segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A PORTA ESTREITA


A PORTA ESTREITA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As indagações que eram feitas a Jesus Ele nem sempre as respondia detalhadamente, diretamente, mas delas se servia para deixar uma mensagem rica de ensinamentos. Assim se deu quando lhe perguntaram: “Senhor são poucos os que se salvam”? (Lucas, 13,22-30). Tratava-se do problema sério do caminho da salvação eterna. Era uma vã curiosidade em busca de uma segurança pessoal. O Mestre divino respondeu, porém, através de uma exigência. Asseverou claramente: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque, vo-lo digo, muitos tentarão entrar e não conseguirão”. Uma questão é certa: um dia a porta que dá entrada ao banquete celeste irreversivelmente se fechará, pois para cada ser humano chegará a hora na qual terá lugar a última página de sua vida. Todos estão convidados para o festim lá na casa do Pai, mas o ingresso no mesma é através de uma caminhada que levará a uma porta estreita. Isto supõe devotamento, abnegação, sacrifício. A existência humana não é uma rota atraente que seduza os sentidos. É preciso olhar além das dificuldades imediatas, pois a felicidade para a qual o Redentor convida seu seguidor é destinada aos fortes, aos corajosos, aos virtuosos, aos que carregam sua cruz sem esmorecimentos. Não há, como não houve para Cristo, o triunfo do Domingo de Páscoa sem a Sexta feira do Calvário. Sem sacrifício não será possível obter um lugar no ágape eterno. A porta que dá acesso ao mesmo é estreita, apertada e por ela não passarão os que não acataram os desígnios divinos bem expressos nos mandamentos que exigem muita abnegação. Esta alicerçada numa fé profunda e num amor sem limites à pessoa do Salvador. Os que se retardarem em se converter baterão nesta porta, mas Jesus deixou patente qual será a resposta: “Afastai-vos de mim vós todos obreiros da iniquidade”. Eis porque São Paulo deixou este alerta na carta aos gálatas: “Enquanto temos tempo façamos o bem a todos” (Gal 6, 10). É imprescindível uma opção radical: ou crer plenamente ou querer servir a dois senhores, a saber, a Deus ou ao mundo e suas ilusões. Para passar pela porta estreita é preciso coerência entre o que se professa e o que se pratica. Não pode haver meio termo. Não há lugar para a mediocridade. É certo também que a Providência divina oferece inúmeras oportunidades para que haja uma revisão de vida, mas razão tinha Santo Agostinho ao asseverar: “Temo a Jesus que passa e que pode não voltar”. Por força das insinuações diabólicas surgem por vezes sofismas refinados para justificar um tipo de vida mais fácil, longe das exigências do Evangelho, mas tal não foi o exemplo de Jesus que na agonia do Horto das Oliveiras disse ao Pai: “Que minha vontade não se faça, mas a tua” (Lc 22,42). Todos têm que escolher entre dois caminhos: um centrado sobre si mesmos e as ilusões terrenas, o outro com olhos fixos na eternidade. Não há santidade sem sacrifícios. Esta verdade, contudo, deve determinar as decisões cotidianas do cristão. Este precisa cuidar que sua existência esteja longe do egoísmo, das paixões, dos valores do mundo, mas seja pautada pelo Evangelho, pela Lei de Deus e os deveres próprios de seu estado de vida. A felicidade perene de cada um dependerá da lealdade para com sua consciência e da fidelidade ao projeto de amor de um Deus sumamente afável. É necessário, contudo, se dispor a corresponder à infinita bondade divina. A porta é estreita, mas não é impossível de ser transposta. Na sua bondade sem limites Deus espera um mínimo de esforço de cada um, mas nunca se pode esquecer que esta porta será fechada. A salvação eterna, porém, não está reservada a um pequeno número, pois Jesus disse abertamente que virão eleitos “do oriente e do ocidente, do norte e do sul e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus”. São aqueles que corresponderam às inspirações divinas depararam as rotas que levam até este Deus misericordioso. As portas da salvação se fecharão para aqueles que procuraram se salvar por si mesmos sem se preocuparem em fazer o que agrada a seu Senhor. É necessário se conformar sempre com os critérios de Deus. Cumpre compreender que é Deus mesmo que vem ao encontro de suas criaturas e multiplica as ocasiões para que cada um perceba que é Ele que conduz até à porta estreita que leva ao banquete do céu. * Professor no Seminário de mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

a minha alma engrandece o Senhor


01 MINHA ALMA ENGRANDECE O SENHOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O mistério da solenidade da Assunção de Maria ao céu aparece claro nos textos litúrgicos desta solene festa mariana. No Evangelho a Mãe de Jesus se mostra como a humilde serva do Senhor e na primeira leitura ela é apresentada, na visão de São João, como a mulher revestida de sol e coroada de doze estrelas.  A explicação desta transformação está nas palavras da saudação de Isabel. a primeira teóloga do Novo Testamento: “ Bendita  és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. E donde me é dado a graça que venha visitar-me a mãe do meu Senhor? (Lc 1,42-43) Na sua encíclica sobre a fé, intitulada Lumen Fidei o  papa Francisco assim se expressou: “A Mãe do Senhor é o ícone da fé (...) Na mãe de Jesus, com efeito, a fé manifestou todo o seu fruto” (LF 58). Uma fecundidade integral bem explicada pelo Chefe da Igreja: “Na plenitude dos tempos, a Palavra de Deus foi dirigida a Maria e ela a acolheu com todo o seu ser, no seu coração”. Ela, realmente, ao dizer ao Anjo no momento da Anunciação “que tudo se faça segundo a tua palavra”  se engajara ainda mais plenamente nos desígnios de Deus. Foi uma adesão  total, sem condições, um sim  sem disposições restritivas. Ela se colocou nas mãos de seu Senhor de corpo e alma e, porque foi uma entrega absoluta de todo o seu ser, no término de sua passagem por esta terra entrou de corpo e alma nos palácios do grande Rei, sendo com toda a justiça glorificada. Eis porque a Igreja festivamente celebra sua Assunção , ela Mãe do Redentor e de todos os redimidos. Um júbilo universal porque trata-se da exaltação de nossa Rainha cuja entrada no céu lembra aos seus filhos que ela prefigura a ressurreição de todos que a seu exemplo são fiéis a Deus. Maria, nossa mãe espiritual, nos precedeu  num maravilhoso itinerário de glória. Antes de penetrar na Casa do Pai de corpo e alma, ela passou pelo Calvário a nos mostrar que é através das vicissitudes da existência terrena, suportadas com perseverança, é que poderemos um dia estar em sua companhia por toda a eternidade. Como aconteceu com ela a glória é sempre precedida pela cruz. Todos os aspectos da celebração da Assunção de Maria dizem, portanto,  respeito não apenas a ela, mas a cada um de nós que deve reter lições tão preciosas de um acontecimento glorioso que não pode se cifrar numa mera comemoração. Os santos que veneramos em nossos altares compreenderam profundamente todos estes ensinamentos e caminhando para a felicidade eterna, transformando os espinhos da vida em méritos que durarão por todo sempre. Aí, portanto, o grande convite da solenidade de hoje: que cada um se entregue resolutamente ao caminho de transfiguração de seu ser, condição para a ressurreição de corpo e alma no dia do Juízo Universal. Dar como Maria um sim a Deus sem condições, uma resposta de fé ao Deus de amor. Então Ele fará na vida de cada um maravilhas como ocorreu com Aquela que hoje contemplamos já no céu de corpo e alma. A festa de hoje se torna um convite a uma total revisão de projetos, tudo adaptado ao final glorioso que será estar lá onde ela nos aguarda. Diante dos percalços do dia a dia o grande remédio contra o medo de não perseverar, perante o temor das dificuldades próprias de um exílio, é imitar a fé que esplendeu na Virgem gloriosamente elevada aos céus. Deste modo é que o cristão se torna testemunho da esperança, esclarecido pela Palavra de Deus. Maria está a nos dizer que em Jesus o cristão é um grande vencedor das insídias de satanás num mundo imerso em paixões desregradas e que passa por cima dos mandamentos sagrados de Deus. Mais do que nunca cumpre que todo cristão tenha com a graça de Deus a audácia para triunfar de tantos erros espalhados pelo mundo afora e inculcados pelos meios de comunicação social. Festejamos, porém Nossa Senhora da glória e no Novo Testamento o termo glória manifesta plenamente a mensagem de pura luz como a do sol fulgurante. Tal foi a presença de Deus em Maria: uma transparência que rebrilhou como o astro rei. Assim sendo a figura de Maria elevada aos céus nos ergue para as realidades do alto e não para as misérias terrenas. A glória desta mulher bendita já chegara ao auge desde o momento da Encarnação do Verbo de Deus ao qual se uniu ainda mais. Por isto sua morte foi qual suave sono do qual logo despertou para ser recebida triunfalmente por toda corte celeste. Tal é a glória de Maria, tal nossa glória um dia, tal a glória de toda a Igreja. Júbilo profundo irradia a festa de hoje, porque Maria que já se acha gloriosamente de corpo e alma lá no céu é o grande sinal de que se, a seu exemplo, formos fiéis às inspirações divinas estaremos junto dela por toda a eternidade na felicidade perene que Deus reserva aos que viverem não em função das realidades mundanas, mas das realidades celestes.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

IMPORTÂNCIA DA VIGILÂNCIA


IMPORTÃNCIA DA VIGILÂNCIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A vigilância é um termo recorrente na pregação de Cristo.  Seus alertas são imperativos: “Felizes daqueles servos que o senhor, à chegada, encontrar vigilantes [ ... ] Estai preparados, vós, porque  na  hora em que menos pensais o Filho do homem chega” (Lc 12,32-48). É preciso penetrar fundo no sentido desta advertência: “Estai preparados”. É imperioso então que o cristão esteja atento para reconhecer sempre os sinais que Deus continuamente lhe envia. Trata-se, através do dom do conselho, de saber interpretar os diversos acontecimentos da vida. Isto se dá quando, evitando a dispersão, o seguidor de Cristo vai cumprindo fielmente suas obrigações cotidianas. Olhos fixos no encontro final com o Filho de Deus ao deixar um dia este mundo para penetrar na eternidade. Bem executar suas tarefas diárias, vivendo na presença de Deus, é estar seguindo a recomendação do Mestre divino. Este advertiu ainda: ”A quem muito foi dado, muito será exigido, e àquele a quem muito se entregou muito mais se pedirá”. Enorme, portanto, a responsabilidade de cada um que deverá prestar um dia contas dos dons recebidos. A consciência de ser muito agraciado deve levar o seguidor de Cristo a um esforço constante, envolto, porém, numa absoluta confiança na misericórdia divina. È através de cada um de nós que Deus prossegue sua obra nesse mundo. No final da existência do cristão nesta terra haverá o reencontro com Cristo que colocará o selo de Deus em toda a obra que seu discípulo realizou nesta terra com esforço e muito amor. Ninguém pessoalmente sabe quando isto se dará, pois a morte de cada um é o fato mais certo, mas também o mais incerto quanto ao tempo e a hora. Eis porque Jesus quer que cada um passe seus dias como quem O está esperando no momento que, desde toda eternidade, está marcado no livro da vida. Há duas maneiras basilares para aguardar a vinda do Filho do Homem, ou seja, para quem não tem fé se abre o caminho do desespero e da angústia, para quem crê a esperança mais fagueira o envolve e, ativamente, vai preparando o encontro com Aquele que virá para recompensar tudo de bom que foi feito. Eis por que o verdadeiro cristão vive numa vigilância contínua. Daí o valor do alerta hoje recordado. Isto leva a uma supervalorização do tempo num crescimento ininterrupto da santidade pessoal. Pouco importa o lugar no qual a Providência divina colocou o seguidor de Cristo com suas tarefas específicas, com seus deveres próprios de sua vocação.  O essencial é que, quando Ele vier, o possa encontrar atento, vigilante, multiplicando as boas obras, frutos de uma fé profunda, nunca se perdendo o gosto de viver e tudo realizando sob o olhar de Deus, num nível de honestidade tal que na hora de se deixar esta terra se possa ouvir do Mestre divino: “Eia, servo fiel, entra no gozo de teu Senhor”. Isto, de fato, não importa o instante, seja a meia noite, ou pela manhã, ou durante o dia, ou ao entardecer, pois o importante é que se esteja lá onde se deverá estar para bem O acolher. Deste modo a medida da nossa fidelidade será a medida de nossa felicidade, pois Jesus chegará e passará para nos levar por toda a eternidade  para a Casa do Pai. Neste mundo o cristão já possui na fé e pela fé a realidade esplêndida do mistério de Deus. Entretanto na medida em que ele se apoia no seu Criador e não conta senão com Ele é que esta fé cresce e ilumina toda sua vida, colocando-o em estado de sábia vigilância. Esta faz então dar frutos na realidade de sua vida, na espera de seu Senhor. Deste modo, o céu se torna uma realidade viva, fundamental e não algo longe como uma miragem. Jesus nos convida então a nos abandonar à Providência divina, possuindo uma confiança sempre maior.  Animadoras suas palavras: “Não tenhais receio, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino”. É lá que deve estar centrada a vida do cristão, mesmo porque Jesus foi claro: “Onde está o vosso tesouro, aí está o vosso coração”. Estes são novos ingredientes para sermos vigilantes. Esta vigilância atenta tão bem cantada nos salmos: “Aguarda minha alma o Senhor, mais que as sentinelas a aurora, espere Israel o Senhor, porque no Senhor está a misericórdia” (Sl 129,5-7) [...] “Consumiram- me os olhos à espera do meu Deus” (Sl 68,4). É que a esperança é um aguardar seguro da glória futura. Assim, é essencial a vigilância contínua para que não se percam os bens eternos. Esta vigilância chama cada um à  responsabilidade de uma vida inteiramente cristã, longe de tudo que desagrada e Deus e compromete a salvação eterna.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



segunda-feira, 29 de julho de 2019

A VERDADEIRA CONCEPÇÃO DA VIDA HUMANA


01 A VERDADEIRA CONCEPÇÃO DA VIDA HUMANA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Um dos preciosos ensinamentos de Jesus foi registrado por São Lucas: “Guardai-vos de toda cobiça porque a vida de alguém não está na abundância de seus haveres” (Lc 13,12-21). Com relação aos bens materiais é preciso, de fato, que o seguidor de Cristo evite dois extremos: uma espiritualização exagerada e o viver extremamente devotado aos bens, valores e prazeres terrenos, o que agride sua dimensão espiritual. Trata-se de perceber com sabedoria a relação entre a conquista do céu e os bens desta terra. A parábola do rico insensato ilustra com precisão o ensinamento do Mestre divino, concluindo que equivoca lamentavelmente “quem entesoura para si e não é rico em relação a Deus”. O ser humano autêntico que vive em função de seu Criador vale mais do que aquele que possui todas as riquezas deste mundo. Infeliz, realmente, quem se limita apenas ao horizonte terrestre sem o liame vivo com Deus e sua palavra de vida eterna.  O cristão sem depreciar as realidades terrestres, engajado no mundo em que vive, está sempre voltado para as realidades além-mundo. Para viver desse modo sabiamente é preciso rogar a Deus: “Ensina-nos a contar os nossos dias” (Sl 90,12). Assim se evita a cupidez, a ganância, valorizando apenas o necessário para a vida, sem legitimar o supérfluo não imprescindível para uma vida digna de um autêntico batizado. Este foge continuamente da idolatria do dinheiro a qual leva a desejos ilimitados, fazendo esquecer as realidades celestes e, nesta terra, olvidando as necessidades dos outros. Tudo para si como bem ilustra a parábola do homem insensato que não refletia que a vida passa e nada se leva para a eternidade, a não ser o uso sensato dos benefícios materiais. Note-se que Jesus não disse que o dinheiro e as riquezas são maus e inúteis, mas condenou, isto sim, o apego exagerado aos mesmos. Fazer bons investimentos a fim de ter o que é preciso para a manutenção da própria vida e para ajudar os outros não é em si algo condenável. Não se pode é deixar levar pela ilusão da estabilidade e da segurança naquilo que é passageiro, porque a vida passa com o tempo e o principal é aumentar os méritos para o céu. Há, realmente, duas maneiras de conceber nossa existência, ou seja, considerando que tudo termina com a vida terrestre ou considerando que esta vida é apenas uma etapa para a vida eterna. Diante desta alternativa todos devem se posicionar é a magna lição  do Mestre divino. Cumpre haver uma coerência total entre o que se crê e o que se vive. Eis, portanto, um ledo engano daqueles que só pensam em se enriquecer mais e mais ou aproveitar ao máximo dos prazeres não cuidando de seu crescimento espiritual. Luta contínua contra todo e qualquer pecado. O referencial deve ser o que acontece além-morte, sendo a passagem por esta terra uma preparação para o encontro definitivo com Deus. Sublime é o destino do ser humano que deve, isto sim, ajuntar um tesouro lá na casa do Pai. Trata-se da verdadeira sabedoria de que fala São Paulo na sua primeira carta aos Coríntios: “É, de fato, de sabedoria que nós falamos entre os perfeitos, não, porém, da sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que são reduzidos à impotência, mas falamos da sabedoria de Deus, envolta em arcano, sabedoria escondida que, antes dos séculos, Deus já havia destinado para a nossa glória” (1Cor 12, 6-8). Concita então que “ressuscitados com Cristo procuremos as realidade do alto e não as da terra” (Col 3,1). A lembrança da aurora eterna deve iluminar o cotidiano da vida do cristão e isto através das horas que passam e não voltam mais. De Deus é que vem toda iluminação perfeita. Eis porque o segredo da existência humana  é o amor deste Deus do qual viemos e para o qual caminhamos.  Este amor leva, não há dúvida, a usar de tudo que o Criador oferece vivendo cada um somente para Ele. Deste modo, se aguarda amorosamente o dia eterno junto do Pai. É o verdadeiro amor que leva a julgar a maneira de utilizar os bens terrenos. Esta capacidade de amar e de ser amado por Deus é que dá sentido e o valor à vida de cada um, ciente de que o resto é ilusório, com a morte nada de material se leva para a outra vida. Endeusar os bens materiais é, portanto, uma insensatez. Eles devem servir para a própria subsistência, para o sustendo dos familiares, para o progresso da comunidade na qual se vive. O que não se pode é perder de vista o objetivo final de toda vida humana. Os bens materiais a serviço de todos e jamais a escravidão aos mesmos, o que levaria a uma ruina no que tange o mundo futuro. Ruina porque no final da vida se verá com tristeza o mau emprego das coisas recebidas de Deus, as quais deveriam ter contribuído para o bem próprio e do próximo.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 22 de julho de 2019

O DIAPASÃO DA PRECE DO CRISTÃO


O DIAPASÃO DA PRECE DO CRISTÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No declive do monte das Oliveiras, após mais um momento de oração, um dos discípulos pediu: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1-13). A prece fazia parte da vida de Jesus e isto, por certo, impressionava seus seguidores. Ao responder, o Mestre divino legou aquela que seria a mais bela e popular oração dos cristãos. Sem marcas de egocentrismo o pensamento logo se volta para Deus que é Pai, pedindo que seu nome seja santificado, que seu reino venha até nós e que sua vontade seja totalmente feita. A Ele se dirigem depois súplicas comunitárias: o pão cotidiano solicitado para todos, requerendo o perdão dos pecados, com a condição de se anistiar todos os ofensores. Adite-se um pedido final imprescindível: “Não nos deixes cair em tentação” O ser humano está sempre sujeito às invectivas do demônio ou de si mesmo ao se expor às aliciações contrárias aos preceitos de seu Senhor. Vencê-las é essencial para que se atinja a santidade existencial e Jesus deixaria esta ordem: “Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Fica então aberto o caminho da purificação, alicerçada numa total confiança no Pai que levará sempre quem O implora a triunfar dos males físicos e morais. Tudo isto oferece motivações para que com atenção, fervor e convicção seja rezada prece tão preciosa, que não é um monólogo, mas uma terna conversa com Deus Eis porque a postura de quem a recita deve ser de absolutas fé e sinceridade. Trata-se de uma prece que envolve todo o ser humano, ou seja, o sentido de Deus, seu nome, sua glória, seu reino e nossas necessidades fundamentais, a saber, o pão espiritual e material, necessário para a subsistência; incluindo também nossas relações com o próximo, isto é, o perdão, que é fonte de paz e harmonia. É todo o ser humano que fica higienizado. Este processo de purificação realiza-se através da perseverança na recitação atenta das palavras desta prece. Eis porque não deve ser proferida automaticamente, mas degustada, absorvendo a profundidade das verdades que ela encerra, desejando tudo que nela se solicita a Deus. Quem reza esta oração composta pelo próprio Filho de Deus se lança numa aventura de familiaridade com o Senhor Onipotente e com os outros. Trata-se de uma intimidade que vai além das palavras, impregnando a vida de cada um com a certeza da grandeza do Pai, cujo reino deve se estender por toda parte, Ele que oferece o pão cotidiano, perdoa os pecados, leva a anistiar os ofensores e não deixa tal orante cair nas garras de satanás. Deste modo, todas as outras orações ganham sentido profundo e oferece ao Espírito Santo oportunidade para transformação de cada um rumo à própria santificação. Jesus ensinou a ver Deus como Pai, o Criador, o Senhor do espaço e do tempo, Ele que deve dirigir o destino de cada um.  Pai que oferece segurança absoluta e que merece ser tratado com sumo respeito e ternura. Daí a certeza de que somos amados por Ele tais como nós somos, apesar das fraquezas humanas e por isto se pede a Ele: “Perdoa-nos os nossos pecados”. Ao pedir “venha o teu reino” isto significa que se almeja que o plano de amor deste Deus, que é Pai, realize entre todos os homens seu projeto de salvação. É preciso ainda notar que ao impetrar a Deus que seu nome seja glorificado se mentaliza que sua glória externa depende dos que nele creem e que o mundo fica melhor quando milhares de fiéis por toda parte estão num clamor universal pela grandeza do Ser Supremo que merece toda honra. Deste modo a prece que foi composta pelo Mestre divino visa o reconhecimento da irrestrita exaltação de Deus a quem o ser criado deve inteiramente se submeter. Além disto, ela vem em socorro das necessidades espirituais e materiais, abrangendo todos os bens necessários à glória divina e à subsistência de cada um. Até a última petição desta oração tem uma amplitude maravilhosa: “Não nos deixes cair em tentação”, isto é, que Deus guarde cada um das seduções das forças diabólicas contra os sagrados mandamentos, das atrações do poder, do prazer desregrado, da ambição. Rezar com fervor esta oração é estar em especial diálogo com Deus, dilatando o coração para o bem, voltado cada um inteiramente para Aquele que deve ser louvado e que, poderoso, pode salvar de todos os males. * Professor no Seminário de Mariana durante40 anos.




segunda-feira, 15 de julho de 2019

IMITAR O BOM SAMARITANO


IMITAR O BOM SAMARITANO
Côn. José Geraldo Vidigal de Caralho*
A parábola do bom samaritano é, sem dúvida, uma das passagens mais preciosas da Bíblia (Lc 10,25-37). Evoca a beleza e o poder do amor que devem prevalecer em todas as circunstâncias, vendo até num estrangeiro uma pessoa digna de toda a compaixão. Revela a essência mesma do grande mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo” (Mc 12,28-34). Cumpre, de fato, ultrapassar todas as barreiras para, na medida do possível, socorrer quem precisa de um auxílio oportuno imediato. Nesta parábola Jesus ilustra a supremacia da caridade acima de todas as convenções sociais e pessoais. O sacerdote e o levita eram bem os representantes religiosos do judaísmo e os judeus consideravam como próximo apenas os parentes, os correligionários, os compatriotas, com exclusão total dos gentios. Jesus visava ensinar então que todos até mesmo os inimigos merecem cabal consideração. Os seres humanos são chamados a formar nele um só corpo. Por isto Jesus apresentou como modelo um samaritano, dado que os samaritanos eram considerados como hostis aos judeus e por eles detestados. Foi, contudo, um samaritano que teve compaixão daquele que jazia por terra, despojado e coberto de feridas, abandonado meio morto. Mostrou comiseração e não foi indiferente e insensível perante o padecimento do desamparado. Sua atitude revelava um apelo à solidariedade com os sofredores. Era assim que deviam proceder os discípulos de Jesus não agindo como o sacerdote e o levita judeus. Os seguidores de Cristo não poderiam ser espectadores mudos, indiferentes diante dos males alheios. A insensibilidade é pior do que a hostilidade, porque o indiferente perante as desgraças alheias, ignora os sofredores como se eles não existissem. Foi o que manifestaram aqueles. que passaram e ignoraram uma pessoa humana padecente. O bom samaritano patenteou o verdadeiro sentido da compaixão. Multiplicou inclusive os gestos de caridade, não apenas procurando sanar as feridas, mas levando aquele estrangeiro a uma estalagem e assumindo todas as despesas da assistência que lhe seria dada. Toda uma série de ações decorrentes da comiseração e da bondade de seu coração. Jesus deixou claro como deviam proceder os que se chamariam cristãos, os quais precisariam multiplicar, dentro de suas possibilidades, a ajuda afetiva e efetiva ao próximo. Ele era o verdadeiro Bom Samaritano que não hesitou tomar nossa humanidade para nos oferecer a salvação, sacrificando-se por nós até à morte e morte de cruz. Como Mestre admirável com esta parábola ensinou o verdadeiro sentido da misericórdia, da comunhão com os outros. Todos os seus discípulos repletos de generosidade e de ternura, perdoando uns aos outros como Ele mesmo perdoou no alto de sua cruz aos que o maltrataram tão cruelmente: “Pai perdoai-lhes eles não sabem o que fazem”! Segundo o Papa Bento XVI Jesus universalizou o conceito de próximo que deve ser objeto de ações concretas. Não se trata de um amor genérico e abstrato, mas requer um engajamento real aqui e agora. Lembrava então este Papa que no juízo final (Mt 25,31-46) o amor ao próximo se torna o critério para a decisão definitiva concernente ao valor ou o não-valor de uma vida humana. Jesus se identifica com aqueles que estão sofrendo, ou seja, os que têm fome ou sede, os estrangeiros, os doentes, os prisioneiros, os nus. Todas as vezes que alguém os amparou foi a Ele que foi feito este gesto de caridade. Eis o critério supremo para se alcançar a vida eterna. Por isto a procura da felicidade perene consiste na prática do amor fraterno. Eis aí um caminho não só desejável, mas possível a todos. Cumpre ter olhos para ver as feridas que fazem o outro sofrer e trabalhar na medida da possibilidade de cada para oferecer uma ajuda oportuna. Cumpre também então que se evite sempre não ser um espinho a mais na existência alheia. O samaritano da parábola de Jesus não se esquivou, mas socorreu logo quem jazia à beira do caminho. A todos os seus seguidores Jesus aconselhou então a fazer sempre o mesmo, agindo como aquele samaritano  caridoso. Este não se esquivou, mas foi até àquele que jazia inerte por terra e assumiu todos os cuidados que aquele sofredor deveria receber, demonstrando um amor realmente atuante. A caridade tem sua lógica que não se limita a soluções paliativas. Muitas vezes não será à beira de um caminho que se deparará com alguém que sofre, mas tantas vezes são aqueles que estão sob o mesmo teto, os próximos mais próximos que precisam de uma palavra de alento, de atenção, de gestos de paciência. Este é o caminho do verdadeiro cristão cônscio de suas responsabilidades e solidariedades. Cumpre pedir ao divino Samaritano que abra nossos olhos para amparar os que se acham feridos, angustiados. Eles precisam ser amados e amparados, porque neles se verá sempre a figura de Jesus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

Oração e ação


ORAÇÃO E AÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
O episódio ocorrido em Betânia onde moravam Maria e Marta leva a uma reflexão sobre a oração e a atuação nos afazeres diários (Luc 10,33-42). Cumpre conciliar os momentos dedicados à prece e aos trabalhos cotidianos. Maria estava escutando Jesus, se imergindo na Palavra de Deus, e Marta agindo, preparando a refeição para o ilustre hóspede. Entre os discípulos de Jesus uns são mais sensíveis aos bens espirituais e outros aos bens materiais. É preciso saber harmonizar uma e outra atitude. Jesus ao dizer a Marta que “Maria tinha escolhido a melhor parte, esta não lhe será tirada”, mostrava que a oração era superior à ação. Jesus, aliás, nas suas pregações sempre prescreveu uma caridade ativa. Célebre sua advertência: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Aos apóstolos, aos ouvintes, cada qual segundo o seu estado e profissão, Ele ensinou que é preciso cumprir os deveres que Deus lhes impõe enquanto durar a vida, pois com a morte cessa o tempo favorável para conquista da felicidade eterna. Ele repreendeu Marta, não pelo fato de que ela estava trabalhando, mas porque estava agitada. Há uma diferença enorme entre agir e se agitar. Como também não fazer nada não é rezar e menos ainda ser um contemplativo. Muitos ficam de tal modo envoltos nas tarefas a serem feitas que não encontram momentos de oração e acontece, igualmente, que há aqueles que não sabendo bem controlar o tempo descuram o cumprimento do dever de cada dia. O segredo do bem viver é transformar as menores ações em atos de amor a Deus e ao próximo. Assim sendo, nos instantes reservados à prece se pode tranquilamente usufruir a presença divina. Jesus mostrou a Marta que ela estava inquieta e confusa com muitas coisas, imersa num materialismo insensato, tornando-se escrava de sua ocupação. Escapava-lhe o sentido de seu serviço e, agitada, ela perdia a alegria de poder servir a Jesus, tendo a paz interior. A maioria das distrações na oração vêm da preocupação com as coisas materiais. A prece e os afazeres não se opõem, mas bem compreendidos levam à fuga de toda mediocridade na oração e na ação. O verdadeiro cristão não pode definir o tempo da oração como uma simples inatividade, como não deve fazer da ação uma agitamento desnecessário. Para conseguir este equilíbrio a prioridade como salientou Jesus com relação a Maria é a escuta da Palavra, das inspirações divinas advindas da oração. Desta é que fluem a sabedoria e a força necessárias para bem realizar as tarefas diárias. Muitas vezes pode ocorrer que a inquietação pela organização do trabalho leva a se perder o seu valor intrínseco. Com efeito, não se pode esquecer de que qualquer atividade em si é um serviço prestado ao próprio Mestre divino que disse: “O que fizerdes ao menor de vossos irmãos, foi a mim que o fizestes”. Portanto, continuamente se pode haurir os benefícios de tudo que se faz vendo no próximo a figura de Cristo. Neste caso não se age como Marta submersa na amplidão dos deveres. É preciso como Maria parar para verificar o que Deus realmente quer e lhe solicitar a energia necessária para bem agir. Nunca se valoriza demais o tempo que se reserva à oração individual ou comunitária que deve ser uma pausa no meio da agitação cotidiana. Portanto, não se pode opor simplesmente uma Maria orante a uma Marta ativa; uma Maria piedosa a uma Marta agitada; uma Maria concentrada na oração a uma Marta dispersiva nos afazeres. Esta diferença entre as duas irmãs é também marcada pela postura delas perante Jesus.  Marta está preocupada em agradar o hóspede divino com uma multidão ações, enquanto Maria se liga a Jesus pela escuta. Marta recebeu Jesus, mas não O escutava. Maria O escutando, mostra a atitude da discípula atenciosa e cortês. Marta queria que sua irmã a ajudasse e se esquecia de que ela estava prestando uma grande homenagem a Jesus ouvindo-O e assimilando sua palavra. Marta. esperava que, diante da censura que ela fazia à irmã, que Jesus ordenasse que esta fosse ajudá-la. Sua resposta não foi o que Marta desejava, pois e           Ele não se deixou manipular. Não respondeu ao pedido de Marta, mas expôs uma prioridade entre as ações de ambas, louvando a atitude de Maria. Mostrou a Marta que a perfeição dos atos humanos não consiste na multiplicação dos mesmos. De fato, verdadeira ação, impregnada de amor ao próximo deve ser feita sempre numa união íntima com Deus, pois assim esta ação não se opõe à oração como pensava Marta. É que a prece é em si mesma uma ação na qual se apreende o verdadeiro serviço aos outros. Apenas quem reza como Maria pode fazer suas ações inteiramente agradáveis a Deus e úteis ao próximo, porque envoltas no mais profundo espírito fraternal. Sejamos laboriosos como Marta, mas tudo fazendo como Maria à luz da presença do Mestre divino. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.