segunda-feira, 9 de março de 2020


ENCONTRO O COM JESUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Cansado da viagem através da caminhada no deserto, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó (Jo 4,5-42). Era por volta do meio dia e ali chega uma mulher samaritana para apanhar água. A ela Cristo pede: “Dá-me de beber”. Ele era Deus que havia assumido um corpo humano com todas as suas limitações e, naquelas circunstâncias, dele a sede se apossara.  Pendente da cruz lá no Calvário uma das suas últimas palavras seria “Tenho sede”. Em ambas as ocasiões, era Deus que, em seu Filho encarnado para a salvação da humanidade, revelava algo de seu mistério redentor, pois, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Ele era um todo-poderoso Senhor. Eis também porque, sabiamente, o diálogo com a samaritana ganhou um tom espiritual, pois Jesus revela àquela mulher que era Ele quem possuía uma água viva que apaga toda e qualquer sede. O papel se inverte então, dado que era ela quem passa a lhe suplicar: ”Senhor, dá-me desta água”. Foi o instante precioso no qual o Mestre divino lhe desvenda os dois dramas de sua vida, a saber, sua desordem conjugal, pois ela diz que não tinha marido e sua dubiedade religiosa, uma vez que ela não sabia onde se devia adorar o Criador, a saber, se naquele monte ou em Jerusalém. Ali estavam os dois obstáculos principais que impediam que ela pudesse estar unida a Deus. Jesus, porém, a leva, sem, porém, a julgar, a reconhecer humildemente os dois impasses da sua vida, as duas sedes insatisfeitas que tornavam infeliz sua existência. Naquela mulher estava a figura da humanidade entregue a si mesma, vítima de sua desobediência às ordens divinas desde o pecado original. Donde os conflitos amorosos e religiosos. O homem sem a graça de Deus não mais atingiria a plenitude do amor e nele restaria sempre a sede da verdade e do bem. A água viva de que fala Jesus é o símbolo da presença do Espírito Santo que viria para sanar a sede do verdadeiro amor aos homens e ao próprio Deus, Seria, portanto, necessário abrir o coração, retirar todas as fendas que deixassem escapar esta água espiritual, que restaura no ser humano toda sua dignidade. É esta reflexão que leva o cristão a bem se utilizar da quaresma, para uma perfeita revisão de vida, colocando-se inteiramente dentro dos parâmetros divinos. As ilusões do atual contexto histórico deturpam tantas vezes a conduta humana e o ser criado ao invés da água viva toma vinagre que não pode estancar sua sede de eternidade junto de Deus após ter feito Sua vontade aqui na terra. Eis então o tempo para que cada um reconheça humildemente seus erros e os sane com o socorro do Todo-poderoso Senhor. Aí está bem retratada a situação do homem perante Deus. A samaritana tinha sede de amar e de adorar. Jesus oferecia a água viva de seu amor. Aí está o sentido de sua sede junto daquele poço e, um dia, lá no Calvário. Ele pôde dizer: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância" (Jo 10,10). Junto dele há a solução para os mais profundos anseios do ser humano, sobretudo do homem ocidental contemporâneo. Este tem muitas vezes sede de riqueza, de acumulação de bens, de honras, de prestígio, de consumo, de prazeres tantas vezes desregrados. Dá-se o que Deus queixou através do Profeta Jeremias: “Meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram o manancial de águas vivas e cavaram cisternas rotas que não retêm águas”. (Jer 2,13). Donde o drama vivido por muitos. É preciso parar e refletir sobre os desejos que só servem para aumentar a sede espiritual. É preciso que a sede humana encontre a sede de Jesus para que, como ocorreu com a samaritana, a vida ganhe novos rumos. Disto resultará a conquista da vida eterna. Jesus leva sempre a conhecer o dom de Deus. É para oferecer este dom que Ele cruza os caminhos de cada um. O importante é sempre dialogar com Ele como fez a samaritana. Ele interpela para depois pronunciar a palavra que emancipa e salva. Ele conhece a história de cada um, sua esperança e também suas fragilidades. Mas Ele sabe também que no fundo de cada coração, como acontecia com a mulher de Samaria, há um desejo profundo de poder beber a água viva que Ele oferece para se atingir a felicidade eterna. Jesus é sempre aquele que salva. Ele quer tudo para tudo santificar, operando maravilhas como fez com a vida da samaritana. Ele coloca a lume as feridas interiores para poder agir e abrir um caminho de total felicidade e verdadeira liberdade. O diálogo com Jesus é construtivo porque Ele não emprega pressões morais, mas age no nível da verdade. Suas palavras são sempre de misericórdia e, por isto, sumamente libertadoras. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

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quarta-feira, 4 de março de 2020


A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No episódio da transfiguração de Jesus chama atenção a presença de três apóstolos: Pedro, Tiago e João (Mt 17,1-9). Não se sabe a razão pela qual foram eles os escolhidos para acompanharem o Mestre divino até o monte Tabor. Isto vem lembrar que, embora as preces comunitárias na família, na paróquia sejam de suma importância, é preciso que haja no decorrer do dia orações pessoais, porque Deus tem planos especiais para cada um. Muitas vezes o seu seguidor é levado a repetir com São Pedro: “Senhor, é bom ficarmos aqui” (Mt 17, 1-9). É preciso, porém, perseverança e saber captar o que Ele quer especialmente para cada um, oferecendo diversos meios para nos ajudá-lo, levando-o a melhor conhecê-lo. Por isto o Pai, como no Tabor, falará a cada um: “Este é o meu Filho amado, ouvi-o”. Diz o Evangelista que, ao escutar isto, “os discípulos caíram de rosto por terra e foram tomados de grande medo”. Ficaram impressionados. Tratava-se de um fenômeno sobrenatural do qual participavam Moisés e Elias. As vestes de Jesus se tinham “tornado brancas como a luz”. Foi natural que o espanto tomasse conta daqueles três privilegiados apóstolos. Isto mostra o quanto Deus quer mesmo participar da vida de cada um. Jesus, porém, sempre dirá: “Não tenhais medo”. É que sua presença é sempre alentadora. Ela inspira confiança. Ele oferece todas as condições para estarmos diante do Deus três vezes santo, que Ele ensinou ser o nosso Pai celeste. Cristo transfigurado foi mais uma prova de que a revelação é, antes de tudo e, sobretudo, amor que difunde felicidade. A luminosidade que envolveu Jesus na montanha sagrada indicou a glória do próprio Deus. Este Deus havia dado ordens à humanidade através dos mandamentos transmitidos por Moisés e pelas mensagens passadas pelos profetas então representados por Elias. Ambos eram assim duas figuras emblemáticas da Antiga Aliança. Ali, porém, estava como protagonista Jesus, o Messias enviado por Deus para salvar a humanidade. Entretanto, a luz divina que fulgiu no momento da transfiguração foi momentânea, pois viriam depois as trevas que envolveriam o Filho de Deus no alto da cruz. Ele morreria, mas “Deus de Deus, Luz da Luz” ressurgiria gloriosamente para definitivamente iluminar todos os que lhe pertencem, salvos pelo sangue redentor. É que a glória de Deus não brilha somente no céu, no mundo invisível, ela se expande também no mundo visível através dos seguidores de Jesus. Ele mesmo os chamou de “luz do mundo”. Portando, profundo o sentido da Transfiguração no Tabor, levando cada cristão a se sentir extraordinário e excepcional neste mundo que deve ser por ele iluminado. Dignidade enorme ter parte na luz de Cristo. Ser luminoso, colocando seus passos nos passos do Transfigurado. Ter assim um coração luminoso, fruto da prática das virtudes. É por ser esta luz que o seguidor de Cristo não se envergonha de ser um autêntico cristão, não se calando, quando deve falar; enfrentando todas as dificuldades com ânimo; sendo exemplo para os desanimados. Deste modo, os cristãos mostram que na Nova Aliança não se trata de acolher uma nova lei ou uma nova profecia, mas crer na obra da graça manifestada em Cristo, observando tudo que Ele ensinou. Trata-se de viver segundo a fé e a moral do Evangelho, mas uma fé proveniente da total entrega à Pessoa de Cristo, o bem-amado do Pai, vitorioso sobre a morte. Então, não obstante o mal que desfigura o mundo, a vida divina terá a última palavra graças à ação dos cristãos, mesmo porque Jesus disse claramente: “Eu venci o mundo (Jo 16,33). A religião cristã é a religião da relação viva e atual com Jesus que no Tabor deixou transparecer um pouco de sua infinita grandeza. Isto aconteceu para revigorar seus discípulos que deveriam enfrentar as forças do mal. Desta maneira, participando da aliança que o Pai estabeleceu com seu divino Filho eles, após iluminarem esta terra com seus exemplos, participarão da vida e da luz perenes lá no céu. Ao iluminar este mundo, o cristão está a mostrar que há uma realidade além desta existência visível. Assim sendo, a Transfiguração de Jesus é uma celebração que irradia fé e esperança e dá força para que cada um vença os desafios do cotidiano rumo ao Tabor eterno, * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

vENCER AS TENTAÇÕES


VENCER AS TENTAÇÕES
Côn.; José Geraldo Vidigal de Carvalho.
Estamos no primeiro domingo da quaresma que é este tempo de preparação para a solenidade da Páscoa, centro da fé cristã. A palavra quaresma vem do latim quadragesima significando quarenta. É o período de quarenta dias, subsequentes à Quarta-feira de Cinzas este ano até 9 de abril. Neste primeiro domingo do tempo quaresmal o Evangelho nos fala das tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1-11). Isto vem lembrar que nenhuma vida humana se desenrola sem o combate contra o inimigo infernal. O texto de São Mateus se refere ao demônio que é o diabo, ou seja, aquele que divide, desune, rompendo a unidade do ser humano, o qual, sendo criatura, é induzido a se rebelar contra o seu Criador e a romper a união com os irmãos e irmãs. O Evangelista usa também o termo tentador porque o diabo procura seduzir para o mal. Jesus usa ainda a palavra satanás, porque o diabo é o pai da mentira, o acusador ou caluniador. Suas artimanhas visam suscitar nos seres humanos o ter, o saber e o poder, fora dos planos divinos. Às malignas insinuações do demônio Jesus opôs a Palavra de Deus. A seu exemplo o cristão assediado pelo demônio se apoia no seu Senhor para receber a força do Espírito Santo e se ajustar sempre à vontade divina a bem próprio e dos outros. O que Jesus recusou ao diabo Ele o faria para os outros. Com efeito, ele não quis sabiamente mudar as pedras em pão, mas depois multiplicaria cinco pães para saciar a fome de uma multidão que o seguia num lugar deserto. Na última Ceia transubstanciaria o pão em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade para saciar pelos tempos afora a fome espiritual de seus seguidores, instituindo o Sacramento da Eucaristia. Ele descartou todo poder e glória terrestres propostos pelo demônio.  Revelaria, porém, sua realeza em todo seu esplendor, transformando a ignomínia da sua cruz em cruz vitoriosa e gloriosa, oferecendo a salvação a todos que O acatassem. Milhares que através dos tempos proclamariam que Ele é, de fato, o Rei imortal dos séculos. Uma multidão de discípulos que se revestiriam de seu incomensurável amor. Para ser um modelo para seus seguidores Ele não quis escapar à tentação. Ele foi tentado, mas desmascarou o tentador que não teve nenhum poder sobre Ele. Deu uma ordem peremptória ao inimigo infernal: “Vai-te satanás, pois está escrito: “Adorarás ao Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto”. Ele que ensinaria seus discípulos a pedir ao Pai: “Não nos deixeis cair em tentação”, havia ministrado uma lição de como não sucumbir às insinuações diabólicas. Ele estaria sempre ao lado de seus fiéis que estivessem dispostos a se libertar do pecado. Admirável, sem dúvida, a maneira pela qual Jesus quis afrontar as tentações, mostrando-se enquanto homem, vencedor do príncipe das trevas. Nesta cena das tentações seus discípulos poderiam vislumbrar como Jesus travou, enquanto homem, o combate espiritual, saindo triunfador no plano individual. O combate para cada cristão, seja qual fosse sua situação, haveria de passar pelo equilíbrio de sua postura interior e exterior, pois estaria sempre dentro de uma dimensão familiar, comunitária, social, profissional, política, Então as tentações variariam e poderiam ser desejos dos bens materiais, bem simbolizados no pão; o anseio da glória, tentando a Deus com súplicas insaciáveis de poder; ou estaria adorando satanás, desejando possuir todos os reinos do mundo. Deveria, porém, o cristão superar suas fragilidades com a proteção divina. Jesus foi claro com o demônio:” O homem deve viver de toda palavra que sai da boca de Deus”. Nada de sonhos fantásticos que  tiram da realidade, criando desconfortos desnecessários por força da ambição que agride a verdadeira riqueza de uma vida simples longe da  cascata de gastos que geram as situações mais aflitivas. As artimanhas de satanás encontram no atual contexto histórico campo fértil para fazer  os  homens caírem em suas armadilhas.  Numa sociedade marcada pelo consumismo,  grande a atualidade e universalidade das três tentações a que Jesus se submeteu. Elas são profundamente simbólicas e emblemáticas, mas não menos reais. Reina hoje em dia  a insatisfação porque muitos querem o que não precisam, e se precisam vão muito além do que necessitam. Muitos os gastos que nada agregam às reais precisões pessoais e familiares. Muitas vezes não se tem consciência do que é importante no que tange à qualidade de vida e o anseio de um padrão ilusório conduz à infelicidade. A quaresma deve então levar a racionalizar as opções de modo a evitar todo e qualquer excesso que impeça o crescimento pessoal. Uma atitude mais funcional e racional do consumo material, valorizando, isto sim, aquilo que leva cada um a se sentir espiritualmente mais rico e materialmente seguro. Trata-se de uma revisão de vida nesta preparação para a Páscoa. Cristo que venceu as tentações do demônio no deserto e com sua ressurreição triunfou sobre a morte, deve ser o referencial do verdadeiro cristão que com Ele sempre pode derrotar satanás e seus sequazes. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


pEREFEITOS COMO O PAI CELESTE


PERFEITOS COMO O PAI CELESTE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A seus seguidores Jesus propôs um ideal sublime para o qual todos precisam tender sem esmorecimento. Claras foram as suas palavras: “Sede perfeitos como é perfeito vosso Pai celeste” (Mt 5, 38-48).  Trata-se da busca incessante da santidade existencial, vencendo cada um com galhardia as dificuldades naturais a criaturas humanas contingentes, finitas, limitadas.  Estas sem a graça divina nada de bom podem realizar nesta trajetória terrena. Ao dar a referida ordem o Mestre divino acentuou a singularidade filial dos seres humanos que, em consequência, tendo consciência desta filiação, devem se sentir irmãos. Aí o fundamento de toda fraternidade para com o próximo. Eis aí a maneira de ver e agir que Jesus propõe a seus discípulos que devem viver na mais absoluta fraternidade. Donde a razão de ser de sua determinação peremptória: “Amai vossos inimigos e rogai pelos que vos perseguem, para serdes verdadeiramente filhos do vosso Pai que está nos céus”. Cumpre imitar a imensa bondade deste Deus “que faz nascer o sol sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos”. Quem assim procede acumula méritos para o céu que é o destino de todos os que praticam em plenitude a caridade. Jesus deu exemplo deste amor fraterno que inclui os inimigos. Condenado injustamente à morte ignominiosa da Cruz, Ele rogou ao Pai pelos seus torturadores: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Este modo de proceder multiplica através dos tempos gestos magníficos a anistiarem os opressores, os perseguidores. Uma multidão que na alheta do Filho de Deus perdoa de coração seus malfeitores. Neles o verdadeiro cristão reconhece sempre irmãos e irmãs a serem indultados. Neles contemplam a dignidade de filhos e filhas de Deus. É que há em todo o ser humano, mesmo no pior dos inimigos, um valor, uma presença universal do Pai celeste que conduz acima de todos os condicionamentos de ofensas, inclusive de raça, ideologia, religião, ultrapassando todas as barreiras que possam impedir um amor generoso. É a esta atitude que deve levar uma fé profunda integrada no pensamento maravilhoso de Jesus cujo ensinamento ultrapassou a legislação mosaica. É esta fé que permite compreender o que o Mestre divino quis ensinar. Esta fé induz a viver em harmonia com todos. As atitudes dos seus discípulos devem ter uma tonalidade dignificante que apaga o ódio e toda e qualquer queixa de uns para com os outros. O Deus ao qual Jesus manda imitar é um Deus misericordioso, bondoso, sempre pronto a ajudar os que a Ele se ligam. Este Deus prioriza sempre a ternura, a compreensão. O cristão tem então a missão de espalhar por toda parte este amor divino pelo qual se deve agir em favor dos irmãos e irmãs. Todos os gestos do cristão precisam ser o reflexo do desvelo do Pai celeste. Mesmo vivendo num contexto agressivo como o atual o comportamento dos seguidores de Jesus precisa ser diferente num mundo tão hostil e violento. Cumpre não se deixar envolver pela mentalidade de hostilidade que os meios de comunicação social apresentam, incitando vingança e represálias de toda sorte. Cumpre priorizar menos nossos interesses pessoais, mas dar lugar aos interesses daqueles que são menos favorecidos que nós. É preciso agir mais com o coração do que com uma razão deturpada e desumana. É através dos bons sentimentos que Deus age em cada um e pelas atitudes gentis, cordiais é que o cristão se aproxima da perfeição divina. O apelo de Jesus é então que se integrem no amor de Deus todos os nossos comportamentos cotidianos, unida nossa vontade à vontade santíssima do Pai que está nos céus. Este Pai provoca sempre atitudes altruístas pelas quais Ele se faz presente nas relações mútuas dos verdadeiros cristãos. É deste modo que se contribui para que a sociedade evolua harmoniosamente dentro dos parâmetros indicados por Jesus em seu Evangelho. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

A IDENTIDADE DO CRISTÃO


A identidade do cristão
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A quem é verdadeiramente seu seguidor Cristo declarou com toda clareza: ”Vós sois o sal da terra [...] Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-16). Dois elementos que identificam o cristão. Que enorme responsabilidade! Com efeito, assim como o sal preserva da corrupção e a luz ilumina, assim também cumpre a seu discípulo proteger o mundo da decomposição moral e aclará-lo com a salutar doutrina e as boas ações. Nem sempre se apreende a profundidade da excelência de quem foi batizado. Em um de seus sermões São Gregório Magno assim se expressou: “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias com um comportamento indigno da tua geração. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro. Não esqueças que foste libertado do poder das trevas e transferido para a luz do reino de Deus. O preço do teu resgate é o Sangue de Cristo”. Em consequência, grande é a parte do cristão em tudo de bom que há no mundo, mas também pode ser enorme sua culpa na maldade que campeia em seu derredor. Trata-se, portanto, de um profundo exame de consciência que Jesus exige de quem é seu sequaz. Isto não deve ser algo vago no espírito de cada um, mas uma realidade profunda na existência do cristão por ser um alerta fundamental do Mestre divino. Ser sal da terra e luz do mundo eis aí uma norma basilar para quem ostenta o honroso título de cristão, o qual deve demonstrar, onde quer que esteja, o amor do Pai e o que é o Reino por Jesus apregoado. Como sal o cristão a expor o gosto de viver tudo que Ele ensinou, tornando-se uma luz por entre as trevas dos erros mais abomináveis. Trata-se de uma questão de coerência e de gratidão, pois foi gratuitamente que cada um recebeu no batismo missão de tão grande repercussão mundo todo, mundo a ser preservado do pecado e transfigurado pela luz divina da qual deve ser portador cada um de nós. É a este ministério sublime que somos todos chamados por Jesus. Tarefa singular junto de uma humanidade ferida pela desordem moral e pelos desvios mais lamentáveis. O batizado é colaborador do divino Redentor na construção de seu reino de virtudes, alumiando os que se acham no reino das trevas. Eis porque o cristão vai buscar na Eucaristia, na sua união mais profunda com seu Senhor, a graça de ser sal que preserva e luz que fulgura. Nunca se medita demais sobre esta verdade: “O cristão é outro Cristo”! Donde a necessidade de se examinar bem o que faria Jesus nesta ou naquela ocasião. Certamente estaria Ele praticando a caridade, jamais Ele abriria sites pornográficos nem se exporia às ocasiões de pecado ou a qualquer desvio moral. Toda vez que o cristão sabe compadecer-se do sofrimento alheio e dá o bom exemplo ele está agindo como Jesus atuaria. O cristão tem esta incumbência de espancar as escuridões dos vícios, espiritualizando o ambiente no qual vive. A indagação de Jesus, porém, é clara: “Se o sal perde sua força com que se há de salgar”. O mesmo se dá quando não há luz que aclara. Daí a obrigação de seu seguidor de rever sempre seus conceitos e suas ações que, quer queira quer não, influenciarão para o bem ou para o mal. Cabe ao cristão ser verdadeiro sal da terra e luz do mundo, levando por toda parte o tempero da sabedoria e o archote da fé. Jesus é o Santo de Deus e é preciso segui-lo fielmente na justiça e na santidade ao longo de todos os dias nesta terra. É necessário então pedir ao Senhor que saibamos sempre oferecer o sabor espiritual à vida dos que estão em nosso derredor e a eles levar sem cessar a luz da verdade. A amplidão da tarefa a ser executada neste mundo poderá até desconcertar diante das dificuldades que surgem. Entretanto, para ser o sal ou luz para os outros cada um conta sempre com a graça divina. O essencial é ser testemunha de Jesus para que outros não se apartem dele. É preciso estar atentos porque por toda parte há pessoas frágeis, oprimidas que clamam por uma ajuda espiritual. É a hora em que se deve ser para o outro sal e luz. Trata-se de quebrar as cadeias de almas cativas. Tal atitude gera também para quem assim age a paz, a alegria. É que ser sal da terra e luz do mundo beneficia não somente os outros, mas também a si mesmo. Isto se dá porque todo o bem que se faz é fruto da ação do Espírito Santo. É Ele quem oferece às coisas da terra seu justo sabor e aos acontecimentos diários seu autêntico valor, tudo aclarando pela fé. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

JESUS, SALVAÇÃO DE TODOS OS POVOS


JESUS, A SALVAÇÃO DE TODOS OS POVOS.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
A solenidade da apresentação de Jesus no templo de Jerusalém, cumprindo o que estava escrito na lei mosaica, recorda a presença de Maria, tendo em seus braços a oferenda do mundo, o próprio Filho de Deus, e José trazendo o donativo dos pobres, a saber, dois pombinhos (Lc 2,22-40). O Menino Deus é então consagrado ao serviço divino para salvação de toda a humanidade, colocado à disposição de Deus para vencer a morte. Lemos na Carta aos Hebreus: “Pela sua morte reduziu à impotência aquele que detinha o poder da morte, isto é, o demônio” (Hb 2, 14). Ali estava Aquele que era a luz do mundo, conforme proclamou o velho Simeão: “Luz para esclarecer as nações e glória de Israel seu povo”. Simeão prediz a Maria que uma espada de dor traspassaria seu coração. Deste modo a apresentação de Jesus foi uma antecipação do mistério pascal, pois Ele por amor, no alto do Calvário, seria o Cordeiro imolado. Simeão não era nem sacerdote, nem rabi, nem levita, mas era um homem ajustado ao querer divino, um filho de Israel que esperava a promessa totalmente associada ao destino de seu povo. Foi, portanto, bem escolhido pelo Espírito Santo para anunciar o Messias. Com o Menino Deus em seus braços ele estava apto a bendizer o Criador e a proclamar o destino do Redentor e de sua mãe. Ele já podia morrer em paz, porque havia visto e tocado aquele que se sacrificaria para a vida do mundo, Deus fiel que tinha se lembrado de seu povo. Disto tudo fluem mensagens luminosas para a vida dos seguidores de Cristo. Por entre os acontecimentos que envolvem a caminhada neste mundo o cristão se sente muitas vezes na fronteira entre o dom de si mesmo a Deus e a atração para o endeusamento dos bens materiais, vítima do minimalismo que impera no atual contexto histórico. Precisa, deste modo, o seguidor de Cristo da luz e da paz anunciadas por Simeão. Esta luz e esta paz devem reinar no coração de cada discípulo daquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, garantia da autêntica felicidade e da real liberdade humana. Daí a importância da presença de Maria que não vacilaria perante os sofrimentos desconhecidos, imprevistos, incompreensíveis, mas, segundo Simeão, incluídos nos planos eternos de Deus. Ela se torna deste modo o modelo da submissão completa ao projeto divino da redenção de cada um. Cristo, depois, deixaria claro em suas pregações que quem quisesse ser seu discípulo deveria tomar a sua cruz e segui-lo. Não se trataria de estar envolvido em nuvens negras da dor e da angústia, pois Ele, como disse Simeão, era a luz que não deixa haver trevas em derredor dos O acompanham, É por isto que, apesar dos sofrimentos inerentes ao atual exílio, o cristão não desanima nunca e, com entusiasmo, a exemplo de Maria coloca seus passos nos passos de seu Filho. O esplendor divino em hipótese alguma deixa o cristão esmorecer. É que Ele é, de fato, a luz vinda a este mundo, iluminando os que jazem as trevas, Ele o Sol nascente que veio do alto nos visitar, fazendo-se companheiro de viagem na nossa trajetória terrena. Saibamos, assim, a exemplo de Maria, José, Simeão e Ana ir ao encontro de Jesus e cada um se tornará um iluminado, colaborando na salvação do mundo inteiro. Nada de se lançar nas escuridões da angústia e do pecado, mas confortados pela certeza de estar indo rumo à luz gloriosa e eterna do céu, ficando firmes na total adesão aos preceitos do Senhor. Pela fé no divino Salvador, que vem sempre a nosso encontro, nos tornamos membros do povo de Deus, dado que Ele é a salvação oferecida pelo Pai que está no céu. De fato, indo sempre até o Filho de Deus encarnado, acolhendo-O em nossos corações passamos a fazer parte do novo Israel. Daí um profundo júbilo diante desta realidade. Nosso encontro com o divino Salvador ocorre em inúmeras circunstâncias, mas, sobretudo, na liturgia que nos faz reviver ao longo do ano as etapas da vida do Filho de Deus neste mundo. Batizados, nos tornamos filhos amados do Pai, e, se, infelizmente, ocorrer algum pecado grave, o sacramento da Confissão restaura a presença divina no íntimo de cada um. Então, recuperada a graça santificante, pode o cristão novamente comungar. Aliás, seria uma falta gravíssima ousar diabolicamente ir à mesa eucarística machado com o pecado mortal. A comunhão é o encontro sublime com aquele que afirmou: “Quem come a minha carte e bebe o meu sangue permanece em mim eu nele”. Trata-se de um encontro com a Luz verdadeira que se manifesta a seu seguidor num gesto admirável de amor. É através destes vários encontros com o divino Salvador que o cristão corresponde a seu desejo de transformar o mundo, iluminando-o pela sua cooperação, vivendo uma vida santa, praticando todas as virtudes. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A CONVERSÃO E O REINO DE DEUS


A CONVERSÃO E O REINO DE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No início de sua pregação da boa nova neste mundo, começo de seu ministério público, na sua primeira admoestação, antes mesmo de chamar seus primeiros discípulos, Jesus recomenda solenemente: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 4,12-23). Esta conversão significa mudança de mentalidade, verificando se a Palavra de Deus tem tido plena aplicação na vida cotidiana de cada um. Existência iluminada pela luz divina que deve ser irradiada por toda parte. Trata-se da libertação das insídias diabólicas e da entrega total ao serviço de Deus na justiça e na santidade. É o reviver no Espírito Santo que leva a repudiar pecados num retorno absoluto às realidades celestes. As primeiras mensagens de Jesus ao iniciar sua evangelização foram assim palavras de arrependimento e purificação do coração. Assim se estará caminhando na luz do Senhor e não nas trevas longe do reino de Deus. É que neste reino não entrarão os orgulhosos, os perversos, os pecadores renitentes. Entretanto, a imagem do Reino do Céu não deve causar temor, mas, sim, o desejo de não o perder através da humildade, do remorso, da mudança de vida, pelo repúdio de toda ação indigna do cristão. É o caminhar nobremente como em pleno dia, agindo sempre na claridade, resplandecendo diante dos outros pelas boas obras. Com efeito, como bem se expressou Elisabeth Leseur, “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”. Graças aos bons exemplos e as palavras oportunas muitos são os que reencontram o Mestre da Vida que a todos criou para a alegria interior, para a paz da consciência durável e profunda, para um júbilo todo divino. E deste modo que se caminha para o Reino do céu, arrastando muitos para também o conquistar. Trata-se de deixar de lado os falsos ídolos e de se entregar inteiramente a Deus. Isto porque somente Deus é a vida verdadeira. A idolatria dos falsos prazeres, da ambição, do afã de dominar leva à frustração, à tristeza, à decepção. É preciso então se converter para Aquele do qual vem toda autêntica salvação. Cumpre poder dizer o que o salmista asseverou no salmo 26: “O Senhor é minha luz e salvação, de quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida, perante quem eu tremerei? [...] Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver na terra dos viventes”. Assim, será possível proclamar: “Espera no Senhor e tem coragem, espera no Senhor”. Foi de propósito que Jesus iniciou sua pregação na Galileia, bem o símbolo da salvação universal que Deus oferece a todos.  Como salientou São Mateus, “Galileia dos gentios, o povo que jazia nas trevas”, dela fez Jesus o centro da irradiação do Evangelho, indo inicialmente pregar nas suas cidades e nas suas aldeias. O chamamento dos primeiros apóstolos, após lançamento do cerne de suas preleções, tem também um sentido profundo. Com efeito, isto significa que Jesus desde o início de seu apostolado escolheu discípulos que após seu retorno para junto do Pai no dia de sua Ascensão, iriam prosseguir o seu trabalho no tempo e no espaço. Na Galileia nasce assim uma evangelização que caracterizaria sua Igreja séculos afora. Antes, como notou São Mateus Jesus havia deixado Nazaré e fora morar em Cafarnaum uma cidade agitada, cruzamento de várias nações e culturas, de variadas religiões onde imperava a diversidade e a desordem. Nem sempre se observa que foi nesta região que Jesus escolheu os primeiros colaborados, de plano, pescadores de peixes que deveriam se tornar pescadores de homens de todas as raças e línguas. Ele os instruiria e por isto o evangelista diz que aqueles rudes homens simplesmente se puseram a segui-lo. Caminhariam junto com Ele abertos à diversidade, aprendendo que não há maior amor do que dar sua vida pelos que precisam de conversão, como os excluídos da sociedade, os que têm fome de esperança. Conflitos e tensões haveriam de existir no seio de sua Igreja, mas nada deveria impedir a expansão do Evangelho. Inúmeros movimentos evangelizadores se sucederiam através dos tempos.  Deste modo, por exemplo, com o Concílio Vaticano II o notável apostolado dos leigos foi incentivado com todos os seus desdobramentos. Atividades apostólicas que propendem para o grande anseio de Cristo: a extensão e a consolidação do reino de Deus. Todos cooperando para a expansão deste reinado porque todos somos súditos deste soberano Senhor. Para todos há lugar nos mais diversos ramos de apostolado, segundo o carisma próprio de cada um. Assim pela prece, pelo exemplo e pela palavra surgem maravilhosas conversões. É preciso, de fato, que o desejo de Jesus ressoe por toda parte: “Convertei-vos, porque está próximo o reino dos céus”. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.