segunda-feira, 28 de abril de 2014

O CAMINHO DE EMAÚS
Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Aqueles dois discípulos de Jesus os quais iam pelo caminho que os conduziria a sua aldeia natal não pressentiam que passariam por momentos alternativos impressionantes. Com efeito, estavam tristes, decepcionados com o que havia ocorrido com o seu Mestre ignominiosamente morto sobre uma Cruz. Encontram-se, porém, com alguém que era o mesmo Jesus que não se deu a conhecer, mas que lhes explicava as Escrituras sobre os acontecimentos ocorridos em Jerusalém. Seus corações abrasavam-se dentro deles, enquanto Cristo lhes falava. Depois, tendo sido tão fidalgos com aquele desconhecido, convidando-O para ficar com eles, ao se porem à mesa Jesus lhes abre os olhos. Foi quando Cristo tomou o pão, o abençoou, o partiu e lhes fez entrega do mesmo. Jesus desaparece, mas que transformação na mente e no coração daqueles seus dois seguidores! À melancolia, ao desânimo seguiram-se o entusiasmo, a coragem. Tornam-se então importantes testemunhas de que Jesus ressuscitara e vão a Jerusalém anunciar, também eles, que Cristo estava vivo. A trajetória de Emaús é uma rota que todo homem alguma vez percorre na sua vida. O caminho para Deus é uma vereda que pode se envolver em providenciais sombras para que brilhem  depois, ainda mais, as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. Deus, porém, está sempre perto dos que o temem, iluminando sua peregrinação rumo ao céu. O principal é que não prevaleçam as ilusões e o desânimo, mas reinem a tranquilidade, a serenidade, a imperturbabilidade. Cumpre, contudo, não atingir o grau de inquietação de Cléofas e seu companheiro aos quais  assim recriminou Jesus: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Seja como for, o principal é estar atento às inspirações divinas, alimentando a fé na oração e na Eucaristia, aguardando o momento no qual Deus intervirá para afastar qualquer dubiedade ou incerteza. A pergunta feita por Jesus foi repleta de significado: “O que ides conversando pelo caminho?” É preciso que se examinem com cuidado a cada passo os próprios interesses, os questionamentos, os propósitos que se têm em vista para poder deixar a palavra de Deus penetrar nas trevas que podem envolver a quantos peregrinam nesta terra de exílio. O que se deu um dia com Santa Teresa de Ávila esclarece o modo de agir do Ser Supremo. No meio de tribulações, agitações interiores esta santa estava  rezando, quando de repente tudo passou. Ela então interrogou a Cristo: “Onde estavas, meu Senhor, enquanto eu tanto padecia”. A resposta foi clara: “Teresa, estava em teu coração para que não desfalecesses”. É preciso estar sempre consciente desta presença do Mestre divino que nunca abandona os que O amam. Como ensinou São Paulo aos Efésios caminhamos para Deus pelo caminho da fé em Cristo que está continuamente junto de seus seguidores. É preciso, porém, não ficar em Emaús, mas sair anunciando por toda parte que Jesus ressuscitou e está presente entre nós. A alegria desta certeza deve ser levada para dentro de casa, para os lugares de trabalho, de diversão sadia e, deste modo,  outros compreenderão como é feliz quem confia no Senhor Jesus. Este júbilo deve se refletir nas palavras, nos gestos, no modo de ser, irradiando o fogo desta presença divinal. Trata-se de uma partilha de grande repercussão na vida dos que cercam um cristão autêntico. É necessário para isto cultivar em todas as circunstâncias a calma. Os discípulos de Emaús, talvez, tenham deixado Jerusalém um pouco precipitadamente com medo dos judeus e estavam envoltos em decepção. Ao cristão cumpre ter coragem e nunca duvidar para poder levar, seja onde estiver, as mensagem que fluem da Ressurreição de Cristo. Isto é tanto mais importante quanto maior é a cegueira espiritual do contexto pós-moderno atual. Neste impera o relativismo e não se admitem as verdades objetivas e o que nelas é essencial. Estas verdades devem ser anunciadas sem dubiedades ou ambiguidades. São Paulo na Carta aos Hebreus mostrou a necessidade de se estar penetrado pela fé. Esta supõe a adesão a  verdades absolutas longe de todo e qualquer relativismo (Hb 1,4,2). Resta sempre esta certeza de que todas as vezes que escutarmos Jesus nosso coração estará abrazado, iluminado como aconteceu com os discípulos de Emaús. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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segunda-feira, 21 de abril de 2014

o DOMINGO DA MISERICÓRDIA

O DOMINGO DA MISERICÓRDIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No dia 22 de fevereiro de 1931, Ir. Maria Faustina Kowalska, mensageira da Misericórdia Divina, recebeu este pedido de Jesus: "Pinta uma Imagem de acordo com o modelo que estás vendo, com a inscrição: Jesus, eu confio em vós". Quero que essa Imagem [...] seja benta solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa, e esse Domingo deve ser a Festa da Misericórdia.  O conteúdo desta Imagem está intimamente ligado à Liturgia do segundo Domingo da Páscoa. O Evangelho desse Domingo narra a aparição de Jesus ressuscitado no Cenáculo e a instituição do Sacramento da Reconciliação. Esta união está ainda sublinhada pela Novena, com o Terço da Misericórdia Divina, começando na Sexta-Feira Santa.  Com providencial solicitude pastoral o bem-aventurado papa João Paulo II estabeleceu que no Missal Romano, depois do título "Segundo Domingo da Páscoa", fosse acrescentado "ou da Misericórdia Divina". A misericórdia identifica-se com a compaixão e o perdão. É um dos temas principais da Bíblia por vários motivos. Em primeiro lugar porque Deus se mostra sempre misericordioso e, depois, porque ele se faz deste modo um protótipo para o homem, segundo a diretriz de Cristo: “Sede misericordiosos como o Pai celeste é misericordioso” ( Lc 6, 36). Isto de tal forma que a dileção do Todo-Poderoso  só permanece naqueles que têm esta atitude. Da parte do Ser Supremo é a miséria humana que lhe proporciona a ternura, a piedade, a clemência, a bondade, o perdão. Deus quer sempre a salvação do pecador e, por que sua comiseração  é eterna ( Sl 107,1) só aquele que se torna empedernido no erro não conhece os eflúvios da dileção divina. Há uma passagem no Livro do Êxodo realmente admirável: “Javé é um Deus de ternura e de graça, lento em irar-se e rico em misericórdia e fidelidade ( Ex 34,6) Tocantes os termos do salmista: “Javé é ternura e graça, lento para a ira e copioso em misericórdia; não contende eternamente, não guarda rancor para sempre; não nos trata conforme as nossas culpas ... Como a ternura dum pai para com seu filho, terno é Javé para com que o teme; ele  sabe de que fomos plasmados, lembra-se de que pó nós somos’(Sl 103, 8 ss.13 s.)Isto não significa que Ele passe recibo nos erros humanos, mas, diante do arrependimento, que Ele inclusive proporciona com suas inspirações está sempre pronto a desculpar aquele que se afastou de um de seus preceitos. Assim sendo, a indulgência de Deus está intimamente conexa com a conversão. É o que patenteia o profeta Isaías: “ Que o mau se converta a Javé que terá piedade dele, ao nosso Deus, pois ele perdoa copiosamente”(Is 55,7). Só o empedernimento do pecador impede a volta ao Criador (Is 9,16; Jr 16,5.13). Vindo a este mundo, Jesus mostrou esta dupla face da misericórdia de Deus para com o homem e do homem arrependido que recebe os raios da piedade divina. Os pecadores eram os preferidos do Redentor, que os levava ao arrependimento. Entre tantos outros fatos a cena da pecadora contrita narrada por são Lucas (  7, 36 ss) é sumamente elucidativa. A mulher cheia de pecados que se pôs a lavar os pés de Jesus, que os osculou, que os perfumou conheceu de perto a benevolência do meigo Rabi da Galiléia que afirmou ao fariseu indelicado que as numerosas faltas daquele miserável eram perdoados porque ela muito amou, ou seja, dado que ela se arrependera. Depois, voltando-se para a pecadora Jesus proclama: “Teus pecados estão perdoados”( Lc 7, 48). Na parábola do filho pródigo ele retratou de maneira maravilhosa a indulgência do Pai celeste. O Apóstolo Paulo entendeu muito bem as palavras do Mestre, pois apresenta  Deus como “o Pai das misericórdias”( 2 Cor 1,3). Foi a compaixão divina que dele teve dó ( 1 Cor 7,25;  2 Cor 4, 1). Na carta aos Romanos Paulo mostra onde estava o grande erro dos judeus, ou seja, eles desconheciam a misericórdia de Deus, pensando que poderiam alcançar a remissão de suas culpas através da justiça alicerçada nas obras, na mera prática da Lei mosaica. O Apóstolo mostra então que eles também são pecadores e, portanto, necessitavam da piedade divina pela justiça da fé. Todos os homens, de fato, devem ser atraídos à órbita imensa da magnanimidade do Ser Supremo ( Rm 11, 32). Este Deus misericordioso, porém, exige, segundo o ensinamento de Cristo, que o homem O imite. Isto aliás como condição para a entrada no Reino do céu ( Mt 9,13). Todos serão julgados de acordo com a misericórdia que tiverem praticado ( Mt 25, 31-46). Eis por que São Paulo aconselhava aos filipenses  a se porem acordes “no mesmo sentimento, no mesmo amaor, numa só alma, num só pensamento, nada fazendo por competição e van-glória, mas com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo, nem cuidando cada um  só do que é seu, mas também do que é dos outros”. Conclui então num momento da mais profunda inspiração”: “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus”( Fil 2 2- 5). Não menos incisivas as palavras de São Pedro: “Sede todos unânimes, compassivos, chieios de amor fraternal, misericordiosos e humildes de espírito. Não pagueis mal por mal, nem injúria por injúria; ao contrário, bendizei, porque para isto fostes chamados, isto é, para serdes herdeiros da bênção”( 1 Pd 3, 8-9). Daí a sentença de São João: “O amor de Deus só permanece naqueles que exercem a misericórdia ( 1 jo 3,17).* Professor no Seminário de Mariana durante 40  anos.





segunda-feira, 31 de março de 2014

JESUS VENCEDOR DA MORTE

JESUS VENCEDOR DA MORTE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O episódio da ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-45)  evidencia também como Jesus é o vencedor poderoso da morte. Esta diante dele não tem a última palavra. Ele se mostra capaz de ressuscitar o grande amigo mesmo após quatro dias de seu falecimento. Ele e somente Ele pode afirmar que era a ressurreição e a vida e que aquele que nele cresse não morreria jamais. A condição basilar para que tal maravilha aconteça é a fé que leva à participação de sua vitória, ou seja, o triunfo sobre o último inimigo no dizer de São Paulo (1 Cor 15,26). Isto porque Ele é o enviado do Pai para a redenção completa da humanidade. Esta derrota da morte desejada por Deus foi anunciada nitidamente no Antigo Testamento. Lemos o que profetizou Isaías, mostrando que o Senhor dos exércitos “aniquilará para sempre a morte, e o Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e cancelará da terra inteira o opróbrio de seu povo” (Is 25,6-8-9). Ao falar do julgamento do povo judaico no tempo e no fim dos tempos Daniel assim se expressou: ”E muitos dos que dormem debaixo da terra despertarão, este para a vida eterna, aquele para o vitupério, para a infâmia eterna” (Dn 12,2). Impressionante a visão de Ezequiel sobre os ossos dessecados. A promessa de Deus é peremptória: “Eu vou abrir vossos túmulos e vos farei sair deles [...] Eu colocarei em vós meu espírito e vós vivereis” (Ez 12-14). Portanto, a ressurreição de Lázaro é uma demonstração do poderio do Ser Supremo que pode trazer à vida os que foram dominados pela morte. Entretanto, uma reflexão aprofundada de todas estas passagens bíblicas patenteia que se a ressurreição dos corpos se dará no último dia, quando Jesus virá no esplendor de sua glória para julgar os vivos e os mortos, quem nele crê deve conhecer uma contínua ressurreição do coração. Esta deve acontecer dia a dia. Aquele que crê em Jesus conhecerá um dia a ressurreição, mas deve ter a alma continuamente viva, possuindo a graça santificante. Neste aspecto razão tem o poeta: “Mortos não são aqueles que jazem na tumba fria, mortos são os que têm morta a alma e vivem todavia”. O cristão autêntico possui, desde já, uma parte dos dons escatológicos, isto é, dos que lhe advirão no fim dos tempos, quando também o seu corpo se unirá novamente à sua alma. Ele possui uma vida sem fim que a morte física não pode nunca destruir e usufrui continuamente da presença especial de Deus que habita nele desde o dia do Batismo. Eis porque está na Carta aos Hebreus: “Ora a fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se vê” (Hb 11,1).  Esta virtude é como que uma posse antecipada das realidades futuras, um conhecimento seguro dos eventos celestiais. Em síntese, em Jesus a salvação está realmente atualizada e aquele que escolheu associar-se a Ele já é um vencedor e não pode ser nunca entregue irreversivelmente ao poder da morte. Claras as palavras de Cristo a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida, Aquele que crê em mim, ainda que venha a morrer, viverá e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês nisto?” A condição é, portanto, uma crença inabalável nele. Trata-se de uma aliança de amor de um pacto sublime graças à misericórdia infinita de Deus. O salto no mundo da fé é que dispõe cada um a entrar nesta aliança salvífica. A recompensa é a vida eterna. Desde agora, entretanto, há a certeza de se estar unido a Deus em todos os momentos da trajetória terrena. Deste modo, a ressurreição de Lázaro deve ser entendida como o som antecipado dos sinos jubilosos do grandioso dia da Páscoa, quando se saudará a Cristo que ressuscita imortal e impassível. Tudo isto envolve o fiel num hino de esperança. Cumpre, contudo, agir como as irmãs de Lázaro, chamando sempre por Jesus, pois sua presença muda tudo, é penhor de vida no tempo e por toda a eternidade. Ele é o Deus dos vivos e não dos mortos. Por isto também é preciso rezar a Ele pelos Lázaros que estão na tumba do pecado que é a morte da alma. Orar para que seus corações ressuscitem. Para Jesus nada é impossível. Nunca esgotamos as riquezas do amor do Coração do divino Redentor. Seu amor por todos, sobretudo, para com os que estão nas trevas do erro não conhece limites. Ele mesmo disse: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Lc 5,32). Nele, diuturnamente, se deve confiar. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


  


domingo, 23 de março de 2014

O PODER DE JESUS E A SIMPLICIDADE DO CEGO

O PODER DE JESUS E A SIMPLICIDADE DO CEGO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No episódio da cura do cego de nascença narrado por São João de plano aparecem vários contrastes(Jo 9, 1-41). Jesus viu aquele que estava tomado por duas cegueiras: a do corpo e a da alma. Com efeito, com seu poder divino Ele não só fez o cego enxergar o que estava em seu derredor, como também transmitiu-lhe a capacidade de contemplar as verdades espirituais, fazendo um ato de fé. De fato, depois de responder com admirável simplicidade aos curiosos e aos fariseus seu novo encontro com Jesus o levou a reconhecer no divino Redentor o Messias e exclamou: “Creio, Senhor”. Além disto, não se pode olvidar que,  na penumbra deste mundo, Cristo se apresenta revestido de luminosidade: “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”. Ele veio para iluminar a todos que estavam envoltos nas sombras dos males físicos e espirituais. Aí aparece outro contraste, dado que não é o homem que procura Deus, mas Deus que incansavelmente vem à procura do homem. Ele não cessa de se propor a libertar, sem, contudo, se impor. Do contrário, não haveria nem o júbilo de adesão livre, nem o valor da virtude autônoma. Ele espera, porém, sempre da parte do ser racional esta frase sublime: “Eu te amo, meu Senhor”! Deus chega de mansinho e busca um coração onde se aninhar. Então aquele que crê fica iluminado, clarificado. Pode, como o cego de nascença fazer um ato de fé e a fé é uma luz da inteligência que permite enxergar mais longe e mais profundamente do que os olhos da razão. Ela conduz à visão de Deus e de todas as suas maravilhas. Trata-se de uma visão sobrenatural. Nem se pode olvidar um outro contraste: Jesus cura o corpo para salvar a alma, ou seja,  todo o ser humano. Ele é uma luz divina para salvar  toda a pessoa. Ele sempre se mostrou o médico dos males somáticos como dos psíquicos. Muitos que pensam crer, contudo, são cegos porque presos a seus preconceitos, a suas idéias, a seus sistemas fechados. Assim eram os fariseus que, não obstante tantos milagres realizados por Cristo, nele não enxergaram o Messias, o Unigênito do Pai, o Salvador da humanidade.  Foram até objeto da ironia do cego curado por Jesus. Na sua simplicidade aquele miraculado deu respostas mordazes aos que o importunavam com perguntas até infantis, porque queriam contradizer a evidência dos fatos. Os fariseus eram os verdadeiros cegos porque voluntariamente incrédulos quanto à missão de Jesus e estavam trancados nesta descrença e apegados apenas a infração da lei do sábado por eles mal interpretada. Pela fé raiou a visão interior do cego de nascença e o bem-aventurado Papa João Paulo II dirá que Jesus depois de lhe abrir os olhos da carne lhe abre sua alma para a vista de Deus e seus mistérios”!  Pela fé cada um entra relamente em contato com a luz do mundo interior e se pode proclamar que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus. A quem foi batizado Cristo diz o mesmo que está no profeta Isaías: “Eu te ponho para farol das nações para levares a minha salvação até os confins da Terra” (Is 49,6). De fato, cabe àquele que pela fé contempla as maravilhas de Deus iluminar o mundo, curando os cegos que há por toda parte através da palavra, do exemplo, do testemunho de vida. Diante do verdadeiro cristão quem está a sua volta necessariamente tem que fazer uma opção, pois,  se está no mundo trevoso deve  passar a adorar a Deus em espírito e em verdade e, se está já no mundo luminoso, precisa melhorar sempre mais seu olhar espiritual. É que o verdadeiro cristão mostra que com a luz divina todas as sinistroses podem ser superadas, porque uma luz extraordinária  flui do Amor em Deus. Esta irradiação da fé vai crescendo dia a dia à medida em que a retina do olho interior vai se adaptando sempre mais à luminosidade de Deus. A atenção do ser racional se volta então para ver  não o que é passageiro, material, transitório, mas o que é eterno e imperecível e quer levar esta realidade por toda parte. Muitos então saem da famosa caverna descrita por Platão onde só se enxergam as sombras do mundo real para se imergir  no Ser Supremo como ocorreu com Santo Agostinho a exclamar: “O beleza tão antiga e tão nova, quão tarde eu te conheci, quão tarde eu te amei”. Este conhecimento é a visão pela fé  do próprio Deus no qual, segundo São Paulo “vivemos, existimos e somos”. A vida do cristão deve ser um poema de amor a Deus, que todos possam enxergar.Os santos estão continuamente na presença deste Deus que é luz e, por isto, são os iluminados e muitos só de os ver passam logo  a contemplar o Deus que neles intensamente vive. Eis um ideal a ser conquistado. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



segunda-feira, 17 de março de 2014

LIÇÕES Á BEIRA DE UM POÇO

LIÇÕES À BEIRA DE UM POÇO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Todos os pormenores do encontro da Samaritana com Jesus à beira do poço de Jacó (Jo 4,5-42) deixam mensagens de grande valor espiritual. Uma leitura superficial deste fato impede que se apreenda o essencial dos detalhes deste episódio. É preciso, antes de tudo, uma observação histórica. Havia uma dissensão profunda entre judeus e samaritanos. Os judeus detestavam os samaritanos por uma série de razões, inclusive por considerá-los um povo bastardo. Eles eram também uma gente herética porque não freqüentavam o templo de Jerusalém. Eles iam rezar no monte Garizim e judeus piedosos acreditavam que davam glória a Deus detestando os samaritanos. Era então uma injúria chamar alguém de samaritano e, sobretudo, de samaritana. Com efeito, a religião judaica, como outras religiões daquela época, considerava as mulheres como impuras desde o berço. Seus maridos também estavam maculados, bem como seus filhos e tudo que uma mulher de Samaria tinha tocado. Eis aí aonde foi parar Jesus. Estava numa região inimiga e herética e nela passaria dois dias. Ele aborda uma mulher três vezes impura, por ser samaritana, por ser mulher e uma mulher que tivera vários maridos. Diante dela, portanto, Jesus se faz três vezes contestador. Sem medo e com o poder que Ele possuía Cristo vai pulverisar esta tríplice barreira. Seu recado haveria de repercutir através dos tempos. Para Deus nada de excluídos, de inimigos, de malditos, de imperdoáveis, de irrecuperáveis. Ele viera não para os justos, mas para os pecadores fossem eles quem fossem. Nada de racismos, de preconceitos culturais ou religiosos. Deus, realmente, oferece sempre oportunidade a todos e todos têm o direito de beber a água viva de sua Palavra e de seu Amor. Naquele encontro histórico tudo ia se revestir de um simbolismo fulgurante e é exatamente o símbolo que nos conduz ao coração do mistério daquele evento. Para os nômades os poços eram bem mais do que poços. Era um lugar de trocas de idéias. Desconhecidos se tornavam ali amigos. Aliás, na Bíblia os poços frequentemente eram lugar onde surgiam casamentos. O poço de Judá onde Jesus estava não escapa a esta tradição alegórica. A água seria a representação figurada da Palavra encantadora do Redentor que iria penetrar fundo na vida daquela samaritana. Ela proclamará depois a seus conterrâneos: “Ele me disse tudo que eu fiz, vinde escutá-lo”. Tratava-se de uma palavra preciosa, mais vivificante do que uma fonte no deserto.  Palavra transformante que mudou inteiramente a existência de uma pecadora que viu saciada sua sede interior. Palavra esclarecedora, pois Jesus fez entrever a adoração do Pai em espírito e em verdade, bem além das querelas de povos e de religiões. Não será, doutrina Ele, nem em Jerusalém, nem no monte Garizim que Deus será verdadeiramente adorado, mas, sim, cada vez que um coração arrependido se voltasse para Ele, buscando sinceramente a Verdade.  Tudo isto tem uma aplicação prática imediata no contexto atual. Hoje, como ontem, Cristo faz jorrar a água viva de sua Palavra numa sociedade paganizada, hedonista, pragmatista. Se o cristão não pode aprovar o erro, ele precisa, porém, sempre compreender aquele que erra. É necessário agir como Jesus fez com a Samaritana e, com perspicácia, saber dialogar para levar o outro para o bom caminho. Quantos samaritanos há por vezes dentro da própria casa, no local de trabalho, nos lugares de diversão,  dentro de cada um que vive em conflitos pessoais contínuos. Muitos até se desesperam e chegam a proclamar que sua vida não vale nada, é uma desordem completa e que Deus não o ama. Jesus propõe a todos a água viva, pois quem dela beber, segundo suas próprias palavras,  nunca mais terá sede. A água que Ele oferece  se torna uma nascente de água jorrante até a vida eterna. Quando as evidências vacilam e as certezas tremem no coração dos irmãos ou no próprio coração e a fadiga desta peregrinação terrestre parece ficar insuportável, é bem que se lembrem as lições deixadas por Jesus à beira do poço de Jacó. Junto dos homens não se encontrará como dessedentar a sede do bem, da virtude, da verdade que borbulha lá no íntimo de cada um. É preciso evitar qualquer mistificação e é necessário não caminhar de decepção em decepção. Cumpre ir sempre ao encontro do Mestre divino. Ele ensinará a amar a verdade, a encontrar no amor, que é Deus, toda felicidade, toda ventura. A Samaritana deve ter ficado atônita diante do que Jesus lhe dizia, mas ela se deixou iluminar pelas suas diretrizes e se fez uma apóstola junto de seu povo. Há no fundo de cada coração o anseio do Infinito, de uma felicidade definitiva que somente Cristo pode saciar. Levemos Jesus por toda parte com palavras e exemplos e estaremos salvando a nós e aos samaritanos que estiverem em nosso derredor. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


quinta-feira, 13 de março de 2014

O ENCANTO DA SIMPLICIDADE DO PAPA

.        O ENCANTO DA SIMPLICIDADE DO PAPA

Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Após um ano de profícuo pontificado o Papa Francisco tem sido objeto de análise dos cientistas sociais. Na pessoa de Jorge Mário Bergoglio confluíram fatores importantes. Com efeito, pertencente a uma família de imigrantes italianos, nascido na Argentina, é o primeiro papa do continente americano, o primeiro pontífice não europeu em mais de 1200 anos e também o primeiro papa jesuíta da história e o primeiro a adotar o nome de Francisco. Nele se contempla de um lado Inácio de Loyola, o santo da força de vontade, e, de outro, Francisco de Assis o santo do amor. Ele faz fulgir perante o mundo a sabedoria e a cultura dos jesuítas e a doçura e naturalidade dos franciscanos.

Uma avalanche de aspectos logo surge durante 365 dias de um trabalho ardoroso a favor da evangelização, empregando com clarividência as armas que a comunicação moderna oferece. Linguagem direta, uma simbologia admirável com notável valor evocativo, místico, até mesmo intrigante. Uma ação prudente, mas fulminatória, visando o dinamismo da Santa Sé e de todos os seus departamentos. Longe de qualquer laivo de laxismo ou de relativismo ele aborda os temas mais delicados com firmeza e total clareza, deixando a muitos perplexos, mas orientando com lucidez a conduta cristã. Ele aspira por uma Igreja aberta para todos e, por isto, nada de muramentos que isolam. As fronteiras do Papa Francisco se alargam cada vez mais em busca das ovelhas tresmalhadas e das que não conhecem a verdadeira face da Igreja. Ele quer o contado direto com todos que dele se aproximam. Suas mensagens sintéticas, objetivas lhe proporcionam tempo para circular junto do povo. Ele se faz, como bom jesuíta, o arauto da misericórdia divina, pois Cristo veio para salvar os que estavam perdidos nas trevas do erro. O Papa Francisco não se instalou no Vaticano, mas se apresenta como um caminheiro de Jesus, como outrora São Francisco de Assis. Sempre um passo para frente e nunca um olhar para trás é o que transmite seu otimismo irradiante. Sua humildade, seu espírito de pobreza tocam os corações que nele percebem a sinceridade de quem quer sempre acertar, sabendo de todas as limitações humanas. Por isto mesmo, o Conselho de oito cardeais que ele nomeou, visando a reforma da Cúria romana lhe dá um apoio para agir com segurança e sem precipitações. Com espírito democrático o questionário sobre as evoluções das famílias católicas do mundo inteiro na preparação de um Sínodo demonstra seu desejo de colocar o dedo nas chagas e. sem ratificar os erros. Poder oferecer os meios para o total equilíbrio ético na conduta dos seguidores de Cristo.

A verdade em si é intocável,  os princípios fundamentais da moral exposta nos dez mandamentos  são intangíveis,  mas os problemas devem ser examinados com coragem, exatamente para que não se caia nunca em erros perniciosos, quer dogmáticos, quer éticos. Abertura de espírito sem trair a exatidão de tudo que foi revelado por Deus. Ele quer que nas atitudes cristãs não aja nunca o contra testemunho que possa patentear uma falta de fé na vida eterna e que signifique adoração dos bens terrenos. Ele não age para desestabilizar as pessoas iludidas com as frivolidades terrenas, mas para colocá-las no verdadeiro rumo da pátria celeste. Não se percebe assim contra ele nenhum movimento de pressão ou oposição, apesar das medidas reformatórias tomadas, sobretudo no que tange o governo geral da Igreja, que precisa estar a serviço de toda a humanidade e não apenas dos cristãos.

Deus sempre o ilumine, o fortaleça para glória da Igreja e bem das almas!

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



segunda-feira, 10 de março de 2014

SIGNIFICADO DA TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS

SIGNIFICADO DA TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Dentre todos os pormenores que envolvem a Transfiguração de Jesus no monte Tabor, se ressalte a ordem vinda do Pai: “Este é o meu Filho amado, no qual ponho as minhas complacências: Escutai-O” (Mt 17,5). Aí o sentido mais profundo deste episódio. Com efeito, celebrar a Transfiguração de Jesus não é comemorar um acontecimento passado sem liame imediato com o presente. É contemplar a união perfeita e indissolúvel da divindade e da humanidade na pessoa do Verbo Eterno de Deus. Nele a humanidade inteira foi transfigurada e chamada a uma união maravilhosa com sua divindade. Uma glória indescritível reservada a todos aqueles que em Cristo se tornam participantes da vida divina através da graça santificante. Trata-se do anseio salvífico da Trindade que desejou conduzir os seres racionais até sua própria santidade e felicidade. Para isto é preciso saber escutar Jesus, o Filho bem-amado, Palavra encarnada que vivifica e aponta o caminho da perfeição. Isto supõe levar a sério as oito Bem-aventuranças que o Mestre divino havia proclamado, vivendo intensamente este roteiro que envolve em luz e santidade existencial. Tal foi a ordem do Pai escutar a Jesus e este falou no desapego dos bens materiais, na mansidão, na sede e fome de justiça, na misericórdia, na pureza de coração, na paz, na justiça, na total fidelidade a Ele. São Mateus havia dito que o rosto de Jesus “brilhou como o sol”. O rosto exprime bem a dignidade de uma pessoa, seu estado de alma. Cumpre então na festa da Transfiguração de Cristo que cada um indague a si mesmo qual o rosto que tem apresentado aos outros através do comportamento político, social e, sobretudo, religioso. Comportamento daquele que carrega a sua cruz, imitando Jesus que ao descer do Tabor falou a Pedro, Tiago e João sobre sua Paixão e Morte. A cruz está no coração de toda a vida humana, mas é preciso saber lidar com as tribulações terrenas para se chegar à glória eterna, como sucedeu com Cristo. Este não deixou dúvida: “Se alguém quer caminhar após mim, tome a sua cruz e me siga”. Como Pedro, gostaríamos de fixar na eternidade os momentos felizes da vida. O Apóstolo fez uma proposta a Jesus: “Senhor, é bom que fiquemos aqui. Se queres, farei três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Cristo, porém, não viera a esta terra para ser um organizador de camping neste mundo, mas Sua preocupação era marchar para o Calvário a fim de salvar a humanidade e para, assim, apontar a todos os acampamentos na Jerusalém celeste. Ele viera para servir e dar sua vida objetivando a redenção de uma multidão. Esta seria composta daqueles que buscariam uma glória eterna, mas passando pelo Gólgota, amando-O, escutando-O, colocando seus ensinamentos em prática.  Aqueles que seriam fielmente solidários com Ele apesar das contradições que um mundo materializado Lhe oporia. Aqueles que trabalhariam com amor e esforço pela evangelização, exercendo com responsabilidade um serviço eficiente dentro da Comunidade em que vive. São João mostrou que quem afirma estar com Jesus “deve igualmente caminhar como ele caminhou” (1 Jo 2,6) e Jesus havia dito que viera para servir e não para ser servido. Ele mostrou um caminho de um amor que se doa totalmente. Tudo isto significa uma transfiguração pessoal que leva à metamorfose de toda a sociedade através da vida de cada dia, com simplicidade na família, no trabalho, nos lugares sadios de diversão. Circunspeção em todas as circunstâncias da vida através de gestos, palavras e obras, irradiando paz, felicidade. É preciso então coragem, determinação sem nunca desfalecer.  Lá no Tabor uma nuvem luminosa envolveu Jesus, Moisés e Elias. Muitos comentaristas viram nesta nuvem o símbolo da presença do Espírito Santo. Este deve sempre envolver a vida de todo seguidor de Cristo para o ir  transfigurando a cada instante.  Deste modo, se estará sempre a escutar Jesus, Palavra que é a Sabedoria eterna a iluminar e a dar sentido a toda uma existência cristã. Deste modo se chegará ao repouso da visão beatífica. Este fim último precisa então ser o baricentro de todas as atividades neste mundo. Assim, o encontro com a Santíssima Trindade no Monte Tabor é como uma janela aberta para o futuro. É uma garantia de que a opacidade de nosso corpo mortal  e nossa alma se transfigurarão um dia lá na vida eterna resplandecente como a luz. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.