segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

 

A FAMÍLIA DE JESUS

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Após a apresentação de Jesus no templo de Jerusalém, diz São Lucas que Ele e seus pais voltaram para Nazaré, onde o Menino “crescia robusto, cheio de sabedoria e a graça de Deus estava com ele” (Lc  l 22-40). Uma família santa, perfeita, normal em perpétua busca do equilíbrio. José e Maria custodiavam Aquele que era o “Messias do Senhor, luz das nações pagãs e gloria de Israel”.  Por sua encarnação Jesus escolheu a humanidade inteira como família. A Bíblia apresenta o tema da Aliança entre o céu e a terra, entre Deus e homem. Do Gênese ao Apocalipse, Ele se revela como um Pai que quer estender sua família trinitária   por toda a terra. Todos os seres humanos devem se considerar então irmãos e irmãs. Um ícone sublime desta verdade é, portanto, a Sagrada Família de Nazaré, a qual é uma referência, um modelo para as famílias de todos os tempos. Com efeito, nesta família nasce Jesus o santo de Deus e suas três pessoas tinham em comum, antes de tudo e sobre tudo, o amor divino, anteriores a suas relações afetivas recíprocas.  O mistério da Encarnação, cuja grandiosidade é meditada durante o tempo litúrgico do Natal mostra Jesus como o Filho de Deus, primogênito de uma multidão de irmãos. É assim o tipo da humanidade que acolhe Deus, mesmo porque a família não é um modelo meramente sociológico, mas deve ser um exemplar de inspiração e de imitação. José e Maria vivendo inteiramente em função de seu divino Filho, a mostrarem que primordial é o dever de educação dos Pais, que necessitam ser os educadores por excelência, de tal modo que sua progênie possa exercer plenamente seu papel no mundo em todos os aspectos. Eis porque a família é um lugar importantíssimo para o engrandecimento de toda a humanidade. José acolheu Jesus e Maria com uma fé profunda e assumia a responsabilidade de pai desta família, conformando sua vida não a seus projetos, mas aos desígnios de Deus, Maria em tudo que ocorria em seu derredor, de São José e de Jesus, guardava e meditava em seu coração, tendo absoluta confiança na providência divina. Belo exemplo de José e Maria que amavam Jesus não com seu próprio olhar, mas tentando captar o pensamento de Deus e, por isto, perscrutavam cuidadosamente como deveriam agir com relação a Jesus. A vida de uma família não está nunca já escrita, mas está sempre em construção e, por vezes, numa edificação dentro de um cotidiano, rude, difícil, imprevisível. Aí porque a sabedoria e a dedicação dos pais e a compreensão dos filhos é imprescindível. A solenidade da Sagrada Família vem lembrar que a missão dos pais e dos filhos não é algo fácil e que, com exceção da Sagrada Família de Nazaré não há família perfeita. Assim sendo cumpre reconhecer em cada membro de nossas famílias pessoas que devem ser amadas, respeitadas, acompanhadas, orientadas. Jesus, Maria e José souberam discernir e aceitar os planos divinos e, apesar das tribulações que enfrentaram, cumpriram sua nobre missão. Por tudo isto, não se trata de idealizar todas as famílias, porque sempre aparecem as rupturas, as dores, e até as violências familiares, sobretudo num mundo tão turbulento como o atual. O que cabe ao cristão é minimizar todos os males que atacam a estrutura familiar tudo fazendo para que brilhe por toda parte os reflexos da grandeza da família de Jesus. Não querer nunca enquadrar os outros em moldes individuais, mas acolher o outro não como o queremos que seja, mas tal como ele é, fazendo sempre com perspicácia os ajustes necessários, pois só Deus é perfeito A vida conjugal e familiar é um dos lugares fortes da existência na qual se estuda a maneira de aceitar a realidade assim como ela é e não como a queremos que seja. Na tradição cristã a família é a primeira célula da Igreja, ou Igreja em miniatura. Na família se aprende respeitar os pais e estes a acatar e amar os filhos; os jovens a amar os anciãos e estes a ajudar os moços. A família é uma escola de perdão e de partilha; de abertura para os outros, de compreensão mútua. Da família de Nazaré saiu o Redentor da humanidade, nas famílias cristãs se formam missionários, devotados apóstolos, mesmo porque os pais devem ser os primeiros catequistas dos filhos. O mundo será, de fato, feliz quando os pais, como acentua belíssimo cântico, se assemelharem plenamente a José, as mães a Maria e os filhos a Jesus! E fica, então, a pergunta: “Será porque   mundo não consegue entender o que se deu em Nazaré?  Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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domingo, 13 de dezembro de 2020

 

MARIA, CHEIA DE GRAÇA

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Neste quarto domingo do Advento é recordado o grande mistério do anúncio do nascimento de Jesus (Lc 126-38). Esta verdade ficou em silêncio até então e, segundo o relato de São Lucas, foi nesta ocasião solenemente manifestado. A obra da salvação do mundo desejada por Deus ia se realizar através de um intercâmbio entre o céu e a terra onde se achava uma santa jovem judia, chamada Maria. Esta foi saudada pelo Arcanjo Gabriel como a “cheia de graça”. Admirável iniciativa do Criador, mas este, na sua delicadeza infinita, desejou o consentimento daquela que fora predestinada a ser a progenitora do Redentor. A sublime escolha se tornou assim conhecida através de um mensageiro para tal designado.  Dada a anuência de Maria, ela se torna objeto de especial misericórdia do Todo-poderoso. Realiza-se a promessa feita um dia a Davi através do profeta Natã no célebre vaticínio messiânico. Cumulando Maria de graças, o Ser Supremo preparou uma morada digna para si. Quer o Anjo, quer Maria, ficaram maravilhados perante este acontecimento. Gabriel deslumbrado com a beleza daquela que era a escolhida entre todas as mulheres. Maria, por seu turno, enlevada pelo fato de ter sido elegida para tão sublime missão de ser a Mãe do Salvador. Comovida, ela reflete, mas não é precipitada e pede explicação ao Anjo de como isto se daria. Aquele era um instante de respeitoso temor ante os insondáveis desígnios divinos e, ao mesmo tempo, de fascínio ante os planos da eterna Sabedoria. Aí está a razão pela qual o mensageiro do céu explica que tudo seria obra do Espírito Santo e que para Deus nada é impossível. Fulge então a adesão confiante e humilde daquela que sempre esteve unida a Deus: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra”. A promessa anterior de casamento dada a José em nada era infligida, mas serviria para guardar o segredo do projeto salvífico de Deus até o ulterior esclarecimento dado por Deus a José que seria o pai de Jesus perante a Lei. Como registrou São Mateus, «eis que o Anjo do Senhor manifestou-se a ele em um sonho, dizendo: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados'.  José, ao despertar do sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em sua casa sua mulher», Por sua parte Maria, aderindo à obra  de Cristo, oferecia também exemplos extraordinários de colaboração aos intentos do Ser Supremo a cuja vontade deve em tudo estar submisso o ser humano, que precisa estar sempre atento às inspirações celestiais. Muitas vezes se considera Maria como uma mulher fora do comum. Mas ela era sobretudo alguém que estava engajado no serviço de Deus, a Ele ininterruptamente obediente numa liberdade responsável, entrega sem limites. Nela se deve contemplar ainda sua simplicidade e uma confiança admirável, numa oferta pessoal de si mesma sem reservas, total disponibilidade para seguir as determinações do Onipotente. Como Maria, quem tem fé diz simplesmente a Ele:” Eis-me aqui, Senhor!”.  Embora enorme seja a diferença entre a grandeza espiritual da Mãe de Jesus e cada um dos cristãos, reflexos da elevação daquela que é também a mãe dos discípulos do Redentor devem fulgir constantemente na existência de quem se diz seguidor de Cristo. Próximos do Natal esta reflexão sobre a Anunciação de Maria solicita muita atenção, interpelando para que se faça um exame de como tem sido a preparação para a magna comemoração do dia 25 próximo. Jesus mostrar-se-á verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Cumpre agradecer muito a Deus que revelou verdade tão extraordinária. Estupefatos pelo enorme amor do Todo-poderoso Senhor é preciso corresponder a tanta generosidade. Trata-se também de receber com gratidão o perdão que o divino Redentor trás do céu à terra, se imergindo na esperança da conquista da felicidade eterna Ressoa forte o apelo de se levar por toda parte a paz e cultivar um absoluto desapego ao que é transitório neste mundo. É o já viver nesta terra instantes da eternidade, mesmo porque o cristão deve sempre se sentir um bem-amado do Pai. Por tudo isto necessário de faz viver sob a égide de Maria, a cheia de graças que garante a vivência de tão excelsas realidades. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

 

DAR TESTEMUNHO DA LUZ

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Notável São João Batista, por ter sido ele o mensageiro que preparou o caminho do Salvador da humanidade (Jo 1, 6-8.10-28)). Ele deu testemunho da luz verdadeira que veio a este mundo. Tal deveria ser, através dos tempos a missão do seguidor de Jesus. O Percursor foi um personagem excepcional. Admirável sua fé profunda, sua irradiante humildade, fiel até o fim a sua sublime missão. Personagem excepcional, o último dos profetas. Trata-se de saber como bem viver este tempo do advento. Nada de um planejamento artificial. O Batista foi claro: “No meio de vós se encontra um que vós não conheceis: ele veio depois de mim e eu não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias”.  No contexto histórico no qual esta sentença foi proferida, aqueles que vinham receber o batismo no Jordão pelas mãos do Precursor de Jesus não O conheciam. Entretanto, João, o Evangelista escreveu seu Evangelho 70 anos mais tarde e ele se dirigia a uma comunidade de batizados que procuravam seguir a Cristo e discutiam as Escrituras. Esta frase do Batista ressoava para eles de uma maneira surpreendente, como acontece em nossos dias. Vale ainda hoje a assertiva de que no meio de nós está Aquele que não conhecemos. No cerne desta afirmativa está o verbo conhecer que vem do latim cum-nascere, ou seja, nascer com. Conhecer com alguém é nascer com ele, num processo que exige muita humildade sobretudo no que diz a Jesus, que foi em tudo manso e humilde de coração. Esta é uma condição primordial para auferir as graças natalinas. É preciso se despojar de todos os preconceitos pessoais e tomar em consequência resoluções imediatas, sem nenhuma tergiversação. Apenas assim se pode estar totalmente à escuta das inúmeras inspirações que vêm do Presépio. Escutar Jesus, crescer com Jesus, vivendo sempre com Ele. Nada de presunções humanas, enquadrando o divino Redentor nos próprios moldes mentais, negando a sublimidade de seu mistério, de seu ser profundo. É tudo isto que o testemunho de São João Batista recorda, pois no meio de nós está alguém que devemos conhecer. Cumpre, então, afastar todo orgulho, a exemplo do que fizeram através dos tempos os grandes místicos. Deste modo o cristão não se deixa abalar pelos imprevistos da vida, pelos percalços que costumam surgir, entraves naturais para seres contingentes, finitos, limitados. Foi após seus sofrimentos que Jó assim falou a Deus: “Eu não te conhecia senão por ouvir falar de ti, mas agora meus olhos te veem” (Jó 42,5). Depois de deparar a figura do Salvador, será mais fácil imitar João Batista também na pobreza, na simplicidade e demais virtudes como resultado do Reencontro com o Filho de Deus no seu Natal. Outra diretriz do Precursor é “aplainar o caminho do Senhor”, comparando-se a uma voz que clamava no deserto. Quando se explora um deserto é preciso levar um roteiro, água e bússola. Na sua época, o Batista interpelava as pessoas porque elas estavam perdidas, andando sobre uma terra seca longe de Deus. Conduzia a todos para uma rota a mais segura, ou seja, Jesus Cristo. Hoje aplainar o caminho do Senhor significa seguir o caminho, ou seja, acompanhar Jesus através do deserto espiritual longe das insídias do mundo moderno. Devemos então saber onde encontrar a água viva que é o Filho de Deus, seguindo o roteiro proposto pela liturgia e tendo como bússola a Igreja. Devemos ser agradecidos a Deus pelo dom de seu Filho que nos guia neste mundo para saciar nossa sede do verdadeiro amor às verdades externas e para nos consolar por entre as vicissitudes terrenas. Trata-se de praticar com eficiência todas as virtudes que nos aproximam das realidades celestiais recordadas pelo Natal. Cumpre agradecer a Deus pela dádiva de seu Filho, nosso caminho neste mundo, fazendo uma salutar mortificação de tantas coisas das quais se deve privar para o bem próprio da saúde do corpo e da alma. João Batista deixou claro que ele não era Elias, aquele que deveria inaugurar o fim dos tempos; não era um profeta como Moisés, destinado a renovar os prodígios do Êxodo, do qual falou o Livro do Deuteronômio (Dt 18,15). São João Batista deixou patente que ele era, isto sim, como dizia o profeta Isaias a voz que ressoa no deserto: “Aplainai o caminho do Senhor” (Is 0,3). Voz não de alguém que fascina e atrai os outros para si, mas uma voz inteiramente a serviço da mensagem que estaria sendo proclamada ao mundo pelo Redentor diante do qual deveria se ajoelhar todo aquele que, de fato, O procurasse conhecer. A exemplo de São João Batista todos os cristãos deveriam, portanto, por toda parte dar testemunho da Luz.  * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

 

01 JESUS BATIZOU COM O ESPÍRITO SANTO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho

São João Batista aconselhou claramente aos que o escutavam que preparassem o caminho do Senhor, mesmo porque Jesus batizaria com o Espírito Santo (Mc 1,1-8). Eis porque a fé e a esperança, intimamente conjugadas, imergiriam o cristão em realidades sublimes. A fé sempre alimentada na vivência da obra salvadora de Deus e a esperança colocando o batizado no limite da realização das promessas feitas por Deus que se cumprirão após a trajetória de cada um neste mundo. É quando se dará o acabamento dos esforços na luta pela justiça, pela paz e pela verdade pregadas pelo Filho de Deus. É nesta plenitude do amor de Deus que passaria a viver quem fosse batizado no Espírito Santo. Tal foi o importante ministério do Batista, dado que Jesus lançaria neste mundo   o germe do Reino de Deus do qual participaria quem bem se preparasse para cumprir os compromissos batismais. A presença de Deus e sua obra salvadora no coração de cada fiel, com a força de notáveis virtudes, constituiriam assim a realidade dessas promessas que terão seu acabamento após esta vida terrena. Eis aí o cerne glorioso da esperança cristã que se apoia na certeza da fidelidade divina que paira acima das realidades terrenas. A primeira etapa da realização das referidas promessas se dá pela presença de Deus no coração de quem crê e esta presença é o motor do agir do cristão na própria vida e na sua atuação junto dos outros, constituindo isto a essência da história do cristianismo. Deste modo, o batizado vive no presente, mas voltado para o futuro, porque acredita em tudo que o Redentor prometeu. Quem crê, acolhe então o Natal dentro de si mesmo através de uma vida de penitência e arrependimento das próprias faltas, como ensinou João Batista. Ele era a voz que pregava no deserto bem o símbolo de tantas situações que viveriam os batizados uma vez que é no deserto, isto é, no silêncio interior, que ressoará sempre este seu apelo: “Preparai o caminho do Senhor”. Eis aí a Boa Nova de Jesus Cristo, o Filho de Deus que São Marcos desenvolverá no seu livro, cuja introdução contém tão ricos ensinamentos Não se trata de uma mera filosofia ou de um determinado programa, mas de um ensinamento profundo que verdadeiramente clareia e salva. Trata-se do contato amoroso não com um personagem qualquer, mas com Jesus Cristo e as outras Pessoas da Santíssima Trindade. Assim surge um Rei envolto não em esplendores terrenos, mas alguém que só será reconhecido por aquele que estiver revestido da humildade, longe de toda soberba interior, apartado de qualquer vaidade exterior. Para que tudo isto se concretize nas vicissitudes da existência de quem foi batizado no Espírito Santo é preciso, além da comunhão eucarística, o alimento da Palavra revelada, adaptando-se à mesma as atividades cotidianas, buscando resultados espirituais que fortificam a união com Deus, levando à prática de sua vontade santíssima. Trata-se da adoração ao Senhor de tudo em espírito e verdade Eis porque é preciso a tranquilidade interior para que as luzes divinas envolvam o cristão a fim de que ele reflita e assimile os recados vindo da Trindade Santa que habita no fundo do coração de quem se acha em estado de graça. Então há condições para sejam feitos pedidos afim de solucionar tudo aquilo que é contrário aos desígnios divinos. Os obstáculos ao crescimento espiritual são afastados. Deus abomina expressões vazias e falsas promessas. O verdadeiro cristão deve primar no cumprimento do dever cotidiano, afastando tudo que contradiga qualquer um dos preceitos do Decálogo. É preciso que Deus, realmente, ocupe toda a vida do batizado que se submete inteiramente a Ele. Isto no desapego dos bens temporais e rejeitando corajosamente as vantagens obtidas com fraudes, tendo em mira as mansões eternas e infindas nos céus.  Certo de que a glória presente é passageira, ilusória e vã, quando endeusada longe da eternidade celeste, obediente aos preceitos do Senhor, quem foi batizado no Espírito Santo deseja continuamente em tudo a riqueza, mas lá na pátria verdadeira onde os ladrões não arrombam nem furtam, nem se desfazem estes bens pela ferrugem ou pela traça. É para lá que deve tender o cristão com desejos ardentes e amor profundo, muitas vezes, se voltando para destino tão maravilhoso. Cumpre refletir sobre tudo isto na caminhada de preparação até o Presépio. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Estai atentos! Vigiai e orai!

 

ESTAI ATENTOS! VIGIAI E ORAI.

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Com o Advento um novo ano litúrgico começa e a Igreja convida a todos os fiéis a bem se prepararem para a solenidade do Natal. Nesta época na qual reina no atual contexto social, nas instituições e até nas famílias e comunidades católicas o temor, a apreensão ocasionada pela pandemia e outros males, viver profundamente a alegria pela comemoração da vinda do Filho de Deus a esta terra, é renovar a fé, indo ao encontro de uma nova esperança. Esta esperança tem um nome sublime: Jesus. Ele fará cada um caminhar sem desfalecimentos no seu aprimoramento pessoal, contribuindo a fim de que o mundo seja melhor para todos. Enorme responsabilidade, porque Deus vem com graças especiais ao encontro dos que se imergirem na mística cristã deste período litúrgico e daí o alerta: “Estai atentos! Vigiai e orai”.  É que as inspirações divinas deverão ser captadas e a vigilância é imprescindível, vivida, porém, numa união ainda mais profunda com este Deus que se fez homem e habitou entre nós. Isto para a todos chamar afim de participarem da natureza divina. Donde ser necessária total disponibilidade para corresponder a tão maravilhosa vocação. Vigilância para que os corações não endureçam, não estejam inertes, mas aptos a cor. responderem aos chamados divinos. Trata-se de percorrer com mais fervor o caminho da santidade através dos sofrimentos de cada hora, do trabalho humilde e da prece constante. O Advento leva assim o cristão a um reencontro especial com seu Senhor no coração mesmo de sua história pessoal. Estar de sobreaviso para que cada um possa passar frutuosamente estes dias abençoados do Advento, como insistia São Paulo: na sobriedade, revestidos da couraça da fé e da caridade, do capacete da esperança da salvação que Jesus veio trazer para os que O receberem com amor. As forças humanas, as intelectuais como as biológicas, são sempre insuficientes, donde a precisão da energia divina que cumpre seja pedida com persistência. À impotência humana vem o poder do Todo-poderoso Senhor que deve ser confiadamente aguardado. A oração confirma a insignificância do ser humano e robustece, porém, sua fé. As calamidades dos fenômenos da natureza exigem, mais do que nunca atenção e oração. Jesus veio, vem e virá são as três certezas que o tempo do Advento nos recordará. Ele veio, porque desceu do céu e se encarnou no seio da Virgem Maria, abolindo maravilhosamente toda distância entre o Criador e suas criaturas, lançando seus apelos no interior de cada um que procurar seguir seus caminhos, ajustando-se à Sua vontade longe da borrasca do pecado; Trata-se do dinamismo divino que varre para longe as misérias e fraquezas humanas. Ele veio e vem até os corações de boa vontade, oferecendo sua amizade, seu corpo e sangue, todas as riquezas celestiais. Faz conhecer os dons divinos, as delicadezas de seu amor redentor que transfiguram o coração humano. Tudo isto se dá na medida em que cada um vive coerentemente tudo que Ele veio ensinar para conseguir a vida eterna.   Ele veio na humildade, vem na intimidade de cada coração e virá um dia na sua glória. Esta glória outra coisa não é senão sua união com o Pai, a densidade da vida e da felicidade que Ele oferece como Segunda Pessoa da Trindade Santa.   Vivendo santamente o Advento, virá o grande dia prometido por ]esus que é fiel com quem lhe foi fiel nesta terra  e o verá face a face. Daí a importância da vigilância e da oração.tão insistidas por Jesus. Ele deseja que estejamos alertas. Eis aí disposição essencial do verdadeiro cristão que compreende o significado do Advento, que entende o que quer dizer verdadeiramente estar atento. Não estar a dormir, nem estar adormecido, mas cauteloso, consciente do bom aproveitamento deste tempo de graças especiais, voltado unicamente para Deus e não para as futilidades terrenas.  Longe, portanto, das preocupações mundanas, de sonhos mirabolantes, da dispersão, de uma passividade deletéria. Que se afastem as inquietações, as preocupações estéreis, as obsessões malignas. O amor de Deus deve mais do que numa reinar, porque Jesus que chega é salvador amoroso que quer recompensar e não punir.  Velar é se voltar inteiramente para Deus, desejando ardentemente sua manifestação   amorosa, pois Ele é o salvador misericordioso. Daí a prática cuidadosa de toda justiça com alegria, seguindo mais perfeitamente os caminhos do Senhor que vem. É preciso sentir a ausência daquele que ansiosamente se espera. Trata-se da sede espiritual de quem crê e aguarda o grande Rei * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

 

CRISTO, REI DO UNIVERSO

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Ecoam neste domingo especiais louvores a Cristo Rei do Universo. Como lemos no Evangelho de São Mateus, o Filho do homem voltará a esta terra em sua gloria para o juízo universal (Mt 25,31-40) Dada a impetuosidade das forças do mal, sobretudo no atual contexto histórico, nada mais necessário do que meditar sobre esta intervenção do poder do Redentor da humanidade. De uma maneira ainda mais cruel, seres humanos são massacrados, as inteligências são asfixiadas com os erros mais absurdos e a mentira campeia através dos meios de comunicação social e. até. se popularizou a expressão “fake news” – notícias falsas. Nada, portanto, mais necessário do que implorar a vinda do Senhor do céu e da terra para dar rumos mais justos por entre tantas calamidades, para que a justiça reine por toda parte. Cumpre, entretanto, que cada um se examine até onde é culpado nestes transtornos atuais. A certeza, porém, de que todos e tudo que praticaram, um dia, serão submetidos ao julgamento de Deus, é um poderoso alerta. Cristo, o Crucificado que ressuscitou imortal e impassível, no juízo final, separará os bons e os maus. A vitória será daquele amor que raiou no alto de uma cruz, fato glorioso bem assim sintetizado por São Paulo: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna." (Jo 3,16). No decorrer da história há os que trilham o caminho do bem, ou seja, os que seguem os preceitos estabelecidos pelo Criador, e aqueles que aderem àquilo que a esta vontade divina se opõe. A liberdade de cada um é sempre respeitada pelo Senhor de tudo. São, contudo, duas sendas opostas. No dia a dia do ser humano nesta terra muitas vezes se percebe que a fronteira do bem e do mal passa dentro de si, tanto que a própria Bíblia afirma que o coração do homem é duplo. Segundo São Tiago, “aquele que hesita é semelhante à uma onda do mar, batida pelo vento. Portanto, não pense tal homem que receberá do Senhor coisa alguma, irresoluto como é e volúvel em todo o seu operar” (Tg 1,8). Na hora da morte, contudo, o proceder de cada um estará definido pois ou foi inteiramente bom ou completamente mau. Por isto, no julgamento final haverá apenas duas categorias, pois os bons receberão as promessas do Reino e os outros o fogo eterno. A responsabilidade pessoal fica definida ao se deixar este mundo. A Bíblia emprega uma linguagem concreta e fala do fogo eterno “preparado para o demônio e seus anjos”. Mensagem direta que deve ser bem assimilada por aquele que crê na vida eterna, pois o julgamento divino será com relação ao bem ou ao mal que se praticou. O juízo será sobre os atos e não é meramente conceptual, pois o Evangelho de hoje focaliza como se agiu diante dos pequenos, dos fracos, dos famintos, dos sedentos, dos sofredores em geral, com os quais Jesus se identificou. O que cada um fez ao menor dos irmãos é a Cristo que foi feito. Quem socorreu o próximo não por uma generosidade interesseira, mas gratuitamente, por verdadeira caridade, receberá o faustoso convite: “Vinde benditos de meu Pai, recebei em herança o Reino preparado para vós desde a criação do mundo”. O mesmo não ocorrerá com quem não teve compaixão para com os outros. Desde modo, a solenidade de Cristo Rei deve levar a todos os seus súditos a uma revisão do modo como tem tratado seu semelhante, dado que se trata de uma recompensa ou de uma condenação por toda a eternidade. Na sua primeira Carta São João deixou esta séria advertência: “Não amemos por palavras nem com a língua, mas por obras e em verdade. Por este sinal saberemos que somos da verdade” (1Jn 3,1). Cristo Rei é, como foi dito, a revelação do Deus de amor, aquele que mostrou que o verdadeiro amor está em Deus. Entrarão em seu reino apenas aqueles que viveram em função desta dileção concretizada em atos que ampararam nesta terra os mais necessitados. Diante de seu tribunal seremos examinados sobre como amamos os indigentes, vendo neles sua figura salvadora. Todo serviço ao próximo que teve a marca da caridade foi passaporte para o céu. Deixemo-nos então penetrar pelo poder de Cristo Rei, tão próximo de nós em nossos irmãos e estaremos conscientes de nossa responsabilidade nesta nossa trajetória terrena. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

                                                                                

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

 

O ENCONTRO COM DEUS

                                              Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

 Um tema recorrente na liturgia, sobretudo com a aproximação do Advento, é a vigilância na preparação do encontro com Deus, após a trajetória de cada um neste mundo. A parábola das virgens estultas e das virgens prudentes ilustra bem a reflexão sobre questão tão importante na existência do cristão (Mt 25,1-13). Trata-se da atenção ativa no que tange o momento no qual estará decidido o destino de cada um por toda a eternidade. As virgens imprevidentes não puderam entrar para a festividade do banquete nupcial. Claro o conselho de São Paulo na Carta aos Tessalonicenses para que todos sejam sóbrios, revestidos como de couraça, da fé e da caridade, tendo por elmo a esperança da salvação (1Tes 5,8). O que importa não é saber a hora em que o Senhor virá, mas se cada um estará ou não apto a acolhê-lo.  Jesus inculca a seus seguidores uma vigilância inteligente e confiante, atitude bem diferente da que tiveram as virgens descuidadas da parábola narrada pelo Filho de Deus. O amor com que se deve aguardar o encontro derradeiro com o divino Salvador aparta qualquer inquietação, mas também impede todo descuido que impede a entrada  um dia no banquete que Ele preparou para os que lhe forem fiéis nesta terra. Daí a necessidade de direcionar bem a liberdade e de agir com responsabilidade como quem espera confiante a chegada do grande Rei.   Trata-se de fazer frutificar os dons que Deus concedeu a cada um. Então, amorosamente, o cristão pratica todas as virtudes por que deseja estar para sempre junto a seu Senhor. O tempo de vida que Deus concede a cada um é o precioso dom que Ele concede nesta preparação para o encontro definitivo com Ele. O que não se deve olvidar é a importância decisiva do instante da morte. Esta é, por assim dizer, o resultado, a súmula de todas as horas até então vividas  nesta terra praticando o bem. Cada ato de fé, de esperança e de amor a Deus e ao próximo, cada esforço para fazer ininterruptamente a vontade divina fulgirão naquele momento final para felicidade de quem foi virtuoso.  Para os bons a morte firmará a relação filial com o Ser Supremo, garantindo-lhe a salvação eterna. Feliz aquele cuja vida tiver sido uma procura continua para conhecer e amar a Deus, pois se estará para sempre com Ele. Felizes na hora derradeira os que tiveram total gratuidade para com o grande Rei que os receberá para o festim dos eleitos. É de bom alvitre observar ainda que a Parábola das dez Virgens se desenrola em dois tempos: inicialmente na primeira parte da noite e daí as lâmpadas para aguardar o esposo e, depois, sua chegada. O esposo representa Deus.  A lâmpada significa a fé. O óleo simboliza a confiança. De plano, as dez jovens estavam tranquilas, confiantes. Suas lâmpadas iluminavam. Elas puderam até adormecer.  Tudo estava sereno.  Eis, porém, que chega o esposo, mas o óleo havia acabado, bem simbolizando a fé que pode se extinguir. Entretanto, cinco foram cautelosas e trouxeram suplemento deste óleo consigo, mas cinco tiveram que ir comprar aquele combustível e ao voltarem encontraram porta fechada. Daí a grande lição dada por Jesus: “a Vigiai porque não sabeis nem o dia nem a hora”.  Por vezes, o desânimo se torna insuportável, incompreensível, multiplicam- se as ilusões, os momentos de angústia, o abandono, o vazio, o temor! Não se pode ficar jamais sem o óleo da esperança para si e para os outros.  Os insensatos não terão outra chance, adverte Jesus, mostrando que se deve estar sempre prevenido. Cumpre ter sem cessar uma fé atuante alimentada pelo desejo da vida eterna e pelas preces contínuas.  A condição para poder participar das delícias eternas é não deixar adormecer as verdades perenes, pois, elas conduzem à liberdade, deixando sempre Deus agir em tudo.   Cumpre,continuamente, repetir com o salmista: “Pronto está o meu coração, ó meu Deus, quero entoar e cantar louvores. [...] Despertai harpa e cítara! Quero acordar a aurora, quero louvar-vos sempre, ó Senhor! (Sl 56,8-9). Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.