DOM DO DISCERNIMENTO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A Bíblia mostra que o dom do discernimento é a capacidade de compreender ou saber qualquer coisa pela força do Espírito Santo, podendo detectar os erros e o males escondidos em nós e nos outros. Leva então a encontrar e a fazer   o bem em todas as circunstâncias e a entrar no mistério de Deus, a compreender do interior da fé as verdades reveladas, tornando o cristão um verdadeiro teólogo. Faz com que se possa acolher com disponibilidade absoluta as surpresas de Deus. Impede a resistência às inspirações divinas. Cumpre, porém, sempre pedir a graça do discernimento   para que não se endureça o coração do fiel. Resulta então uma total fidelidade que conduz a um progresso espiritual contínuo. Para que se possa, porém, saber se algo vem do Espírito Santo ou do espírito do mundo ou do diabo é preciso captar as luzes celestiais que indicam o   que fazer e como fazer de acordo com a vontade divina, tudo julgando com sabedoria. É preciso que o cristão peça ao Divino Espírito Santo a graça de distinguir entre o bem e o mal, entre as motivações pessoais e as inspiradas por Deus. É necessário que se afaste corajosamente tudo que impede a entrega ao amor das coisas espirituais, pois é difícil para o invejoso, o preguiçoso, o impudico, o larápio, o difamador aderir ao bem. Eis porque se deve desejar que o amor   a Deus e ao próximo cresça dia a dia em sabedora e plena inteligência. Daí a importância do hábito de rogar sempre ao Espírito Santo a ajuda para saber o que realmente se deve fazer. Assim se pode adquirir aos poucos uma real maturidade espiritual. * Diretor Espiritual do JSC









01 O JOIO NO MEIO DO TRIGO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Como o próprio Cristo explicou é Ele quem semeia a boa semente no mundo, mas o inimigo, o demônio, espalha o joio (Mt 13, 24-43).  Os obreiros da iniquidade, porém, serão punidos no juízo final com penas eternas. Até lá, no Reino de Deus nesta terra há o componente bom e o mau. Este último vem do uso errado da liberdade que leva a inúmeros males. Um dia, entretanto, haverá o triunfo definitivo do bem, quando os perversos receberão o castigo pelos desmandos cometidos, indo para o lugar onde por toda a eternidade pagarão pelos seus erros. Por isto, enquanto se tem tempo, é preciso cultivar as virtudes, vivendo de acordo com os valores sobrenaturais pregados pelo Mestre divino. Isto supõe vigilância continua e perseverança ininterrupta. Com efeito, a má erva com o passar do tempo se assemelha ao bom trigo e muitos se tornam incapazes de reconhecê-la com clarividência. O inimigo da salvação de cada um semeia os grãos do joio, como o desprezo dos dez mandamentos da sagrada lei divina, donde a falta de caridade mútua e a presença do egoísmo, das tristezas e de uma infinidade de desordens pessoais.  Se o cristão não para e se examina continuamente, seu coração fica dividido e pode gerar frutos bons, mas também os germes contrários à santificação. Disto resulta o desastre espiritual. Eis a razão pela qual não basta a vigilância, mas é preciso perseverança no combate imediato a tudo que se opõe à vontade divina e pode manchar a consciência. É necessária uma correspondência interrompida às inspirações celestes e não às insinuações demoníacas. Estas conduzem a muitas ilusões e levam ao caminho da perdição. A tentação deve imediatamente ser vencida quer no próprio coração, como ainda nas comunidades, nos grupos de reflexões, nos locais de trabalho. Em tudo, deve prevalecer unicamente o desejo do crescimento espiritual próprio e dos irmãos na fé sob as graças do Divino Espírito Santo. Deste modo, se dá a expansão missionária do campo apto ao bom trigo e a salvação se difunde para todos. Trata-se de uma jornada que exige muito tato, muita paciência e confiança na proteção de Deus nunca negada aos de boa vontade.  Estes não se deixam contaminar pelo joio que satanás espalha por toda parte, sobretudo em nossos dias através dos meios de comunicação social e das expressões desastrosas que vão corrompendo a mente dos discípulos de Jesus. No entanto, felizmente, grande é o número daqueles que querem possuir sempre um coração limpo das misérias espirituais, se refugiando na prece e na companhia daqueles que lutam por uma vida realmente cristã. Deus é paciente e aguarda o fim dos tempos para fazer o julgamento final. Assim também quem tem fé caminha nas estradas traçadas por Jesus, o divino semeador do trigo que será recolhido no celeiro do céu, vivendo cada batizado num processo de contínua conversão. É que perfeito e santo somente Deus que a todos, porém, dá a oportunidade de se corrigir logo que algum desvio é percebido, antes de se confundir o erro com a verdade. É preciso confiança porque Jesus disse claramente que Ele venceu o mundo Deixemos a Ele a última palavra em nossas vidas e o mal não ganhará espaço e cada um poderá ajudar os outros a cultivar a boa semente que possui dentro de si Isto com as armas do Evangelho oferecidas pelo divino Semeador as que         tornam, isto sim, possível progredir sempre rumo ao Reino Eterno. Jesus sempre estará ao lado dos que O temem e invocam. Estes se fazem sob sua proteção luz do mundo, sal da terra, uma plantação do Todo-Poderoso para servir à sua glória. Os filhos do maligno se empenham em obscurecer a luz e em anular a ação do sal salvífico. Jesus advertiu: “Guardai-vos dos falsos profetas que vem a vós em veste de cordeiro, mas por dentro são lobos rapaces” (Mt 7,15). Cumpre neutralizar suas ações perversas. Através da oração, por meio das boas ações do começo ao fim do dia, eis aí uma demonstração de que se é uma boa semente. Além disto, é preciso conhecer cada vez mais profundamente a palavra de Deus, abrindo o espírito a suas mensagens. Trata-se do progresso perseverante na santificação pessoal. Jamais fechar o coração à compreensão das realidades sobrenaturais. Eis como impedir que o inimigo lance joio na vida do cristão sempre atento às realidades sobrenaturais. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos



O MILAGRE DOS PÃES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Ao multiplicar os pães num lugar deserto e afastado Jesus não apenas demonstrou seu extraordinário poder, como também ofereceu a seus seguidores um gesto que levava a reflexões atinentes a outras passagens bíblicas (Mt 14,13-21).  Com efeito, trazia, por exemplo, à tona as cenas do maná que alimentava o povo no deserto, mostrando que a providência divina nunca deixa à mingua os que lhe pertencem. Lembrava também o milagre do profeta Elizeu que multiplicou pães para cem pessoas (2 Reis 4,43-44). Jesus inclusive se mostrava superior a estes servos de Deus, pois Moisés foi apenas uma testemunha da cena do maná e bem limitado foi o número de pessoas assistidas por Eliseu. Naquele momento Jesus visava também suscitar a fé nos moradores da Galiléia.  Estes não captavam a mensagem de seus milagres. Viam nele um poderoso messias, líder político, mas não o Filho de Deus, o salvador de toda a humanidade, o enviado do Pai. Conforme registrou São João no seu Evangelho a reação diante do milagre dos pães foi querer fazê-lo Rei. Entretanto outra era a intenção de Jesus com este prodígio, ou seja, suscitar a fé dos doze Apóstolos, inspirando-lhes sentimentos de comiseração para com os famintos, por todos que passassem por qualquer necessidade. Eis por que Ele lhes disse: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Jesus desejava inclusive fazer ver ao povo a fome da palavra de Deus, palavra que sustenta para a vida eterna. Já era uma preparação para que estes Apóstolos depois viessem alimentar seus seguidores com o pão eucarístico, pão vivo de seu Corpo que ressuscitaria imortal e impassível, mas presente para todas as gerações cristãs no Sacramento da Eucaristia, no qual se daria uma multiplicação muito mais admirável. Na véspera de sua Paixão, reunido com os Apóstolos no Cenáculo,outra  Jesus tomaria o pão, o partiria, o abençoaria e o daria aos Apóstolos, que assim repartiriam o pão em sua memória. Ali no deserto os discípulos, do que sobrou, totalizaram doze cestos cheios. Bela imagem do que se daria pelos séculos afora, pois nos sacrários das Igrejas sempre haveria o pão eucarístico que jamais faltaria a quem tivesse fé. Tal a felicidade dos que acreditassem no Reino messiânico que Ele viera instaurar nesta terra. Então se compreende melhor como a Eucaristia, o pão multiplicado, condensa para os cristãos toda a     história da salvação. A Eucaristia iluminaria a existência do verdadeiro seguidor de Cristo. Ele que demonstrou seu poder imenso alimentando no deserto mais de cinco mil pessoas, poderia também, ao tomar o pão no Cenáculo, dizer “Isto é o meu Corpo: isto é o meu Sangue”, dando em seguida uma ordem aos Apóstolos: “Fazei isto em minha memória”. Tratava-se de um memorial, de uma presença e de uma promessa de vida eterna. Antes, naquele  lugar deserto, diante de uma multidão que poderia passar fome, a estratégia dos Apóstolos era despedir os que ali se achavam. Para Jesus havia, porém, uma outra  solução e Ele afirma: “Eles não têm necessidade de ir embora”. É que Ele com sua onipotência haveria de providenciar o alimento para todos. Isto impelido Ele por sua compaixão, agindo conforme ditava seu coração amabilíssimo. Para os Apóstolos o problema era sério, mas Jesus não via problemas, limites. Ele contemplava uma multidão que atentamente ouvira sua palavra repleta de consolação, de esperança, de verdade. Promoveu então Jesus o festim da compaixão e ninguém ali haveria de passar fome. Esta seria a destruição da vida, mas ali estava o Senhor da vida e se dá então aquele ato miraculoso que ficaria para sempre na memória de seus discípulos através dos tempos, como, aliás, se dá conosco no dia de hoje. Felizes os corações que desejam estar assim com Jesus, que O procuram, em que O vêem sob os acidentes do pão e do vinho e, depois, passa a a irradira esta felicidade por toda parte. É que no encontro com Cristo no Sacrifício Eucarístico da santa Missa não apenas Ele alimenta a todos com sua Palavra, mas a muitos, que para isto se prepararam, alimenta também com o seu Corpo, Sangue Alma e Divindade na hora da Comunhão. Num e noutro caso, revelando-se um Deus de ternura e de misericórdia, lento à impaciência, cheio de amor e de verdade. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

domingo, 28 de junho de 2020


                               NOTÁVEL APELO DE JESUS
                        Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Bela mensagem de esperança oferece Cristo no Evangelho de hoje: “Vinde a mim vós todos que estais afadigados e sobrecarregados e eu vos aliviarei” (Mt 11,2-30). Notável apelo para todos os que suportam o peso da caminhada na pobreza, no desprezo e nas mais variadas doenças, nas angústias e sofrimentos de toda espécie. Ir até o Divino Salvador é crer nele e depositar dentro de seu coração todas as amarguras, aderindo à sua pessoa divina na mais cabal confiança. Ele tem solução para todas as necessidades. Ele é assaz rico e o amor transborda de sua amável pessoa. Ele é um caminho de libertação, pois tem palavras de vida eterna. Ele oferece então a solução: “Tomai sobre vós o meu jugo”. Quem assim procede se torna forte perante as intempéries da vida. É preciso, contudo, estar ligado a Ele pela prece, pelos sacramentos e no acolhimento de sua palavra e no exercício da caridade. Ele se dispõe a carregar conosco o fardo de nossos erros que nos oprime. Ele quer a todos libertar, livrando de todo e qualquer mal, como das falsidades, das calúnias, das crueldades, das omissões. Jesus deseja que todos vivam felizes na sua companhia, pois nos mostra sempre o caminho de seu amoroso coração. Por intermédio dos sacerdotes Ele oferece, através de uma sincera confissão, o perdão dos pecados. Ele é um Deus libertador. Seu Evangelho é exigente, mas este rigor é a chave de uma superação de si mesmo, de uma felicidade, vivendo uma existência repleta de sentido. Disto resulta, de fato, um florescimento de júbilo interior e a expansão de uma fraternidade beatificante. Ele faz seus seguidores membros de uma mesma família, um povo de irmãos. Todas as vezes que há uma divisão entre estes irmãos é Cristo que é rejeitado, mas, lá onde há união, resplandece a sua presença santificadora. “Vinde a mim”, nos diz Ele, propondo a todos entrarem nos seus sentimentos de paz e harmonia, lançando fora tudo que possa inquietar. Ele afirmou que todas as coisas Lhe foram entregues pelo Pai. Trata-se de um mundo novo, repleto de vida, um dom contínuo de sua munificência. Isto, porém, escapa aos sábios deste mundo, mas é abraçado pelos pequeninos, pelos simples de coração. Portanto, uma nova via, um novo caminho que leva à total liberdade. Maravilhosa a pedagogia do Filho de Deus, que não foi assimilada por escribas e fariseus de seu tempo e não é também aceita por todos os orgulhosos séculos afora. Apenas os pobres de espírito, que aceitam de bom coração a expectativa do Reino estabelecido por Ele, são capazes de usufruir de todas as vantagens que Ele oferece. Estes benefícios espirituais brilham para os que se deixam possuir por Deus e se envolvem nos desígnios de seu amor. Isto captado não por uma cultura materialistas, mas pela ciência do verdadeiro amor, que leva à fidelidade para com Deus e engrandece a alma, conduzindo cada um à superação de si mesmo. Salvação apenas através do Evangelho, inscrita no livro da vida que apenas Deus pode abrir e fechar. Seja então qual for a cultura de cada um ou sua atividade nas mais diversas profissões, a vida do cristão é feita de pequenas coisas, mas todas influenciadas pelo amor a Deus e ao próximo. Quem acata Jesus não despreza o desenvolvimento em geral, nem se entrega à preguiça intelectual. Aos olhos de Cristo, porém, a técnica e qualquer progresso indutor do incremento cultural, social e econômico devem estar ao serviço da fé. Eis porque a Igreja incentiva as pesquisas científicas, pois sabe que elas nunca obscurecerão a obra de Deus. Aos humildes e aos estudiosos de boa vontade, portanto, resplandecerá sempre as luzes divinas, pois a eles o Pai se revela. Estes encontram o repouso, pois o jugo de Jesus é leve e suave.  * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

domingo, 21 de junho de 2020

PEDRO, PEDRA ANGULAR DA IGREJA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na solenidade de hoje, dia do Papa, a liturgia apresenta o Evangelho da confissão de São Pedro (Mt 16,13-19). Trata-se da narrativa de um fato memorável no qual Pedro que se chamava Simão, confessa sua fé na divindade de Cristo. Em Cesareia de Filipe, num local tranquilo. Jesus quis se manifestar mais claramente aos apóstolos e lhe indaga: “Quem dizem os homens que é o Filho do homem?”. Após o relato de seus discípulos Ele foi direto ao perguntar: “E vós quem dizeis que eu sou?” Pedro tomou a palavra e sua resposta, inspirada pelo Espírito Santo, repercutiria através dos tempos: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Por estas simples palavras Pedro proclamou a divindade de Cristo e sua fé na Encarnação do Verbo, testemunhando que aquele homem semelhante aos outros era também Deus. Fé admirável daquele que seria proclamado a pedra angular da Igreja de Jesus e que naquele instante iluminava a fé de todos os cristãos na realidade da Encarnação. Jesus declara então que foi o Pai que lhe havia revelado isto e faz a grande promessa que Ele cumpriria após sua Ressurreição; ”Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.Pedro na sua união com Cristo se torna o fundamento da Igreja para a salvação de todas as nações. Ele que seria o primeiro Papa demonstrava uma fé profunda que seria imitada por São Paulo e que Maria a Mãe de Jesus já havia patenteado, como fiel entre os fiéis. Neste dia do Papa cumpre recordar o que ensina o Catecismo da Igreja: “O Papa, Bispo de Roma e sucessor de São Pedro, "é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos, quer da multidão dos fiéis". Com efeito, o Pontífice Romano, em virtude de seu múnus de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal. E ele pode exercer sempre livremente este seu poder. (§882) Através dos tempos os sucessores de Pedro no exercício do magistério ordinário sempre levaram a uma compreensão melhor da revelação em matéria de fé e de costumes, assistidos que são pelo Espírito Santo. A este ensinamento ordinário os fiéis devem “ater-se com religioso obséquio do espírito” (§892) É que “o Pontífice Romano, em virtude de seu múnus de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal” (§882). É de notar que o Papa é dotado de infalibilidade “quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé ou aos costumes”. A infalibilidade que Cristo prometeu à Igreja “reside também no corpo episcopal quando este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro", sobretudo em um Concílio Ecumênico” (§891). Cumpre então aos cristãos sempre rezar para que o Papa, assistido pelo Espírito Santo, possa sempre exercer sua sublime missão com uma digna transcendência na vida da Igreja. Ele é o fundamento seguro para todos que o amparam com preces contínuas em suas intenções. De Pedro e seus sucessores vem para os discípulos de Cristo o “sentido sobrenatural da fé”, dado que o Espírito Santo os conduz à “plenitude da Verdade”, como bem se expressou São João no seu Evangelho (Jo l6,13). Se é o mesmo Espírito divino que guia o Papa através dos tempos e Jesus declarou formalmente que as portas do inferno não prevaleceriam contra sua Igreja, é preciso total atenção e acatamento às orientações do Sumo Pontífice A caminhada da Igreja rumo à Verdade, não obstante a contradição humana, prossegue, século após século, contando sempre, porém, com a fidelidade de um sem número de cristãos sinceros. Jesus assim se dirigiu ao Pai:” Escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”, ou seja, aos humildes que não levam a seu pobre tribunal o que Ele ensinou e é defendido pelos Papas. Orientados por eles a sã doutrina do Evangelho chega a cada cristão em sua primitiva luminosidade, sem as deturpações dos hereges que se multiplicam numa vã tentativa de contradizer o que o Filho de Deus ensinou. Pedro encontrou dificuldades em ir além das fronteiras de Israel e em abrir as portas da Igreja aos que não eram da descendência de Abraão. Deus, contudo, sempre suscitou missionários, como o Apóstolo Paulo, para levar a Boa Nova por todo o mundo. Nesta evangelização todos os cristãos devem se empenhar. Mensagens luminosas, não há dúvida, deste dia do Papa. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


domingo, 14 de junho de 2020

NÃO TENHAIS MEDO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Animadoras as palavras de Cristo: “Não tenhais medo" (Mt 10,26-33). Não se trata dos temores fugitivos que atordoam a vida todos os dias. O grande receio que o cristão deve vencer é, sobretudo, não testemunhar sua fé e sua união profunda com o divino Salvador. Num contexto histórico no qual se vive muitos, levados pelo respeito humano ou atemorizados por serem julgados ultrapassados diante das ilusórias manifestações do progresso tecnológico, correm o risco de negar por atos e palavras sua fé no Filho de Deus.  Este, porém, havia advertido: “Vós sereis odiados por causa do meu nome” (Mt 10,2). Ele foi perseguido a ponto de morrer crucificado e, portanto, a razão de não se temer o julgamento dos descrentes é que o destino de seu discípulo é imitar o seu Senhor, comprometido em tudo por Ele e com Ele. Se Ele venceu o mundo, apesar de tantos sofrimentos, a coragem deve imunizar seu seguidor contra o medo, triunfando de todas as insídias armadas pelos meios de comunicação social. Trata-se de firmar sua fé não obstante tantos desvios éticos e dogmáticos que marcam a história contemporânea. Notável a afirmação de Jesus no Evangelho de hoje, “não há nada encoberto que não se deva tornar conhecido, nem oculto que não se venha a saber" (v.26). Mais hora, menos hora sempre brilha a luz vitoriosa que o verdadeiro cristão deve irradiar. Por meio de seus autênticos discípulos, que não se dobram perante os erros, Deus por eles, filhos e filhas fiéis a seu Evangelho, pode fazer luzir sempre no mundo o esplendor da verdade. O legítimo cristão é portador deste Deus que revela e assim nada precisa temer das mudanças culturais e históricas, nem das doutrinas contrárias ao que Jesus ensinou. O que se deve temer, Ele asseverou, é o veneno irradiado pelo Maligno através dos canais televisivos, da internet em geral, isto deve ser evitado porque pode levar à morte do corpo e da alma e lançar na geena, local de suplício eterno pelo fogo. Este temor que é inclusive um dos dons do Espírito Santo é o medo de perder a Deus por entre as insídias diabólicas. O santo temor de Deus, no sentido bíblico, é respeito e afeição a tudo que se refere à sabedoria e majestade divinas. Isto se consegue pela obediência filial perante as delicadezas daquele que é Pai amoroso, o qual, segundo Jesus, conta até os cabelos da cabeça de quem lhe é leal. Deve-se, isto sim, temer não perceber a ternura do Pai que está nos céus o qual se interessa pelos filhos que Lhe são devotados. Nada, portanto, de temer os juízos mundanos e o falso esplendor do que contradiz o Evangelho, porque quem é fiel a Deus cantará sempre um hino vitorioso por entre as lutas neste vale de lágrimas. O cristão que tem uma fé profunda confessa continuamente Cristo salvador e por suas ações se declara solidário a Ele em todo tempo e lugar, jamais O traindo. Perseverança sem ceder a nenhuma tentação de impaciência perante o aparente triunfo do mal e a multiplicação de tantas seitas que renegam a verdadeira Igreja de Cristo. Jesus, porém, conta com a lealdade do autentico católico que fica firme, irradiando por toda parte a santidade de vida que flui de sua fidelidade a seu Senhor. Tal é o apelo do Mestre divino a proclamar “Não tenhais medo”. A hostilidade do mundo passa e o cristão estará sempre a repetir: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”, nela deparando todo consolo e amparo que vence qualquer temor que pode paralisar e desnortear. Através dos séculos quantas turbulências têm surgido, mas tudo resta nos arquivos da História, lançadas no passado. A Palavra de Deus, porém, difundida pela Igreja segue seu curso inexorável e, assim, nada a temer. É preciso exorcizar os fantasmas de prognósticos pessimistas e crer sempre no triunfo da verdade, contribuído para que a Palavra de Deus continue por toda parte a iluminar os corações de boa vontade. Esta realidade não é captada pelas câmaras da televisão a endeusar a falsidade e a destacar sempre os crimes e não os atos virtuosos provindos da vivência do Evangelho. É preciso coragem para vencer estes obstáculos, temer, isto sim, as artimanhas do inimigo da salvação eterna de cada um. “Não tenhais medo” nos diz Jesus, isto porque Deus é fiel e firmará sempre quem o ama e teme na esperança e na paz e o testemunhará diante do Pai que está nos céus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

 


domingo, 7 de junho de 2020

Ao ver as multidões Jesus condoeu-se deoas




AO VER AS MULTIDÕES JESUS CONDOEU-SE DELAS.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Evangelista São Mateus mostrou como Jesus havia se compadecido das multidões porque eram como ovelhas sem pastor. O Mestre divino afirmou em seguida que a messe era grande, mas os trabalhadores poucos. Ele então escolheu doze Apóstolos e lhes deu poderes especiais para sua missão (Mt 9,36-10,8). Estes foram os primeiros enviados de Cristo ao mundo. O Reino de Deus se dilata quando aqueles que creem testemunham por palavras e obras o que Jesus ensinou. É de se notar que o fato de Cristo ter se compadecido das multidões não significa apenas a constatação de uma situação infausta, mas ocorrência que deve levar a atitudes concretas, as quais estimulem seus discípulos a trabalharem com afinco pela expansão do Evangelho. Jesus diante de um povo cansado e abatido não teve palavras de consolo e resignação, mas propôs um modo de ser que deve conduzir a mudanças existenciais. Estas abrem o caminho de uma verdadeira conversão. Isto deve mostrar mentalidades e atitudes eficientes que levem à implantação de um apostolado que conduza à vivência plena dos meios de salvação. Aí está a missão do Redentor, pois Ele afirmou: “Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Eis porque a Igreja oferece tantas atividades pastorais nas quais cada batizado se engaja dentro de seus carismas, de suas disponibilidades. Mesmo porque dentro do lar, nos ambientes de trabalho ou onde quer que esteja o cristão ele pode e deve evangelizar. Tudo isto além da própria ordem de Cristo de rogar ao Pai que envie sempre operários para sua seara. Portanto, Jesus não fez apenas uma verificação de uma situação deplorável que se repetiria através dos tempos, mas fez uma averiguação de que por causa da omissão, descuido ou negligência de seus seguidores muitos não alcançariam a felicidade eterna. Ficam privados dos meios necessários a este fim.   São aquelas ovelhas que deveriam ser tocadas pelo empenho de seus irmãos, mas foram deixadas de lado.  Daí ser necessário aos cristãos, orientados pelos sucessores dos doze apóstolos, reconhecerem sua vocação que é cooperar para que não haja ovelhas sem pastor. Trata-se de uma tarefa sublime que é testemunhar ser Jesus, de fato, “o caminho, a verdade e a vida”. Donde um exame sincero para verificar como temos feito este Jesus conhecido, amado e seguido para que não haja ovelhas desgarradas, cansadas, excluídas.    Anunciar Jesus não é um encargo exclusivo dos Bispos e dos Sacerdotes. Todos os batizados são convidados a trabalhar na vinha do Senhor. Com efeito, as necessidades espirituais de todos os que estão em nossa volta devem nos levar a um infatigável e generoso trabalho apostólico.  É necessário todo o  empenho para que não seja frustrado o desejo de Cristo, afim de que por toda parte se realize a obra da Redenção.   Como nos tempos de Cristo os obreiros são poucos em proporção a esta imensa tarefa.  O Papa São Paulo VI em 1977 dizia: “A responsabilidade da difusão do Evangelho que salva é de todos. De todos os que o receberam”. O dever missionário recai, portanto, sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo, mas todos devemos ser solidários no cumprimento desta obrigação. É deste modo que deve agir através dos tempos o novo Povo de Deus. Trata-se de um empenho espiritual que atravessa os séculos, porque sempre haverá clero e fiéis que respondem com fé à graça deste chamamento especifico. Por conseguinte, cada cristão deve aproveitar os meios de formação que a Igreja por meio dos sucessores dos doze Apóstolos lhe oferece nas circunstâncias concretas nas quais está colocado no seu dia a dia, Clero e fiéis fazem parte do plano de salvação estabelecido por Deus. Trata-se de uma obra divina. Ao escolher os doze Apóstolos, dando-lhes poderes extraordinários, Jesus lançou o germe de sua Igreja. Desde o começo de seu ministério público Ele colocou os fundamentos de sua Instituição. Assim sendo, através do evangelista São Mateus, implicitamente, mostrou a necessidade de uma formação doutrinária e apostólica de todos os batizados para desempenharem sua vocação cristã. Ininterruptamente, porém, todos lembrados de que Ele conta com a cooperação de cada um, porque a messe é sempre grande e os operários são poucos. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.