segunda-feira, 22 de julho de 2019

O DIAPASÃO DA PRECE DO CRISTÃO


O DIAPASÃO DA PRECE DO CRISTÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No declive do monte das Oliveiras, após mais um momento de oração, um dos discípulos pediu: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1-13). A prece fazia parte da vida de Jesus e isto, por certo, impressionava seus seguidores. Ao responder, o Mestre divino legou aquela que seria a mais bela e popular oração dos cristãos. Sem marcas de egocentrismo o pensamento logo se volta para Deus que é Pai, pedindo que seu nome seja santificado, que seu reino venha até nós e que sua vontade seja totalmente feita. A Ele se dirigem depois súplicas comunitárias: o pão cotidiano solicitado para todos, requerendo o perdão dos pecados, com a condição de se anistiar todos os ofensores. Adite-se um pedido final imprescindível: “Não nos deixes cair em tentação” O ser humano está sempre sujeito às invectivas do demônio ou de si mesmo ao se expor às aliciações contrárias aos preceitos de seu Senhor. Vencê-las é essencial para que se atinja a santidade existencial e Jesus deixaria esta ordem: “Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Fica então aberto o caminho da purificação, alicerçada numa total confiança no Pai que levará sempre quem O implora a triunfar dos males físicos e morais. Tudo isto oferece motivações para que com atenção, fervor e convicção seja rezada prece tão preciosa, que não é um monólogo, mas uma terna conversa com Deus Eis porque a postura de quem a recita deve ser de absolutas fé e sinceridade. Trata-se de uma prece que envolve todo o ser humano, ou seja, o sentido de Deus, seu nome, sua glória, seu reino e nossas necessidades fundamentais, a saber, o pão espiritual e material, necessário para a subsistência; incluindo também nossas relações com o próximo, isto é, o perdão, que é fonte de paz e harmonia. É todo o ser humano que fica higienizado. Este processo de purificação realiza-se através da perseverança na recitação atenta das palavras desta prece. Eis porque não deve ser proferida automaticamente, mas degustada, absorvendo a profundidade das verdades que ela encerra, desejando tudo que nela se solicita a Deus. Quem reza esta oração composta pelo próprio Filho de Deus se lança numa aventura de familiaridade com o Senhor Onipotente e com os outros. Trata-se de uma intimidade que vai além das palavras, impregnando a vida de cada um com a certeza da grandeza do Pai, cujo reino deve se estender por toda parte, Ele que oferece o pão cotidiano, perdoa os pecados, leva a anistiar os ofensores e não deixa tal orante cair nas garras de satanás. Deste modo, todas as outras orações ganham sentido profundo e oferece ao Espírito Santo oportunidade para transformação de cada um rumo à própria santificação. Jesus ensinou a ver Deus como Pai, o Criador, o Senhor do espaço e do tempo, Ele que deve dirigir o destino de cada um.  Pai que oferece segurança absoluta e que merece ser tratado com sumo respeito e ternura. Daí a certeza de que somos amados por Ele tais como nós somos, apesar das fraquezas humanas e por isto se pede a Ele: “Perdoa-nos os nossos pecados”. Ao pedir “venha o teu reino” isto significa que se almeja que o plano de amor deste Deus, que é Pai, realize entre todos os homens seu projeto de salvação. É preciso ainda notar que ao impetrar a Deus que seu nome seja glorificado se mentaliza que sua glória externa depende dos que nele creem e que o mundo fica melhor quando milhares de fiéis por toda parte estão num clamor universal pela grandeza do Ser Supremo que merece toda honra. Deste modo a prece que foi composta pelo Mestre divino visa o reconhecimento da irrestrita exaltação de Deus a quem o ser criado deve inteiramente se submeter. Além disto, ela vem em socorro das necessidades espirituais e materiais, abrangendo todos os bens necessários à glória divina e à subsistência de cada um. Até a última petição desta oração tem uma amplitude maravilhosa: “Não nos deixes cair em tentação”, isto é, que Deus guarde cada um das seduções das forças diabólicas contra os sagrados mandamentos, das atrações do poder, do prazer desregrado, da ambição. Rezar com fervor esta oração é estar em especial diálogo com Deus, dilatando o coração para o bem, voltado cada um inteiramente para Aquele que deve ser louvado e que, poderoso, pode salvar de todos os males. * Professor no Seminário de Mariana durante40 anos.




segunda-feira, 15 de julho de 2019

IMITAR O BOM SAMARITANO


IMITAR O BOM SAMARITANO
Côn. José Geraldo Vidigal de Caralho*
A parábola do bom samaritano é, sem dúvida, uma das passagens mais preciosas da Bíblia (Lc 10,25-37). Evoca a beleza e o poder do amor que devem prevalecer em todas as circunstâncias, vendo até num estrangeiro uma pessoa digna de toda a compaixão. Revela a essência mesma do grande mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo” (Mc 12,28-34). Cumpre, de fato, ultrapassar todas as barreiras para, na medida do possível, socorrer quem precisa de um auxílio oportuno imediato. Nesta parábola Jesus ilustra a supremacia da caridade acima de todas as convenções sociais e pessoais. O sacerdote e o levita eram bem os representantes religiosos do judaísmo e os judeus consideravam como próximo apenas os parentes, os correligionários, os compatriotas, com exclusão total dos gentios. Jesus visava ensinar então que todos até mesmo os inimigos merecem cabal consideração. Os seres humanos são chamados a formar nele um só corpo. Por isto Jesus apresentou como modelo um samaritano, dado que os samaritanos eram considerados como hostis aos judeus e por eles detestados. Foi, contudo, um samaritano que teve compaixão daquele que jazia por terra, despojado e coberto de feridas, abandonado meio morto. Mostrou comiseração e não foi indiferente e insensível perante o padecimento do desamparado. Sua atitude revelava um apelo à solidariedade com os sofredores. Era assim que deviam proceder os discípulos de Jesus não agindo como o sacerdote e o levita judeus. Os seguidores de Cristo não poderiam ser espectadores mudos, indiferentes diante dos males alheios. A insensibilidade é pior do que a hostilidade, porque o indiferente perante as desgraças alheias, ignora os sofredores como se eles não existissem. Foi o que manifestaram aqueles. que passaram e ignoraram uma pessoa humana padecente. O bom samaritano patenteou o verdadeiro sentido da compaixão. Multiplicou inclusive os gestos de caridade, não apenas procurando sanar as feridas, mas levando aquele estrangeiro a uma estalagem e assumindo todas as despesas da assistência que lhe seria dada. Toda uma série de ações decorrentes da comiseração e da bondade de seu coração. Jesus deixou claro como deviam proceder os que se chamariam cristãos, os quais precisariam multiplicar, dentro de suas possibilidades, a ajuda afetiva e efetiva ao próximo. Ele era o verdadeiro Bom Samaritano que não hesitou tomar nossa humanidade para nos oferecer a salvação, sacrificando-se por nós até à morte e morte de cruz. Como Mestre admirável com esta parábola ensinou o verdadeiro sentido da misericórdia, da comunhão com os outros. Todos os seus discípulos repletos de generosidade e de ternura, perdoando uns aos outros como Ele mesmo perdoou no alto de sua cruz aos que o maltrataram tão cruelmente: “Pai perdoai-lhes eles não sabem o que fazem”! Segundo o Papa Bento XVI Jesus universalizou o conceito de próximo que deve ser objeto de ações concretas. Não se trata de um amor genérico e abstrato, mas requer um engajamento real aqui e agora. Lembrava então este Papa que no juízo final (Mt 25,31-46) o amor ao próximo se torna o critério para a decisão definitiva concernente ao valor ou o não-valor de uma vida humana. Jesus se identifica com aqueles que estão sofrendo, ou seja, os que têm fome ou sede, os estrangeiros, os doentes, os prisioneiros, os nus. Todas as vezes que alguém os amparou foi a Ele que foi feito este gesto de caridade. Eis o critério supremo para se alcançar a vida eterna. Por isto a procura da felicidade perene consiste na prática do amor fraterno. Eis aí um caminho não só desejável, mas possível a todos. Cumpre ter olhos para ver as feridas que fazem o outro sofrer e trabalhar na medida da possibilidade de cada para oferecer uma ajuda oportuna. Cumpre também então que se evite sempre não ser um espinho a mais na existência alheia. O samaritano da parábola de Jesus não se esquivou, mas socorreu logo quem jazia à beira do caminho. A todos os seus seguidores Jesus aconselhou então a fazer sempre o mesmo, agindo como aquele samaritano  caridoso. Este não se esquivou, mas foi até àquele que jazia inerte por terra e assumiu todos os cuidados que aquele sofredor deveria receber, demonstrando um amor realmente atuante. A caridade tem sua lógica que não se limita a soluções paliativas. Muitas vezes não será à beira de um caminho que se deparará com alguém que sofre, mas tantas vezes são aqueles que estão sob o mesmo teto, os próximos mais próximos que precisam de uma palavra de alento, de atenção, de gestos de paciência. Este é o caminho do verdadeiro cristão cônscio de suas responsabilidades e solidariedades. Cumpre pedir ao divino Samaritano que abra nossos olhos para amparar os que se acham feridos, angustiados. Eles precisam ser amados e amparados, porque neles se verá sempre a figura de Jesus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

Oração e ação


ORAÇÃO E AÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
O episódio ocorrido em Betânia onde moravam Maria e Marta leva a uma reflexão sobre a oração e a atuação nos afazeres diários (Luc 10,33-42). Cumpre conciliar os momentos dedicados à prece e aos trabalhos cotidianos. Maria estava escutando Jesus, se imergindo na Palavra de Deus, e Marta agindo, preparando a refeição para o ilustre hóspede. Entre os discípulos de Jesus uns são mais sensíveis aos bens espirituais e outros aos bens materiais. É preciso saber harmonizar uma e outra atitude. Jesus ao dizer a Marta que “Maria tinha escolhido a melhor parte, esta não lhe será tirada”, mostrava que a oração era superior à ação. Jesus, aliás, nas suas pregações sempre prescreveu uma caridade ativa. Célebre sua advertência: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). Aos apóstolos, aos ouvintes, cada qual segundo o seu estado e profissão, Ele ensinou que é preciso cumprir os deveres que Deus lhes impõe enquanto durar a vida, pois com a morte cessa o tempo favorável para conquista da felicidade eterna. Ele repreendeu Marta, não pelo fato de que ela estava trabalhando, mas porque estava agitada. Há uma diferença enorme entre agir e se agitar. Como também não fazer nada não é rezar e menos ainda ser um contemplativo. Muitos ficam de tal modo envoltos nas tarefas a serem feitas que não encontram momentos de oração e acontece, igualmente, que há aqueles que não sabendo bem controlar o tempo descuram o cumprimento do dever de cada dia. O segredo do bem viver é transformar as menores ações em atos de amor a Deus e ao próximo. Assim sendo, nos instantes reservados à prece se pode tranquilamente usufruir a presença divina. Jesus mostrou a Marta que ela estava inquieta e confusa com muitas coisas, imersa num materialismo insensato, tornando-se escrava de sua ocupação. Escapava-lhe o sentido de seu serviço e, agitada, ela perdia a alegria de poder servir a Jesus, tendo a paz interior. A maioria das distrações na oração vêm da preocupação com as coisas materiais. A prece e os afazeres não se opõem, mas bem compreendidos levam à fuga de toda mediocridade na oração e na ação. O verdadeiro cristão não pode definir o tempo da oração como uma simples inatividade, como não deve fazer da ação uma agitamento desnecessário. Para conseguir este equilíbrio a prioridade como salientou Jesus com relação a Maria é a escuta da Palavra, das inspirações divinas advindas da oração. Desta é que fluem a sabedoria e a força necessárias para bem realizar as tarefas diárias. Muitas vezes pode ocorrer que a inquietação pela organização do trabalho leva a se perder o seu valor intrínseco. Com efeito, não se pode esquecer de que qualquer atividade em si é um serviço prestado ao próprio Mestre divino que disse: “O que fizerdes ao menor de vossos irmãos, foi a mim que o fizestes”. Portanto, continuamente se pode haurir os benefícios de tudo que se faz vendo no próximo a figura de Cristo. Neste caso não se age como Marta submersa na amplidão dos deveres. É preciso como Maria parar para verificar o que Deus realmente quer e lhe solicitar a energia necessária para bem agir. Nunca se valoriza demais o tempo que se reserva à oração individual ou comunitária que deve ser uma pausa no meio da agitação cotidiana. Portanto, não se pode opor simplesmente uma Maria orante a uma Marta ativa; uma Maria piedosa a uma Marta agitada; uma Maria concentrada na oração a uma Marta dispersiva nos afazeres. Esta diferença entre as duas irmãs é também marcada pela postura delas perante Jesus.  Marta está preocupada em agradar o hóspede divino com uma multidão ações, enquanto Maria se liga a Jesus pela escuta. Marta recebeu Jesus, mas não O escutava. Maria O escutando, mostra a atitude da discípula atenciosa e cortês. Marta queria que sua irmã a ajudasse e se esquecia de que ela estava prestando uma grande homenagem a Jesus ouvindo-O e assimilando sua palavra. Marta. esperava que, diante da censura que ela fazia à irmã, que Jesus ordenasse que esta fosse ajudá-la. Sua resposta não foi o que Marta desejava, pois e           Ele não se deixou manipular. Não respondeu ao pedido de Marta, mas expôs uma prioridade entre as ações de ambas, louvando a atitude de Maria. Mostrou a Marta que a perfeição dos atos humanos não consiste na multiplicação dos mesmos. De fato, verdadeira ação, impregnada de amor ao próximo deve ser feita sempre numa união íntima com Deus, pois assim esta ação não se opõe à oração como pensava Marta. É que a prece é em si mesma uma ação na qual se apreende o verdadeiro serviço aos outros. Apenas quem reza como Maria pode fazer suas ações inteiramente agradáveis a Deus e úteis ao próximo, porque envoltas no mais profundo espírito fraternal. Sejamos laboriosos como Marta, mas tudo fazendo como Maria à luz da presença do Mestre divino. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 1 de julho de 2019


OPERÁRIOS PARA A MESSE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Através dos tempos ecoam as palavras de Jesus sobre a carência de operários e de operárias para a sua seara: “A messe é abundante, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para sua messe”. Ante a necessidade imperiosa da evangelização e a falta de operários o Mestre divino aponta uma solução que é o pedido a Deus feito com insistência e perseverança. Orar pelas vocações sacerdotais, religiosas e de leigos devotados à catequese e a outras atividades pastorais, visando a expansão do Evangelho. Trata-se de solicitar ao Senhor Onipotente que numerosos sejam os que, fascinados pelo Verbo de Deus, se entreguem a um trabalho constante pela difusão da Verdade que guia e regenera. Prece confiante desejando a gloria de Deus e o bem das almas. Empenho perseverante a favor do projeto universal da salvação daqueles pelos quais Cristo se sacrificou. A ordem do Mestre divino é sumamente pedagógica, porque quem eleva aos céus preces ardentes pelo crescimento do trabalho evangelizador, na medida de suas possibilidades, também tudo fará para tão nobre causa. Todo batizado deve ser um apóstolo pela palavra, pelo exemplo e na insistência contida na oração que Jesus ensinou: “Venha a nós o vosso reino”. Diante da penúria do número de sacerdotes pedir para que Deus faça crescer o desejo do serviço numa vida inteiramente devotada à evangelização é estar consciente de que esta missão específica é imprescindível. A desproporção entre a imensidade do trabalho missionário coordenado pelos bispos e padres não deve causar pânico, dado que pelas orações elevadas até o trono divino nunca faltarão pessoas disponíveis que se entreguem a tarefa tão necessária. Assim sendo, a oração pelas vocações sacerdotais não pode nunca ser um momento passageiro, apenas um anelo vazio, mas deve ser uma dimensão da prece da Igreja que comunitariamente implora vocações ao Senhor da messe. Isto porque o apostolado dos leigos se conjuga com o desempenho daqueles que se devotam unicamente à expansão da Palavra divina, sobretudo através do culto eucarístico. Isto é tanto mais necessário no contexto histórico atual, diante das sociedades pluralistas a exigirem sempre novas estratégias pastorais e a ajuda persistente dos fiéis neste empenho evangelizador da Igreja. Cada batizado então com suas forças, fraquezas e convicções faz parte do grande exército de Cristo Redentor da humanidade. É que muitas vezes lá onde há necessidade do anúncio do Evangelho em determinados momentos será a ação oportuna de quem vive o seu batismo que poderá trazer os que se acham longe da Igreja para encontrarem o caminho da fé. A obra de Deus é complexa, aparentemente acima das forças humanas, mas maravilhosamente age por toda a parte. Comunidades de irmãos e irmãs atentos uns aos outros, anunciadores infatigáveis do Evangelho e do mesmo Espírito de amor que deseja o bem espiritual de todos que estão à sua volta. Operários da Messe repletos de otimismo, levando a paz por toda parte. A paz messiânica que cada um recebeu no seu batismo e no sacramento da crisma, irradiando a alegria do coração, assegurando a todos o amor e a misericórdia do Senhor. É assim que o Reino de Deus se revela presente no meio das comunidades. Trabalho exigente, mas marcado pela certeza da felicidade de ser servos de Deus na dilatação da verdade e do bem. Ação preciosa de cada um de acordo com os carismas recebidos do céu pode transformar, libertar os que se deixam enganar pelas ilusões terrenas. Como dizia Elizabeth Leseur, “nós não sabemos o bem que fazemos quando fazemos o bem”. É que Deus multiplica os efeitos de toda boa ação. Nada, portanto, mais necessário do que cultivar a seremidade dentro de si mesmo para desejá-la efetivamente aos outros como ordenou Jesus: “Paz a esta casa”.  Eis aí a valia do apostolado orientado nas Paróquias pelos Párocos que têm a graça específica de guiar o rebanho de Cristo, ajudados por outros sacerdotes seus colaboradores e pelos s cristãos devotados à causa do Evangelho. O Papa São Paulo VI no Decreto Apostolicam Actuositatem sobre o apostolado dos leigos assim se expressou: “Os nossos tempos, porém, não exigem um menor zelo dos leigos; mais ainda, as condições atuais exigem deles absolutamente um apostolado cada vez mais intenso e mais universal. Com efeito, o aumento crescente da população, o progresso da ciência e da técnica, as relações mais estreitas entre os homens, não só dilataram imenso os campos do apostolado dos leigos, em grande parte acessíveis só a eles, mas também suscitaram novos problemas que reclamam a sua atenção interessada e o seu esforço.”. O Evangelho de hoje vem então recordar a responsabilidade de todos, clero e fieis, diante do serviço da evangelização. É belo ser apóstolo. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

TOMAR A CRUZ DE CADA DIA


TOMAR A CRUZ DE CADA DIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Após a profissão de fé de São Pedro, proclamando que Jesus era “o Cristo de Deus”, Ele mostrou as condições para ser seu autêntico seguidor (Lc 9,18-24). Claras suas palavras: “Quem quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me”. Trata-se de perseverar diante das provações inevitáveis a este exílio terreno, suportando com paciência as dificuldades que vão surgindo. É a valorização cristã de qualquer sofrimento. No Evangelho, com efeito, tomar a cruz de cada dia tem no ensinamento de Jesus um caráter dinâmico, indissociável à missão do Filho de Deus. Como o próprio Cristo asseverou, Ele tinha que “sofrer muito”. Profundos os ensinamentos que fluem desta confidência que Ele fez aos apóstolos. Ele deveria ser visto por seus discípulos não apenas como o taumaturgo poderoso, mas também como o Messias sofredor. Ele seria incompreendido pelas multidões, e muitos que o aclamariam na entrada triunfal em Jerusalém clamariam por sua morte. Sua tarefa salvadora não seria decodificada e haveria os que O abandonariam. Ele combateria a favor dos pobres e dos humildes, enfrentaria os escribas e fariseus, perdoaria a muitos pecadores arrependidos. Além disto, carregaria uma cruz até o Calvário e, dentre os apóstolos, lá estaria apenas São João. Após sua morte e ressurreição é que os demais discípulos chegariam a uma compreensão total da razão de ser de seus sofrimentos. Sacrificariam suas vidas para testemunhar a divindade do “Cristo de Deus”. Jesus ordenara a quem o quisesse acompanhar que tomasse a sua cruz de cada dia e O seguissem exatamente porque todos os cristãos deveriam tomar parte na sua missão. Isto significaria não apenas mortificar as paixões, reprimir  más tendências da natureza corrompida, mas, mais ainda, saber acatar as amarguras, as aflições que vão surgindo nas diversas etapas da vida de cada um. São Paulo escreveu aos colossenses: “Agora me alegro    por tudo que sofro por vós, e dou cumprimento na minha carne ao que falta às tribulações de Cristo! (Cl 1,24). É que a redenção operada pelo Filho de Deus foi na verdade superabundante e suficiente para salva a todos, mas os sofrimentos de Cristo, ainda que de valor infinito, têm necessidade, para que os seus merecimentos sejam aplicados, de serem completados por seus seguidores. Como afirmou Santo Agostinho,” Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. É preciso caminhar com Jesus, mas cada um carregando a sua cruz de cada dia, porque a dele Ele levou até o Gólgota. Não apenas os desgostos de cada hora, dores físicas ou morais, mas também os combates pelo Evangelho, as lutas pelo bem, pela justiça, pela verdade. Tudo isto é um prolongamento da vida de Cristo, o Messias sofredor. O cristão, porém, que compreende a ordem de Jesus de carregar a cruz de cada dia, se torna mensageiro da esperança, porque Cristo, que tanto sofreu, ressuscitou imortal e impassível abrindo as portas do reino dos céus aos que viverem nesta terra seus ensinamentos. É a esta presença profética no mundo que seus discípulos são chamados. Quando Ele indagou: “E vós quem dizeis que eu sou” Ele não queria uma definição de sua pessoa. Desejava que O conhecessem, O amassem, para poderem dar testemunho verdadeiro do que Ele é para os que Ele veio redimir com tanta dor. Muitos querem o céu nesta terra, um mundo isento de amargura. Entretanto, Jesus veio para partilhar as dores humanas, oferecendo a todos a capacidade de suportá-las de acordo com a visão salvífica de Deus. É a esta passagem pela cruz neste exílio que  “o Cristo de Deus” chama seus seguidores para que passem pela provação e pela morte confiados na fidelidade divina que os aguarda na plenitude da beatitude eterna. Resultado feliz da maneira correta na qual se situou o verdadeiro cristão. Deste modo, todo discípulo de Jesus vive sua verdadeira identidade, reconhecendo-se cidadão  do céu onde chegará seguindo os passos do Senhor sofredor. Deste modo fica vencido todo o falso dolorismo, pois Jesus não disse; ”Sofrei e então sereis meus discípulos”. É que o sofrimento não é um fim em si mesmo, pois caminhar nos passos de Jesus, tomando a cruz de cada dia, significa um encorajamento para valorizar todas as contradições. Trata-se da renúncia consciente de tudo aquilo que é decorrência da essência de um ser contingente, limitado, sujeito às intempéries internas e externas. Jesus não afasta seus fiéis das realidades humanas. Ele quer que seus seguidores vivam, a seu exemplo, carregando a cruz das dores próprias e alheias. É seguir Jesus e não perder de vista os passos do Mestre divino. É preciso, para isto  ultrapassar as perspectivas pessoais para inscrever sua existência na fé de uma promessa de vida eterna. Aquele que então procura carregar sua cruz acompanhando Jesus, este fatalmente se salvará. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

DEUS UNO E TRINO


DEUS UNO E TRINO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Jesus, vindo a este mundo, mostrou em várias passagens de seu ensinamento que Deus é Uno e Trino. No Evangelho vemos que Ele aludiu ao Espírito da Verdade que viria sobre seus seguidores. Referiu-se claramente ao Pai: ”Tudo quanto o Pai tem é meu”. (Jo 16, 12-15). Ele o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. Revelou-nos o mistério da vida íntima de Deus, mistério de reciprocidade, de luz divina que tem seu reflexo em Deus mesmo, mistério de amor.  Deus Trindade que é anterior ao mundo e aos homens. Ele se revelou sempre como o Criador de tudo.  Mistério realmente sublime, pois desde toda eternidade o Pai se conhece. Este pensamento é eterno, substancial, é a imagem de toda vida divina, igual a sua origem. Eis aí a segunda pessoa, o Filho, o Verbo eterno. O Pai e o Filho eternamente se amam. Este amor é essencial, intemporal, é o Espírito Santo, Terceira Pessoa, que procede do Pai e do Filho. Assim uma só natureza, uma só essência, uma só substância e três centros de atribuições, ou seja, três pessoas realmente distensas. Deus é Uno, Uno antes do tempo, desde toda a eternidade, Uno quando se revela como Trindade e será Uno hoje e sempre. Ao meditar o agir distinto de cada uma das Pessoas divinas o ser humano finito depara com a imensidade do Deus Todo-Poderoso. Pela fé é que se atinge este Deus Uno e Trino que se oculta aos sábios deste mundo e aos orgulhosos, pois Ele se revela aos humildes. Estes se curvam diante das dimensões divinas do Deus infinito. São João na sua primeira carta assim se expressou: “Vêde que admirável sinal de amor nos deu o Pai em nos chamarmos, como de fato o somos, filhos de Deus” (1 Jo 3,1). É nesta experiência filial que é preciso nos estabelecer. É aí que entra o trabalho do Espírito Santo, pois assevera São Paulo: "Aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus” (Rm 8,14). Estes se abrem ao mistério da Trindade.  Cantam no íntimo de seu coração: “Glória ao Pai santo, glória ao Filho único, com o Espirito consolador, desde agora e por todos os séculos”. Podem então exclamar com o salmista: “Como é precioso teu amor, ó meu Deus” (Sl 35,8). O principal é, de fato, ter o coração aberto ao mistério do nosso Deus, que é Todo-Poderoso, o qual deseja sempre dar a todos que O amam e temem a vida em abundancia. Este Deus, Uno e Trino, ultrapassa todos as nossas palavras e os mais belos louvores que possamos fazer subir até seu trono de glória. Ele é inefável no sentido próprio do termo e não se pode dizer humanamente nada mais do que isto. Ele está além de todas nossas palavras, imagens e definições. Sugestiva a teofania que se deu com Elias. A manifestação de Deus não ocorreu nem na forte rajada do vento, nem no terremoto, nem no fogo, mas no murmúrio de um silêncio tênue, no leve sussurro. (1 Reis 9, 11-13). Era um espaço aberto no qual o Profeta pôde falar com Deus e Deus com ele. A maneira misteriosa com que se fez sentir a presença da divindade mostrou admiravelmente a espiritualidade do ser divino. As forças da natureza anunciaram apenas a vinda de Deus, mas sua presença foi algo de imperceptível. O Deus, Uno e Trino, se manifesta sem violência ou estrepitosas convulsões. Deus amadurece seus desígnios no silêncio, “Ele não se encontra na agitação” (3 Reis 19,11). O Ser Supremo só se revela no silêncio longe do bulício do mundo, num instante de uma prece fervorosa. Então Ele pode libertar de tudo que impede a comunicação com Ele, livrando o cristão de seus demônios interiores para viver plenamente a união com a Trindade Santa. Esta mostra um Deus no qual existe comunicação, ou seja, o Pai que se conhece desde toda a eternidade e este conhecimento eterno é o Filho, donde a Terceira Pessoa, o Espírito Santo amor eterno que procede do Pai e do Filho. Deus é Uno, mas não é solidão e quer partilhar com suas criaturas racionais sua riqueza imensa, sua felicidade infinita. Crer na Santíssima Trindade é descobrir que o mistério de Deus e antes de tudo e, sobretudo, um mistério de amor. A vida cristã consiste em acolher o amor divino para que ele anime todas as ações. Penetramos neste mistério de amor quando fomos batizados “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19). Assim sendo, as pessoas da Santíssima Trindade nunca devem ser esquecidas, mas recebidas como hóspede que se revela em transparência. É preciso, porém um coração pleno de atenção, voltado para a luz divina. Eis aí a grande lição da solenidade da Santíssima Trindade. Cumpre, contudo, uma fé intrépida nesse mistério salutar. Lembremo-nos sempre que nossa prece é cristã se ela é trinitária É necessário acolher o dom do Deus, Uno e Trino, que quer habitar em nós e, a seu exemplo, aprendamos a amar, a servir, a partilhar. Então santificados pelo amor divino cada um de nós será o templo vivo da Santíssima Trindade. Seremos assim suas testemunhas humildes, abertos à Sua presença, irradiando-a por toda parte. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

RECEBER O ESPÍRITO SANTO


RECEBER O ESPÍRITO SANTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A solenidade de Pentecostes lembra aos discípulos de Cristo o início de sua vida cristã. O que era uma promessa de Jesus se torna com o dom do Espírito Santo seu completo acabamento. Jesus havia dito aos apóstolos: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará um outro Consolador para estar convosco para sempre, o Espírito da Verdade” (Jo 14, 16-17). Donde ser necessário receber o Paráclito que vem completar no fiel sua personalidade espiritual. O Espírito atesta que somos filhos de Deus (Rm 8,16), respirando e vivendo de sua bondade infinita de sua ternura sem limites. Esta filiação divina é a marca típica do seguidor de Cristo. Daí esta grandeza maravilhosa, porque, como mostrou São João na sua primeira carta, “Deus é luz e nele não há quaisquer trevas” (1 Jo 1,5), Acrescenta este apóstolo que os fiéis, andando nesta luz, a qual é o seu Senhor, estão em comunhão mútua e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, purifica-os de todo o pecado. Ele envia raios de sua luz, iluminando o coração dos seus seguidores, fazendo-os criaturas novas. Isto porque, como mostrou São Paulo, cada um se torna uma carta de Cristo escrita com o Espírito de Deus vivo (2 Cor 3,3). Por isto o cristão passa a aspirar as coisas do alto e não as da terra com suas ilusões pecaminosas. O discípulo de Cristo vive de uma novidade indescritível, pois sabe que Deus está presente nele. Eis porque o cristão é herdeiro deste Deus através de Cristo, herdeiro de sua glória graças à presença do Espírito Consolador. Nunca se valoriza demais esta sublime realidade a qual mostra quão precioso é cada um para o Senhor. No dia de Pentecostes Deus confirma pelo seu Espírito que o cristão está coroado de glória e esplendor (Sl 8). É o mistério da majestade divina e da dignidade humana. O Espírito Santo, porém, faz o que Ele quer em nós, desde que não ocorra resistências à sua ação. Cumpre se lembrar sempre do alerta de São Paulo: “Não extingais Espírito” (1 Ts 5,19). Portanto, valorizar os carismas, os dons, os frutos que Ele oferece, significa ser maleável à sua ação, evitando tudo que contraria sua atuação. A salvação de cada um está ligada à correspondência aos desígnios celestes advindos do Espírito divino. Ao autêntico seguidor de Cristo se dá o que Deus asseverou através do profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei o coração de pedra das vossas carnes e dar-vos-ei um coração de carne. Porei dentro de vós o meu espírito e farei que cainheis nos meus estatutos e observeis os meus ditames e os ponhais em prática” (Ez 36, 26-27). Então o Espírito Santo, recebido pela fé e pelo batismo, leva cada um a se imergir na salvação realizada por Cristo.  De fato, é a lei do Espírito que dá a vida em Cristo Jesus (Rm 8,2).   Sem a graça do Espírito Santo, mesmo o Evangelho, mesmo o Mandamento novo do amor mútuo não passariam de uma lei antiga, de uma palavra estéril. De fato, o Mandamento novo e tudo que Jesus ensinou nas Bem-aventuranças são uma novidade porque o amor foi difundido nos corações dos cristãos pelo Espírito Santo. Com sua vinda, uma nova luz brilhou, como explicou São João na sua primeira carta (1 Jo 2,7-8). É que como afirmou São Paulo a “letra mata, só o Espírito vivifica”.   Santo Tomás mostrou que a palavra escrita fica exterior ao homem.   Sua vivência completa só é possível com a ajuda do Espírito da Verdade.   Trata-se da inteligência da fé que leva a atitudes práticas de consequências concretas na vida cristã. É o acolhimento do Espírito Santo que renova o coração do seguidor de Cristo, então confessado firmemente num mundo hostil às realidades sobrenaturais. O cristão, desta forma, adere firmemente ao mistério revelado na pessoa do Salvador. O Espírito Santo confere a graça de conformar a vida aos preceitos evangélicos, vividos, existencialmente e espiritualmente, em todas as ações. Na luta contra os desejos da carne que se opõem ao espírito, levando à lamentável valorização das obras humanas e à exaltação das paixões desregradas, é preciso a renovação que o Espírito Santo opera interiormente nas almas de boa vontade. Esta renovação espiritual deve ser contínua e supõe perseverança. Cada dia é necessário crescer espiritualmente sob as luzes do Espírito de Deus que conduz a um princípio carismático e interior da vida nova. O Espírito de Jesus deve ser o fundamento da lei nova que orienta toda a vida do cristão. Este se interroga sempre diante de seu Senhor: “Que tenho feito para crescer no vosso amor?”. Cumpre descer ao mais profundo de si mesmo para descobrir os desígnios divinos, as iniciativas que Deus quer fazer por nós, em nós e conosco. O Espírito Santo nos leva pela palavra de Cristo aos páramos da santidade.  O cristão fica atento à novidade do Espírito na prece, no cumprimento de seus deveres cotidianos e na evangelização. Então, o seguidor de Cristo, iluminado pelo Espírito Santo, passa a perceber a ação da graça nas menores ações, degustando a realidade do amor vitorioso. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.