sábado, 23 de maio de 2020


 RECEBER COM AMOR O ESPÍRITO SANTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Com a solenidade de Pentecostes celebramos o ápice da vida de quem foi batizado. O que era uma promessa de Deus se torna com a vinda do Espírito Santo um aprimoramento, pois a finalidade da existência do seguidor de Cristo é atingir a plenitude da personalidade cristã. São Paulo assim se expressou: “O próprio Espírito atesta com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8,16). Então se pode respirar e viver a bondade e a ternura deste Deus que habita na alma em estado de graça.  Trata-se de viver na luz em comunhão mútua com Ele que é luz (1 Jo 1,7). Criaturas novas iluminadas pela presença divina, “gozando todos de abundância de graça” (Atos 4,33). Cada cristão se torna assim uma carta de Cristo escrita com o Espírito do Deus vivo (2 Cor 3,3), procurando sempre as coisas do alto e não as da terra. Tudo isto resultante da presença de Deus intensamente vivida. Movidos pelo Espírito Santo, mesmo numa cultura como a atual voltada para o exterior, é possível fixar nesta realidade sublime que é ser herdeiros de Deus, coerdeiros de Cristo. Pentecostes então leva cada um a avançar mais longe e mais profundamente no mistério divino. Somos, de fato, preciosos diante de Deus, salvos pela paixão e morte de Cristo e repletos do Espírito Santo. Deste modo, o amor de Deus envolve todos que nele creem e pelo seu Espírito confirma o quanto cada um é valioso perante Ele, destinado à glória e ao esplendor eterno da visão beatífica lá no céu. Cumpre então estar envolvo na ternura e na misericórdia divinas, longe das trevas do erro e de qualquer pecado, pois o Espírito Santo nos atesta que nosso Deus é o Deus três vezes santo, Pai amoroso que tanto nos ama. É preciso, porém, deixar que o Espírito Santo faça em nós o que Ele quiser em nossas vidas, evitando, cuidadosamente, afastar as resistências advindas de um mundo materializado e das insídias diabólicas. Donde então o conselho de São Paulo: “Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias, mas examinai tudo, retendo o que é bom. Conservai-vos longe de toda a aparência do mal”! (Tes 5,19). A fidelidade em seguir as inspirações do Espírito Santo é uma garantia para jamais sucumbir diante do maligno. Saber escutá-lo, pois Ele, continuamente, bate à porta de cada coração para iluminar, vivificar e salvar. Isto é crer na sua força, dando-lhe uma resposta de amor, observando sempre seus apelos para uma vida cada vez mais perfeita diante de Deus. Nas orações individuais ou comunitárias é necessário perceber o que este Deus quer de cada um, o que Ele deseja fazer por nós, em nós e conosco. É a esta sabedoria que o Espírito Santo nos guia. Estar, portanto, atentos à novidade do Espírito em tudo e por tudo na prece ou em qualquer atividade. O Espírito Santo é para a Igreja e os cristãos o Espírito da memória, da lembrança, da continuidade com Jesus. O que Ele nos faz compreender e viver é tudo aquilo que Jesus ensinou. O Paráclito simplesmente, divinamente nos rememora tudo que Jesus fez e pregou da parte do Pai. Entrar na novidade do Espírito é, assim, descobrir progressivamente a dignidade de ser cristão, andando como filhos da luz, captando sempre o que há de eterno nas menores ações cotidianas, porque feitas por amor a um Deus que tanto nos ama. Purificado pelo Espírito Santo, imerso nesta dileção divina o cristão se torna, como desejou Jesus, luz do mundo e sal da terra. Esta se torna então o lugar da misericórdia divina. O coração do cristão cessará de duvidar e temer pelo presente ou pelo futuro, perante suas responsabilidades, porque sentirá sempre junto de si o poder do Espírito Santo a sustentá-lo. O cristão se torna sábio espiritualmente, dado que o Paráclito fará com que ele entenda a linguagem do amor vitorioso. Eis porque é preciso sempre pedir ao Espírito Santo seus sete dons. A sabedoria que leva a degustar a presença de Deus, jamais dele se separando. A inteligência que ajuda a entrar no mistério de Deus e a compreender o essencial da fé, da Palavra divina contida na Bíblia, a distinguir o erro da verdade, levando a uma mudança de vida. A ciência que permite reconhecer Deus na obra da natureza e na história, valorizando todas as dádivas divinas, A fortaleza que conduz à perseverança nas tentações, à coragem de testemunhar por toda parte o Evangelho, tornando cada um vitorioso no combate espiritual, executando do melhor modo os deveres de cada instante. O conselho que dispõe a ver claramente o que é melhor para si e para os outros, em tudo discernindo a vontade de Deus. A piedade que faz entrar na experiência da paternidade divina, aproximando cada um da ternura do Pai que está no céu. O temor que não é o medo de Deus, mas que é possuir o sentido da grandeza do Ser Supremo e temer dele se separar. Saibamos cultivar sempre estes sete dons e seremos cada vez mais santos como santo é o nosso Deus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
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segunda-feira, 18 de maio de 2020


ESTOU 




ESTOU ESTOU CONVOSCO TODOS OS DIAS

                                      Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Antes de sua ascensão ao céu, Jesus confirmou a missão dada aos Apóstolos e assegurou sua duradoura assistência à Igreja, firmando sua infalibilidade (Jo 28, 16-20). Sua partida para junto do Pai não significava que sua obra redentora estava terminada e que não deixaria seus seguidores órfãos. Os onze e seus sucessores deveriam ir pelo mundo proclamando a Boa Nova a todos os povos. Pelo livro dos Atos dos Apóstolos se pode ver como nas primeiras comunidades cristãs não somente a palavra de Deus ia se espalhando, mas também que a mensagem de Cristo não perdia nada de sua eficácia. Sobretudo os apóstolos Pedro e Paulo anunciavam com vigor tudo que Jesus havia ensinado, mas também operavam milagres tão estupendos como os feitos pelo Mestre divino. Curavam os cegos, os coxos e até ressuscitavam mortos. É que Jesus, tendo ido para junto do Pai, embora ausente, permanecia atuante na sua obra salvadora. Verídicas suas palavras: “E eis que eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo”. Ele continuou a agir no coração mesmo de sua Igreja. O mistério de sua Ascensão traz à baila duas realidades que poderiam parecer opostas. De um lado era proveitoso que Ele voltasse para junto o Pai e fosse lá nosso intercessor, mas por outra é de se notar que se tratava de uma ausência aparente, pois Ele foi fisicamente, mas continuou presente espiritualmente de maneira de fato extraordinária, eficaz e poderosa. De junto do Pai Jesus enviou o Espírito Santo e Pentecostes iniciou a história da Igreja através dos tempos. A ordem de Jesus foi não apenas doutrinar todas as gentes, mas ainda “batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ensinando-as a observar tudo que Ele mandou. Há, assim, um liame profundo entre a Ascensão e o Batismo. O Batismo inaugurou a vida pública de Cristo, a Ascensão foi o limite final. São Pedro deixou isto bem claro ao afirmar, como está nos Atos dos Apóstolos, que tal foi a trajetória de Jesus “a partir do batismo de João até o dia em que do meio de nós foi elevado ao céu” (Atos 1,22). O Batismo pelo qual se multiplicariam seus seguidores é, realmente, uma imersão na vida trinitária. Vida em Deus, vida do Espírito Santo, vida de Jesus que, deste modo, estaria com seus discípulos até a consumação dos tempos. Termos sido batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo não foi um rito mágico, mas o começo de uma marcha com Jesus, colocando nossos passos nos seus passos, mesmo porque no final de nossa passagem por este mundo, na outra margem da vida, Ele está à nossa espera.  Deste modo a Ascensão se torna nosso destino, o fim da caminhada terrena iniciada no nosso batismo. Tal o sentido profundo da vida do cristão viver como Jesus para um dia estar com Ele por toda a eternidade. Eis aí o que Jesus ressalta no dia de sua Ascensão. Ele nos dá o poder de nos tornarmos filhos de Deus, de viver pelo batismo, desde agora e por toda a eternidade, com Ele, unidos ao Pai e ao Espírito Santo. No momento em que Ele deixa esta terra, Ele revela a seus discípulos que um lime definitivo os une com a Trindade Santa, ligação tão forte que nada deverá separar. Nem podemos nos esquecer de que, indo para o Pai no dia de sua Ascensão, Ele se deixou ficar também na Eucaristia. Ele havia dito solenemente: “Quem come  a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Deste modo, a solenidade da Ascensão fixa verdades maravilhosas que devem ser a razão de ser do cristão. Resulta uma profunda esperança que lança alegria total no coração de quem ama a Jesus. Esperança que é uma virtude dinâmica, um motor para a perseverança no bem, dilatando o coração no desejo de estar com o Mestre divino após uma vida virtuosa nesta terra. Tudo isto deve ser fixado, tanto mais que se vive numa sociedade triste, sombria, depressiva, repleta de hediondos crimes, exatamente porque para muitos o céu, onde Jesus está a nossa espera, deixou de ser o fim último de todas as atividades. Impressionam desilusões lamentáveis afogadas no álcool, nas drogas, nas ações mais deprimentes. Nada, portanto, mais necessário do que irradiar as mensagens da Ascensão de Jesus para que a luz da fé faça brilhar em todos os corações a certeza de um destino glorioso. Reavivemos, portanto, nossa esperança fagueira: Jesus está à nossa espera lá na Casa do Pai! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.







ECONV

segunda-feira, 11 de maio de 2020


O ESPÍRITO DA VERDADE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Antes de sua Ascensão ao céu Jesus deixou aos apóstolos palavras consoladoras, garantindo-lhes que Ele rogaria ao Pai e Ele lhes daria outro Consolador, o Espírito da Verdade (Jo 14,15-21). O Paráclito confirmaria tudo que Ele ensinou e convenceria o mundo de seus erros. É que o Confortador revelaria sua presença e comunicaria total fidelidade à sua palavra. Podia então afiançar que não os deixaria órfãos. Um adeus assim repleto de consoladoras promessas, enchendo o coração de seus discípulos de confiança e esperança. O critério, porém, do amor que a Ele é devido seria sempre a observância radical dos seus mandamentos, cuja guarda seria a prova da dileção a Ele e disto resultaria o amor do Pai. Admirável, de fato, a presença e a obra do Espírito Santo na comunidade de seus seguidores. Estes seriam criaturas novas através da renovação interior operada pelo Espírito da Verdade. Este levaria os cristãos à plena comunhão com o Amor trinitário, estando presente em cada um de seus fiéis. Este Espírito da Verdade seria sempre o protetor da fé e o pedagogo da vida espiritual do cristão. A grande mensagem, portanto, que Jesus deseja que recebamos é acolher este hóspede interior que não nos deixa jamais sozinhos. É preciso se refugiar nele, nos entreter com Ele como nosso mestre espiritual. Cumpre sempre criar um espaço que permita o Espírito da Verdade agir dentro de cada um de nós. É o que deve acontecer não apenas nos colóquios das orações individuais, mas, sobretudo, através da participação ativa nas Missas dominicais, que comunicam mensagens consoladoras para cada semana. Com efeito, o Espírito da Verdade deseja transformar para melhor a vida de cada cristão. É uma sabedoria celestial saber escutá-lo e agir por Ele. É deste modo que as palavras de Jesus se tornam atuais e sempre novas para cada um e para toda a Igreja. Todas estas considerações já preparam cada um para daqui a quinze dias no glorioso 31 de maio próximo receber nova efusão do Espírito Santo por ocasião da solenidade de Pentecostes. O Espírito da Verdade virá para sanar nossas vulnerabilidades, nossas limitações, os obstáculos que impeçam de ser verdadeiros discípulos de Jesus por meio de um combate corajosos contra toda mediocridade. A luta entre o bem e o mal, entre a fidelidade ou a infidelidade para com Deus dependerá sempre da ajuda continua do Paráclito, do Defensor, do Espírito da Verdade. Ter disto consciência é o que Cristo pede ao anunciar que sobre seus seguidores viria esta força divina. É ela que permitirá caminhar vencendo todas as artimanhas do maligno com coragem, perseverança e continuas vitórias nas veredas do bem e das virtudes. O critério para estar de acordo com o Espírito da Verdade não vem da inteligência, mas da própria consciência através da qual nos fala o Paráclito. A consciência é mais do que um mero saber, é uma luz que leva a crer e esperar.  Daí surge a fidelidade que leva a um progresso interior, a um dinamismo maravilhoso, a um estilo de vida realmente cristão. Este então trabalha continuamente para crescer na própria perfeição, contribuindo para o bem comum, para a felicidade de todos. É a misteriosa comunhão dos santos que se dá. Compreende-se desta forma que “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”, como bem se expressou Elisabeth Leseur. O Espírito da Verdade lembra continuamente que Jesus veio para a salvação de todos. Cada vez que o cristão se esforça para se tornar mais humano está melhorando toda a humanidade, pois se torna mais próximo de Deus, mais se assemelha a Cristo. Eis aí a obra maravilhosa do Espírito da Verdade. Grande é, portanto, a responsabilidade do cristão. Este deverá ter sempre uma intuição sobrenatural, um olhar novo e positivo a envolver todas as suas atividades, iluminando a todos que se acham em seu derredor. É a realização concreta do que preceituou Jesus: “Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Portanto, é através dos acontecimentos de cada hora que os cristãos podem impregnar o mundo com a presença de Deus. É uma resposta aos apelos da fé, permitindo que o Espírito da Verdade trabalhe dentro do coração do discípulo de Jesus.  Nunca plenamente sabemos o bem que fazermos quando fazemos o bem. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
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segunda-feira, 27 de abril de 2020

A PORTA DAS OVELHAS


01 A PORTA DAS OVELHAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus se designa “a porta das ovelhas” (Jo 10, 1-10) Esta definição de si mesmo é uma síntese de sua missão de salvador da humanidade, é sua identidade. Ele quer que seus discípulos nele vejam o genuíno Bom Pastor. Declara-se então como o único medianeiro entre Deus e os homens, porque somente por meio dele pode-se entrar no redil que garante a caminhada segura rumo ao Pai. Aliás, ele dirá que ninguém vai ao Pai senão por Ele (Jo 14,6). Quando Ele se identifica como a porta do seu redil está mostrando que no seu rebanho reina a liberdade e que suas ovelhas não temem nenhum perigo. Elas escutam sua voz. Podem ir e vir, pois Ele as chama cada uma pelo seu nome e oferece segurança e a vida em abundância. Ele se diz uma porta, mas porta aberta de entrada e de saída. Esta saída deverá ser sempre para irradiar seu amor e atrair novas ovelhas para seu rebanho.  Expressiva, portanto, a imagem da porta, pois salienta um aspecto essencial do ministério redentor do Filho de Deus. No Antigo Testamento a figura da porta foi utilizada para simbolizar a presença de Deus. Assim o profeta Isaias fala do dia da paz universal e descreve um tempo no qual “as portas serão sempre abertas, nem de dia, nem de noite elas serão fechadas” (Is 60,11). Davi assim se expressou: “Levantai, ó portas vossos frontões e aumentai em altura, antiquíssimas aberturas, pois deve ingressar o rei da glória” (Sl 24,7-10), Este rei da glória vem responder a todas as expectativas do Povo de Deus. Agora é por Jesus que há o “acesso ao Pai” (Ef 2,18). Cumpre então aproximar-se dele “com intenção sincera, cheios de fé, com o coração purificado da má consciência e o corpo lavado com a água pura”, como se lê na Carta aos Hebreus (Hb 10, 22). Jesus abre a porta da salvação que é oferecida gratuitamente a todos que se dispõem a segui-lo livremente e com muito amor e confiança. Ele oferece a verdadeira vida para que suas ovelhas a tenham em abundância. O Bom Pastor é o guarda atento e poderoso. Para suas ovelhas se abrem vários caminhos no sentido de oferecer a inúmeras outras a mesma felicidade de pertencer ao Bom Pastor. Paraísos ilusórios, artificiais, atraem e levam a abandonar a caminhada rumo à felicidade eterna sem passar por Jesus. Esta tentação se torna ainda mais perigosa no contexto atual. Cria-se uma imagem distorcida do verdadeiro Pastor que se identificou também como o caminho, a verdade e a vida. Eis por que é preciso renuncia a tudo que leva a se afastar do Reino de Deus. É preciso passar sempre pela porta que é Cristo e se entregar a uma conversão contínua para ter acesso às realidades do mistério infinito deste Reino de Deus. Cada etapa da vida da ovelha de Cristo significa assim também uma luta contra as ideologias que lutam versus o Bom Pastor, mas que, mais hora menos horas, se mostram desumanas e destruidoras. As grandes heresias dos primeiros séculos até as muitas seitas hodiernas, sem se esquecer de que as fatais filosofias errôneas tudo fizeram e fazem para impedir que se entre no verdadeiro redil pela porta que é Cristo. É necessário então não participar das infectas obras das trevas para poder se encontrar sempre aberta a porta do reino eterno, oferecido por nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, o Bom Pastor. Nele é necessário confiar nesta grande e perigosa caminhada para a casa do Pai. É preciso então sinceramente visualizar sempre aqueles momentos nos quais Cristo não é a porta das decisões de cada um. Muitas vezes o que predomina é o amor ao dinheiro, aos prazeres pecaminosos, ao apego às coisas materiais. Deste modo, a analogia da porta leva a uma revisão de vida, buscando a coerência em tudo. Apenas Jesus é a porta que abre o sentido das palavras da Bíblia retamente interpretadas com as quais Ele alimenta as ovelhas que lhe pertencem. Todo cuidado é pouco para não se deixar iludir pelos falsos profetas que enganam com suas artimanhas e falsas promessas. Eis por que, além de alimentar suas ovelhas com a Palavra, Ele também pela Eucaristia quis se unir intimamente a cada uma delas. São Paulo viveu estas verdades tão intensamente que pôde afirmar: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gal. 2,20). O ideal é então que cada ovelha que entra pela porta, que é Jesus, se assemelhe a Ele não apenas para o júbilo deste Bom Pastor, como também pelo crescimento de seu rebanho iluminado pela sua Palavra e pela Eucaristia. Deste modo, um dia se dará o seu desejo de que haja um só rebanho e um só Pastor. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O ENCONTRO DOS DISCÍPULOS DE EMAUS


O ENCONTRO DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A aparição de Jesus Ressuscitado aos discípulos de Emaús resultou na restauração da fé daqueles que estavam desiludidos diante de tudo que acontecera com o Mestre divino. (Lc 24,13-5). Eles não reconheceram Cristo naquele que se pôs a acompanhá-los na caminhada até a povoação para onde se dirigiam. Todo o episódio apresenta um comovente modelo de evangelização. Eles mesmos disseram depois: “Não nos ardia o coração no peito, quando ele nos falava pelo caminho enquanto nos explicava as Escrituras?”. Receberam uma catequese sobre a fé e a vida do cristão. É que eles haviam antes seguido Jesus, mas, na verdade, não O tinham verdadeiramente conhecido. Sua expectativa messiânica os havia cegado tanto que eles tinham enclausurado Jesus no modelo estreito de um libertador político, chefe de um reino temporal. Foi-lhes necessária uma explicação exegética, uma releitura das Escrituras feitas pelo próprio Cristo para lhes abrir o coração à percepção do plano divino de salvação. Entretanto, foi na refeição na estalagem, no momento da fração do pão,  memorial da vida do Redentor, partilhado num gesto de amor, que seus olhos se abriram. Refulgiu a realidade da Palavra divina, a qual já os havia iluminado pelo caminho. Instante sublime quando o encontro com o Ressuscitado, através de sua Palavra partilhada e de sua vida fracionada, que provocou a iluminação de sua fé. Isto animou a esperança deles em um novo reino instaurado pela redenção do Filho de Deus. Tudo isto foi também fruto do apelo que fizeram àquele peregrino num gesto grandioso de atenção: “Fica conosco porque entardece e o dia já está em declínio”. Outra mensagem maravilhosa de Cristo, pois a caridade é condição para se imergir na Palavra de Deus que deve ser vivida nas ações de cada dia. Missão cumprida, Jesus desapareceu da vista deles, mas eles estavam esclarecidos, fortificados e, então imediatamente voltaram para Jerusalém. Comunicaram o ocorrido aos onze apóstolos que confirmaram: “Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. Cléofas e seu companheiro confirmaram que tinham reconhecido Jesus ao partir o pão. A experiência que tiveram seria a de milhares de seguidores do Ressuscitado através dos tempos. Isto no cotidiano de sua vida cristã, pontilhada de uma série de situações e acontecimentos proporcionados por Deus, visando a vivência plena da sua Palavra salvadora. Cumpre, de fato, aos cristãos ter olhos abertos e o coração sincero para estes encontros com Deus Isto, sobretudo, nos instantes do culto eucarístico, momento solene por entre o ritmo trepidante da caminhada de cada um neste mundo. Importantíssimos, portanto, os instantes reservados para as Missas dominicais e também nas Visitas ao Santíssimo Sacramento. Jesus é, realmente, o companheiro de viagem rumo à Casa do Pai. Ele sabe escutar as alegrias e sofrimentos, as esperanças e decepções, a riqueza e a pobreza que constituem a experiência da existência de cada um. É preciso sempre repetir a súplica dos discípulos de Emaús: “Fica conosco Senhor” e viver na sua presença santíssima, alimentados com o Pão Eucarístico. É preciso sentir sempre a presença do divino Redentor que toma a iniciativa do diálogo. O importante é saber escutá-lo como fizeram os discípulos de Emaús. Deste modo, o trabalho de cada dia ao invés de ser fonte de revolta, se torna caminho de redenção. A luz divina entra então na vida do cristão. Este passa a compreender como é importante estar unido a seu Salvador nestes encontros pessoais e vivificantes com Ele. Surge a consciência de uma missão que é anunciar como é bom estar com Jesus num testemunho de vida que arrasta os indiferentes para uma vida espiritual salutar e beatificante. Daí surgem a solidariedade, a fraternidade de todos aqueles que estão unidos ao Ressuscitado. Trata-se de um apelo a uma vida sobrenaturalizada que se abre aos outros. Cléofas e seu companheiro, instruídos por Jesus e alimentados na fração do pão, foram relatar aos outros seguidores do Mestre divino tudo que lhes acontecera, firmando também a fé daqueles que acreditavam que Jesus era o Filho de Deus. Ser testemunhas de Cristo Ressuscitado eis aí a tarefa sublime do autentico cristão. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.




domingo, 5 de abril de 2020

Páscoa

JESUS RESUSCITOU

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Júbilo imenso paira sobre a cristandade em festa, recordando um
episódio fundamental bem alicerçado na Sagrada Escritura: Jesus
ressuscitou (Jo 20-9; Mt 28,1-10). Significativo o fato das piedosas
mulheres e dos apóstolos irem até o lugar onde Jesus fora sepultado. O
sepulcro estava vazio. Um anjo e o próprio Jesus testemunharam que a
morte fora vencida.  Cristo ressuscitara imortal e impassível a dar
esta ordem: ”Não temais. Ide dizer aos meus irmãos que vão para a
Galileia e lá me verão”. A fé levou até ao Mestre vitorioso e o túmulo
vazio, mostrava como é importante procurar a verdade dos
acontecimentos. Isto tem sempre como resultado uma profunda esperança
que dilata o amor ao divino Redentor. As realidades deste mundo
enfraquecem a coragem, mas a visão do Ressuscitado leva a realidades
sublimes. Este foi, depois, o conselho de São Paulo aos Colossenses:
“Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto,
onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá
de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está
escondida com Cristo em Deus” (Col 3,1-3). As realidades terrenas
causam decepção, mas o apelo de Jesus repleta de coragem, pois Ele tem
sempre palavras de vida eterna, bem longe das ilusões terrenas. Tal o
seu legado sublime, ou seja, lá onde nada se tem a esperar, rebrilha
sempre a esperança luminosa que flui de um túmulo vazio, pois a
ressurreição de Jesus lança uma nova luz a inundar de felicidade seus
seguidores. Isto vem ocorrendo através dos séculos e transforma cada
contexto histórico num tempo favorável. Eis porque muitas vezes nas
Missas, após a consagração, os fiéis, com estas ou outras palavras
proclamam: “Nós anunciamos tua morte, Senhor Jesus, nós celebramos tua
ressureição, nós esperamos tua vinda na glória”. É que a Ressurreição
de Cristo é o ponto alto do mistério da salvação. Sua ressurreição é
um momento essencial da fé cristã no amor de Deus que se dá através
dos tempos ao mundo em seu Filho Jesus Cristo. É isto que as primeiras
testemunhas, Maria Madalena, Pedro e João foram encarregados de
anunciar a partir de sua descoberta de que o túmulo estava vazio e do
encontro que tiveram com o Mestre muito amado. Eles viram e creram.
Esta fé prossegue séculos afora. Dirá São Paulo aos Coríntios: “Se
Cristo não ressuscitou vã seria minha fé” (I Cor 15,17). Com Ele,
porém, vencedor da morte, o cristão vive totalmente para Deus. Mortos,
porém, para as incoerências e as aberrações morais suscitadas pelo
espírito das trevas. Mortos para o pecado, vivos para Deus em Cristo
Jesus (Rm 6,9-11), Eis porque o dia da Páscoa é um dia de alegria de
libertação de todos os males. Como bem lembrou o Papa Francisco, cabe
ao cristão disseminar pelo mundo afora estas mensagens gloriosas que
são germens de um mundo novo. (In A alegria do Evangelho, 278).
Reflitamos nesta verdade, proclamada por Laurette Lepage, de Québec:
“A pedra do túmulo foi retirada e deixa passar Aquele que está vivo.
Entre o céu e a terra fulge notável luminosidade que flui em milhares
de fagulhas. Jubilosa notícia lançada ao mundo como fermento, semente
e fogo. é um Deus que passa, um Deus que é passagem, Deus para sempre
no meio de nós. Aleluia”. De fato, este é o dia que fez o Senhor, que
ele seja para nós dia de festa e de alegria” (Sl 117,24). Como
proclama a Sequência da Missa, “O Mestre da vida morreu, mas, vivo,
Ele reina” Ele, realmente age nos seus seguidores, abre um caminho,
oferece a verdade e a vida. Dá aos que nele creem e O amam a
possibilidade de receber em suas vidas o Deus da vida. Foi procurado
no túmulo que estava vazio e pelos séculos afora seria encontrado nos
Sacrários das Igrejas e em todas as pessoas humanas. Ele seria sempre
o contrário dos ídolos que se apresentam sob todas as formas de
prazeres desordenados, do orgulho, da vaidade, das ilusões terrenas,
Ele e apenas Ele oferece sempre felicidade, alegria e paz. Em Jesus os
fiéis sempre encontrariam tudo que é preciso para alcançar sua
salvação eterna. Isto se dá nos corações que nele depositam todas as
suas esperanças. Nele se pode confiar. * Professor no Seminário de
Mariana durante 40 anos.

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terça-feira, 31 de março de 2020


01 O DOMINGO DE RAMOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A Providência divina concede-nos a graça de iniciarmos mais uma Semana Santa no domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Alegria com a entrada festiva de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-11), mas também uma grande tristeza com a narrativa da Paixão do Senhor, rejeitado, sofredor, levado à morte (Mt 26.14-26,66). Comemora-se uma notável vitória de Jesus e, ao mesmo tempo,  se recorda que Ele é o Messias, salvador da humanidade, através de seu sangue redentor. É, contudo, isto outra vitória do Filho de Deus, ou seja, o triunfo do amor eterno. O próprio Cristo havia declarado que “não há maior dileção do que dar sua vida por seus amigos" (Jo 15,13). Seus sofrimentos foram garantia absoluta de sua dileção para com a humanidade, amor sem limites. No alto do Calvário a desobediência de Adão seria reparada, bem como reparados os pecados de todos os tempos. Portanto, tristeza causada pelas prevaricações humanas e pelo sofrimento imenso do Redentor. Júbilo, contudo, por causa do grande amor de Cristo que na cruz triunfou de todo o mal. Unidos ao divino Redentor pelas preces, pelos sacramentos e obediência aos sagrados mandamentos, à sua santíssima vontade, todas as cruzes, todos os sofrimentos, decepções e angústias de transformam no triunfo salutar do bem contra o mal. Portanto, é preciso a alegria da recepção triunfal de Jesus em Jerusalém e a compunção perante tudo que ocorreu desde sua prisão no Horto das Oliveiras até sua morte no Gólgota. Tudo isto deixando uma mensagem de força e esperança. É que a fé dos seguidores de Cristo oferece a certeza da vitória final de todos aqueles que perseveram no amor a seu Redentor. Jesus triunfante entrando em Jerusalém e depois martirizado é a certeza da vitória do bem num mundo onde reina o pecado e tanta dor. É que a perspectiva da esperança cristã está centrada naquele que venceu a morte, ressuscitando imortal e impassível. Quem penetra fundo no mistério do Domingo de Ramos pode repetir com São João XXIII que “seu passado está entregue à misericórdia divina, o futuro à sua providência e o momento presente ao seu incomensurável amor”. O importante, portanto, será viver intensamente a Semana Santa, unindo as apreensões e sofrimentos causados pelo coronavírus no Brasil e no mundo.à paixão de Jesus. No Jardim das Oliveiras Pedro, Tiago e João os amigos de Cristo dormiram, enquanto o Mestre entrava em agonia. Não foram assim capazes de confortá-lo em momento tão doloroso. Pedro, aliás, depois a negar Jesus no episódio do Sinédrio. Viver a Semana Santa longe também da hipocrisia de Pilatos que viu cruzar em sua vida o Salvador do Mundo e não obstante, grotescamente, lavou as mãos, mas nada fez para libertá-lo de seus inimigos. Procurou uma falsa tranquilidade de espírito desembaraçando-se de Jesus, o inocente.  Os outros apóstolos haviam abandonado a Cristo. Como Simão de Cirene, porém, é necessário ajudar Jesus a carregar a cruz até o Calvário, através da aplicação de todos os sofrimentos em reparação dos pecados próprios e da humanidade prevaricadora. Louvores a Maria Madalena e às santas mulheres firmes junto de Jesus aos pés da cruz. Aí o exemplo magnífico de Maria, sua Mãe, de pé, no Calvário após a dor do Encontro na Rua da Amargura. Ela acompanhou o Filho até o monte da dor e esteve a seu lado, inclusive no seu sepultamento, apesar de dilacerado estar o seu coração. Tornou-se a Corredentora da humanidade. Com ela estava o discípulo amado de Jesus a quem Ele confiou os cuidados de sua Mãe que ali se torna Mãe de todos os regenerados pelo sofrimento de Cristo, sendo João, o fiel discípulo, ali representante de todos nós. Como passar a Semana santa senão abominando as infidelidades de tantos outros ingratos, mas imitando exemplos tão maravilhosos dos que não desampararam o divino Salvador. Ele quer nesta Semana operar grande transformação  em cada um de nós através da liturgia, rumo a uma união perfeita com Ele, valorizando seu sangue salvador. Santificados nesta Semana Santa estarão abandonadas as coisas efêmeras, fúteis, pecaminosas, unindo cada um seu sofrimento ao sofrimento de Jesus para que completa seja a alegria da Pascoa do próximo domingo. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.