quinta-feira, 21 de julho de 2022

 

RICO COM RELAÇÃO A DEUS

Côn. Jose Geraldo Vidigal de Carvalho*

O Evangelho deste domingo trata da importante relação dos seguidores de Cristo com os bens materiais (Lc 13, 13-21). Questão delicada, porque é preciso evitar tanto o angelismo no que diz respeito às necessidades humanas, quanto o materialismo que não respeita nossa dimensão espiritual. Assunto importante que nos esclarece quando se vislumbra o verdadeiro sentido da vida. A existência humana pode ser vista de duas maneiras, ou seja, considerando que tudo termina com a vida terrestre ou avaliando esta existência como um etapa preciosa rumo à vida eterna. Disto depende a maneira como cada um vive sua peregrinação neste mundo. É preciso então, total coerência entre o que se crê e o que se vive. De acordo com nossas convicções filosóficas e espirituais somos levados a práticas diferentes, sobretudo no que diz respeito aos bens materiais. É o que advertem os comentaristas do supra citado Evangelho. Se tudo termina com a morte, para os que assim erroneamente pensam, cumpre aproveitar ao máximo os prazeres sem outro cuidado que não seja a satisfação pessoal. Entretanto, para os que a vida presente não é senão o começo da vida eterna, uma preparação para o derradeiro encontro com o Senhor Deus, então é este objetivo que deve orientar a caminhada do viver nesta terra. No Evangelho Cristo nos lembra que o aumento dos bens materiais não ajuntará em nada a duração da vida terrestre. Um dia, quer queiramos ou não, será necessário deixar esta vida, tal como a conhecemos, para entrar na vida perene com Deus   para a qual o ser humano é destinado. Nossa vida eterna é desde já  aquilo na terra foi começado e é preciso sempre tender para as realidades espirituais as quais serão inteiramente possuídas após a morte. Nossa vida está oculta em Deus e o batizado, ressuscitado com Cristo, deve estar sempre voltado para as coisas do alto. São Paulo na sua Primeira Carta aos Coríntios precisa qual é a realidade espiritual que ultrapassa a morte, que é o amor. Compreende-se então que Deus sendo amor, somente em mim a capacidade de amar e de ser amado pode acolher o Amor supremo. Tudo que não é o verdadeiro amor no cristão é estranho a Deus e assim não pode subsistir na sua presença. Trata-se então da importância, durante nossa vida terrestre, de trabalhar para aumentar a capacidade de amar que nos dará a possibilidade de passar pela porta da morte para entrar na vida eterna junto de Deus. Assim sendo, o critério do amor autêntico é aquele com o qual podemos julgar a nossa maneira de utilizar os bens materiais. Pode-se, deste modo, compreender que nada terrestre levamos para a outra vida e que os bens materiais não oferecem em si felicidade. Há no coração do homem dois receios e dois desejos que o impulsionam a procurar os bens materiais. Nós procuramos a posse dos bens terrestres para apaziguar o temor do futuro ou a satisfação de nosso desejo de poderio e glória efêmeros. É certo, porém, que há uma certa legitimidade no agir de maneira responsável quanto ao futuro, especialmente quando se tem a reponsabilidade de uma família, de uma comunidade. É também legítimo querer ter sucesso nas tarefas diárias. Não se pode é perder de vista o objetivo final de toda a vida humana. O desapego que o Evangelho de hoje inculca não impede de se ter uma vista prospectiva do desejo de viver, de crescer, de possuir, mas utilizando-se de bens terrenos, visando o bem próprio e o dos irmãos sem endeusar o que é transitório. Em tudo o importante é ser rico em relação a Deus. Do contrário, no final da vida muitos terão que lamentar a vacuidade de vãos esforços que giraram unicamente em torno do que é efêmero, vaidade de tudo que passa. É necessário se convencer que o único bem é amar a Deus de todo coração e de ser pobre de espírito. Para entrar nesta dinâmica do desprendimento em relação aos bens materiais é preciso não somente compreender que nossa finalidade consiste em fazer tudo para a glória de Deus e bem do próximo, entendendo que com o verdadeiro amor partilhado o nosso trabalho gerará uma melhor segurança em face às incertezas do futuro. Diante de tudo isto é de bom alvitre indagar como é nossa relação com os bens materiais e o dinheiro? Nas nossas prioridades que lugar damos à procura e acumulação de riquezas? Como posso ser rico para com Deus? * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

   JESUS ENSINOU A REZAR  

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho* 

Contemplar Jesus em preces daria desejo ardente de rezar. Eis então o pedido que alguém lhe faz: “Senhor, ensina-nos a rezar, como João ensinou a seus discípulos (Lc 11, 1-13). O que se queria era aprender de Jesus uma nova maneira de orar que fosse a característica de sua comunidade. A prece ensinada por Jesus se tornaria então um sinal de convergência de todos os seus seguidores e um bem a ser repartido; Quando orardes dizei “Pai”. É o essencial aos olhos de Jesus. Ele mesmo, em quando homem, falava a Deus: “Aba” uma palavra intraduzível, cujo sentido, como notam vários comentaristas, é um meio caminho entre Pai e Pai querido. É, pois, por aí que é preciso começar dizer “Pai” a nosso Criador. Dizer “Pai” Àquele que é o senhor do espaço e do tempo e que conduz a história do mundo como o destino de todo o ser humano. Dizer “Pai” colocando neste nome mais confiança, mais segurança, mais ternura que pai algum neste mundo haja jamais podido merecer. Dizer “Pai” com a certeza de ser amado como nós o somos e como nós o temos sido. Quando se reflete nisto há uma audácia desconhecida de nossa parte e da parte de Deus, uma oferta de amor que nos ultrapassa inteiramente, ao ponto que certos homens e mulheres que não guardaram de sua juventude senão uma imagem paterna bastante desvalorizada lutam por vários anos, no íntimo de si mesmos, antes de poder dizer verdadeiramente com felicidade, no início de sua prece: “Pai”, tu que é Pai à maneira de Deus. É somente quando nós nos aproximamos de Deus, dando-lhe seu nome de bondade e de ternura que nós começamos nossa prece falando-lhe dele mesmo: “Que teu nome seja santificado”, isto é, que o mistério de teu ser e de teu agir seja reconhecido e adorado pelos homes do mundo inteiro. Que venha o teu reino, isto é, que teu plano de amor e de salvação se realize entre os seres humanos como tu o queres, nos momentos que tu determinastes. É somente quando nós nos aproximamos de Deus e nele damos seu nome de bondade e de ternura que nós começamos de fato nossa prece nela falando: “Que teu nome seja santificado”, isto é, que o mistério de teu ser e de teu agir seja conhecido e adorado por todos os homens. “Que teu Reino venha”, ou seja que teu plano de amor e de salvação se cumpra entre todos os homens como tudo que queres, nos momentos que determinastes. Com o Nome e o Reino de Deus, eis aí uma questão da glória deste Deus que é Pai, mas nós lhe associamos nisto que nós pedimos, dado que está glória pelo louvor deverá vir a partir desta nossa prece, provinda do íntimo de nosso coração. Deste modo, a prece segundo Jesus, visa imediatamente o que Deus espera do homem, mas tudo naturalmente em virtude da reciprocidade da Aliança, pois num segundo momento, de fato, a prece aborda o que o homem espera de Deus. Que vai então dizer o homem: “Dai-nos o pão do qual temos necessidade cada dia de nossa vida”. Mesmo quando rezamos sozinhos a prece de Jesus nos leva a pedir “dai-nos”. Isto mostra que a dimensão comunitária, universal, deve estar presente sempre em nossa prece pessoal. Realmente, quando nós dizemos Pai nosso mesmo orando individualmente trata-se de uma prece universal É uma prece que concerne a bens materiais, mas, Deus que nos criou seres de carne, não receia de nos dar coisas materiais. Finalmente últimas preces com as mesmas dimensões individuais e universais, ou seja, “perdoa os nosso pecados, pois também nós perdoamos a todos que nos ofenderam e não nos deixeis cair em tentação”. Trata-se da pedagogia do perdão e da recusa de tudo que não estiver de acordo com a vontade do Pai, Recusa de todo poder desviado e de todo prazer condenável. Deste modo o Pai Nosso oferece momentos preciosos de união com Deus, deixando lições que visam o corpo e a alma. Jesus, Mestre divino, ensinou solidariedade com nossos irmãos, rezando como Jesus e com Jesus. Receberemos então do Pai o Espírito que Jesus glorioso nos enviará porque rezaremos com Ele e nele. Podemos então suplicar: “Senhor, Escuta teu servidor que fala”, Desta maneira, nossa prece se torna um cainho de purificação e a nossa oração do Pai Nosso será sempre o diapasão de nossa união com Deus, fonte de graças extraordinárias, porque expressam súplicas que possuem o sentido de Deus, ou seja, o seu nome o seu reino e uma postura humilde na presença do poderoso Senhor que é |Pai amoroso a quem pedimos assistência nas tentações e apresentamos nossas disposições de perdão. Dá-se então uma verdadeira purificação de todo o nosso ser. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.      

quinta-feira, 7 de julho de 2022

   ESCOLHER A MELHOR PARTE  

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho 

Nas pessoas de Marta e Maria o Evangelho nos mostra que o cristão deve servir e rezar (Lc  10,38-42). Marta é aquela que sabe ser eficiente, realiza uma tarefa útil, enquanto Maria sabia empregar o tempo escutando Jesus, a Palavra de Deus. Deste modo uns são mais sensíveis aos bens materiais imediatos e outros aos bens espirituais e se identificam com uma ou a outra destas personalidades. Segundo os bons hermeneutas, quando se faz esta análise simples, assaz simples, a reflexão de Jesus a Marta é incompreensível, talvez injusta: “Maria escolheu a melhor parte e ela não lhe será tirada”.  Segundo esta interpretação simplista então Jesus toma partido de uma contra a outra e, neste caso, esquece o alimento que terá para comer. Se a contemplação é superior à ação poderia dizer Marta, enquanto Jesus e Maria curtiam as realidades espirituais. Entretanto, várias vezes Jesus nos convita a uma caridade ativa, sobretudo quando nos previne: “Não é aquele que diz Senhor, Senhor que entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céu” (Mt 7,21). É que Jesus repreende Marta não porque ela está agindo, mas porque ela estava agitada. “Marta, Marta, tu te preocupas e te agitas por muitas coisas” Agir e agitar não é a mesma coisa. Como, aliás, nada fazer não é forçosamente rezar e, menos ainda, ser contemplativo. Isto porque em toda a vida uma só coisa é necessária, como ressalta Jesus e é porque Maria ao contrário de Marta sabe colocar em prática a única coisa necessária, que o Senhor a louva. Entretanto, qual é esta coisa única e necessária? Marta nos ajuda a melhor compreendê-la. O Evangelho diz que a atitude de Marta é estar ela absorvida pelas muitas tarefas do serviço, ela se agita e está afobada e até protesta contra sua irmã. Ela se concentrava unicamente no que tinha a fazer, no que tinha a organizar e esquece a razão de ser de todo aquele serviço. O valor de nossas ações deve ser, por uma grande parte, a resposta a estas questões “porquê e para quem”. Se nosso olhar se fixa sobre a materialidade de nossas obras, se perdemos o sentido, a finalidade de nosso trabalho, de nossos ofícios, então se corre o risco de ser absorvido pela extensão de nossas tarefas e ficar desanimado pelo incessante recomeço de cada hora numa rotina monótona e sem significado. Esquecendo-se a razão de ser de determinado serviço, ou seja o amor a Jesus, vem a agitação. Marta, como foi dito, não agia, estava, isto sim, agitada e protestava veem entente, “isto não é equitativo, somente eu a trabalhar”. Não fazia, assim, um julgamento imparcial sobre os que a rodeavam. A discórdia se instalava entre ela e sua irmã, elas que deveriam estar unidas. Perdendo o sentido de seu serviço, Marta pedia também a alegria e a paz interiores. Entre se agitar ou escutar tranquilamente a Palavra de Deus a melhor parte é facilmente discernível.  Não se trata no Evangelho de hoje de descrever a figura do cristão ativo e a do cristão contemplativo, opondo-os entre si, mas de nos colocar em guarda contra a perda do sentido que nos faz perder o fundamento último daquilo que se pratica. Se nossos serviços, nossas tarefas não encontram um sentido positivo no amor, ele se tornam algo que escraviza e do qual se deve se libertar. Esquecendo-se que nossos deveres têm um sentido numa dinâmica de vida que leva o cristão à perfeição do amor, se cai num materialismo insensato, condenável. Para o cristão toda sua vida deve ser   a expressão do amor de Deus que é a Vida em plenitude. Compreende-se então que a   prece e a ação não se opõem uma à outra desde que não se viva na mediocridade. Trata-se da oração como uma simples inatividade e a ação como uma mera agitação. Entretanto se a prece e a ação são vividas como uma decorrência da caridade elas se tornam uma maneira única de se estar louvando a Deus e de se estar ao serviço do próximo. Portanto, como Marta se pode fazer muitas coisas, mas superficialmente sem estarem elas impregnadas do verdadeiro amor. Com efeito, sob o ponto de vista da Fé uma obra caritativa toma todo seu peso e seu valor quando ela não simplesmente é mera obra da vontade humana e não colaboração de nossa liberdade com a obra de Deus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.  .            

segunda-feira, 4 de julho de 2022

    QUE FAZER PARA TER A V IDA ETERNA   

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*             

Um legista propôs a Jesus esta questão: “Que fazer para ter a vida eterna”? (Lc  10, 25- 37) Esta indagação reflete bem os debates teológicos daquela época e recebe sucessivamente duas respostas. Na primeira o próprio legista  cita a Escritura  ajuntando uma passagem do Livro do Deuteronômio sobre o amor de Deus e uma passagem do    Levítico  sobre o amor ao próximo. Sob o ponto de vista teórico está tudo dito e nada havia a acrescentar. Jesus, aliás, afirma: “Tu respondeste bem, faze isto terás a vida eterna”. De fato, ele sabia o que devia fazer. A segunda resposta à questão “Quem é o meu próximo”, Jesus responde com uma parábola admirável pelo seu dinamismo sob a  forma de um programa de reflexão e conclui “ Vai e tu  faze  também do mesmo modo”. Ora, o que praticou aquele estrangeiro senão uma obra de misericórdia, de bondade para com aquele que estava ferido, abandonado no caminho. Naquela caridade ativa do bom samaritano, porém, há momentos importantes. De início a emoção, pois chegando perto da vítima “encheu-se de compaixão” Em seguida, o instante dos primeiros cuidados, com gestos que salvassem um homem quase inerte e, depois, o erguendo sobre sua cavalgadura para o transportar. Finalmente, uma sublime atitude, dado que, simplesmente não o deixou   na estalagem mas aí lhe  prestou  assistência. No dia seguinte, tendo que partir deixou uma quantia com o estalajadeiro, dizendo que se ele gastasse a mais na volta seria ressarcido. Belas lições, uma vez que o samaritano colocou sua pessoa a serviço do homem ferido, gastou com ele  tempo e dinheiro, contemplando nele o seu próximo. Demonstrou amor e ofereceu salvação diante do sofrimento. A caridade tem sua lógica que foi seguida rigorosamente por aquele samaritano. Assim deve  proceder o cristão, mesmo porque é deste modo que age Deus em nossas necessidades. Cumpre imitar a comiseração divina e vir sempre ao encontro das penúrias alheias.   Frequentemente vem a tentação de se esquivar, de desviar o olhar, de perder a paciência perante a inércia de quem sofre, privando-o de uma assistência necessária. As estradas da vida nos oferecem oportunidade para uma ação caritativa através do trabalho de cada dia, da solidariedade sincera e dos gestos de fraternidade. Saibamos abrir os olhos, peçamos a Jesus de os ter sempre abertos e tenhamos em tudo compaixão dos que sofrem atingidos pelas adversidades da vida. Jesus nos amou até o fim  entregando-se  inclusive  numa cruz para nossa salvação eterna. Cumpre sairmos  incontinentes de nossos pequenos confortos para poder ajudar a quem padece. Praticar a religião não é executar ritos, mas viver em plenitude os ensinamentos do Mestre divino Não basta, com efeito. louvar a Deus,  proclamar que somos todos irmãos, fazer novenas,  quando meu vizinho ou aquele que cruza simplesmente nosso  caminho  sofre, a dificuldade que muito o aflige, e  quando o poderíamos ajudar. Encontrando tantas vezes desculpas para não prestar o auxílio oportuno.. Multiplicam-se as escusas para  deixar de socorrer a quem precisa . Um dia  diante do julgamento divino como se  justificar? No entanto seguir Jesus é saber olhar  além e nós mesmos,  mais longe do que nossos interesses tantas vezes mesquinhos. É preciso superar toda indolência na prática da caridade fraterna para se ter parte na vida eterna. Teresa de Calcultá dizia  que temos necessidade  de uma união íntima com Deus na nossa existência cotidiana e para isto  é preciso vida de oração. Estando unidos a Deus nos abrimos mais facilmente  para uma existência fraternal O papa Bento XVI  dizia que o programa de vida do cristão  deve ser o programa do bom Samaritano, o programa de Jesus . Ver o sofrimento alheio e  parar e sanar sua dificuldade. Dois personagens da parábola não pararam e seguiram em frente. O samaritano parou. Viu e agiu  a bem do homem ferido. Jesus recriminou os fariseus : “Vós tendes  olhos e não vedes ( Mc 8,18). Nosso próximo ensinava o citado papa Bento XVI é toda pessoa que precisa de mim e a qual posso e devo amparar Ensinava São Gregório de Nissa nada como as boas obras para nos tornar  semelhantes a Deus. A caridade fraterna é a chave que abre a porta da vida eterna. No centro de nossa vida espiritual deve portanto reluzir o amor a Deus e ao próximo. Na parábola de Jesus o modelo do próximo é um samaritano, isto é alguém que era marginalizado,  um excluído do povo judeu  Um sacerdote e um levita  continuaram o seu caminho sem parar para ver  o que acontecera com o homem ferido.  O samaritano, contudo, deu prova de bondade e se tornou um modelo a ser imitado.  No crepúsculo de nossa vida nós seremos julgados sob o signo do amor. Jesus deixou com a  parábola do bom Samaritano não uma lição  intelectual, um programa teórico, Ele não discorreu  sobre uma situação econômica, mas deu um ensinamento  concreto compreensível e aplicável por todo seu seguidor de todos os tempos. Jesus é por excelência o bom Samaritano sempre próximo de nós a curar nossas feridas e multiplicando suas curas e perdões. Ele vem até nós com muito amor e compaixão. Ele é misericordioso não obstante nossos erros e faltas e nos perdoa e conduz a Deus. Peçamos a  Ele a graça de nós também nos apiedarmos das necessidades do nosso próximo para nos assemelharmos a Ele. Que se multipliquem os bons samaritanos para a glória de Deus e bem do próximo! *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

    JESUS NÃO TINHA ONDE RECLINAR A CABEÇA 

Côn. José Vidigal de Carvalho

Nesta passagem de São Lucas (Lc 9,51-62) se percebe que tudo se punha em movimento e acelerava em torno de Jesus. Os acontecimentos se multiplicavam e são curtas, densas e rápidas   as atitudes de Cristo. Pelo caminho o Mestre divino faz referência a Ele, asseverando que o Filho do homem não tinha  onde repousar a cabeça.  Cumpre segui-lo e colocar–se na trilha do Reino, eis o que mais importava. Os fatos que em torno dele se multiplicavam eram breves, incisivos.  Segui-lo era se colocar na trilha do Reino num completo despojamento de si mesmo. A seus interlocutores Ele dizia claramente: “Tu vai anunciar o Reino de Deus” e alertava: “Aquele que põe a mão no arado e olha para trás não é digno do Reino de Deus”. Jesus ia para Jerusalém e lhe era necessária muita coragem para enfrentar os sofrimentos que O aguardavam na plena consumação de sua obra redentora. Era este o seu objetivo primordial. É isto que deve fixar o seu seguidor, pois é a isto que   se liga essencialmente o plano redentor o qual exige sacrifício da parte daquele que deseja a regeneração pelo seu sangue redentor. Entrar no Reino no qual Cristo é o Rei requer, de fato, disponibilidade, pois a porta que leva a esta salvação é estreita e pede muita determinação e abnegação, como aconteceria com o próprio Filho de Deus. Cumpre viver em plenitude a realidade desta trajetória salvífica. Jesus foi claro: “Se alguém quer ser meu discípulo, renuncie a si mesmo tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24)). A existência do cristão supõe, portanto, renúncia e união com o Mártir do Gólgota. Tratava-se   da realização do projeto de Deus. Jesus iria passar deste mundo ao Pai e para isso Lhe era preciso ir até o fim de sua obra de amor, enfrentando os lugares mais hostis, visitar os recônditos mais violentos e tenebrosos do coração humano. Imitá-lo não é fácil porque isto pede que reconheçamos as partes sombrias, débeis de nossas fraquezas O caminho foi áspero para Aquele que nos amou até o fim e será assim para aquele que deseja verdadeiramente amá-lo. Dentro destas considerações se compreende ainda melhor a recusa dos samaritanos e a reação de Tiago e João estes “filhos do trovão” que se inscreviam na tradição do profeta Elias (1Reis  18,20-40). Naquele momento o que acontecia com Jesus mostrou da parte dele a decisão firme, uma visão determinada, pois Ele visava manifestar que o amor não persevera senão na extrema disponibilidade com gestos e palavras de paz e de perdão. Portanto, que venha sempre sobre nós a doçura do Senhor nosso Deus! Colocar em prática todas estas lições do Mestre divino é deparar a paz interior, a tranquilidade, pois para que sejamos livres é que Jesus nos libertou por palavras e exemplos. Ser discípulo dele pressupõe agir sempre à luz de um amor absoluto às coisas espirituais, a entrega absoluta à evangelização. É isto que dá sentido à liberdade cristã. Esta leva à autentica felicidade e capacita o seguidor de Cristo a fazer os outros felizes. A liberdade à luz do amor de Cristo não consiste em fazer o que se quede, mas o que o Deus deseja seguindo os passos de Jesus que afirmou:” Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6,38). Esta liberdade não pode ser um pretexto para o egoísmo mas, ao contrário, deve levar, por amor ao serviço dos outros, na alheta de Jesus que pôde asseverar: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28). São João decodificou magnificamente estas palavras de Jesus ao dizer: “Eis como reconhecemos o amor: Ele, Jesus, deu sua vida por nós. Nós também devemos dar nossa vida por nossos irmãos” (1 Jo 3,16). Cumpre sempre reconhecer que o cristão foi feito para amar e se imolar numa dedicação integral ao serviço do Evangelho. Isto porque o batizado deve buscar ativamente sempre a felicidade do próximo e isto se dá procurando o reino de Deus e sua justiça, porque tudo o mais é dado por acréscimo (Mt 6,32-33). É de se notar que buscar o reino de Deus é em si um ato de fé e de confiança, é crer que da fidelidade ao Evangelho só pode resultar felicidade para si e para os outros. Em síntese, Jesus deseja que seu seguidor não se apoie em suas seguranças existência por amor, porque seu desejo é de fazer de nós filhos eleitos para a vida eterna. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

domingo, 5 de junho de 2022

 

O CRISTO DE DEUS

Côn. Jose Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus tinha plena consciência de seu mistério e que isto se tratava de uma questão fundamental para seus seguidores. Então lançou aos apóstolos esta interrogação: “Vós quem dizeis que eu sou? (Lc 9, 18-24). Respondeu Pedro:” O Cristo de Deus” Esta questão está verdadeiramente no coração da existência cristã. É algo principal para os batizados.  Cumpre então a cada um saber quem é Jesus para ele. Responder a esta questão é mais vital, essencial, para um discípulo de Cristo, pois define sua postura diante da vida e da morte, do bem ou do mal, do sofrimento e da felicidade. Esta questão   é mais importante do que aquela de saber quem sou eu, dado que é em Jesus Cristo que que se pode descobrir verdadeiramente aquele que faz de nós um membro de seu Corpo, aquele a cuja imagem   nós fomos criados para sermos filhos de Deus. Esta verdade é mesmo primeira em relação à da existência de Deus, porque é em Jesus Cristo    que conhecemos verdadeiramente a Deus e Jesus foi claro: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9b). Jesus, de fato, pergunta a cada um de nós: “Quem dizeis que eu sou”? Pode se satisfazer com aquela referida por São Pedro e completá-la pela formulação dada no Evangelho de São Mateus: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus. o Filho do Deus vivo”. A resposta de Pedro é a primeira expressão da confissão da fé da Igreja. Sob este aspecto ela é também de sumo valor. Entretanto, ela resta insuficiente pela fato mesmo de sua objetividade, porque ela deixa escapar a força de uma interpretação pessoal. Ela pode não engajar em profundidade a maneira pessoal, pois a questão não se trata de saber, ela requer uma adesão de cada um, um “sim” que supõe uma identidade tal qual contemplamos na expressão de São Paulo, ou seja, tu és o Cristo de Deus e, por isto, já não sou eu quem vive, é Ele quem vive em mim. Eis porque Jesus prosseguiu com o anúncio de sua Paixão, de sua morte e de sua ressurreição. Não se tratava, portanto, de uma pergunta escolar, porque a resposta devia impregnar totalmente a existência do cristão no Cristo de Deus até sua morte na Cruz. O próprio Jesus foi claro: “Aquele que quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Lc 9, 23-26) A resposta é uma adesão total como fez Pedro que se sacrificou para deixar claro que Jesus era o Filho de Deus.  Pedro martirizado pela sua fé em Cristo, como que a formulou deste modo: “Senhor tu és aquele que eu quis seguir até o fim”, até as últimas consequências, ainda que aconteça estar incluida toda sua existência nesta decisão. Deste modo é que melhor se compreende o sentido da questão posta por Cristo: “Para vós quem dizeis que eu sou “? Ele é aquele cuja vida dada até o fim no alto de uma cruz solicita de nossa parte uma resposta que inclui nossa própria vida a seu exemplo, porque é deste modo que se entrega a própria vida imersa na vida do Mestre divino, mostrando um amor tão grande quanto o que Ele nos demonstrou. Isto supõe contemplar seu coração transpassado na Cruz. É aos pés da Cruz que recebemos esta certeza do amor que livra nossa consciência do peso de suas faltas. Então se pode fazer brilhar uma confiança absoluta no amor de Deus por nós, esta certeza   que nos vivifica e nos torna capazes de crer na palavra de Jesus. Para salvar sua vida o cristão precisa estar disposto a sacrificá-la. Sob o ponto de vista meramente racional uma tal afirmação pode parecer absurda.  Entretanto, ela se torna uma evidência para aquele que quer, de fato, demonstrar o verdadeiro amor a Jesus. Trata-se do risco da confiança na fidelidade e no respeito de Cristo até o esquecimento de si mesmo. Esta verdade não se prova, ela se vive no seguimento daquele que de fato se ama, na dinâmica de um amor total. Seguir Jesus, o “Cristo de Deus” é colocar nossa vida inteira sob a luz da sua Palavra e se entregar inteiramente ao seu espírito de amor. Deste modo é que se torna cada um herdeiro das promessas do Filho de Deus. É descobrir em Jesus, o “Cristo de Deus”, a própria identidade, de filho de Deus pelo batismo. Tudo isto pode parecer uma grande exigência, mas é suave como o desejo de amar que nos conduz então a seguir o Mestre divino em tudo e por tudo. Jesus está a nos convidar a fazer uma opção vital de suma importância. Trata-se de uma resposta sincera, vinda lá do interior de cada um de seu seguidor que verdadeiramente sabe quem Ele, realmente, é. É o olhar interior que leva a uma união, penetrando-se no seu grandioso mistério. Quem bem compreende esta verdade conhece a total libertação cristã e se vê imune das artimanhas do mal, dado que tudo centra na figura excelsa do Redentor. Trata-se da libertação que é a salvação de Jesus, que é uma relação profunda entre Ele e seu seguidor. Não se trata de pensar nele, mas de ser, de existir, com Ele. É o que São Paulo advertiu aos Gálatas: “Vós pertenceis a Cristo” (Gal 3,27). Eis porque celebramos a Eucaristia para poder entrar mais profundamente no mistério de Jesus.

*Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

quinta-feira, 2 de junho de 2022

 

27 TUDO QUE O PAI TEM É MEU

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Pela inteligências o ser humano pode atinar com a existência de Deus. Entretanto, somente pela revelação podemos saber e crer que nesta unidade há três pessoas realmente distintas, ou seja, o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Isto aparece claramente também no Evangelho de hoje (Jo 16, 12-15). Trata-se do mistério íntimo de Deus, mistério de reciprocidade, mistério da luz divina que tem seu reflexo em Deus mesmo, mistério de amor, de um Deus Trindade. Jesus afirma que o Espírito Santo, que viria para glorifica-lo, porque receberia do que era dele para anunciar a todos. Afirmou ainda que tudo que o Pai tem é dele. Este mistério trinitário é anterior ao mundo e aos homens e se revela sempre no que Deus faz para o mundo e para os homens. O circuito de amor que parte do Pai volta ao Pai, mas, a cada passo de nossa adoração, o Espírito nos leva a redizer que, de fato, Deus é Uno. Ele é Uno antes do tempo, Ele é Uno quando se revela como Trindade e será Uno num hoje eterno. O melhor caminho para deparar o Deus Uno é meditar o agir distinto de cada uma das Pessoas e ao mesmo tempo a ação de cada uma das pessoas só tem a plenitude de seu sentido senão na referência à unicidade divina. Jesus foi claro: “Tudo que o Pai tem é meu” e que viria o Espírito Santo para guiar para a plenitude da verdade. Assim sendo, podemos orar: “Vinde Espírito de Des com o Filho e com o Pai, inundar a nossa mente, nossa vida iluminar”. Isto faz parte daquelas coisas que Deus ocultou aos sábios pretenciosos e aos que se julgam super. inteligentes, mas que Ele patenteia aos humildes. Quando alguém se julga confuso perante as dimensões divinas do Ser Supremo é por causa da fraqueza da fé e da debilidade da esperança. Robustecida, porém, a fé e aumentada a esperança, os humildes se imergem no fundo do mistério trinitário e sabem conviver com o Deus Uno e Trino. No projeto de Deus, contudo, tudo isto deve nos pôr em marcha espiritual. O temor do mistério, o medo de Deu que podem impedir o cristão de entrar corajosamente nas profundezas divinas são afastados. Deus, com efeito, não quer o temor, mas a imersão confiante no seu imenso amor. Deus Uno e Trino sabe bem que seu mistério de unidade e ação estão acima da capacidade humana, mas a finitude humana desapare3ce desde que se aceite viver como filho, pois o Espirito, Ele mesmo, se ajunta ao nosso espírito para atestar que somos criaturas racionais muito amadas do Criador de tudo. É nesta experiência espiritual, percebida ou não, que é preciso estabilizar a vida do cristão que se entrega filialmente nas mãos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Este Espírito Santo é quem nos introduzirá no seu ritmo, na plena realidade divina. Eles nos fará perceber até que ponto o Pai é a plenitude da Verdade e que o Filho e Ele são a mesma substância, embora diferentes no modo de agir.  Percebe-se então que o Filho é a glória do Pai e isto sob a as luzes do Espírito Santo que tudo esclarece. O importante é viver em função do reino do Pai, da redenção Filho e da iluminação do Espírito Santo   com seus devotamentos, suas solicitudes e suas inspirações, guardando nosso coração aberto ao mistério de nosso Deus maior que tudo, que cuida de cada um para lhe dar a vida em abundância. Todo o louvor, portanto, a Cristo Salvador, a Deus Pai o Criador e ao Espírito Santo santificador. Ao meditar sobre o mistério trinitário compreende-se melhor que Deis é amor. O Evangelho de São João começa com estas palavras:” Deus tanto amou o mundo que Ele lhe deu seu Filho único”. No fundo, o que o mesmo evangelista nos diz é que Deus se dá ele mesmo pelo dom do Filho e este dom não existe senão em função da salvação do mundo. Diz ainda São João:” Assim, todo homem que crê nele não perecerá jamais, mas obterá a vida eterna”, porque “Deus enviou seu Filho no mundo não para julgar o mundo, mas para que por Ele o mundo seja salvo” * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.