quarta-feira, 23 de outubro de 2013

DUAS ATITUDES CONTRASTANTES

DUAS ATITUDES CONTRASTANTES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As parábolas empregadas por Jesus em seus ensinamentos e encontros com os a apóstolos e o povo, pronunciadas a mais de dois mil anos são sempre meditadas, nunca esgotadas, pois com suas mensagens são sempre atuais. É que elas contêm verdades que iluminam todas as inteligências e falam diretas ao coração do ser humano de todos os tempos. Livros escritos por eminentes literados, palavras proferidas por pessoas ilustres se tornam facilmente ultrapassados, esquecidos. Não assim aquilo que o Mestre divino legou à humanidade. Uma destas luminosas parábolas é, sem dúvida, a do fariseu e o publicano, apresentando duas atitutes contrastantes, deixando lições valiosas, válidas em pleno terceiro milênio (Lc 18,9-14). Poucos versículos, mas uma fonte de profunda sabedoria vivencial. Dramatização de condutas diametralmente opostas que retratam muito do que acontece no mundo, no modo de ser de tantos cristãos. O Publicano era um mero coletor de impostos, ofício, por sinal desprezível no mundo antigo. O Fariseu pertencia à classe dirigente, à elite da sociedade. Eram bem o símbolo de muitos que detêm o poder e a riqueza, a imagem dos que dirigem o povo, cujo baixo salário vai quase pela metade para os cofres públicos através dos exorbitantes impostos com um retorno pífio para a sociedade. De um lado, a arrogância; de outro a simplicidade. Cinco versículos do Evangelho que se aplicam a todas as épocas e a todas as situações. A classe dominante precisa sempre de auto-promoção, auto-afirmação, haja visto o que o Governo gasta em propaganda muitas vezes de obras que nunca saíram do papel. Faltam em tantas ocasiões a auto-críttica, o auto-exame, a auto-avaliação e as mazelas que cercam o povo ficam esquecidas, deixadas de lado. Tal é, porém, o estadalharço da propaganda oficial que a população, por vezes, se deixa submergir pelo farisaísmo. Questões inúteis são requentadas para dispersar a atenção de problemas sérios. É bem verdade que as últimas manifestações populares em nossa pátria, demonstraram uma reação a este tipo de conduta, repudiando toda espécie de mentira e de falso triunfalismo governamental. Cumpre, de fato, sair de uma atmosfera de ilusão, de pseudo-grandeza, mesmo porque o Evangelho execra inteiramente o orgulho, a vã glória. Se todas estas reflexões valem no plano social em geral são também aplicáveis à vida pessoal de cada um. É mister evitar a fanfarronice do fariseu e imitar a atitude humilde do publicano. Deus conhece bem o íntimo de cada um, verdade ensinada em inúmeras passagens da Bíblia. Ele não julga pelas aparências, mas sonda o coração humano e conhece em profundidade a criatura racional. Ele quer que se respeite o próximo e, ao reconhecer as próprias falhas, que cada um se arrependa de seus erros. É preciso não acatar a autosatisfação, as falsidades, as trevas do Fariseu que menoscabava o pobre Publicano. É necessário se voltar sem cessar para a verdade, a humildade, o amor. Nada de uma prece como a do Fariseu que não louvava o Criador, mas a si mesmo, como bem reparou Santo Agostinho num de seus sermões (115,2-3). O Publicano não se comparava com ninguém, mas fazia um perfeito diagnóstico de si mesmo e como afirmou Jesus “voltou para casa justificado”. Ele possuía a justiça interior e espiritual que é feita de fé e dileção para com o Ser Supremo. Julgava-se um grande pecador, mas tinha Deus por ele e nele, dado que o Senhor Onipotente aborrece sempre o orgulho. Ao humilde Deus o eleva à sua própria glória  e o torna filho dileto, justificado, porque arrependido de seus pecados, dado que Deus é luz, como diz São João (1 Jo 1,5) e esta não pode conviver com as trevas,  O Ser Supremo se compraz em vir habitar naquele que se deixa por Ele iluminar. Este se torna “luz no Senhor”, ensinou São Paulo (Ef 5,8). Impende, de fato, num admirável paradoxo do Evangelho, se abaixar diante do Criador de tudo, crer que tudo que se tem, dele vem, para poder, realmente, participar da maior obra que há no mundo que é a obra do mesmo Deus. Foi o que desejou Jesus: “Que vossa luz brilhe tão bem diante dos homens que à vista de vossas boas ações, todos possam glorificar  vosso Pai que está nos céus” (Mt 14,16). Entretanto, apenas os que são humildes, como o Publicano, é que podem ser luz do mundo. Num contexto no qual imperam a escuridão do orgulho do Fariseu, há necessidade daqueles que  sejam lucíferos, lucipotenes como o Publicano. O mundo precisa de personalidades sinceras, homens e mulheres que possam ser referenciais para os concidadãos. Foi o que aconteceu. por exemplo, com Maria, a humilde serva do Senhor, que se fez pela sua humildade a bendita entre as mulheres, iluminando a História com suas virtudes singulares. Imitando-a cada um se torna um iluminador do meio em que vive. O cristão jamais deve ser um fariseu hipócrita, No verdadeiro seguidor de Cristo precisa brilhar sempre a humildade do pobre publicano.* Professosr no Seminário de Mariana durante 40 anos.








segunda-feira, 21 de outubro de 2013

FALSOS ÍDOLOS

FALSOS ÍDOLOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Assustadoras são as mensagens que a mídia divulga sem um critério baseado na razão e na fé, trazendo turbulência horripila, sobretudo para as mentes dos adolescentes e jovens e para muitos adultos incautos. Fala-se muito nos crimes perversos que estão acontecendo a cada instante neste país e, no entanto, filmes de  roubos e assassinatos são divulgados. A pornografia impera nas novelas televisas e no programas dos muitos maus formadores de opinião. Agora um programa de grande audiência nas noites de domingo apresentou, como modelo de profeta, o cantor Cazuza. Perplexos ficaram muitos autênticos cristãos e cientistas sociais diante de tal estultícia. Se um drogado, um jovem sem regras e transviado é apresentado ao mundo brasileiro como “modelo e profeta” isto significa que os verdadeiros valores não são levados à   juventude. O filme Cazuza é estarrecedor, segundo os melhores psicólogos. Não é admissível cultuar um marginal quando se deve construir uma sociedade progressista e que não cultive paixões desregradas e incentiva o uso das drogas. Não é deste modo que se terá um mundo melhor. Hoje é elementar que as ciências humanas não podem teorizar, isto é, alhear-se da realidade concreta. As ações do homem são um acontecimento real. Assim sendo, o comunicador  deve ser hermeneuta, isto é, intérprete dos atos humanos e dos fatores concretos que neles influíram  e influem, pois o homem é um  ser que vive e faz história, ser consciente no mundo.  Na crista do acontecimento passado se erguem as possibilidades do futuro, não apenas do futuro que é o porvir ante o historiador e o comunicador, mas daquele porvir que surge ante os personagens que dele se tornaram artífices, pessoas reais, agindo movidas por uma ideologia encarnada neles por força da estrutura e da própria evolução histórica, ideologia inconsciente, mas que se projeta nas atitudes e, sobretudo, na palavra, na linguagem a transmissora do que se passa nas consciências críticas. Endeusar atitudes errôneas é contribuir para a desgraça de toda a humanidade. O que nunca se pode esquecer é que a linguagem se acha assim intimamente vinculada à cultura. Pode-se inclusive afirmar que a linguagem está relacionada com a cultura de tal forma que  não apenas a cultura produz linguagem, mas a linguagem ajuda  disseminação da cultura. Não apenas a linguagem falada ou escrita, mas a linguagem não verbal que é transmitida pelas atitudes, pelas ações. Ora, um traficante que foi comparado até com Fernandinho Beira Mar não pode nunca ser modelo para ninguém. É por não se prestar atenção a esta realidade que na comunicação podem surgir equívocos ou ambiguidades, pois a linguagem também tem o poder de influenciar negativamente a cultura, deturpando-a, como ocorre no caso que está sendo analisado.  Quem comunica  tem necessidade de estar consciente de que a linguagem tem por objetivo traduzir, descrever idéias através das palavras que compõem as frases. A formação e o desenvolvimento da linguagem estão intimamente associados à formação e ao desenvolvimento do pensamento humano que precisa ser transmitido com exatidão, sem manipular os acontecimentos. Eis porque não se pode dissociar a linguagem da cultura. A palavra que exprime a idéia é susceptível de variação conforme o lugar, o momento, o meio social, as disposições do indivíduo. Entretanto, através da palavra pode haver uma manipulação espúria que não expressa a realidade. Não se pode esquecer que as leis psicológicas da inteligência estão em relação estreita com as da palavra que pode ou não ser instrumentalizada de acordo com interesses do comunicador. Este, porém, não deve nunca trair a verdade, evitando então qualquer ambiguidade, os equívocos e, sobretudo, os sofismas que podem estar a serviço do poder dominante ou da ação do maligno. A dissolução dos bons costumes abre espaços para todo tido de desgraça humana. Muito se fala no senso crítico dos que recebem as comunicações e isto é essencial, mas, por vezes, não é fácil escapar da linguagem a serviço da contracultura. Eis porque cumpre pensar, pesando as idéias, avaliando-as, decodificando, analisando as palavras empregadas pelo comunicador.  Exaltar os verdadeiros heróis, aplaudir a virtude, condenar os vícios eis aí uma tarefa digna de louvor, uma obra verdadeiramente patriótica. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sábado, 19 de outubro de 2013

DUAS ATITUDES CONTRASTANTES

DUAS ATITUDES CONTRASTANTES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As parábolas empregadas por Jesus em seus ensinamentos e encontros com os a apóstolos e o povo, pronunciadas a mais de dois mil anos são sempre meditadas, nunca esgotadas, pois com suas mensagens são sempre atuais. É que elas contêm verdades que iluminam todas as inteligências e falam diretas ao coração do ser humano de todos os tempos. Livros escritos por eminentes literados, palavras proferidas por pessoas ilustres se tornam facilmente ultrapassados, esquecidos. Não assim aquilo que o Mestre divino legou à humanidade. Uma destas luminosas parábolas é, sem dúvida, a do fariseu e o publicano, apresentando duas atitutes contrastantes, deixando lições valiosas, válidas em pleno terceiro milênio (Lc 18,9-14). Poucos versículos, mas uma fonte de profunda sabedoria vivencial. Dramatização de condutas diametralmente opostas que retratam muito do que acontece no mundo, no modo de ser de tantos cristãos. O Publicano era um mero coletor de impostos, ofício, por sinal desprezível no mundo antigo. O Fariseu pertencia à classe dirigente, à elite da sociedade. Eram bem o símbolo de muitos que detêm o poder e a riqueza, a imagem dos que dirigem o povo, cujo baixo salário vai quase pela metade para os cofres públicos através dos exorbitantes impostos com um retorno pífio para a sociedade. De um lado, a arrogância; de outro a simplicidade. Cinco versículos do Evangelho que se aplicam a todas as épocas e a todas as situações. A classe dominante precisa sempre de auto-promoção, auto-afirmação, haja visto o que o Governo gasta em propaganda muitas vezes de obras que nunca saíram do papel. Faltam em tantas ocasiões a auto-críttica, o auto-exame, a auto-avaliação e as mazelas que cercam o povo ficam esquecidas, deixadas de lado. Tal é, porém, o estadalharço da propaganda oficial que a população, por vezes, se deixa submergir pelo farisaísmo. Questões inúteis são requentadas para dispersar a atenção de problemas sérios. É bem verdade que as últimas manifestações populares em nossa pátria, demonstraram uma reação a este tipo de conduta, repudiando toda espécie de mentira e de falso triunfalismo governamental. Cumpre, de fato, sair de uma atmosfera de ilusão, de pseudo-grandeza, mesmo porque o Evangelho execra inteiramente o orgulho, a vã glória. Se todas estas reflexões valem no plano social em geral são também aplicáveis à vida pessoal de cada um. É mister evitar a fanfarronice do fariseu e imitar a atitude humilde do publicano. Deus conhece bem o íntimo de cada um, verdade ensinada em inúmeras passagens da Bíblia. Ele não julga pelas aparências, mas sonda o coração humano e conhece em profundidade a criatura racional. Ele quer que se respeite o próximo e, ao reconhecer as próprias falhas, que cada um se arrependa de seus erros. É preciso não acatar a autosatisfação, as falsidades, as trevas do Fariseu que menoscabava o pobre Publicano. É necessário se voltar sem cessar para a verdade, a humildade, o amor. Nada de uma prece como a do Fariseu que não louvava o Criador, mas a si mesmo, como bem reparou Santo Agostinho num de seus sermões (115,2-3). O Publicano não se comparava com ninguém, mas fazia um perfeito diagnóstico de si mesmo e como afirmou Jesus “voltou para casa justificado”. Ele possuía a justiça interior e espiritual que é feita de fé e dileção para com o Ser Supremo. Julgava-se um grande pecador, mas tinha Deus por ele e nele, dado que o Senhor Onipotente aborrece sempre o orgulho. Ao humilde Deus o eleva à sua própria glória  e o torna filho dileto, justificado, porque arrependido de seus pecados, dado que Deus é luz, como diz São João (1 Jo 1,5) e esta não pode conviver com as trevas,  O Ser Supremo se compraz em vir habitar naquele que se deixa por Ele iluminar. Este se torna “luz no Senhor”, ensinou São Paulo (Ef 5,8). Impende, de fato, num admirável paradoxo do Evangelho, se abaixar diante do Criador de tudo, crer que tudo que se tem, dele vem, para poder, realmente, participar da maior obra que há no mundo que é a obra do mesmo Deus. Foi o que desejou Jesus: “Que vossa luz brilhe tão bem diante dos homens que à vista de vossas boas ações, todos possam glorificar  vosso Pai que está nos céus” (Mt 14,16). Entretanto, apenas os que são humildes, como o Publicano, é que podem ser luz do mundo. Num contexto no qual imperam a escuridão do orgulho do Fariseu, há necessidade daqueles que  sejam lucíferos, lucipotenes como o Publicano. O mundo precisa de personalidades sinceras, homens e mulheres que possam ser referenciais para os concidadãos. Foi o que aconteceu. por exemplo, com Maria, a humilde serva do Senhor, que se fez pela sua humildade a bendita entre as mulheres, iluminando a História com suas virtudes singulares. Imitando-a cada um se torna um iluminador do meio em que vive. O cristão jamais deve ser um fariseu hipócrita, No verdadeiro seguidor de Cristo precisa brilhar sempre a humildade do pobre publicano.* Professosr no Seminário de Mariana durante 40 anos.








quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A ORAÇÃO PERSISTENTE

A ORAÇÃO PERSISTENTE
Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*
São Lucas deixou claro o intento de Cristo ao narrar a parábola do juiz iníquo e a viúva impertinente, dizendo que isto foi para mostrar aos discípulos “a necessidade de rezar sempre e nunca desistir” (Lc 18,1). O Mestre divino quis incitar a se entregar a uma oração constante. Para isto cumpre fixar que o coração da prece é a fé. Quem ora deve estar consciente de que se pode tocar a misericórdia divina. O orante, imbuído de uma fé profunda, tem acesso ao lugar mais íntimo do mistério de Deus que é aquele de sua infinita bondade, pois está certo que o Senhor é seu pastor e nada lhe falta (Sl 22,1). Não é, porém, tão simples ter uma obstinação tão firme como a que teve a viúva que pedia justiça a um juiz “que não temia a Deus e não respeitava homem algum”. No entanto, quem se dirige a Deus entra em contato com quem é o oceano infinito de clemência e retidão. O que se esquece muitas vezes é que a oração se dirige a um Ser que é pai e que acata a súplica de seu filho. A falta de confiança de muitos cristãos provém do fato de que eles não se imergem no coração deste Pai. Eis porque os grandes santos que foram notáveis orantes, mesmo os que não foram contemplativos, tinham certeza desta realidade sublime que é poder atingir a complacência de Deus. Aliás, o salmista assim se expressa: “O Senhor ouviu a minha voz suplicante, porque inclinou para mim o ouvido, nos dias em que o invocava” (Sl 114). Jesus, em outra ocasião, recomendou: “Pedi e recebereis; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta" (Mt 7,7), De fato, é necessário pedir sem esmorecer com uma prece fundamentada na fé e na constância. Quando Deus parece não escutar, é que Ele quer provar o grau de confiança que possui o suplicante.  Seu silêncio não é então uma negativa, mas uma atitude pedagógica para que haja insistência no pedido e plena consciência da real necessidade daquilo que se está suplicando. É preciso saber sempre que o tempo de Deus não é o tempo dos homens e Ele é muito mais sábio e o Senhor do cronos. São Pedro foi claro: “Não é que o Senhor retarde em cumprir a sua promessa, como alguns julgam seja efeito de lentidão, mas usa paciência em atenção a vós, pois não que quer alguns pereçam, mas que todos cheguem à conversão” (2 Pd 38). Por mais que Deus possa parecer tardar não se deve vacilar um instante sequer na fé. Deus espera e o faz para o bem de quem O suplica. A fé leva então a ultrapassar as evidências, “ela é a garantia do que se espera, a prova do que não se vê” (Hb 11,1) e induz a não desistir nunca na obtenção do que se almeja alcança da parte do Todo-Poderoso Senhor. Deste modo, o espaço da fé, abre espaços para a generosidade divina. Deus, realmente, nunca deixa de atender os que O procuram com um coração simples e sincero. Assim, o verdadeiro fervor na oração, como recomendou o próprio Cristo no Evangelho de hoje, consiste em perseverar na calma e na humildade, aguardando a resposta divina. Então se compreenderá o que disse Santo Agostinho: “A oração é a fortaleza do homem e a fraqueza de Deus”, porque Ele não deixa nunca sem resposta a quem insistentemente O invoca. É preciso, além disto, que o cristão tenha da oração um conceito amplo que passe além do simples pedido, para se entregar inteiramente a Deus sem reserva alguma. Para poder, contudo, viver em estado de oração é mister um coração livre, afastado de todo e qualquer mal. Não se trata apenas de colher as flores das graças imediatas, mas também de se tonificar para os grandes embates da vida. Com efeito, a prece leva a ter sede de Deus para fazer em tudo sua santíssima vontade. Ela torna o orante consciente de sua dependência ontológica de seu Soberano Senhor, dependência muito maior do que aquela da viúva diante do juiz iníquo. Além disto, a prece perseverante leva o fiel a seu unir ainda mais ao Doador de todas as graças. Pode então repetir com Davi: “Ainda que andasse por tenebroso e funéreo vale, não temerei mal algum, porque estais comigo” (Sl 22, 4). * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


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DUAS ATITUDES CONTRASTANTES

DUAS ATITUDES CONTRASTANTES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As parábolas empregadas por Jesus em seus ensinamentos e encontros com os a apóstolos e o povo, pronunciadas a mais de dois mil anos são sempre meditadas, nunca esgotadas, pois com suas mensagens são sempre atuais. É que elas contêm verdades que iluminam todas as inteligências e falam diretas ao coração do ser humano de todos os tempos. Livros escritos por eminentes literados, palavras proferidas por pessoas ilustres se tornam facilmente ultrapassados, esquecidos. Não assim aquilo que o Mestre divino legou à humanidade. Uma destas luminosas parábolas é, sem dúvida, a do fariseu e o publicano, apresentando duas atitutes contrastantes, deixando lições valiosas, válidas em pleno terceiro milênio (Lc 18,9-14). Poucos versículos, mas uma fonte de profunda sabedoria vivencial. Dramatização de condutas diametralmente opostas que retratam muito do que acontece no mundo, no modo de ser de tantos cristãos. O Publicano era um mero coletor de impostos, ofício, por sinal desprezível no mundo antigo. O Fariseu pertencia à classe dirigente, à elite da sociedade. Eram bem o símbolo de muitos que detêm o poder e a riqueza, a imagem dos que dirigem o povo, cujo baixo salário vai quase pela metade para os cofres públicos através dos exorbitantes impostos com um retorno pífio para a sociedade. De um lado, a arrogância; de outro a simplicidade. Cinco versículos do Evangelho que se aplicam a todas as épocas e a todas as situações. A classe dominante precisa sempre de auto-promoção, auto-afirmação, haja visto o que o Governo gasta em propaganda muitas vezes de obras que nunca saíram do papel. Faltam em tantas ocasiões a auto-críttica, o auto-exame, a auto-avaliação e as mazelas que cercam o povo ficam esquecidas, deixadas de lado. Tal é, porém, o estadalharço da propaganda oficial que a população, por vezes, se deixa submergir pelo farisaísmo. Questões inúteis são requentadas para dispersar a atenção de problemas sérios. É bem verdade que as últimas manifestações populares em nossa pátria, demonstraram uma reação a este tipo de conduta, repudiando toda espécie de mentira e de falso triunfalismo governamental. Cumpre, de fato, sair de uma atmosfera de ilusão, de pseudo-grandeza, mesmo porque o Evangelho execra inteiramente o orgulho, a vã glória. Se todas estas reflexões valem no plano social em geral são também aplicáveis à vida pessoal de cada um. É mister evitar a fanfarronice do fariseu e imitar a atitude humilde do publicano. Deus conhece bem o íntimo de cada um, verdade ensinada em inúmeras passagens da Bíblia. Ele não julga pelas aparências, mas sonda o coração humano e conhece em profundidade a criatura racional. Ele quer que se respeite o próximo e, ao reconhecer as próprias falhas, que cada um se arrependa de seus erros. É preciso não acatar a autosatisfação, as falsidades, as trevas do Fariseu que menoscabava o pobre Publicano. É necessário se voltar sem cessar para a verdade, a humildade, o amor. Nada de uma prece como a do Fariseu que não louvava o Criador, mas a si mesmo, como bem reparou Santo Agostinho num de seus sermões (115,2-3). O Publicano não se comparava com ninguém, mas fazia um perfeito diagnóstico de si mesmo e como afirmou Jesus “voltou para casa justificado”. Ele possuía a justiça interior e espiritual que é feita de fé e dileção para com o Ser Supremo. Julgava-se um grande pecador, mas tinha Deus por ele e nele, dado que o Senhor Onipotente aborrece sempre o orgulho. Ao humilde Deus o eleva à sua própria glória  e o torna filho dileto, justificado, porque arrependido de seus pecados, dado que Deus é luz, como diz São João (1 Jo 1,5) e esta não pode conviver com as trevas,  O Ser Supremo se compraz em vir habitar naquele que se deixa por Ele iluminar. Este se torna “luz no Senhor”, ensinou São Paulo (Ef 5,8). Impende, de fato, num admirável paradoxo do Evangelho, se abaixar diante do Criador de tudo, crer que tudo que se tem, dele vem, para poder, realmente, participar da maior obra que há no mundo que é a obra do mesmo Deus. Foi o que desejou Jesus: “Que vossa luz brilhe tão bem diante dos homens que à vista de vossas boas ações, todos possam glorificar  vosso Pai que está nos céus” (Mt 14,16). Entretanto, apenas os que são humildes, como o Publicano, é que podem ser luz do mundo. Num contexto no qual imperam a escuridão do orgulho do Fariseu, há necessidade daqueles que  sejam lucíferos, lucipotenes como o Publicano. O mundo precisa de personalidades sinceras, homens e mulheres que possam ser referenciais para os concidadãos. Foi o que aconteceu. por exemplo, com Maria, a humilde serva do Senhor, que se fez pela sua humildade a bendita entre as mulheres, iluminando a História com suas virtudes singulares. Imitando-a cada um se torna um iluminador do meio em que vive. O cristão jamais deve ser um fariseu hipócrita, No verdadeiro seguidor de Cristo precisa brilhar sempre a humildade do pobre publicano.* Professosr no Seminário de Mariana durante 40 anos.







UMA INSTITUIÇÃO SANTA E RELIGIOSA


UMA INSTITUIÇÃO SANTA E RELIGIOSA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
 O matrimônio é uma instituição santa e religiosa e a sua origem é divina como se lê nas primeiras páginas da Bíblia. É o alicerce da família, o baluarte da primeira sociedade que a história humana conheceu, o vínculo misterioso que, unindo duas pessoas, perpetua no mundo o gênero humano. Instituição belissima a que se encontram ligados interesses vitais da humanidade. A família é, de fato, uma sociedade indissolúvel e santa, que necessita desde seu início da bênção divina. A união do homem com a mulher é uma união pura e perpétua, que está acima do tumulto das paixões, e,  instituída pelo próprio Deus, não pode estar sujeita aos caprichos dos homens. Para quem é discípulo de Cristo não há o divórcio, porque a promessa matrimonial foi selada e dignificada com a solenidade de um sacramento e só pode ser rompido pela morte de um dos cônjuges. : O que constitui a sociedade pública, o estado, a nação, é a família. Eis porque uma é posterior a outra e a família existiu antes de haver governo civil. Ora o que, porém, constitui a família, é o matrimônio. Logo o matrimônio, sendo o fundamento da família, é anterior cronologicamente e pela sua mesma natureza a toda sociedade política. Não há organização política qualquer sem a família, sem o matrimônio. O matrimônio é, portanto, da esfera da família e do indivíduo, se inaugura dentro da família. Os nubentes saem da família e saem para constituir nova família. É, pois, um ato que se realiza dentro da família e aí produz os seus efeitos. No que tange o contrato civil a Igreja o admite e aconselha como formalidade legal para regularizar os interesses materiais dos esposos, mas não o admite como matrimônio, união legítima de homem com mulher. É sob este ponto de vista que os fiéis devem cumprir escrupulosamente as normas do Direito civil. Assim sendo, as pessoas que se contentam unicamente com essa formalidade legal ou estão divorciados e desprezam o casamento religioso não podem receber os sacramentos da Confissão e da Comunhão.  Quem se casou na Igreja e não consegue através do Tribunal Eclesiástico obter a declaração de que o contrato matrimonial foi ab initio nulo, deve confiar na misericórdia divina, participar das Missas, batizar os filhos, mas os divorciados  não podem nem se confessar nem comungar, se contraíram novas núpcias. O ideal é a restauração da família que infelizmente se separou. Está claro nas palavras de Cristo: “O que Deus uniu o homem não separe” (cf Mt 19,3-12). Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

UMA BELA LIÇÃO

UMA BELA LIÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Alguém prometeu a um amigo que passava mal da garganta que iria rezar a São Brás lhe pedindo sua cura. Passados uns dias tomou informações sobre a saúde do amigo e este lhe disse que estava 95% curado. Então lhe foi dito: “Vou cobrar de São Brás os 5% que faltaram. O amigo deu uma bela lição: “Não faça isto, agradeça a São Braz os 95% da cura obtida”! De fato, uma excelente resposta, altamente bíblica, que revelou a sensibilidade espiritual do agraciado. Muitas vezes se pensa que os santos estão no céu intercedendo pelos seus devotos como se fossem um satélite à sua disposição, quando, na verdade, eles lá do Alto ajudam os que os invocam com confiança, mas que sabem também ser agradecidos. Não se pode, realmente, cobrar nada do Protetor celeste. Às vezes, as expressões não são exatas, mas cabe aos espíritos iluminados fazerem logo a correção como no caso acima exposto. A maior prova desta atividade do bem-aventurado junto do trono divino são as graças que seus devotos obtêm, difundindo, depois,  por toda parte a devoção aos mesmos. A intervenção do santo junto do Todo-Poderoso não consiste na de um advogado ou adulador que influenciaria a vontade soberana do Criador. Trata-se de uma homenagem que o próprio Senhor Onipotente quer lhes fazer devida sua fidelidade neste mundo, sendo o santo uma causa segunda para se obter os efeitos celestiais. Todas as graças advêm para os homens unicamente pelos méritos de Jesus Cristo. Graças a estes merecimentos, formidáveis as maravilhas operadas por Deus através dos santos, para incitar a todos a trilharem os caminhos da perfeição. É de se notar que a intermediação dos santos reforça as preces tão débeis dos orantes neste mundo. A caridade deles é mais viva. Do céu contemplam muito melhor as necessidades de cada um. São atentos a tudo que seus devotos precisam. Já seguros de sua imortalidade feliz, passam a se ocupar da salvação dos que os invocam. Além disto, eles se tornam modelos para os seguidores de Cristo. Levam a apreciar a prática de tudo que Jesus ensinou e fazem mais fácil a vereda que conduz ao maior grau de bondade ou valor a que pode alguém chegar. Impedem qualquer pretexto para não se aprimorar espiritualmente. Com efeito, há santos de todas as classes sociais, que demonstram ser possível o amadurecimento pessoal sob os ditames evangélicos. Eles foram também sujeitos a todo tipo de tentação, de sofrimento, de dificuldades e tudo venceram com a graça do Redentor. Eles mostram que a perfeição é uma obrigação de todo batizado, segundo a determinação de Jesus: “Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 45, 48). Todo aquele que está inserido em Cristo deve ser alguém que atingiu a plenitude da idade do Mestre divino (Ef 4,13). Tal a vontade de Deus: todos sejam santos (1 Ts 4,3). Jesus fez no Sermão da Montanha uma síntese da vida do verdadeiro cristão. Esta se baseia na interioridade e se manifesta no amor. A vida sobrenatural, porém, supõe um progresso contínuo, sem tréguas numa cooperação e esforço para corresponder à graça que nunca é negada a quem procura os caminhos trilhados pelos santos. Sejamos sempre agradecidos aos santos, mas não exijamos nada deles, pois em tudo seja feita a vontade de Deus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.