domingo, 21 de junho de 2020

PEDRO, PEDRA ANGULAR DA IGREJA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na solenidade de hoje, dia do Papa, a liturgia apresenta o Evangelho da confissão de São Pedro (Mt 16,13-19). Trata-se da narrativa de um fato memorável no qual Pedro que se chamava Simão, confessa sua fé na divindade de Cristo. Em Cesareia de Filipe, num local tranquilo. Jesus quis se manifestar mais claramente aos apóstolos e lhe indaga: “Quem dizem os homens que é o Filho do homem?”. Após o relato de seus discípulos Ele foi direto ao perguntar: “E vós quem dizeis que eu sou?” Pedro tomou a palavra e sua resposta, inspirada pelo Espírito Santo, repercutiria através dos tempos: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Por estas simples palavras Pedro proclamou a divindade de Cristo e sua fé na Encarnação do Verbo, testemunhando que aquele homem semelhante aos outros era também Deus. Fé admirável daquele que seria proclamado a pedra angular da Igreja de Jesus e que naquele instante iluminava a fé de todos os cristãos na realidade da Encarnação. Jesus declara então que foi o Pai que lhe havia revelado isto e faz a grande promessa que Ele cumpriria após sua Ressurreição; ”Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.Pedro na sua união com Cristo se torna o fundamento da Igreja para a salvação de todas as nações. Ele que seria o primeiro Papa demonstrava uma fé profunda que seria imitada por São Paulo e que Maria a Mãe de Jesus já havia patenteado, como fiel entre os fiéis. Neste dia do Papa cumpre recordar o que ensina o Catecismo da Igreja: “O Papa, Bispo de Roma e sucessor de São Pedro, "é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos, quer da multidão dos fiéis". Com efeito, o Pontífice Romano, em virtude de seu múnus de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal. E ele pode exercer sempre livremente este seu poder. (§882) Através dos tempos os sucessores de Pedro no exercício do magistério ordinário sempre levaram a uma compreensão melhor da revelação em matéria de fé e de costumes, assistidos que são pelo Espírito Santo. A este ensinamento ordinário os fiéis devem “ater-se com religioso obséquio do espírito” (§892) É que “o Pontífice Romano, em virtude de seu múnus de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal” (§882). É de notar que o Papa é dotado de infalibilidade “quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé ou aos costumes”. A infalibilidade que Cristo prometeu à Igreja “reside também no corpo episcopal quando este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro", sobretudo em um Concílio Ecumênico” (§891). Cumpre então aos cristãos sempre rezar para que o Papa, assistido pelo Espírito Santo, possa sempre exercer sua sublime missão com uma digna transcendência na vida da Igreja. Ele é o fundamento seguro para todos que o amparam com preces contínuas em suas intenções. De Pedro e seus sucessores vem para os discípulos de Cristo o “sentido sobrenatural da fé”, dado que o Espírito Santo os conduz à “plenitude da Verdade”, como bem se expressou São João no seu Evangelho (Jo l6,13). Se é o mesmo Espírito divino que guia o Papa através dos tempos e Jesus declarou formalmente que as portas do inferno não prevaleceriam contra sua Igreja, é preciso total atenção e acatamento às orientações do Sumo Pontífice A caminhada da Igreja rumo à Verdade, não obstante a contradição humana, prossegue, século após século, contando sempre, porém, com a fidelidade de um sem número de cristãos sinceros. Jesus assim se dirigiu ao Pai:” Escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”, ou seja, aos humildes que não levam a seu pobre tribunal o que Ele ensinou e é defendido pelos Papas. Orientados por eles a sã doutrina do Evangelho chega a cada cristão em sua primitiva luminosidade, sem as deturpações dos hereges que se multiplicam numa vã tentativa de contradizer o que o Filho de Deus ensinou. Pedro encontrou dificuldades em ir além das fronteiras de Israel e em abrir as portas da Igreja aos que não eram da descendência de Abraão. Deus, contudo, sempre suscitou missionários, como o Apóstolo Paulo, para levar a Boa Nova por todo o mundo. Nesta evangelização todos os cristãos devem se empenhar. Mensagens luminosas, não há dúvida, deste dia do Papa. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


domingo, 14 de junho de 2020

NÃO TENHAIS MEDO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Animadoras as palavras de Cristo: “Não tenhais medo" (Mt 10,26-33). Não se trata dos temores fugitivos que atordoam a vida todos os dias. O grande receio que o cristão deve vencer é, sobretudo, não testemunhar sua fé e sua união profunda com o divino Salvador. Num contexto histórico no qual se vive muitos, levados pelo respeito humano ou atemorizados por serem julgados ultrapassados diante das ilusórias manifestações do progresso tecnológico, correm o risco de negar por atos e palavras sua fé no Filho de Deus.  Este, porém, havia advertido: “Vós sereis odiados por causa do meu nome” (Mt 10,2). Ele foi perseguido a ponto de morrer crucificado e, portanto, a razão de não se temer o julgamento dos descrentes é que o destino de seu discípulo é imitar o seu Senhor, comprometido em tudo por Ele e com Ele. Se Ele venceu o mundo, apesar de tantos sofrimentos, a coragem deve imunizar seu seguidor contra o medo, triunfando de todas as insídias armadas pelos meios de comunicação social. Trata-se de firmar sua fé não obstante tantos desvios éticos e dogmáticos que marcam a história contemporânea. Notável a afirmação de Jesus no Evangelho de hoje, “não há nada encoberto que não se deva tornar conhecido, nem oculto que não se venha a saber" (v.26). Mais hora, menos hora sempre brilha a luz vitoriosa que o verdadeiro cristão deve irradiar. Por meio de seus autênticos discípulos, que não se dobram perante os erros, Deus por eles, filhos e filhas fiéis a seu Evangelho, pode fazer luzir sempre no mundo o esplendor da verdade. O legítimo cristão é portador deste Deus que revela e assim nada precisa temer das mudanças culturais e históricas, nem das doutrinas contrárias ao que Jesus ensinou. O que se deve temer, Ele asseverou, é o veneno irradiado pelo Maligno através dos canais televisivos, da internet em geral, isto deve ser evitado porque pode levar à morte do corpo e da alma e lançar na geena, local de suplício eterno pelo fogo. Este temor que é inclusive um dos dons do Espírito Santo é o medo de perder a Deus por entre as insídias diabólicas. O santo temor de Deus, no sentido bíblico, é respeito e afeição a tudo que se refere à sabedoria e majestade divinas. Isto se consegue pela obediência filial perante as delicadezas daquele que é Pai amoroso, o qual, segundo Jesus, conta até os cabelos da cabeça de quem lhe é leal. Deve-se, isto sim, temer não perceber a ternura do Pai que está nos céus o qual se interessa pelos filhos que Lhe são devotados. Nada, portanto, de temer os juízos mundanos e o falso esplendor do que contradiz o Evangelho, porque quem é fiel a Deus cantará sempre um hino vitorioso por entre as lutas neste vale de lágrimas. O cristão que tem uma fé profunda confessa continuamente Cristo salvador e por suas ações se declara solidário a Ele em todo tempo e lugar, jamais O traindo. Perseverança sem ceder a nenhuma tentação de impaciência perante o aparente triunfo do mal e a multiplicação de tantas seitas que renegam a verdadeira Igreja de Cristo. Jesus, porém, conta com a lealdade do autentico católico que fica firme, irradiando por toda parte a santidade de vida que flui de sua fidelidade a seu Senhor. Tal é o apelo do Mestre divino a proclamar “Não tenhais medo”. A hostilidade do mundo passa e o cristão estará sempre a repetir: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”, nela deparando todo consolo e amparo que vence qualquer temor que pode paralisar e desnortear. Através dos séculos quantas turbulências têm surgido, mas tudo resta nos arquivos da História, lançadas no passado. A Palavra de Deus, porém, difundida pela Igreja segue seu curso inexorável e, assim, nada a temer. É preciso exorcizar os fantasmas de prognósticos pessimistas e crer sempre no triunfo da verdade, contribuído para que a Palavra de Deus continue por toda parte a iluminar os corações de boa vontade. Esta realidade não é captada pelas câmaras da televisão a endeusar a falsidade e a destacar sempre os crimes e não os atos virtuosos provindos da vivência do Evangelho. É preciso coragem para vencer estes obstáculos, temer, isto sim, as artimanhas do inimigo da salvação eterna de cada um. “Não tenhais medo” nos diz Jesus, isto porque Deus é fiel e firmará sempre quem o ama e teme na esperança e na paz e o testemunhará diante do Pai que está nos céus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

 


domingo, 7 de junho de 2020

Ao ver as multidões Jesus condoeu-se deoas




AO VER AS MULTIDÕES JESUS CONDOEU-SE DELAS.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Evangelista São Mateus mostrou como Jesus havia se compadecido das multidões porque eram como ovelhas sem pastor. O Mestre divino afirmou em seguida que a messe era grande, mas os trabalhadores poucos. Ele então escolheu doze Apóstolos e lhes deu poderes especiais para sua missão (Mt 9,36-10,8). Estes foram os primeiros enviados de Cristo ao mundo. O Reino de Deus se dilata quando aqueles que creem testemunham por palavras e obras o que Jesus ensinou. É de se notar que o fato de Cristo ter se compadecido das multidões não significa apenas a constatação de uma situação infausta, mas ocorrência que deve levar a atitudes concretas, as quais estimulem seus discípulos a trabalharem com afinco pela expansão do Evangelho. Jesus diante de um povo cansado e abatido não teve palavras de consolo e resignação, mas propôs um modo de ser que deve conduzir a mudanças existenciais. Estas abrem o caminho de uma verdadeira conversão. Isto deve mostrar mentalidades e atitudes eficientes que levem à implantação de um apostolado que conduza à vivência plena dos meios de salvação. Aí está a missão do Redentor, pois Ele afirmou: “Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Eis porque a Igreja oferece tantas atividades pastorais nas quais cada batizado se engaja dentro de seus carismas, de suas disponibilidades. Mesmo porque dentro do lar, nos ambientes de trabalho ou onde quer que esteja o cristão ele pode e deve evangelizar. Tudo isto além da própria ordem de Cristo de rogar ao Pai que envie sempre operários para sua seara. Portanto, Jesus não fez apenas uma verificação de uma situação deplorável que se repetiria através dos tempos, mas fez uma averiguação de que por causa da omissão, descuido ou negligência de seus seguidores muitos não alcançariam a felicidade eterna. Ficam privados dos meios necessários a este fim.   São aquelas ovelhas que deveriam ser tocadas pelo empenho de seus irmãos, mas foram deixadas de lado.  Daí ser necessário aos cristãos, orientados pelos sucessores dos doze apóstolos, reconhecerem sua vocação que é cooperar para que não haja ovelhas sem pastor. Trata-se de uma tarefa sublime que é testemunhar ser Jesus, de fato, “o caminho, a verdade e a vida”. Donde um exame sincero para verificar como temos feito este Jesus conhecido, amado e seguido para que não haja ovelhas desgarradas, cansadas, excluídas.    Anunciar Jesus não é um encargo exclusivo dos Bispos e dos Sacerdotes. Todos os batizados são convidados a trabalhar na vinha do Senhor. Com efeito, as necessidades espirituais de todos os que estão em nossa volta devem nos levar a um infatigável e generoso trabalho apostólico.  É necessário todo o  empenho para que não seja frustrado o desejo de Cristo, afim de que por toda parte se realize a obra da Redenção.   Como nos tempos de Cristo os obreiros são poucos em proporção a esta imensa tarefa.  O Papa São Paulo VI em 1977 dizia: “A responsabilidade da difusão do Evangelho que salva é de todos. De todos os que o receberam”. O dever missionário recai, portanto, sobre todo o Corpo da Igreja. De maneira e em medidas diferentes, é certo, mas todos devemos ser solidários no cumprimento desta obrigação. É deste modo que deve agir através dos tempos o novo Povo de Deus. Trata-se de um empenho espiritual que atravessa os séculos, porque sempre haverá clero e fiéis que respondem com fé à graça deste chamamento especifico. Por conseguinte, cada cristão deve aproveitar os meios de formação que a Igreja por meio dos sucessores dos doze Apóstolos lhe oferece nas circunstâncias concretas nas quais está colocado no seu dia a dia, Clero e fiéis fazem parte do plano de salvação estabelecido por Deus. Trata-se de uma obra divina. Ao escolher os doze Apóstolos, dando-lhes poderes extraordinários, Jesus lançou o germe de sua Igreja. Desde o começo de seu ministério público Ele colocou os fundamentos de sua Instituição. Assim sendo, através do evangelista São Mateus, implicitamente, mostrou a necessidade de uma formação doutrinária e apostólica de todos os batizados para desempenharem sua vocação cristã. Ininterruptamente, porém, todos lembrados de que Ele conta com a cooperação de cada um, porque a messe é sempre grande e os operários são poucos. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

eNGAJADOS NA VIDA TRINITÁRIA


ENGAJADOS NA VIDA TRINITÁRIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Deus no qual nós cremos e que está no coração de nossa fé, não é um Ser solitário, isolado. Uma só natureza, uma só substância, “Aquele que é”, como Ele mesmo revelou a Moisés (Ex 3,14). Na plenitude de seu Ser infinito, porém, a fé nos leva a adorar uma Trindade de pessoas realmente distintas. Distinção real, não meramente fenomenal ou funcional. Como ensina Tertuliano, a monarquia divina permanece indivisível, mas está distribuída entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esta diversidade não impede a soberana unidade da divindade, pois as três pessoas têm a mesma essência em uma harmonia e identidades perfeitas. Três Centros de Consciência, três Modos de existir, três Hipóstases ontologicamente arroladas e não apenas em plano meramente dinâmico e relacional. Tríade divinal que patenteia o Pai, o Filho e o Espírito Santo eternamente unidos no mesmo nome - Deus, no idêntico poderio e glória, numa inefável reciprocidade de conhecimento e afeição profunda. Mistério sublime: desde toda eternidade o Pai se conhece. Este pensamento é eterno, substancial, é a imagem de toda vida divina igual a sua origem. Eis a segunda pessoa, o Filho, o Verbo eterno. O Pai e o Filho eternamente se amam. Este amor é essencial, intemporal, é o Espírito Santo, Terceira Pessoa, que procede do Pai e do Filho.  Foi Jesus quem nos revelou os segredos do Ser Supremo e empregou uma linguagem tirada do mundo da família (Jo 1,16-18), pois Ele nos falou de seu Pai, Ele o Filho. O Amor eterno que os une desde toda a eternidade é o Espírito Santo. Portanto, embora seja impossível ao ser humano, que é limitado, compreender o mistério do Ser infinito, Jesus nos ofereceu palavras que estão ao alcance da inteligência humana para entender que o nosso Deus é Uno e Trino. Isto nos permite falar de Deus com nossas palavras. Podemos falar com Ele como um Pai, como um Irmão, como um Amigo. Jesus foi mais além ainda ao dizer que o Pai tanto nos amou que sacrificou o próprio Filho que tomara também a natureza humana unida à sua natureza divina e isto porque imenso foi o seu Amor por nós. Voltando, enquanto homem, para junto do Pai nos enviou, como prometera, o divino Espírito Santo. Estamos, assim, engajados na vida trinitária. A Trindade é nossa família! Somos os filhos e filhas bem amados do Pai através do Verbo Eterno todos imersos no Espírito Santo. Fomos batizados em nome das três pessoas e o batismo nos imergiu na comunhão de amor que une as três pessoas divinas. Eis porque sempre traçamos sobre nós o sinal da Cruz em nome destas três Pessoas, expressão viva de nossa dignidade de filhos de Deus, imersos que somos nesta existência trinitária e acreditamos no amor que este Deus tem por nós, como salientou São João na sua primeira carta (1 Jo 4,16). Eis porque o cristão deve reconhecer sua nobreza vivendo santamente na presença deste Deus três vezes santo, convivendo com o dinamismo do amor trinitário. Donde o conselho de São Paulo: "Vivei com alegria. Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em paz e o Deus de amor e da paz estará convosco (2 Cor 13,11). Eis aí a grande mensagem a ser vivida, mesmo porque a fraternidade que deve unir os cristãos é o sinal vivo da unidade divina. Nossa vida interior se alimenta deste movimento entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, nosso Deus misericordioso, cheio de amor e de verdade, segundo a revelação feita por Ele mesmo a Moisés (Ex. 33, 7-11; 34, 5b-9.28). Nem se pode esquecer que na Eucaristia recebemos o Pão vivo que dá a Vida divina, afim de que entremos sempre nesse amor trinitário, para depois podermos, de fato, irradiar este amor, amando os irmãos e irmãs como Jesus nos amou e isto sob as luzes do Espírito de Amor que une as três pessoas divinas. Somos todos convidados a participar do júbilo da Trindade para estarmos em condição de transmitir por toda parte este júbilo espiritual. Adoremos o Pai. Marchemos no desapego do mundo, seguindo Jesus. Abramo-nos às inspirações do Espírito Santo. Seremos deste modo um apelo à fé para todos. Acolhamos assim as graças da misericórdia deste Deus uno e trino que deve fulgurar na nossa vida. Como ensinou São Paulo, Deus é rico em misericórdia. Seremos salvos pela nossa fé confiante, recebendo com amor os dons divinos especialmente o Espírito Santo que reforça o nosso coração e nos permite produzir os verdadeiros frutos de justiça e caridade. Estamos assim celebrando uma história de ternura, a mais bela história de amor de todos os tempos. Na solenidade de hoje, mais do que nunca, deve fluir de nossos corações a secular saudação: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”! *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


sábado, 23 de maio de 2020


 RECEBER COM AMOR O ESPÍRITO SANTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Com a solenidade de Pentecostes celebramos o ápice da vida de quem foi batizado. O que era uma promessa de Deus se torna com a vinda do Espírito Santo um aprimoramento, pois a finalidade da existência do seguidor de Cristo é atingir a plenitude da personalidade cristã. São Paulo assim se expressou: “O próprio Espírito atesta com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8,16). Então se pode respirar e viver a bondade e a ternura deste Deus que habita na alma em estado de graça.  Trata-se de viver na luz em comunhão mútua com Ele que é luz (1 Jo 1,7). Criaturas novas iluminadas pela presença divina, “gozando todos de abundância de graça” (Atos 4,33). Cada cristão se torna assim uma carta de Cristo escrita com o Espírito do Deus vivo (2 Cor 3,3), procurando sempre as coisas do alto e não as da terra. Tudo isto resultante da presença de Deus intensamente vivida. Movidos pelo Espírito Santo, mesmo numa cultura como a atual voltada para o exterior, é possível fixar nesta realidade sublime que é ser herdeiros de Deus, coerdeiros de Cristo. Pentecostes então leva cada um a avançar mais longe e mais profundamente no mistério divino. Somos, de fato, preciosos diante de Deus, salvos pela paixão e morte de Cristo e repletos do Espírito Santo. Deste modo, o amor de Deus envolve todos que nele creem e pelo seu Espírito confirma o quanto cada um é valioso perante Ele, destinado à glória e ao esplendor eterno da visão beatífica lá no céu. Cumpre então estar envolvo na ternura e na misericórdia divinas, longe das trevas do erro e de qualquer pecado, pois o Espírito Santo nos atesta que nosso Deus é o Deus três vezes santo, Pai amoroso que tanto nos ama. É preciso, porém, deixar que o Espírito Santo faça em nós o que Ele quiser em nossas vidas, evitando, cuidadosamente, afastar as resistências advindas de um mundo materializado e das insídias diabólicas. Donde então o conselho de São Paulo: “Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias, mas examinai tudo, retendo o que é bom. Conservai-vos longe de toda a aparência do mal”! (Tes 5,19). A fidelidade em seguir as inspirações do Espírito Santo é uma garantia para jamais sucumbir diante do maligno. Saber escutá-lo, pois Ele, continuamente, bate à porta de cada coração para iluminar, vivificar e salvar. Isto é crer na sua força, dando-lhe uma resposta de amor, observando sempre seus apelos para uma vida cada vez mais perfeita diante de Deus. Nas orações individuais ou comunitárias é necessário perceber o que este Deus quer de cada um, o que Ele deseja fazer por nós, em nós e conosco. É a esta sabedoria que o Espírito Santo nos guia. Estar, portanto, atentos à novidade do Espírito em tudo e por tudo na prece ou em qualquer atividade. O Espírito Santo é para a Igreja e os cristãos o Espírito da memória, da lembrança, da continuidade com Jesus. O que Ele nos faz compreender e viver é tudo aquilo que Jesus ensinou. O Paráclito simplesmente, divinamente nos rememora tudo que Jesus fez e pregou da parte do Pai. Entrar na novidade do Espírito é, assim, descobrir progressivamente a dignidade de ser cristão, andando como filhos da luz, captando sempre o que há de eterno nas menores ações cotidianas, porque feitas por amor a um Deus que tanto nos ama. Purificado pelo Espírito Santo, imerso nesta dileção divina o cristão se torna, como desejou Jesus, luz do mundo e sal da terra. Esta se torna então o lugar da misericórdia divina. O coração do cristão cessará de duvidar e temer pelo presente ou pelo futuro, perante suas responsabilidades, porque sentirá sempre junto de si o poder do Espírito Santo a sustentá-lo. O cristão se torna sábio espiritualmente, dado que o Paráclito fará com que ele entenda a linguagem do amor vitorioso. Eis porque é preciso sempre pedir ao Espírito Santo seus sete dons. A sabedoria que leva a degustar a presença de Deus, jamais dele se separando. A inteligência que ajuda a entrar no mistério de Deus e a compreender o essencial da fé, da Palavra divina contida na Bíblia, a distinguir o erro da verdade, levando a uma mudança de vida. A ciência que permite reconhecer Deus na obra da natureza e na história, valorizando todas as dádivas divinas, A fortaleza que conduz à perseverança nas tentações, à coragem de testemunhar por toda parte o Evangelho, tornando cada um vitorioso no combate espiritual, executando do melhor modo os deveres de cada instante. O conselho que dispõe a ver claramente o que é melhor para si e para os outros, em tudo discernindo a vontade de Deus. A piedade que faz entrar na experiência da paternidade divina, aproximando cada um da ternura do Pai que está no céu. O temor que não é o medo de Deus, mas que é possuir o sentido da grandeza do Ser Supremo e temer dele se separar. Saibamos cultivar sempre estes sete dons e seremos cada vez mais santos como santo é o nosso Deus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
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segunda-feira, 18 de maio de 2020


ESTOU 




ESTOU ESTOU CONVOSCO TODOS OS DIAS

                                      Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Antes de sua ascensão ao céu, Jesus confirmou a missão dada aos Apóstolos e assegurou sua duradoura assistência à Igreja, firmando sua infalibilidade (Jo 28, 16-20). Sua partida para junto do Pai não significava que sua obra redentora estava terminada e que não deixaria seus seguidores órfãos. Os onze e seus sucessores deveriam ir pelo mundo proclamando a Boa Nova a todos os povos. Pelo livro dos Atos dos Apóstolos se pode ver como nas primeiras comunidades cristãs não somente a palavra de Deus ia se espalhando, mas também que a mensagem de Cristo não perdia nada de sua eficácia. Sobretudo os apóstolos Pedro e Paulo anunciavam com vigor tudo que Jesus havia ensinado, mas também operavam milagres tão estupendos como os feitos pelo Mestre divino. Curavam os cegos, os coxos e até ressuscitavam mortos. É que Jesus, tendo ido para junto do Pai, embora ausente, permanecia atuante na sua obra salvadora. Verídicas suas palavras: “E eis que eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo”. Ele continuou a agir no coração mesmo de sua Igreja. O mistério de sua Ascensão traz à baila duas realidades que poderiam parecer opostas. De um lado era proveitoso que Ele voltasse para junto o Pai e fosse lá nosso intercessor, mas por outra é de se notar que se tratava de uma ausência aparente, pois Ele foi fisicamente, mas continuou presente espiritualmente de maneira de fato extraordinária, eficaz e poderosa. De junto do Pai Jesus enviou o Espírito Santo e Pentecostes iniciou a história da Igreja através dos tempos. A ordem de Jesus foi não apenas doutrinar todas as gentes, mas ainda “batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ensinando-as a observar tudo que Ele mandou. Há, assim, um liame profundo entre a Ascensão e o Batismo. O Batismo inaugurou a vida pública de Cristo, a Ascensão foi o limite final. São Pedro deixou isto bem claro ao afirmar, como está nos Atos dos Apóstolos, que tal foi a trajetória de Jesus “a partir do batismo de João até o dia em que do meio de nós foi elevado ao céu” (Atos 1,22). O Batismo pelo qual se multiplicariam seus seguidores é, realmente, uma imersão na vida trinitária. Vida em Deus, vida do Espírito Santo, vida de Jesus que, deste modo, estaria com seus discípulos até a consumação dos tempos. Termos sido batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo não foi um rito mágico, mas o começo de uma marcha com Jesus, colocando nossos passos nos seus passos, mesmo porque no final de nossa passagem por este mundo, na outra margem da vida, Ele está à nossa espera.  Deste modo a Ascensão se torna nosso destino, o fim da caminhada terrena iniciada no nosso batismo. Tal o sentido profundo da vida do cristão viver como Jesus para um dia estar com Ele por toda a eternidade. Eis aí o que Jesus ressalta no dia de sua Ascensão. Ele nos dá o poder de nos tornarmos filhos de Deus, de viver pelo batismo, desde agora e por toda a eternidade, com Ele, unidos ao Pai e ao Espírito Santo. No momento em que Ele deixa esta terra, Ele revela a seus discípulos que um lime definitivo os une com a Trindade Santa, ligação tão forte que nada deverá separar. Nem podemos nos esquecer de que, indo para o Pai no dia de sua Ascensão, Ele se deixou ficar também na Eucaristia. Ele havia dito solenemente: “Quem come  a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Deste modo, a solenidade da Ascensão fixa verdades maravilhosas que devem ser a razão de ser do cristão. Resulta uma profunda esperança que lança alegria total no coração de quem ama a Jesus. Esperança que é uma virtude dinâmica, um motor para a perseverança no bem, dilatando o coração no desejo de estar com o Mestre divino após uma vida virtuosa nesta terra. Tudo isto deve ser fixado, tanto mais que se vive numa sociedade triste, sombria, depressiva, repleta de hediondos crimes, exatamente porque para muitos o céu, onde Jesus está a nossa espera, deixou de ser o fim último de todas as atividades. Impressionam desilusões lamentáveis afogadas no álcool, nas drogas, nas ações mais deprimentes. Nada, portanto, mais necessário do que irradiar as mensagens da Ascensão de Jesus para que a luz da fé faça brilhar em todos os corações a certeza de um destino glorioso. Reavivemos, portanto, nossa esperança fagueira: Jesus está à nossa espera lá na Casa do Pai! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.







ECONV

segunda-feira, 11 de maio de 2020


O ESPÍRITO DA VERDADE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Antes de sua Ascensão ao céu Jesus deixou aos apóstolos palavras consoladoras, garantindo-lhes que Ele rogaria ao Pai e Ele lhes daria outro Consolador, o Espírito da Verdade (Jo 14,15-21). O Paráclito confirmaria tudo que Ele ensinou e convenceria o mundo de seus erros. É que o Confortador revelaria sua presença e comunicaria total fidelidade à sua palavra. Podia então afiançar que não os deixaria órfãos. Um adeus assim repleto de consoladoras promessas, enchendo o coração de seus discípulos de confiança e esperança. O critério, porém, do amor que a Ele é devido seria sempre a observância radical dos seus mandamentos, cuja guarda seria a prova da dileção a Ele e disto resultaria o amor do Pai. Admirável, de fato, a presença e a obra do Espírito Santo na comunidade de seus seguidores. Estes seriam criaturas novas através da renovação interior operada pelo Espírito da Verdade. Este levaria os cristãos à plena comunhão com o Amor trinitário, estando presente em cada um de seus fiéis. Este Espírito da Verdade seria sempre o protetor da fé e o pedagogo da vida espiritual do cristão. A grande mensagem, portanto, que Jesus deseja que recebamos é acolher este hóspede interior que não nos deixa jamais sozinhos. É preciso se refugiar nele, nos entreter com Ele como nosso mestre espiritual. Cumpre sempre criar um espaço que permita o Espírito da Verdade agir dentro de cada um de nós. É o que deve acontecer não apenas nos colóquios das orações individuais, mas, sobretudo, através da participação ativa nas Missas dominicais, que comunicam mensagens consoladoras para cada semana. Com efeito, o Espírito da Verdade deseja transformar para melhor a vida de cada cristão. É uma sabedoria celestial saber escutá-lo e agir por Ele. É deste modo que as palavras de Jesus se tornam atuais e sempre novas para cada um e para toda a Igreja. Todas estas considerações já preparam cada um para daqui a quinze dias no glorioso 31 de maio próximo receber nova efusão do Espírito Santo por ocasião da solenidade de Pentecostes. O Espírito da Verdade virá para sanar nossas vulnerabilidades, nossas limitações, os obstáculos que impeçam de ser verdadeiros discípulos de Jesus por meio de um combate corajosos contra toda mediocridade. A luta entre o bem e o mal, entre a fidelidade ou a infidelidade para com Deus dependerá sempre da ajuda continua do Paráclito, do Defensor, do Espírito da Verdade. Ter disto consciência é o que Cristo pede ao anunciar que sobre seus seguidores viria esta força divina. É ela que permitirá caminhar vencendo todas as artimanhas do maligno com coragem, perseverança e continuas vitórias nas veredas do bem e das virtudes. O critério para estar de acordo com o Espírito da Verdade não vem da inteligência, mas da própria consciência através da qual nos fala o Paráclito. A consciência é mais do que um mero saber, é uma luz que leva a crer e esperar.  Daí surge a fidelidade que leva a um progresso interior, a um dinamismo maravilhoso, a um estilo de vida realmente cristão. Este então trabalha continuamente para crescer na própria perfeição, contribuindo para o bem comum, para a felicidade de todos. É a misteriosa comunhão dos santos que se dá. Compreende-se desta forma que “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”, como bem se expressou Elisabeth Leseur. O Espírito da Verdade lembra continuamente que Jesus veio para a salvação de todos. Cada vez que o cristão se esforça para se tornar mais humano está melhorando toda a humanidade, pois se torna mais próximo de Deus, mais se assemelha a Cristo. Eis aí a obra maravilhosa do Espírito da Verdade. Grande é, portanto, a responsabilidade do cristão. Este deverá ter sempre uma intuição sobrenatural, um olhar novo e positivo a envolver todas as suas atividades, iluminando a todos que se acham em seu derredor. É a realização concreta do que preceituou Jesus: “Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Portanto, é através dos acontecimentos de cada hora que os cristãos podem impregnar o mundo com a presença de Deus. É uma resposta aos apelos da fé, permitindo que o Espírito da Verdade trabalhe dentro do coração do discípulo de Jesus.  Nunca plenamente sabemos o bem que fazermos quando fazemos o bem. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
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