sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

FAZEI PENITÊNCIA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Neste primeiro domingo da quaresma contemplamos Jesus no deserto, onde passou quarenta dias, sendo aí tentado por satanás. Depois Jesus foi para a Galileia e advertiu: “Completou-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Fazei penitência e crede na Boa Nova” (Mc 1, 12-15). Admirável a concisão de São Marcos a qual não embaça a intensidade dos acontecimentos e de suas preciosas mensagens. Inicialmente, o mistério do deserto para onde o Espírito impeliu Jesus, lugar de um encontro privilegiado com a divindade como havia sido descrito no profeta Oséias. Lá Deus fala ao coração (Os 2,14). João Batista foi uma voz que clamou no deserto, concitando a uma digna preparação do caminho do Senhor. Jesus ficará no deserto 40 dias, ou seja o mesmo tempo que gastou o profeta Elias para chegar através do deserto até à montanha de Deus, o Horeb (1R 19,8) Eis porque. Conforme São Marcos   Jesus foi levado ao deserto pelo Espirito não somente para aí ser tentado pelo diabo, mas também para celebrar a aliança com o Pai e daí partir para cumprir sua missão. Segundo este evangelista Jesus estava com os animais selvagens. Note-se que esta expressão “estar com” em São Marcos tem especial importância. Mais tarde ele a empregará para falar da relação entre Jesus e seus discípulos.  Ele registrará no capítulo terceiro que Jesus instituiu os doze inicialmente para estar com Ele e, depois, para os enviar a pregar. “Estar com” em São Marcos significa uma proximidade, a partilha de uma íntima amizade. Se há esta insistência sobre a vizinhança entre Jesus e os animais selvagens, é para evocar a realização das promessas messiânicas do profeta Isaías. Estas promessas foram ouvidas na liturgia da noite de Natal: “Despontará um rebento do tronco de Jessé e um renovo brotará de sua raiz Sobre ele repousará o Espírito do Senhor [,,,] Habitarão juntos o lobo e  cordeiro [...] Não causarão mal algum  em todo meu santo monte . É que com o Messias se instaura uma nova harmonia entre o homem e a criação, encontra-se novamente a paz do paraíso perdido. E se dá a aliança prometida a Noé: “Eis que eu estabeleci minha aliança convosco, com vossos descendentes e com todos o os seres vivos que estão em vosso derredor”. Realizada a primeira aliança, o Messias pode então anunciar aos homens: “Completou-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Fazei penitência e crede na Boa Nova”. Deste modo, em poucas palavras tudo nos é comunicado sobre a vida e missão de Jesus que afronta vitoriosamente o mal e reconcilia a criação e anuncia a Boa Nova. São Pedro com razão salienta a presença do Espírito Santo no mistério da Páscoa de Jesus: “Cristo ele mesmo foi uma vez morte pelos pecados, justo pelos injustos, afim de nos levar até Deus. Entregue à morte segundo a carne, foi vivificado conforme o Espírito”. Durante toda sua vida é este Espírito que age em sua obra.  É tudo isto que nos está a lembrar este trecho do Evangelho de hoje.  Marcados pelo selo do Espírito Santo entramos no combate da fé, e pelo poder do Espírito Santo entramos na paz da nova criação, do Paraíso renovado.  Para isto a penitência preceituada por Jesus é indispensável, lembrados, contudo, que é Deus, nosso Pai que produz em nós o querer e o fazer, segundo seu desejo benfazejo como bem lembrou São Paulo aos filipenses (Fil 2,13).  Jesus quarenta dias no deserto fazia penitência e, assim partilhava a doce harmonia da criação reconciliada do reino de Deus que se aproximava da humanidade. A situação de Jesus era emblemática Jesus no deserto tentado por satanás, mas em harmonia com as criaturas e, após, num caminho pessoal de anunciar fielmente a Boa Nova.  Boa Nova   de Deus cujo segredo manifestará plenamente. Pôr isto Ele pôde se dirigir a nós e aos homens de todos os tempos mandando fazer sacrifício e a crer na Boa Nova, ou seja, anunciá-la por toda parte.  O seu discípulo deveria então estar em estado de conversa contínua demonstrando initerruptamente sua profunda fé no seu Evangelho. Isto na novidade de cada instante da vida de cada um, melhorando dia a dia nossa maneira de ser, dando valor a tudo que está em nosso derredor. Uma nova maneira de ser por que o reino de Deus está a nosso alcance. Daí a importância desta quaresma que se inicia, prestando atenção uns aos outros para estimular na caridade todas as boas obras. Quarema é tempo de tempo de penitência, da caridade, de abertura total à verdade de Jesus, o que significa, de fato, viver a Boa Nova. Portanto, realmente, poucas palavras no trecho de São Marcos, objeto de nossas reflexões, mas incitamento a muitas ações; pouco discurso, mas muita ação, levando a realizações concretas, imediatas.  Jesus no deserto se mostrou fiel ao Pai e na harmonia da criação o pensamento organizador de Deus rebrilhou fulgurantemente.  Sigamos seu conselho, façamos penitência e creiamos na Boa Nova. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.                                                                                                                      

 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

 

A LEPRA CONTAGIOSA DO PECADO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

   Em busca da recuperação de sua saúde um leproso veio até Jesus e, de joelhos, clamava: “Se queres podes me curar” (Mc 1,40-45). Ele desejava recuperar inteiramente sua saúde, dando um sentido a sua existência, ocupando um lugar útil no meio em que vivia. Para os judeus a lepra era a mais impura das moléstias e o leproso um banido da sociedade. Tamanha, contudo era a fé daquele doente que, corajosamente, embora se reconhecendo um pecador, um impuro, foi pedir ao taumaturgo ali presente que o curasse.  Foi atendido e a exigência era que se apresentasse no templo aos sacerdotes para que tomassem conhecimento de sua cura. Em nossos dias, isto   vem lembrar uma lepra muito mais terrível que é o pecado no coração do ser humano, o qual Jesus no sacramento da confissão está sempre pronto a perdoar, purificando a quem tem fé e restabelecendo-o na plena  comunhão de sua Igreja; Diante da lepra do pecado para retornar até Jesus cumpre reconhecer o mal ali presente para que com a mesma confiança e humildade do leproso se depare a cura espiritual. Para o cristão é um dever espalhar não o contágio da lepra do pecado, mas sim o contágio da santidade pela qual se atrai a Jesus pecadores arrependidos, afastando-os das moléstias espirituais. Admiremos e imitemos sempre a confiança, a espontaneidade, a veemência do desejo do leproso que Jesus curou. Este quer sempre e a toda hora a saúde espiritual de seu seguidor e nunca ninguém deve se julgar incurável, pois isto significaria a perda total de toda a esperança. Em Jesus devemos contemplar a todo instante a misericórdia, o desejo de fazer seu discípulo viver a sua vida em função da força de seu imenso amor. Para muitos a própria imagem é que desola, mas Jesus quer que esta seja afastada para que se tenha diante de si somente a sua imagem consoladora de salvador, médico que cura todos os males. É preciso contudo ter continuamente o coração voltado para Deus. É necessário saber escutar este Deus para se contagiar pelo bem. Muitas vezes o fiel fala com seu Senhor com muitas palavras, mas não se preocupa em escutá-lo, desejando ouvir o que Ele tem a lhe transmitir. No combate à lepra do coração é de sumo valor o silêncio interior que leva a evitar as distrações que conduzem à desconcentração do divino interlocutor, impedindo um precioso espaço para acolher seu afeto, sua inspiração, seus oportunos recados. Todo cuidado é pouco para que o cristão não se torne uma pessoa   insensível, pessimista, desesperada, o que se torna caminho para a entrada da lepra espiritual, É necessário evitar todo o deterioramento interior. A prece é a ocasião propícia para se olhe serenamente a vida com todas as circunstâncias que a envolvem, não se deixando dominar pela lepra do espírito. Isto porque simplesmente reconhecer um mal dominante é insuficiente, pois é preciso aquela fé que levou o leproso a ir até Jesus e a Lhe declarar: ´Se queres, podes me curar”. Com efeito, ele reconheceu sua deplorável situação, mas também sua incapacidade pessoal de operar por si mesmo a cura desejada. Ele se dirigiu a alguém mais poderoso. A fé ocasionou aquela relação de confiança que permitiu a atuação de quem, de fato, podia purificá-lo. Quando Jesus diz ao leproso “Quero, sê limpo”, Ele estava afirmando: “Eu quero que sejas tudo o que eu posso fazer por ti”. Era, exatamente, o que pensava aquele suplicante que acreditava, de fato, no poder miraculoso daquele ao qual fizera súplica tão ardente. Um fato simples, mas ao mesmo tempo maravilhoso, foi    realizado por aquele que viera a esta terra para arrancar a história humana da lepra do pecado. Acontecimento no   início da manifestação de Jesus, quando as multidões O seguiam com um entusiasmo natural e com aquela excitação trepidante da qual se servem os mistificadores ou reformadores inescrupulosos. Sem dúvida o leproso focalizado por São Marcos, apesar da maneira sabia com que falou a Jesus, deve ter ficado antes ansioso, temeroso, mas perseverou no seu propósito. Ele queria também perceber a ternura humana do famoso Rabi. Tal situação continuaria através dos tempos, mas inúmeros seriam aqueles qque possuídos pela fé em Jesus dele se aproximariam e arrancariam prodígios de sua bondade e de seu poder. Um leproso com todos os terríveis sinais da malfadada doença se aproximou de   Jesus, o santo de Israel, no qual repousava o Espírito de santidade, Aquele que tinha o poder de curar os corpos e purificar as almas, Cordeiro sem mancha e só poderia mesmo resultar o grandioso milagre da cura imediata daquele pobre homem. Cena extraordinária, ou seja, o impuro em face do Santo, o miserável ante o poderoso Senhor. A lepra era o mal, mas em Jesus estava o remédio. Era o pecador ante o Salvador. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

 

COM JESUS PARA SALVAR OS OUTROS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Admirável roteiro no dia a dia do Filho de Deus, um cotidiano de Jesus, que São Marcos apresenta (Mc 1.29-39. Ele foi à sinagoga, depois se dirigiu a uma casa onde estava enferma a sogra de Simão. Jesus dela se aproxima e toma-lhe a mão. Tocante gentileza do Mestre divino que a queria cheia de saúde, como sempre agindo para servir os outros. À tarde contemplamos o poderoso taumaturgo se colocando ao serviço de todos que traziam seus enfermos com as mais diversas doenças, fossem elas físicas, psíquicas ou espirituais. Jesus falava e agia, expulsando demônios e os achaques que atormentavam os que O procuravam. Pela madrugada, Ele saiu para rezar, pois lhe reservava também momentos para as tertúlias com o Pai, momentos de reflexão, de contemplação. Procurado pelos que O buscavam Jesus aumentou o espaço de suas atividades e, partindo de Cafarnaum, foi percorrer a Galileia.  Exemplo magnifico de atividades dinâmicas e de fuga a todo particularismo, pregando o Evangelho por toda parte. Cumpre sempre imitar o seu dinamismo numa extraordinária ação evangelizadora. Sempre unido ao Pai e solidário com os que viera salvar, como lemos na Carta aos Hebreus, em tudo semelhante aos irmãos e, ao mesmo tempo fiel no que diz respeito a Deus (Hb 2,17) Na medida em que cresce a união do cristão com Ele, vida e o coração de cada um remodelam de acordo com esta dupla comunhão que era para Jesus a expressão espontânea de seu ser de mediador, ou seja, a comunhão com o Pai e a comunhão com todos os irmãos e irmãs. Cada dia Jesus nos mostra o Pai e nos manifesta o seu Nome e desse modo, entramos em uma prece verdadeira, mãos abertas e a mente liberta de entraves terrenos. O cristão se sente então envolvido na paz de Deus, percebendo a necessidade de levar por toda parte a salvação.  Percebe-se então, de fato, a necessidade da oração que confirma a chama dos carismas outorgados pelo sacramento da confirmação, fazendo cada um crescer como autênticos filhos da Igreja. É preciso, contudo, estar sempre atentos, porque ligeiro, discreto é o apelo divino que identifica o batizado a Cristo, dinâmico, orante e missionário. Ele está cotidianamente nos chamando a irmos a outros lugares, não em caminhos de sonhos mirabolantes, de ilusões, mas nas sendas que levam as almas a serem salvas. Trata-se de uma missão universal para qual se é conduzido por um profundo amor a Deus e ao próximo. Não basta, porém, admirar Jesus, mas, realmente, é preciso reconhecer nele um homem de ação que possui uma força transformadora, que jamais objetivava a própria promoção, ou que estivesse a serviço de alguma ideologia ou com uma visão preconceituosa do mundo. Ele não era um ativista qualquer que desejava mostrar sua importância. Os que nele confiavam não era por causa de um falso messianismo, mas por seu valor pessoal de Filho de Deus, Salvador dos homens. Sua atividade provinha, paradoxalmente dos instantes que Ele reservava para sua prece. Como para o próprio o Cristo, o evangelizador por excelência, a oração tinha um papel estratégico. É fortalecido pela sua união com Deus, vivificada em momentos especiais, que o batizado recebe a força para com Jesus sair à procura de quem dele está longe. Cumpre como Cristo dividir bem o tempo entre a ação e a contemplação. Estar com Deus e estar com os homens. Muitos evangelizadores se esquecem de imitar Jesus e depreciam o tempo reservado à oração. É belo ser apóstolo, mas não se pode esquecer o valor do tempo reservado para uma união especial com Deus. É a exemplo de Jesus equilibrar trabalho ativo e instante sagrado contemplativo. a hora da devoção. São Francisco de Assis ensinava que “é preciso trabalhar fielmente  sem extinguir  o espírito da santa prece e da devoção”. Como fazia Jesus, e vimos isto claramente também no Evangelho de hoje, há necessidade de que cada um se organize bem, dividindo as tarefas diárias. Era por isto que Jesus mostrou se entregar às mais diversas tarefas sem descurar nenhuma delas, dando grande realce às práticas devocionais. Lição importante para aqueles que trabalham frequentemente para Deus, mas que nem sempre pedem a Ele suas luzes e forças sobrenaturais, procurando saber exatamente o que Ele quer que se faça. Além do mais, a ida de Jesus para outros lugares com seus discípulos é algo a ser mentalizado. Jesus em Cafarnaum e seus derredores tinha grande notoriedade, mas isto não interessava ao seu projeto de a muitos outros levar a Boa Nova, Jesus era o servidor da Palavra divina, servidor universal das almas e não procurava nunca sua glória, seu proveito pessoal No mais profundo de si mesmo ser sobretudo um servidor das almas a serem remidas deve ser o ideal de seu discípulo. Saber não ser em si mesmo senão um servidor, eis todo o s segredo do discipulado. Para isto se faz necessário estar na dependência de Deus e ao serviço das almas, esquecendo todas as vantagens pessoais. Em tudo, portanto, imitar Jesus * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

 

sábado, 23 de janeiro de 2021

 

A SANTIDADE DE JESUS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

O próprio espírito do mal, o demônio, reconheceu a santidade de Jesus: “Sei quem tu és, o santo de Deus” (Mac 1, 21-28). Segunda Pessoa da Trindade Santa, que se fez homem e habitou entre nós é Ele então gloriosamente aclamado nas Missas: Só vós sois o Santo, só vós sois o Senhor, só vós sois o   Altíssimo, Jesus Cristo, com o Espírito Santo na glória de Deus Pai”. Já no Antigo Testamento, quando se falava da santidade de Deus, se proclamava a majestade divina, deixando clara a distância entre o Criador e suas criaturas. Santidade, porém refletida sobre todas as coisas criadas, tudo tendo um caráter sagrado por ser uma ação de Deus.  Esta santidade vista também como uma plenitude de vida oferecida aos seres racionais, abrindo-se Deus à comunhão com eles. Possuído da plenitude desta santidade, Jesus, que a todos impressionava pelos seus milagres e pela sublimidade de sua doutrina, provocou a famosa aclamação do próprio satanás na sinagoga de Cafarnaum. É que impressionantes eram, de fato, as obras e a palavra de Jesus e diante de sua santidade até as forças do mal se viram forçadas a proclamar tal verdade. Jesus estava, de fato, repleto daquela santidade que vem de Deus e que revelava sua divindade. Através dos tempos o fulgor de sua vida vem contrastando com a autossuficiência humana e sua palavra viva e poderosa quer sempre penetrar como uma espada do Espirito até o fundo dos corações, lá no íntimo de cada um, onde se decidem o acolhimento ou a recusa, o diálogo ou o mutismo, a docilidade ou a rejeição, a sinceridade ou a dissimulação, a esperança ou o desespero. A santidade de Jesus, porém, exige de quem O conhece e ama uma doação completa longe de toda miserável autonomia e soberba. O encontro pleno com Jesus, o Santo de Deus, é que torna cada um livre ao acolher todo seu esplendor sempre inebriante para quem se imerge na sua realidade de Filho de Deus. Cumpre, sempre interrogar ao divino Salvador a cada momento de nossa vida o que Ele quer de nós e, com coragem e sinceridade, fazer o que Ele pede com a certeza de que sua santidade conduzirá à própria salvação que deve ser buscada decididamente, apesar das invectivas do espírito do mal.  É preciso, em todas as circunstâncias, ter em mente ser necessário um crescimento profundo dentro de si de Jesus porque a compreensão de sua ação demandará reflexão e a significação do bem a ser realizado não aparece de mediato. Nossa maneira de compreender os apelos sobrenaturais é marcada profundamente pelo nosso modo como nos conhecemos a nós mesmo e supõe uma conversão na nossa maneira de pensar, de ver, de ser, que deve, além do mais, enfrentar os obstáculos do espírito diabólico. Por isto tudo que se deve fazer necessita ser pesado segundo o seu justo valor, num afastamento destemido do erro. Os santos aconselham que se deve pensar o que Jesus faria naquele momento no qual se está em dúvida de como se deve proceder.  Vinda, porém a inspiração divina, há necessidade de segui-la corajosamente.  Jesus falava e fala sempre com autoridade e é com Ele que se vencem as potencias infernais. São Paulo ensinava aos romanos: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo; não vos abandoneis às preocupações da carne para satisfazer suas cupidezes! (Rm 13,14). É que os cristãos devem trazer Jesus, o Santo de Deus, como uma vestimenta.  Eles se esforçam então por imitar suas qualidade e sua maneira de agir, procurando ostentar, mesmo que imperfeitamente, a imagem do Mestre divino. Este Apóstolo incitava então a Timóteo a praticar a palavra de Jesus no meio de muitas provações, com a alegria do Espirito Santo (1 Tm  1,6-7). Tenhamos, portanto, sem cessar diante de nós a figura de Jesus, o Santo de Deus, porque Ele mostrou uma admirável sabedoria e perfeição. Todos os  que O ouviram se extasiaram perante sua inteligência. Multidões ficaram maravilhadas com as palavras que saiam de sua boca. (Lc 4,22). São Pedro proclamaria que Jesus tinha palavras de vida eterna (Jo  6,68).  Jesus praticou  todas as virtudes em grau eminente Ressalte-se particlarmente seu imenso amor para com o Pai e afirmou que o mundo soubesse  que ele amava o Pai e que fazia tudo que o Pai Lhe havia preceituado (Jo 14,21).Sua caridade para com todos O comoveria  profundamente   como ocorreu diante da viúva no o cortejo fúnebre de  Naïm e O  faria chorar ante  o túmulo de seu amigo  Lázaro, Caridade afetiva, mas também efetiva  que O levaria não só a ressuscitar mortos, como também a curar inúmeros doentes. Sua caridade não era fraqueza, porque Ele repreendeu os vícios, chamou a atenção dos profanadores do templo. Caridade sem limites que O levou a dar a vida pela humanidade pecadora. Todos poderiam contemplar nele um modelo das mais peregrinas virtudes e Ele podia determinar a todos que O imitassem. Tudo isto porque Jesus era em plenitude o Filho de Deus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

sábado, 16 de janeiro de 2021

 

01 IMPORTÂNCIA DA CONVERSÃO E DA FÉ

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Ao voltar para a Galileia, Jesus, anunciando a proximidade do reino de Deus, foi claro: “Convertei-vos e crede no Evangelho”, (Mc 14-20). Ele era o Emanuel, Deus conosco, que tendo se encarnado, se tornara ainda mais próximo dos homens que Ele viera salvar, mostrando-lhes como obter esta salvação. Conversão e fé seriam meios para que não fosse inútil sua obra redentora. Pela conversão se entende o retorno sincero a Deus, numa caminhada de arrependimento dos erros, do reconhecimento da própria miséria e numa total confiança na misericórdia divina. Isto incluindo firme decisão de um caminhar continuo nas trilhas da perfeição, não obstante as dificuldades exteriores e interiores. No caminho da conversão é, entretanto, a fé na verdade do Evangelho que permite avançar corajosamente na santidade existencial. Trata-se de uma orientação que o Filho de Deus traçou para os seres humanos, uma vocação de todos os homens e mulheres. Já no Levítico Deus havia determinado: “Sede santos porque eu sou santo” (Lev 20,26). A busca perseverante desta perfeição implica uma conversão, uma mudança de quem possui a graça santificante para um agir cada vez mais em adequação com a vontade divina. A conversão implica, portanto, uma atitude que exclui peremptoriamente a situação de um cristão medíocre exigindo   continuamente ações fervorosas até a chegada ao céu. Para isto o cristão deve cultivar a fé todos os dias de sua vida aqui na terra. Isto supõe crer no Evangelho com todas as potências do ser de cada um, com toda a sua alma, com todo o seu coração, com toda a sua inteligência. Trata-se do ser humano numa adesão completa com o seu Deus três vezes santo. Crer profundamente, de verdade. Um engajamento pessoal total nas três pessoas santíssimas às quais se entrega sem reservas, apesar das fraquezas e dúvidas de quem é humano, frágil. É o relacionamento entre um Deus infinitamente perfeito e o homem criatura limitada. Esta, contudo, pode dizer ao Ser Supremo que crê na sua bondade sem limites e que deposita nele toda sua esperança. É de se notar que quando Jesus proclama o Evangelho de Deus Ele apela, de fato, para uma crença inabalável mesmo diante da violência dos       poderosos como ocorreu com São João Batista. Não se trata de um mundo de ilusões no qual tudo é belo, tudo é tranquilo. Converter-se e crer no meio de muitos descrentes que duvidam e desprezam as verdades reveladas mais preocupados com as coisas terrenas e passageiras, com tudo que é material, ignorando as verdades sobrenaturais. Conversão e fé num mundo no qual reina a virtude e o pecado, uniões e antagonismos, o joio e o trigo. Cumpre, então, estar atento às inspirações do divino Espírito Santo sempre a lembrar que é em função do Reino de Deus que o verdadeiro cristão deve viver, santificando-se continuamente à luz da fé, jamais traindo a Boa Nova de Deus. Isto implica um rompimento corajoso com tudo que vai de encontro aos sagrados mandamentos da Lei divina, tendo em mente também a mudança de uma sociedade para que seja impregnada com tudo que está na Palavra revelada que se acha na Bíblia, a qual deve penetrar fundo no coração de quem crê por meio do bom exemplo e da demonstração de como é feliz quem se alegra no seu Senhor. A luta é sem tréguas contra os obstáculos, os ídolos e demônios que tentam perturbar quem quer viver intimamente unido a seu Deus. Tudo isto num mundo em que somos vítimas de moléstias, feridas mais ou menos graves, mas que exigem destemor para que nunca se afaste do caminho da conversão e da fé.  Somos todos sempre responsáveis ou cúmplices pelo bem ou pelo mal, devendo, portanto, ser afastado todo egoísmo e enfermidade espiritual fruto dos ídolos de um mundo que endeusa o dinheiro, o sexo, a moda, o domínio, o desejo desregrado do sucesso a qualquer preço, apreciando a vaidade, o tempo malbaratado, as horas inutilmente passadas, a busca de um conforto desnecessário. É preciso vencer as nossas indiferenças ou submissões aos vícios. O Evangelho de hoje clama, realmente, que se rompa, se fuja de tudo isto. Trata-se da libertação de tudo que torna o cristão escravo da maldade, da perversidade. Atitude consciente para poder acolher os dons de Deus. Assim, é de vital importância agir unido a Deus, pois se trata de agir corretamente para não ver comprometida a própria salvação eterna e a autêntica felicidade. É desta maneira que se obtém o desejável júbilo interior, porque é Deus que estará agindo dentro coração de quem Lhe é fiel.  Disponibilidade e prontidão devem então marcar a existência do cristão que está convencido de que crer é responder e corresponder ao apelo divino. Daí a necessidade de conhecer sempre mais Jesus para caminhar colocando nossos passos nos passos do Mestre divino nesta conversão de todos os instantes, firmes na fé em tudo que Ele ensinou. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

 

SEGUIR O CORDEIRO DE DEUS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

Ao dizer João Batista a dois de seus discípulos que Jesus, que por ali passava, era o Cordeiro de Deus eles puseram a segui-lo. Um deles era André, irmão de Simão Pedro o qual foi por ele levado até Jesus. Foi quando então esse ouviu de Cristo esta sublime proclamação: “Tu es Simão, o filho de João, doravante chamar-te-ás Cefas” que significa pedra” ( Jo 1,35,42). Eram os primeiros apóstolos e entre eles aquele que era a pedra sobre a qual seria edificada a Igreja. Houve desde os primórdios da vida púbica de Jesus a compreensão do significado profundo do Cordeiro de Deus, o Cordeiro pascal da verdadeira libertação, Cordeiro mudo que seria morto em reparação dos pecados do povo, Cordeiro vencedor que iria fazer desaparecer o mal no mundo. Aos dois primeiros Jesus indaga: “Que procurais vós”? Eis aí o início de todo chamado divino, a história de uma trajetória de todos que através dos tempos se tornariam seus discípulos, cristãos e cristãs de todos os tempos e de todas as raças por Ele atraídos. O Mestre divino, porém, nunca se impondo, mas propondo um caminho que leva à vida eterna. Seguir Jesus seria amá-lo vivendo em plenitude sua doutrina, numa adequação completa a suas mensagens celestiais. Trata-se então de um processo de esforço pessoal rumo a uma conversão contínua, numa abertura sincera do coração, estando-se sempre atento às inspirações divinas. Note-se que Jesus indagou aos dois primeiros que se puseram a segui-lo: “Que procurais vós?”. Eles responderam indagando não “Quem és tu?” ou “Donde vens?”  Que segurança nos proporcionas?”  ou “Quais são as condições para poder seguir-te?”. mas perguntando “Mestre, onde moras?”. Como observam alguns exegetas, esta pergunta está repleta de significado, porque Jesus quereria ser visto como um itinerante, pregador da Boa Nova que Ele viera trazer do céu à terra.  Aqueles primeiros discípulos estavam, porém, demonstrando já fidelidade porque era preciso tempo para ter mais oportunidade de escutar aquele Mestre e, assim, poder acompanhá-lo sem tergiversações. Para isto, contudo, era preciso outros encontros com Ele. Tanto isto é verdade que o verbo morar no Evangelho de São João, segundo muitos exegetas, é o verbo da eternidade e de eternidade que se inicia nesta terra onde se começa a viver com Deus uma relação de confiança e amor. Seria com o passar do tempo que André e o outro discípulo compreenderiam que acompanhar Jesus, seria crescer dia a dia numa fé inabalável nele e isto numa dileção diuturna demostrada na prática de tudo que Ele ensinaria. Assim como o Batista mostrou o Cordeiro de Deus aos dois primeiros apóstolos, André O mostraria a Pedro. Depois em circunstâncias especiais outros seriam chamados para a missão apostólica, permanecendo numa liberdade perseverante. O Evangelho de hoje vem então, lembrar a todos os cristãos a responsabilidade de bem saber testemunhar quem é Jesus, o Cordeiro de Deus para que se comece, de fato, uma caminhada na fé no Filho de Deus, o qual se deve procurar conhecer não por mera curiosidade ou encantamento passageiro, mas através de uma convicção profunda de que só Ele tem palavras de vida eterna e isto fruto de um amor intenso para com Ele. É preciso então examinar como temos seguido Jesus, consciente de sua importância decisiva na vida de cada um. Quem de fato pode dizer com São Paulo “já não sou  quem vive, é Cristo quem vive o em mim” porque, realmente, O segue em plenitude, sente a urgência de O proclamar ao próximo e aos amigos. Verifica-se então uma experiência comunitária, uma experiência de Igreja, experiência que se torna contagiosa e profunda. Cumpre, deste modo, verificar até onde tem sido efetiva nossa capacidade pessoal de transmitir aos outros o nosso amor a Jesus e como é bom O seguir sempre por toda parte. É preciso levar até o Cordeiro de Deus aqueles que se acham longe dele para que Ele lance sobre eles o seu olhar que os vai fazer mudar de atitude numa transformação profunda de vital importância para a espiritualidade eclesial. São inúmeros os que procuram um mestre, uma direção através do testemunho de quem teve a felicidade de chegar até Jesus, levados também a Ele por alguém que O conhecia do fundo do coração, como ocorreu com os primeiros apóstolos. Todo cristão deve sentir a necessidade e o dever de dedicar-se ao apostolado e de contribuir, na medida do possível, para com os movimentos catequéticos paroquiais, se não quer se expor ao perigo de que sua vida espiritual se torne estéril. É grande honra servir a Igreja fazendo crescer nela o número daqueles que conhecem, amam e servem o divino Salvador, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

 

O BATISMO DE JESUS NO JORDÃO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O batismo de Jesus no Rio Jordão se deu num momento religioso marcante. Com efeito, a pregação de São João Batista havia produzido numerosas conversões. Inúmeros os que haviam decidido mudar de vida, abominando seus erros. Procuravam o batismo no rio Jordão em cujas águas viam o sinal desta renovação interior. Embora, Cordeiro Imaculado, sem a mínima mancha de pecado, Jesus valorizou o que então aí se dava e foi também ser batizado pelo seu Precursor (Mc 1,7-11). Com este ato de humildade deu início a sua vida pública, unindo-se àqueles que Ele viera salvar. Momento significativo, solene, no qual a divindade do Redentor foi proclamada pelo Pai: “Tu és o meu Filho amado no qual eu me comprazo”. O mistério de Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, começava a se revelar. Ele o mestre divino a mostrar o valor da renovação interior, numa união com os irmãos e irmãs pecadores, sob a complacência do Pai que está nos céus. Jesus a mostrar a seus seguidores o caminho de uma fé profunda e de uma humildade absoluta, condições para se obter a plena salvação que Ele, o Filho de Deus, viera trazer do céu à terra. Portanto, importantíssima esta passagem do Evangelho de São Marcos, registrando o Batismo de Jesus. Esta cena recorda a todos os cristãos o dia de seu batizado quando foi remido do pecado original, vindo nele habitar a Trindade três vezes santa. Deus presente, fonte viva na qual se imerge mais ainda este eleito do Todo- poderoso Senhor. Assim sendo, o batismo de Jesus foi um mistério de amor, lembrando o grande afeto de Deus para com o homem pecador. Jesus, misturando-se a uma multidão de prevaricadores, foi uma demonstração extraordinária da condescendência divina, como que um escândalo proporcionado pela benevolência de um Deus cheio de ternura para com os seres racionais, abaixando-se até sua pequenez. Assim o gesto de Jesus ao se fazer batizar pelo Batista lá no Jordão continha em si o sentido da vida, da missão, da pregação futura do Redentor até sua crucifixão no alto de uma Cruz. Através dos Evangelhos contemplamos Jesus sempre entre os marginalizados, levando-lhes a dileção do Pai celeste, a ponto de se fazer qualificar de “glutão e beberão” amigo dos publicanos e dos pecadores” (Mt 11,19). Aliás, este mesmo Jesus, batizado no Jordão entre pecadores, lá no Calvário estaria crucificado entre dois malfeitores. No Jordão, se ouviu a voz do Pai e, ao morrer Jesus mais tarde no Gólgota o véu do templo se rasgaria de alto a baixo, sendo estes dois fatos bem significativos, ou seja, aquele que morreria na Cruz era o mesmo que no seu batismo fora proclamado o bem-amado do Pai. Assim sendo, o batismo de Jesus deve nos encher de plena confiança na misericórdia deste Deus compassivo que esteve entre os pecadores nas águas purificadoras do Jordão. Confiança bem inspirada também pelo que se lê no profeta Isaias onde Deus afirma que aqueles que nada têm venham a ele e viverão.  Todas estas reflexões deixam bem claro o motivo pelo qual Jesus quis ser batizado. Um sentido profundo da nova criação do mundo e do homem.  Uma nova gênese, um renascimento. Os céus fechados pelo pecado se abrem e se escuta a voz do Pai. Ali se acham o novo Adão e o universo renovado, santificado, que emerge com Cristo das águas do Jordão. O homem que seria regenerado pelas águas do sacramento do batismo se tornaria filho de Deus, pois Jesus era o Filho bem-amado do Pai. Belíssimas mensagens que fluem   da comemoração do batismo de Jesus. Elas nos levam a valorizar ao máximo as fontes vivas de nosso próprio batismo para aí encontrar as forças novas de uma vigorosa espiritualidade. Degustemos então as palavras de São Clemente de Alexandria: “Toda nossa vida é uma primavera porque nós temos em nós a Verdade que não envelhece e esta Verdade irriga toda a nossa existência.  Não nos esqueçamos finalmente que as águas do Jordão nas quais deparamos a proclamação da divindade do Redentor nos lembram que lá no Calvário do lado aberto do Salvador jorraram   sangue e água, que continuam a jorrar cada dia na Igreja, porque foram a figura da água do batismo de todos os cristãos. Como outrora no Jordão a voz do Pai continua a testemunhar através dos tempos que este Jesus é seu Filho bem-amado. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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