sábado, 23 de abril de 2022

 

A MISERICÓRDIA DIVINA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Coube ao Papa São João Paulo II fazer deste segundo domingo da Páscoa   o domingo da Misericórdia divina (Jo 20,19- 31). Se é verdade que esta misericórdia sempre esteve no centro do mistério cristão, a canonização no ano de 2000 da Irmã Faustina Kowalska trouxe a lume a urgência de se implorar o dom desta comiseração em nosso mundo marcado por tantas tragédias.  Asseverou a citada santa “que a humanidade não encontrará a paz enquanto ela não se dirigir com confiança à misericórdia divina”. O Papa sublinhou que a clemência divina nos ajuda a enfrentar três grandes dificuldade que deparamos na nossa vida cristã.  A primeira dificuldade é compreender plenamente o mistério pascal sobretudo o da ressurreição, Com efeito, muitos cristãos são tentados a seguir o apóstolo Tomé dizendo: “Se eu não vir, eu não acreditarei”!  Cada um de nós recorda esta experiência a partir do Evangelho de hoje. Nossa incredulidade, contudo, surge por causa de uma postura errônea, pois queremos abordar a verdade revelada antes de fazer nela um ato de fé, Devemos pedir como os Apóstolos “Senhor, aumenta a nossa fé” (Lc 17,5). O encontro entre Jesus e Tomé narrado no Evangelho de hoje manifesta o dom da misericórdia divina que permitiu ao Apóstolo uma atitude correta. Depois de ser convidado por Cristo a colocar seu dedo nas suas chagas e sua mão no seu lado transpassado, Tomé entrou na plenitude da confissão de uma fé sincera dizendo: “Meu Senhor e meu Deus”.  Confessando a humanidade e a divindade de Jesus, Tomé não admitiu somente o que viu, mas também o que ele acreditou. “Bem-aventurados, porém, os que não viram e creram.”  Santo Agostinho deixou então esta reflexão: “É preciso crer para compreender, mas a partir daí é necessário compreender para crer”.  A segunda dificuldade apontada pelo Papa é descobrir que não é fácil viver como cristão. Muitos têm o desejo de poder chegar à ressurreição gloriosa, mas se esquecem que cumpre passar pela cruz, como ocorreu com Jesus. Ele foi claro:” Se alguém quer vir após mim, tome a sua cruz e siga-me”.  São Pedro evoca esta dimensão falando do dom da fé que abre a uma bela esperança, mas também aos desgostos. Diz ele: “Por isto exultais, embora sofrendo um pouco por hora, se necessário, diversas provações, para que a genuinidade de vossa fé, muito mais estimável do que o ouro que, apesar de efêmero, acrisola-se pelo fogo, resulta digna de louvor, de glória e de honra, quando aparecer Jesus Cristo (1Pd 1, 6-8). Trata-se, realmente, de uma absoluta fidúcia no Senhor Onipotente. Vemos no Evangelho de hoje que Jesus é sumamente paciente com seus discípulos tão lentos em crer, uma vez que os escolhe de novo e os envia em missão: “Assim como o Pai me enviou eu vos envio”. Soprou sobre eles o Espírito Santo e fez deles os fundamentos da Igreja e da presença da clemência divina. Ser fiel a esta vocação leva a descobrir o mistério do sofrimento. Uma mensagem universal, pois a vereda do padecimento e do silêncio é importante para o seguidor do Ressuscitado.  Entretanto, a terceira dificuldade encontrada na vida do cristão não é menos importante.  Esta dificuldade surge na nossa maneira de responder a essa questão: “Tudo isto, no fundo, não é muito belo para ser verdadeiro?” Responder a isto corretamente é entrar maravilhosamente no dom da indulgência divina. Jesus, convidando Tomé a tocar suas chagas e seu lado aberto pela lança, não se contentou em lhe mostrar a realidade de sua ressurreição, mas o levou a entrar numa contemplação mais profunda. O Sagrado Coração de Jesus é verdadeiramente uma fonte inesgotável de luz e de verdade, de amor e de perdão, conduzindo à verdadeira vida, a vida eterna. Eis aí a sublime verdade, ou seja, Jesus não cessa de querer que partilhemos sua imensa dileção. Deus quer que imensamente O amemos, lembra São João Paulo II, a fim de nos fazer entrar na vida verdadeira, Ele faz de nós pobres pecadores os convidados ao festim das bodas do Cordeiro. Cumpre então procurar, acima de tudo e sobretudo, conhecer Jesus Cristo presente em nós e no meio de nós que devemos acolher maravilhosamente suas superabundantes graças, fontes da verdadeira luz, e levar a muitos à participar destes eflúvios da misericórdia divina. A divina misericórdia favorece, deste modo, maravilhosamente, a abertura à alegria e à esperança desse tempo pascal. Isto porque a divina misericórdia não é somente uma lembrança, mas deve ser uma norma de vida Deve guiar nossa existência de cristãos que confiamos estar em harmonia com o Coração de Cristo “rico em misericórdia, *. * Professor o Seminário de Mariana durante 40 ano

quarta-feira, 20 de abril de 2022

 

A RESSURREIÇÃO DE JESUS E UM APELO À RENOVAÇÃO ESPIRITUAL

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho8*

As primeiras aparições de Jesus ressuscitado narradas pelos evangelistas robustecem as alegrias do dia da Páscoa (Luc 24,1-12), O testemunho de nossos primeiros irmãos na fé nos oferece uma preciosa ajuda para que possamos receber com intenso jubilo o divino Vitorioso sobre a morte o que ressuscitou imortal e impassível. Cumpre receber Jesus triunfante que não cessa, com paciência e disponibilidade, de vir aos corações dos fiéis envolvendo no gaudio suas existências. Várias atitudes podem nos ajudar a entrar na relação com Aquele que nos oferece seus dons celestiais e que faz novas todas as coisas. Aquelas mulheres que foram ao sepulcro de Cristo estavam ainda sob o influxo da violência com que trataram o divino Redentor e se achavam, de fato, assombradas por tudo que havia acontecido a Jesus. Apesar de tudo, estavam possuídas por uma atitude de confiança Um belo exemplo para a vida de todos os cristãos ao se levantarem em um novo dia e, no seu ocaso, todas as ações oferece a seu Senhor. Tudo isto demonstrando absoluta confiança na ação divina. Notável indagação do anjos àquelas que encontraram o túmulo vazio: “Porque procurar o Vivo entre os mortos?”. Por entre as dificuldades do dia a dia não se deve deixar levar pelas perturbações, eis aí uma grande lição a se tirar deste episódio.   Ante as tribulações que fazer? A solução é simples e nos ‘é oferecida por este texto. Cumpre analisar os fatos com calma e não se deixar possuir pelos males passados, mas aguardar com tranquilidade as ações divinas com segura expectativa, pois o porvir será luminoso e é necessário se preparar para recebe-lo com proveito espiritual. Os anjos anunciam então uma boa nvoa àquelas mulheres “Ele não está aqui, mas ressuscitou”. Para Deus nada é impssíve! Elas acreditaram e forma anunciar o maravilhoso acontecimento da Ressurreição do Senhor Àquele anúncio Pedro quis compreender a situação e correu logo ao sepulcro. Era o chefe que queria estar bem certo do que estava ocorrendo. Era um responsável e vai constatar o acontecimento. Foi e verificou simplesmente o que lhes fora dito sobre o sepulcro vazio.  Ele foi sozinho e pouco apreendeu. Uma outra boa lição, ou seja, o cristão não deve fazer nada sozinho Deve abrir-se à palavra fraterna e participar dos fatos envolvendo os irmãos. Abrir-se aos planos de Deus e tentar melhor compreender as ações providenciais de um Deus todo poderoso. Páscoa reserva assim muitos ensinamentos. Ser confiante, contemplar e vivenciar a profundidade do sublime mistério. O sepulcro de Cristo estava, de fato, vazio e é preciso ter os ouvidos e o coração abertos para deixar a fé entrar e crescer. Cumpre crer em plenitude todas as grandezas da Ressurreição do Mestre divino. Jesus havia falado de sua ressurreição, mas os discípulos não haviam ainda captado a plenitude desta mensagem sublime.  Daí a decepção ante o túmulo vazio! É certo que havia já ocorrido a ressurreição de Lázaro, mas Lázaro devia morrer um dia. Jesus, contudo, ressuscitará e não mais seria tomado pela morte e nem sofreria doravante tormentos humanos. É preciso, portanto, refletir o que realmente significa para nós a Ressurreição de Jesus e sabermos se nós vivemos ressuscitados com Ele. Assim sendo, a solenidade da Páscoa deve levar a todos a profundas inquisições, para que o mistério da Ressurreição de Jesus seja vivido plenamente, dado que esta Ressurreição está no coração da fé do cristão. Como o afirma são Paulo, “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé “( ! Cor 15, 14).  O túmulo vazio preludiou a verdade basilar da fé cristã e o fundamento da Igreja.  Aqueles que depararam com o túmulo vazio chegaram a esta fé pascal apesar de não terem assistido ao fato mesmo da Ressurreição de Jesus, mas cuja fé pôde qualificar um acontecimento real e histórico. A crença pascal pôde nascer no coração dos Apóstolos que se tinham dispersados no momento da crucifixão.  Depois, as aparições de Jesus confirmariam a fé que começou diante do túmulo vazio. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.EIÇÃO DE JESUS  É UM APELO À  RENOVAÇÃO ESPIRITUAL

quinta-feira, 14 de abril de 2022

 

16 ANTES DE PADECER DESEJEI COMER ESTA PÁSCOA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Depois de aclamar Jesus com nossos ramos, o Evangelho de sua Paixão e Morte dá início à mais uma Semana Santa. São Lucas deixou claro o desejo de Jesus de estar com seus discípulos:” Eu desejei ardentemente comer convosco esta páscoa, antes de padecer” (Luc  22,14-23). Na última ceia Ele oferece sua vida que na cruz entregaria. Jesus é, de fato, o verdadeiro Cordeiro que oferece sua vida pela salvação de todos os homens. Com seu desejo ardente Ele nos oferece seu derradeiro testamento, a saber, a divina Eucaristia. Realiza maravilhas: na sua ação de graças, oferece seu Corpo e Sangue e garante sua presença contínua junto aos seus. Tudo isto devendo levar a um anelo ardente de uma ardente adoração a Ele presente no Sacramento da Eucaristia. Todos os atos da Grande Semana recordam como Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus que nos ama e santifica, demonstrando um amor que foi até o fim Como asseverou São João Maria Vianey, o Cura d” Ars” Morrendo amando e amando morrendo”. Ele veio para livrar os homens do mal e nossa alegria é enorme ao contemplarmos com que simplicidade Ele entrou em Jerusalém para cumprir sua sublime missão. Ele se fez um de nós, conhecendo neste mundo os sofrimentos humanos, entre os quais a violência que se multiplicaria em tantos lugares deste mundo. Por tudo isto também depositamos nele nossa mais absoluta confiança, procurando retribuir com muito amor tudo que Ele sofreu, fruto de sua imensa dileção. Jesus é verdadeiramente nosso Rei, mas Ele reina pela Cruz. Nesta Semana Santa é preciso aclamar Jesus, louvando-O em seu caminho de sofrimento e de abatimento, acolhendo todas as mensagens destes dias abençoados. Demos a Ele um amor incondicionado. Estejamos dispostos a ir com Ele sem O negar como fez São Pedro, negando-O três vezes! São Pedro não era o mais fraco de todos, mas representava a todos nós em nossas fragilidades. Jesus, porém, quer ir além das mesmas para sempre nos perdoar. Ele é o Emanuel, Deus conosco em todas as circunstâncias de nossas vidas, pois em todas elas Ele se acha ao nosso lado. Que quer então o Pai? Que nenhum de nós se perca (Jo 6, 37-40). A vontade de Deus é participar de todos os sofrimentos humanos, de toda tristeza do homem, para disto o arrancar, amenizando seus padecimentos. Jesus não é um dominador, mas o servidor que tudo transfigura a bem de suas pobres criaturas humanas. Cumpre, porém, se identificar com Cristo sofredor nele crendo fielmente. Ser cristão é estar unido a Jesus sofredor, abrindo-se cada um à contemplação de suas dores e isso conduz fatalmente à união com Ele, à humildade, esvaziando-se cada um de si mesmo. Sobretudo na Semana Santa cumpre contemplar aquele que se fez servidor e escravo, aquele que veio dar sua vida em paga pelos pecados de uma multidão, Ele é Senhor para a glória de Deus Pai. Seu caminho feito de humildade é bem aquela vereda de um rei que perdoou os que o maltratavam, um rei que oferece a todos um futuro feliz, uma senda de vida e, por isto, Ele se entregou a tão terríveis sofrimentos e cabe, por isto, a nós nos entregarmos a Ele com toda a sinceridade de nosso coração. Na Semana Santa contemplamos que a missão de Cristo foi inteiramente cumprida, mas Ele morrerá, triunfando completamente da morte.  Esta questão do triunfo de Jesus, não obstante tantos sofrimentos, é porque Ele é um rei sofredor, mas vitorioso sobre a morte, como sua ressureição mostrará claramente. Cumpre então aguardar as alegrias do próximo domingo da Pascoo do Senhor.  Coloquemos nossos passos nos passos de Cristo sofredor para podermos conhecer o júbilo de seu triunfo.  Deste modo a Semana Santa será verdadeiramente frutuosa com a conversão e a presença de Jesus em cada um de nós. Exploremos ao máximo toda riqueza espiritual que o Tríduo Pascal nos oferecerá. A quinta feira santa com a memória da eucaristia e do sacerdócio. A sexta feira. Santa consagrada à prece e ao jejum faz memória da morte da paixão de Cristo. O sábado santo, o dia de se aguardar em santa expectativa as alegrias da Ressurreição de Jesus, Deus vivo e verdadeiro fonte de toda a vida. * Professor no seminário de Mariana durante 40 nos.

 

quinta-feira, 7 de abril de 2022

 

15 A MISERICÓRDIA DE JESUS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O episódio da mulher adúltera ostenta, ainda uma vez, a notável misericórdia de Jesus, que, como admirável 0tornes a pecar” (Jo 8, 1-15). Como de costume, quando o Filho de Deus vinha a Jerusalém, assentado no adro do Templo, Ele se punha a ensinar a multidão que o cercava. Desta vez, bruscamente, Ele foi interrompido por um grupo de escribas e de Fariseus, que lhe trazem uma mulher surpreendida em adultério. Lembram então ao Mestre divino que Moisés ordenou que se apedrejasse tais mulheres e indagam “Tu que dizes?”. Uma armadilha bem armada, pois se Jesus respondesse que a deixassem ir em paz, seus interlocutores o acusariam de contradizer a Lei mosaica. Se Jesus a deixasse que ela fosse punida até a morte, Ele estaria indo contra a autoridade romana a quem estava reservada naquela época, todas as execuções capitais. Daí ser capciosa a indagação que lhe fizeram: “Que dizes tu”? A resposta não veio. Jesus se abaixou e escrevia no chão sem olhar a ninguém como que absorvido em seus pensamentos. Ao redor dele os Fariseus começavam a se enervar. Jesus então falou: “Quem dentre vós jamais cometeu pecado, atire-lhe a primeira pedra”.  Resposta maravilhosa vindo da sabedoria do Filho de Deus! Jesus de novo se abaixou para escrever no chão e seus interlocutores, a começar dos mais velhos foram saindo ficando Jesus a sós com a mulher e não a condenou, mas recomendou que ela não voltasse a pecar. Que então ela renunciasse à sua paixão desregrada, a seus desejos maléficos, mas fosse fiel à lei divina todos os dias de sua vida, movida por uma conversão sincera fruto da bondade, da misericórdia divina que a perdoara. Todas as vezes que ela pensasse em se deixar levar pelo mal ela deveria reviver na sua mente o encontro com Jesus no Templo e o sadismo de seus acusadores que brutalmente a acusavam. Jesus tão calmo escrevendo, não se sabe o que no chão, afirmando que Ele não a condenava e que ela fosse em paz passasse a ter uma vida correta. Do encontro com Jesus deve sempre resultar uma total mudança de vida, tocado cada um pela sua infinita bondade. É olhar para a Cruz prova definitiva de sua benignidade sem limites e nunca se deixar paralisar pela própria miséria, mas se envolver por sua comiseração ilimitada, buscando sempre as veredas luminosas da virtude, longe das trevas do mal. É preciso também aprender com Jesus a não simplesmente condenar os outros, mas a se examinar a si mesmo e a partir desta atitude fazer surgir uma renovação espiritual intensa. Nada de se julgar superior aos outros, mas sempre estar num processo de conversão total dos próprios defeitos. Remarquemos bem a atitude de Jesus com a mulher adúltera, dado que não somente Ele a salva dos julgamentos dos outros e a preserva da morte, mas a anistia e lhe mostra uma vereda nova a trilhar. É preciso rever nossas próprias atitudes não julgando precipitadamente os outros, não causando divisões, mas reparar todo o mal, indicando caminhos novos de virtude a serem vividos. Tenhamos coragem de nós mesmos de percorre-los para depois mostrar aos outros a vereda a ser percorrida. Os mandamentos levam uma ética rigorosa, mas as atitudes humanas devem ser analisadas com compreensão, abrindo brechas para um procedimento correto nas atitudes futuras que deverão estar bem de acordo com os preceitos divinos. Uma ética bem interpretadas levará sempre ao respeito do outro e ao respeito da vida o que faltava aos acusadores da adúltera que acertavam em condenar o pecado, mas não tinham comiseração com pecadora. Condenar sempre a infração dos preceitos divinos, mas procurar salvar quem errou. Sábia a atitude de Jesus perante a pecadora, mas os acusadores dela se colocavam eles mesmos em processo contra a lei de Moisés. Tanto isto é verdade que reconhecendo sua culpabilidade foram indo embora a começar dos mais velhos. Surgiu então a novidade de Cristo, de sua misericórdia que cria corações novos e converte a pecadora, mostrando assim que ela era uma filha de Deus. Culpada, mas perdoada Qu9e alegria, que paz não deviam ter tomado o coação daquela pecadoras! Jesus a liberta do pecado do qual ela se tornara escrava. O passado havia desaparecido e um futuro maravilhoso se abria a sua frente!  O salário do pecado é a morte, mas perante Jesus   jorra a graça, dom gratuito de Deus que leva a vida eterna. Jesus Cristo é o senhor que salva e oferece uma vida nova. * Professor no Seminário de Mariana durante 40anos.

 

 

quinta-feira, 24 de março de 2022

 

14 O ARREPENDIMENTO DO FILHO PRÓDIGO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

A parábola do Filho Pródigo apresenta três personagens em torno dos quais lições preciosas podem ser tiradas: o pai, o filho mais novo e seu irmão (Luc 15, 1-3.11-32. O pai que deseja uma casa repleta de alegria, o filho mais novo que usufrui exteriormente sem cessar daquela felicidade e seu irmão que vai embora, mas retorna arrependido, encontrando seu verdadeiro lugar, numa atitude interior de um arrependimento fruto de uma triste experiência. O pai promove uma festa no retorno do filho que abandonara o lar e dá explicações àquele que não se regozijava com o regresso do irmão ao qual, pelo contrário, recrimina veementemente. Uma intransigência injustificável, mas que patenteia a maneira de ser de quem agia sem viver em plenitude o gaudio que deveria fluir da paz dentro daquela casa paterna. Por isto mesmo, não poderia gozar da alegria da reconciliação do pai a perdoar o filho que errara. Em tudo se deve esperar a união, crer que tudo é possível onda de reina um profunda e doce paciência que gera harmonia e reconciliação, não obstante as fraquezas humanas. É preciso aguardar e viver o equilíbrio das mudanças e aplaudir qualquer atitude de arrependimento pelos erros cometidos como ocorreu com o filho pródigo. Toda intransigência deve ser afastada e o pai da parábola sabiamente agiu. Cumpre sempre se colocar no lugar do outro e aplaudir todo retorno à casa paterna. Deus quer que sempre se procure o caminho da vida, a via da transformação interior. Havendo compreensão paira a alegria que inventa e afasta a intolerância. Cumpre dar tempo à graça de Deus que pode operar maravilhas. A raiz dos erros se encontra no espírito de independência, de egoísmo, e de orgulho. Como o filho mais novo muitos julgam poder gerir sua via sozinhos, fora dos desígnios paternos não compreendendo o alcance do perdão. É necessário não enquadrar as situações nos próprios moldes mentais para poder aceitar que é possível ao ser humano errar e se arrepender. Muitos como o filho mais novo se recusam em admitir a autoridade paterna e obedecer à mesma, reconhecendo seus acertos misericordiosos. Como o filho mais novo são aquele que querem aproveitar-se da fortuna do Pai, mas sem nada lhe dar em troca, ainda que isto lhe custe tão pouco. Ao filho que loucamente pede sua parte na riqueza paterna, o pai atende sem nada exigir. Deus age sempre assim nos cumulando de seu amor, de seus dons, de suas graças, isto gratuitamente, respeitando a liberdade de cada um. Infeliz, contudo, quem malbarata as dadivas divinas e não se arrepende como aconteceu com o filho mais velho. Este numa vida dissoluta dissipou o que recebera, procurando a felicidade onde ela não se encontrava. Foi viver sua liberdade fora dos ensinamentos paternos e rapidamente perde tudo que havia exigido do pai e daí sua ruina completa. Deus oferece a todos os seus dez mandamentos sagrados, mas, em os abandonando, só surgem desgraças, frutos do abandono da vontade do Deus três vezes sábio. Sendo, contudo, felizes na obediência ao Senhor é preciso lhe agradecer sempre e, no caso, da infelicidade causada pela rebelião contra Deus, procurar agir com um arrependimento sincero, confiante e eficaz. Com Deus, de fato não se brinca. Na prece sincera fluem todas as luzes celestiais, resultado do amor paterno que perdoa o coração contrito. Para Deus ininterruptamente é possível a conversão, desde que haja sinceridade. Junto dele há solução para tudo. O pai da parábola recebe festivamente o filho transviado, o abraça e manda preparar um baquete festivo pele seu regresso. Estava feliz com sua volta. O mesmo acontece com Deus, quando o pecador arrependido se volta para Ele. Deus não olha o pecador arrependido do alto de sua grandeza infinita, mas, sim, sabe olhar a fraqueza humana para anistiar com seu amor infinito. O importante será viver intensamente os gestos da dileção divina, vivendo intensamente seu imenso amor com profundo espírito filial, mesmo porque o amor divino é incondicional para quem Lhe é leal. Saibamos, contudo, nos regozijar com a conversão daqueles que erram Longe, portanto, qualquer laivo de orgulho, egoísmo, vã glória. Confiar sempre na misericórdia divina e imitar em tudo a comiseração do Pai que está nos céus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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quinta-feira, 17 de março de 2022

 

A NECESSISDADE DA CONVERSÃO

Côn. . José Geraldo Vidigal de Caralho

São Lucas agrupou três mensagens de Jesus, tendo todas elas uma mesma direção, a saber, a necessidade de se converter quando é tempo e quando ainda há tempo (Luc 13,1-9). Três situações diferentes, ou seja, os Galileus morreram por causa da crueldade de Pilatos; dezoito pessoas debaixo dos escombros da torre de Siloé em Jerusalém, resultado da falta de sorte, pois estavam num mau lugar e num mau momento: a figueira foi arrancada porque se mostrava improdutiva durante quatro anos, ocupando inutilmente o terreno onde se achava. Há nuances no ensinamento do Mestre divino. Quanto ao primeiro episódio, Jesus reage a uma má notícia que lhe anunciam e põe Ele mesmo a questão: ¨Credes vós que estes Galileus eram mais pecadores que os outros Galileus para ter sofrido tal sorte?” A resposta vem em duas etapas: de uma parte ninguém pode desejar para tal homem um castigo e dizer que tal sofrimento, tal morte foi uma punição, de outra parte ninguém pode tirar de Deus o poder de dar a cada um segundo suas obras. No que diz respeito ao segundo episódio, recordando a catástrofe de Siloé, o ensinamento é o mesmo, a saber sua dívida não era tão grande, não se veja na sua morte uma penalidade, mas que todos aceitassem a conversão. No caso da figueira estéril não se trata de uma crueldade, nem de uma catástrofe, mas lembra a lentidão, a esterilidade do Evangelho em certos momento s da vida do cristão. Cada um ocupa um lugar nesse mundo, mas qual é a fecundidade de seu apostolado? Deus no tempo oportuno vem procurar os frutos para sua Igreja, frutos de caridade ativa ou frutos do bom exemplo que arrasta e converte os outros. Aqueles que usufruem do tesouro da Igreja, dos sacramentos, da fé, das riquezas da vida fraterna e do devotamento dos irmãos e irmãs, quais são as flores da paz e os frutos da alegria que oferecem? Jesus exige uma resposta suave, mas radical. Tão radical que não cessemos em todas as nossas ações de mostrar o vigor e a autenticidade de uma resposta construtiva em todas as ações cotidianas. Entretanto nesta radicalidade Jesus manifesta que isto é fonte de alegria interior para quem bem procede em todos os seus atos. Eis em tudo isto os elementos essenciais para a esperança cristã de como se deve viver em espírito constante de conversão interior que se reflete no exterior. Tal deve ser o ideal que move o cristão em vista ao vigor espiritual, numa renovação de fecundidade, porque Deus não se conforma nunca com a morte de quem nada produz. Jesus está sempre trabalhando na conversão de cada um, pois paralisar na vida espiritual leva a um grande retrocesso. Não se deve ser nunca ser uma videira estéril. Para isto é preciso muita humildade, simplicidade, coragem e uma boa dose de confiança na graça divina. Cumpre ao cristão um trabalho de conversão ininterrupta numa correspondência absoluta à graça de Deus. Como a Virgem Maria sempre dar um sim a Deus, um sim numa vida que reflete em tudo a vontade de Deus, vida fecundada pelos dons divinos. Jesus quer nos levar à plena consciência da realidade da própria vida e do próprio coração vivendo em plenitude o espírito de conversão, de penitência, estando preparados para o momento da inevitável morte de cada um. Ninguém é eterno neste mundo, mas é eterno no coração de Deus que chama cada um para a vida duradoura junto dele quando Ele o quiser. Daí total confiança nele, quando se está então preparado para o encontro com Ele no dia do julgamento, O alerta de Jesus é claro:” Se não vos converterdes, perecereis todos igualmente”. É preciso então viver em plenitude a verdade. Jesus se serviu de todas as oportunidades para nos evangelizar Sua missão foi de salvar cada alma e fazer cada um chegar à verdade, vivendo segundo ela com profundo espírito de penitência. Cumpre, portanto, a cada um verificar sua maneira de viver Uma vida honesta, plenamente engajada em fazer a vontade de Deus. Cada cristão deve olhar para dentro de si mesmo o mais profundamente possível para corresponder à graça divina e cortar tudo que impede uma real conversão de vida e isto com toda sinceridade. Cortar as falhas interiores e qualquer fissura espiritual. Tudo isto com muita sinceridade deixando a luz de Deus entrar para iluminar toda sua vida. Para que tudo isto aconteça é necessária uma profunda humildade a embeleza a alma, possibilitando a ação santificadora dos dons divinos, levando à perfeição espiritual. Quem é humilde reconhecendo suas fraquezas, e imperfeições trás para dentro de si todas as mensagens do evangelho de hoje que levam ao arrependimento, convertendo-se sempre para um procedimento melhor. Jesus está a clamar para uma vida honesta que dê sempre frutos espirituais. Que o portador da vida divina deve sempre ostentar. O esforço que se faz na vida espiritual ultrapassa a própria vida. Do bom cristão engajado na vida familiar e na vida social em geral. . É que este cristão vive enraizado no Evangelho e nutrido pela graça divina de sorte que possa Jesus dele se servir para sua obra salvadora. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

 

sábado, 5 de março de 2022



A FACE DE JESUS TRANSFIGURADA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus transfigurado na montanha sagrada leva a muitas reflexões sobre a grandeza do Filho de Deus  (Lc 9, 28-36). Entretanto, a face de Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, com palavras humanas apenas de longe pode ser retratada, mas deve ser buscada com muito amor, No Tabor   Pedro, Tiago e João no dia da Transfiguração ficaram envoltos em profundo deslumbramento diante do Senhor. Pedro foi logo dizendo: “Mestre é bom estarmos aqui”. É que Jesus havia subido naquele monte para estar ainda mais intensamente unido ao Pai no silencio e num diálogo confiante e filial. Entretanto, enquanto Ele orava, seu aspecto, sua face se tornaram   diferentes e seu vestuário assumiu um candor refulgente. Os três apóstolos viram a face de Jesus transfigurada na prece e pela prece. Foram pegos de surpresa ante aquela revelação do mistério do Filho de Deus, degustando eles então um pouco de sua glória. Também nós tantas vezes nos sentimos envolvidos pela visão gloriosa de Cristo naqueles momentos de pura graça por ocasião de uma prece ardente. Muitas vezes subimos a montanha da prece tomados por um certo torpor como aconteceu com os apóstolos, oprimidos pela sonolência. Sono da nossa fé por vezes pouco habituada às maravilhas de Deus. Às vezes, é lânguida a esperança que precisa ser alimentada e não ser uma mera resignação, Sonolência do nosso amor fraterno que padece necessidade de um diálogo mais intenso, exigindo o dom de nós mesmos e, deste modo, passamos a exigir direitos e não a dar compreensão. Assim sendo, então a existência do cristão é surpreendida pela glória de Jesus que pede que seu seguidor entre humildemente na luminosidade de sua transfiguração numa revisão de vida, num aprofundamento das três virtudes teologais. Cumpre afastar a indolência espiritual ajudados pela graça divina que nos mantém despertos para as realidades sobrenaturais numa adesão profunda às verdades eternas. O grande antídoto do nosso amor a Deus e ao próximo é saber acolher os instantes de surpresa reservados pelo Todo Poderoso para aqueles que, como Pedro, Tiago e João, se dispõem a acompanhar Jesus e, afastado qualquer laivo de preguiça espiritual, passam a galgar o monte luminoso da prece, deixando-se envolver na luz celeste transfiguram-te. . A Transfiguração de Jesus no Tabor foi rápida, fugitiva, mas quem persevera no seguimento Jesus deparará depois com a Face gloriosa do Senhor Ressuscitado, tendo antes contemplado também a face de Jesus sofredor durante sua Paixão dolorosa. O episódio do Tabor anunciava a glória definitiva da Aliança nova. São Paulo, por isto, nos aconselha: “Ressuscitados com Cristo procuremos as coisas do alto, lá onde se acha Cristo assentado à direita de Deus” (Col 3,1). Como nos regozijamos, contemplando a face do Ressuscitado, nossa vida ficará escondida em Deus com Cristo (Col 3,3). Realiza-se a obra do Pai que ilumina e metamorfoseia. Isto porque Deus que é luz em si mesmo se faz luz para todos que procuram sua face. O Deus que disse que das trevas resplandecesse a luz é Aquele que brilha em nossos corações (2, Cor 4,6). Isto porque faz brilhar o conhecimento da glória de Deus que refulge da Face de Cristo. Deste modo, a luz de Deus, Ele mesmo que por nós e em nos faz brilhar a face de Jesus que ressuscitou imortal e impassível, ilumina assim com sua própria glória a Visão do Ressuscitado. Deus, o Pai, nos transfigura, a nós que olhamos e cantamos no Espírito esta glória: “Quanto a nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos como num espelho a glória do Senhor (Jesus):   somos transformados nessa mesma imagem, cada vez mais fúlgida, como obra do Senhor, o qual é espírito” (2 Co 3,18). Iluminando assim com sua própria glória, pela Visão do Ressuscitado, Deus Pai nos transfigura a nós que olhamos e cantamos no Espírito esta glória. Como diz São Paulo, “quanto a nós somos todos que com o rosto descoberto, refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transformados nessa mesma imagem, cada vez mais fúlgida como obra do Senhor, o qual é e espírito (2 Cor 3,18) Visão de Cristo “carregado de nossas dores”, visão do Eleito transfigurado na montanha, visão do Senhor glorificado no céu, como três ícones do Filho único que o Pai deu ao mundo, em tudo manifestando sua glória e seu amor. Repetimos então com o salmista: “É a tua Face Senhor que eu procuro, não me escondas a tua Face” (Sl 27,8). Deste modo, o episódio da Transfiguração é um mistério para nós. Um mistério que nos traz preciosas lições. São Paulo afirmou que o Senhor transformara nossos pobres corpos à imagem de seu corpo glorioso. O Tabor é uma janela aberta para o nosso futuro Ele nos garante a opacidade de nosso corpo que se transformará um dia em luz, mas também projeta sobre o nosso presente, pois o nosso corpo, apesar de sua pequenez, é o templo do divino Espírito Santo. | *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.