segunda-feira, 17 de junho de 2019

TOMAR A CRUZ DE CADA DIA


TOMAR A CRUZ DE CADA DIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Após a profissão de fé de São Pedro, proclamando que Jesus era “o Cristo de Deus”, Ele mostrou as condições para ser seu autêntico seguidor (Lc 9,18-24). Claras suas palavras: “Quem quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me”. Trata-se de perseverar diante das provações inevitáveis a este exílio terreno, suportando com paciência as dificuldades que vão surgindo. É a valorização cristã de qualquer sofrimento. No Evangelho, com efeito, tomar a cruz de cada dia tem no ensinamento de Jesus um caráter dinâmico, indissociável à missão do Filho de Deus. Como o próprio Cristo asseverou, Ele tinha que “sofrer muito”. Profundos os ensinamentos que fluem desta confidência que Ele fez aos apóstolos. Ele deveria ser visto por seus discípulos não apenas como o taumaturgo poderoso, mas também como o Messias sofredor. Ele seria incompreendido pelas multidões, e muitos que o aclamariam na entrada triunfal em Jerusalém clamariam por sua morte. Sua tarefa salvadora não seria decodificada e haveria os que O abandonariam. Ele combateria a favor dos pobres e dos humildes, enfrentaria os escribas e fariseus, perdoaria a muitos pecadores arrependidos. Além disto, carregaria uma cruz até o Calvário e, dentre os apóstolos, lá estaria apenas São João. Após sua morte e ressurreição é que os demais discípulos chegariam a uma compreensão total da razão de ser de seus sofrimentos. Sacrificariam suas vidas para testemunhar a divindade do “Cristo de Deus”. Jesus ordenara a quem o quisesse acompanhar que tomasse a sua cruz de cada dia e O seguissem exatamente porque todos os cristãos deveriam tomar parte na sua missão. Isto significaria não apenas mortificar as paixões, reprimir  más tendências da natureza corrompida, mas, mais ainda, saber acatar as amarguras, as aflições que vão surgindo nas diversas etapas da vida de cada um. São Paulo escreveu aos colossenses: “Agora me alegro    por tudo que sofro por vós, e dou cumprimento na minha carne ao que falta às tribulações de Cristo! (Cl 1,24). É que a redenção operada pelo Filho de Deus foi na verdade superabundante e suficiente para salva a todos, mas os sofrimentos de Cristo, ainda que de valor infinito, têm necessidade, para que os seus merecimentos sejam aplicados, de serem completados por seus seguidores. Como afirmou Santo Agostinho,” Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. É preciso caminhar com Jesus, mas cada um carregando a sua cruz de cada dia, porque a dele Ele levou até o Gólgota. Não apenas os desgostos de cada hora, dores físicas ou morais, mas também os combates pelo Evangelho, as lutas pelo bem, pela justiça, pela verdade. Tudo isto é um prolongamento da vida de Cristo, o Messias sofredor. O cristão, porém, que compreende a ordem de Jesus de carregar a cruz de cada dia, se torna mensageiro da esperança, porque Cristo, que tanto sofreu, ressuscitou imortal e impassível abrindo as portas do reino dos céus aos que viverem nesta terra seus ensinamentos. É a esta presença profética no mundo que seus discípulos são chamados. Quando Ele indagou: “E vós quem dizeis que eu sou” Ele não queria uma definição de sua pessoa. Desejava que O conhecessem, O amassem, para poderem dar testemunho verdadeiro do que Ele é para os que Ele veio redimir com tanta dor. Muitos querem o céu nesta terra, um mundo isento de amargura. Entretanto, Jesus veio para partilhar as dores humanas, oferecendo a todos a capacidade de suportá-las de acordo com a visão salvífica de Deus. É a esta passagem pela cruz neste exílio que  “o Cristo de Deus” chama seus seguidores para que passem pela provação e pela morte confiados na fidelidade divina que os aguarda na plenitude da beatitude eterna. Resultado feliz da maneira correta na qual se situou o verdadeiro cristão. Deste modo, todo discípulo de Jesus vive sua verdadeira identidade, reconhecendo-se cidadão  do céu onde chegará seguindo os passos do Senhor sofredor. Deste modo fica vencido todo o falso dolorismo, pois Jesus não disse; ”Sofrei e então sereis meus discípulos”. É que o sofrimento não é um fim em si mesmo, pois caminhar nos passos de Jesus, tomando a cruz de cada dia, significa um encorajamento para valorizar todas as contradições. Trata-se da renúncia consciente de tudo aquilo que é decorrência da essência de um ser contingente, limitado, sujeito às intempéries internas e externas. Jesus não afasta seus fiéis das realidades humanas. Ele quer que seus seguidores vivam, a seu exemplo, carregando a cruz das dores próprias e alheias. É seguir Jesus e não perder de vista os passos do Mestre divino. É preciso, para isto  ultrapassar as perspectivas pessoais para inscrever sua existência na fé de uma promessa de vida eterna. Aquele que então procura carregar sua cruz acompanhando Jesus, este fatalmente se salvará. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

DEUS UNO E TRINO


DEUS UNO E TRINO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Jesus, vindo a este mundo, mostrou em várias passagens de seu ensinamento que Deus é Uno e Trino. No Evangelho vemos que Ele aludiu ao Espírito da Verdade que viria sobre seus seguidores. Referiu-se claramente ao Pai: ”Tudo quanto o Pai tem é meu”. (Jo 16, 12-15). Ele o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. Revelou-nos o mistério da vida íntima de Deus, mistério de reciprocidade, de luz divina que tem seu reflexo em Deus mesmo, mistério de amor.  Deus Trindade que é anterior ao mundo e aos homens. Ele se revelou sempre como o Criador de tudo.  Mistério realmente sublime, pois desde toda eternidade o Pai se conhece. Este pensamento é eterno, substancial, é a imagem de toda vida divina, igual a sua origem. Eis aí a segunda pessoa, o Filho, o Verbo eterno. O Pai e o Filho eternamente se amam. Este amor é essencial, intemporal, é o Espírito Santo, Terceira Pessoa, que procede do Pai e do Filho. Assim uma só natureza, uma só essência, uma só substância e três centros de atribuições, ou seja, três pessoas realmente distensas. Deus é Uno, Uno antes do tempo, desde toda a eternidade, Uno quando se revela como Trindade e será Uno hoje e sempre. Ao meditar o agir distinto de cada uma das Pessoas divinas o ser humano finito depara com a imensidade do Deus Todo-Poderoso. Pela fé é que se atinge este Deus Uno e Trino que se oculta aos sábios deste mundo e aos orgulhosos, pois Ele se revela aos humildes. Estes se curvam diante das dimensões divinas do Deus infinito. São João na sua primeira carta assim se expressou: “Vêde que admirável sinal de amor nos deu o Pai em nos chamarmos, como de fato o somos, filhos de Deus” (1 Jo 3,1). É nesta experiência filial que é preciso nos estabelecer. É aí que entra o trabalho do Espírito Santo, pois assevera São Paulo: "Aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus” (Rm 8,14). Estes se abrem ao mistério da Trindade.  Cantam no íntimo de seu coração: “Glória ao Pai santo, glória ao Filho único, com o Espirito consolador, desde agora e por todos os séculos”. Podem então exclamar com o salmista: “Como é precioso teu amor, ó meu Deus” (Sl 35,8). O principal é, de fato, ter o coração aberto ao mistério do nosso Deus, que é Todo-Poderoso, o qual deseja sempre dar a todos que O amam e temem a vida em abundancia. Este Deus, Uno e Trino, ultrapassa todos as nossas palavras e os mais belos louvores que possamos fazer subir até seu trono de glória. Ele é inefável no sentido próprio do termo e não se pode dizer humanamente nada mais do que isto. Ele está além de todas nossas palavras, imagens e definições. Sugestiva a teofania que se deu com Elias. A manifestação de Deus não ocorreu nem na forte rajada do vento, nem no terremoto, nem no fogo, mas no murmúrio de um silêncio tênue, no leve sussurro. (1 Reis 9, 11-13). Era um espaço aberto no qual o Profeta pôde falar com Deus e Deus com ele. A maneira misteriosa com que se fez sentir a presença da divindade mostrou admiravelmente a espiritualidade do ser divino. As forças da natureza anunciaram apenas a vinda de Deus, mas sua presença foi algo de imperceptível. O Deus, Uno e Trino, se manifesta sem violência ou estrepitosas convulsões. Deus amadurece seus desígnios no silêncio, “Ele não se encontra na agitação” (3 Reis 19,11). O Ser Supremo só se revela no silêncio longe do bulício do mundo, num instante de uma prece fervorosa. Então Ele pode libertar de tudo que impede a comunicação com Ele, livrando o cristão de seus demônios interiores para viver plenamente a união com a Trindade Santa. Esta mostra um Deus no qual existe comunicação, ou seja, o Pai que se conhece desde toda a eternidade e este conhecimento eterno é o Filho, donde a Terceira Pessoa, o Espírito Santo amor eterno que procede do Pai e do Filho. Deus é Uno, mas não é solidão e quer partilhar com suas criaturas racionais sua riqueza imensa, sua felicidade infinita. Crer na Santíssima Trindade é descobrir que o mistério de Deus e antes de tudo e, sobretudo, um mistério de amor. A vida cristã consiste em acolher o amor divino para que ele anime todas as ações. Penetramos neste mistério de amor quando fomos batizados “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19). Assim sendo, as pessoas da Santíssima Trindade nunca devem ser esquecidas, mas recebidas como hóspede que se revela em transparência. É preciso, porém um coração pleno de atenção, voltado para a luz divina. Eis aí a grande lição da solenidade da Santíssima Trindade. Cumpre, contudo, uma fé intrépida nesse mistério salutar. Lembremo-nos sempre que nossa prece é cristã se ela é trinitária É necessário acolher o dom do Deus, Uno e Trino, que quer habitar em nós e, a seu exemplo, aprendamos a amar, a servir, a partilhar. Então santificados pelo amor divino cada um de nós será o templo vivo da Santíssima Trindade. Seremos assim suas testemunhas humildes, abertos à Sua presença, irradiando-a por toda parte. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

RECEBER O ESPÍRITO SANTO


RECEBER O ESPÍRITO SANTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A solenidade de Pentecostes lembra aos discípulos de Cristo o início de sua vida cristã. O que era uma promessa de Jesus se torna com o dom do Espírito Santo seu completo acabamento. Jesus havia dito aos apóstolos: “Eu pedirei ao Pai e ele vos dará um outro Consolador para estar convosco para sempre, o Espírito da Verdade” (Jo 14, 16-17). Donde ser necessário receber o Paráclito que vem completar no fiel sua personalidade espiritual. O Espírito atesta que somos filhos de Deus (Rm 8,16), respirando e vivendo de sua bondade infinita de sua ternura sem limites. Esta filiação divina é a marca típica do seguidor de Cristo. Daí esta grandeza maravilhosa, porque, como mostrou São João na sua primeira carta, “Deus é luz e nele não há quaisquer trevas” (1 Jo 1,5), Acrescenta este apóstolo que os fiéis, andando nesta luz, a qual é o seu Senhor, estão em comunhão mútua e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, purifica-os de todo o pecado. Ele envia raios de sua luz, iluminando o coração dos seus seguidores, fazendo-os criaturas novas. Isto porque, como mostrou São Paulo, cada um se torna uma carta de Cristo escrita com o Espírito de Deus vivo (2 Cor 3,3). Por isto o cristão passa a aspirar as coisas do alto e não as da terra com suas ilusões pecaminosas. O discípulo de Cristo vive de uma novidade indescritível, pois sabe que Deus está presente nele. Eis porque o cristão é herdeiro deste Deus através de Cristo, herdeiro de sua glória graças à presença do Espírito Consolador. Nunca se valoriza demais esta sublime realidade a qual mostra quão precioso é cada um para o Senhor. No dia de Pentecostes Deus confirma pelo seu Espírito que o cristão está coroado de glória e esplendor (Sl 8). É o mistério da majestade divina e da dignidade humana. O Espírito Santo, porém, faz o que Ele quer em nós, desde que não ocorra resistências à sua ação. Cumpre se lembrar sempre do alerta de São Paulo: “Não extingais Espírito” (1 Ts 5,19). Portanto, valorizar os carismas, os dons, os frutos que Ele oferece, significa ser maleável à sua ação, evitando tudo que contraria sua atuação. A salvação de cada um está ligada à correspondência aos desígnios celestes advindos do Espírito divino. Ao autêntico seguidor de Cristo se dá o que Deus asseverou através do profeta Ezequiel: “Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei o coração de pedra das vossas carnes e dar-vos-ei um coração de carne. Porei dentro de vós o meu espírito e farei que cainheis nos meus estatutos e observeis os meus ditames e os ponhais em prática” (Ez 36, 26-27). Então o Espírito Santo, recebido pela fé e pelo batismo, leva cada um a se imergir na salvação realizada por Cristo.  De fato, é a lei do Espírito que dá a vida em Cristo Jesus (Rm 8,2).   Sem a graça do Espírito Santo, mesmo o Evangelho, mesmo o Mandamento novo do amor mútuo não passariam de uma lei antiga, de uma palavra estéril. De fato, o Mandamento novo e tudo que Jesus ensinou nas Bem-aventuranças são uma novidade porque o amor foi difundido nos corações dos cristãos pelo Espírito Santo. Com sua vinda, uma nova luz brilhou, como explicou São João na sua primeira carta (1 Jo 2,7-8). É que como afirmou São Paulo a “letra mata, só o Espírito vivifica”.   Santo Tomás mostrou que a palavra escrita fica exterior ao homem.   Sua vivência completa só é possível com a ajuda do Espírito da Verdade.   Trata-se da inteligência da fé que leva a atitudes práticas de consequências concretas na vida cristã. É o acolhimento do Espírito Santo que renova o coração do seguidor de Cristo, então confessado firmemente num mundo hostil às realidades sobrenaturais. O cristão, desta forma, adere firmemente ao mistério revelado na pessoa do Salvador. O Espírito Santo confere a graça de conformar a vida aos preceitos evangélicos, vividos, existencialmente e espiritualmente, em todas as ações. Na luta contra os desejos da carne que se opõem ao espírito, levando à lamentável valorização das obras humanas e à exaltação das paixões desregradas, é preciso a renovação que o Espírito Santo opera interiormente nas almas de boa vontade. Esta renovação espiritual deve ser contínua e supõe perseverança. Cada dia é necessário crescer espiritualmente sob as luzes do Espírito de Deus que conduz a um princípio carismático e interior da vida nova. O Espírito de Jesus deve ser o fundamento da lei nova que orienta toda a vida do cristão. Este se interroga sempre diante de seu Senhor: “Que tenho feito para crescer no vosso amor?”. Cumpre descer ao mais profundo de si mesmo para descobrir os desígnios divinos, as iniciativas que Deus quer fazer por nós, em nós e conosco. O Espírito Santo nos leva pela palavra de Cristo aos páramos da santidade.  O cristão fica atento à novidade do Espírito na prece, no cumprimento de seus deveres cotidianos e na evangelização. Então, o seguidor de Cristo, iluminado pelo Espírito Santo, passa a perceber a ação da graça nas menores ações, degustando a realidade do amor vitorioso. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A ASCENSÃO DO SENHOR


A ASCENÇÃO DO SENHOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus parte para junto do Pai, mas esta comemoração enche os cristãos de alegria porque Ele a todos precede na entrada do santuário do céu. Júbilo também porque Ele chama a todos a serem por toda parte suas testemunhas. Ele, além do mais, prometera revestir seus seguidores da força do alto, enviando o Espírito Santo. Alimentou a esperança cristã para que se viva em ascensões espirituais contínuas a fim de estar com Ele por toda a eternidade (Lc 24,46-53). Abre-se um horizonte luminoso dando um sentido profundo à vida de seu seguidor fiel. A Ascensão é uma ocasião para cada um se reconsiderar em todos os momentos. A existência do fiel tem um final feliz, garantido por aquele que parte, mas que se revela com outra presença, uma relação mais espiritual porque firmada num fé profunda neste poderoso Salvador. Este estará no final da vida de cada um lá na outra margem da vida para introduzi-lo nas delícias eternas da Casa do Pai. Fica vencida a fragilidade humana, pois o seguidor de Cristo tem por obrigação testemunhá-lo onde quer que esteja, correspondendo à salvação que Ele a todos oferece. A Ascensão de Jesus é, de fato, nossa vitória. Através dele nossa pobre humanidade foi introduzida no paraíso celeste, onde Ele está como nosso intercessor junto do Pai. Esta poderosa mediação é fonte perene de graças para todos. Deste modo, a Ascensão é a consumação do processo de nossa salvação eterna. Ele volta para junto do Pai levando consigo a humanidade, abrindo a porta do céu a todos que O acolherem e O amarem nesta terra. Ele tomou nossa condição de escravos do espírito do mal, fazendo-se semelhante aos homens, para comunicar-lhes a vida divina por meio de seu sangue redentor. São Paulo então concita a todos os fiéis a proclamar que Ele “é o Senhor para a glória de Deus Pai” (Fl 2,11). Ele se revelou a nós pela sua encarnação, mostrando nosso destino final pela sua Ascensão.  Os cristão então não ficam meramente estupefatos diante da obra divina, mas, rendem continuamente graça, louvam o seu Senhor com uma vida inteiramente conformada com seus ensinamentos. Ele passou  corporalmente a  uma outra dimensão da realidade  onde  a morte e as degradações não têm mais poder. Pela fé o seu seguidor vive em função desta realidade espiritual não se ligando às coisas materiais de um mundo tantas vezes oposto ao que Ele preceituou. Por tudo isto se compreende que a Ascenção de Jesus não foi, realmente, uma partida, nem uma separação de seus discípulos e de sua Igreja. Jesus permanece no meio de seus fiéis na Eucaristia e através das iluminações contínuas do Espírito divino.  São Paulo atestou que “ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor senão no Espírito Santo” (1Cor 12,3). Portanto, o cristão tem todas as possibilidades de não aderir às forças do mal. Deus está sempre junto de cada um para que possa viver melhor, superando os problemas do presente exílio. Com Jesus e o Espírito Santo o seguidor de Cristo recebe sempre a energia espiritual que o permite enxergar por entre os sofrimentos a beatitude do céu. É deste modo que se entra na dimensão da Ascensão. Trata-se de participar desde agora na construção de um mundo que faz da esperança sua regra de vida e que comunica a coragem de praticar as virtudes, sendo o motor para uma busca contínua da santidade, tornando o mundo cada vez melhor. Assim sendo, o  cristão nunca se sente só, abandonado nas dificuldades do cotidiano, errante sem ter um rumo certo no final de suas lutas terrenas. A mensagem que a Ascensão lança no íntimo de cada coração é um apelo a uma crença profunda na vida eterna já iniciada nesta terra. Esta é a herança feliz de todo aquele que crê. O cristão se sente então revestido de um notável vigor espiritual, olhos fixos no seu Redentor, numa disponibilidade total para receber e viver as luzes do Espírito Santo. Cumpre, portanto, valorizar a vida que Deus concede. Tal a felicidade do verdadeiro cristão que então sabe apreciar sua existência, dado que lá no céu Jesus está à sua espera. É preciso, porem, a vivência plena da influência de Cristo vitorioso pelo poder do Espírito Santo, enviado de junto do Pai. Uma existência que leva a vencer todos os torpores, todos os medos, todas as fadigas. Jesus quer que vivamos com Ele. Assim todas as doenças, todas as preocupações, todos os cuidados materiais, todas as relações familiares serão iluminados por Ele, Por tudo isto a solenidade da Ascensão é, de fato, uma festa da Igreja porque leva os cristãos a confiar plenamente em Jesus, sabendo que sua ascensão ao céu é a revelação da própria elevação de seu discípulo de acordo com o projeto do Pai pelas luzes do Espírito Santo. Por tudo isso o seguidor de Cristo se torna o arauto da misericórdia divina. Mostra-se consciente de que, após sua trajetória neste mundo, estará para sempre com seu Salvador lá onde Ele está a espera de cada um. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos


terça-feira, 21 de maio de 2019

A PAZ DO SENHOR JESUS


A PAZ DO SENHOR JESUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Antes de desejar a seus discípulos a paz Jesus estabelece alguns pontos fundamentais para a vida de seus seguidores (Jo 14,23-29). Mostrou a importância de guardar seus ensinamentos como condição para que cada um possa se tornar habitação da Santíssima Trindade. Salientou a presença do Espírito Santo consolador que não deixa cair no esquecimento sua Palavra vificadora. Então solenemente declarou: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”. Muitas vezes o cristão aspira este dom, mas se esquece dos pré-requisitos, colocando-se em estado favorável para recebê-la em plenitude. A observância do que Ele ensinou é fundamental, mesmo porque sua Palavra é também a do Pai que com o Espírito Santo vem habitar na alma em estado de graça. Isto supõe a observância total das mensagens divinas recebidas com muito amor. Este amor, evidentemente, inclui o afastamento de todo e qualquer pecado. Então, sim, é possível ser o templo vivo de Deus Uno e Trino. Aí o segredo da vida sobrenatural que torna possível a recepção e a vivência de uma paz profunda. Esta abertura para o Ser Supremo envolve o cristão na serenidade, beatificando sua existência assim inteiramente unida às Três Pessoas Divinas. O cristão se torna capaz de entrar numa relação profunda e misteriosa com o seu Criador, O caminho fica aberto para que o Confortador, que age discretamente, possa guiar rumo a uma alegriapermanente. Esta nasce do verdadeiro amor ao Onipotente Senhor num acatamento perseverante de Sua vontade. A consequência foi bem salientada por Jesus: “Meu Pai o amará, iremos a ele e faremos nele nossa morada”. Diante então de Jesus que oferece sua paz cumpre a seu seguidor se interrogar se, perseverantemente, valoriza esta presença divina, esta oferta de uma sublime amizade numa fuga corajosa de tudo que impede a presença de Deus na sua alma para poder gozar da paz do Senhor Jesus.  Este foi taxativo: “Se alguém me ama”. Trata-se de um apelo e de um questionamento. Um apelo que Ele não deixa de fazer mesmo quando alguém dele se afasta pelo pecado mortal. O questionamento fica bem expresso no alerta de Santo Agostinho: “Temo a Jesus que passa e pode não voltar”. Donde a necessidade de uma fidelidade ininterrupta às inspirações divinas. Deus está sempre a falar a cada um e quer inundar de paz os corações. É um Deus que deseja permanecer junto dos que O amam, pois é dele que vem sempre a salvação. Jesus deixou para todos de boa vontade sua paz. Não é a paz à qual o mundo faz alusão. Esta paz não é um sentimento de bem estar passageiro, nem algo que venha dos prazeres e das riquezas. É, isto sim, o fruto do Espírito Santo num processo ininterrupto que supõe a maleabilidade interior, a intimidade com o Senhor. Esta paz que se deve irradiar por toda parte  resulta também do devotamento ao próximo. Felizes, de fato, os artesãos da paz! Os sentimentos e ações contrários à paz não podem nunca vir de Deus. Donde toda a atenção à ira, aos rancores, às disputas familiares, as desatenções, a omissão  que são as armas do inimigo contra o sossego interior. Cumpre sempre eliminar tudo isto. O verdadeiro cristão nunca é fonte de desunião. Cristo pôde deixar sua paz aos apóstolos porque Ele já a irradiara por toda parte por onde passou, fazendo o bem. Nunca se deve esquecer de que todos os nossos atos de amor não devem ser outra coisa senão atos de paz e esta deve florir até num sorriso amigo que traduz compreensão. É deste modo que nunca se contradiz a vocação do batizado, sendo o cristão em tudo artífice da serenidade. Este se torna ungido da misericórdia de Deus. Assim o amor do cristão para com Cristo não é senão uma resposta ao amor que Deus lhe tem em seu Filho.  Então o seguidor de Jesus passa a perceber a irrupção da dileção do Ser Todo Poderoso. O cristão desta forma, verdadeiro templo de Deus, se santifica pessoalmente e comunitariamente sempre relembrando de que o Criador está de modo especial dentro de si mesmo como resultado grandioso desta paz que o mundo não pode dar. Caminha-se desta forma na sabedoria para a qual insensivelmente o Espírito divino vai dirigindo o cristão. Trata-se de uma realidade vivida na prece e numa evangelização constante, resultante desta calma interior. Realiza-se o desejo de Cristo: “Brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam vossas boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Seus discípulos se tornam, onde quer que estejam, a lembrança  da missão de Jesus. O anseio de Cristo nele se concretiza plenamente, percebendo-se em todos os cristãos a ordem de Jesus: “Não perturbe o vosso coração, nem desfaleça”. Vivendo a paz de Cristo o fiel leva o mundo a descobrir progressivamente como o Senhor é bom e inebriante a quietação que Ele oferece a quem O ama. O cristão se torna assim sábio segundo o Evangelho dado que falará sempre, através da paz, a linguagem do amor vitorioso.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

AMAR COMO JESUS AMOU



  01 AMAR COMO JESUS AMOU
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No Evangelho do quinto domingo da Páscoa deparamos o início do testamento espiritual de Jesus. Judas acabava de sair para se lançar nas trevas da traição e do desespero. Então, mais do que um discurso Cristo abre o seu coração numa conversa afetuosa com seus discípulos (Jo 13,31-35). O Pai iria glorifica-lo e, portanto, próximo estava o dia de sua partida deste mundo. Como legado Ele deixa para seus seguidores um mandamento novo. Glorificação do Pai porque o Filho manifestaria todo o seu amor, tendo amado os homens até o fim. Depois de sua morte, o Pai acolheria seu Filho bem amado na sua própria glória. Ele partiria deste mundo, mas um liame bem claro ficaria entre Ele e seus seguidores: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, que assim como eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros”. Jesus apresenta um preceito que Ele diz novo. Isto embora no Livro do Levítico, Deus já tivesse ordenado: “Tu amarás teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Não obstante, tratava-se de um preceito novo, porque promulgado na nova aliança, aliança definitiva que Ele selaria, justamente pela sua morte e sua glorificação. O modelo do nosso amor ao próximo ficaria sendo o amor de Jesus por nós: “Como eu vos amei, vós deveis, vós também, amar uns aos outros”. Seu amor tinha um fundamento que lhe dava uma característica única, ou seja, Ele se sacrificaria por todos porque os recebera do Pai. Na oração feita por Ele ao Pai isto ficou bem claro: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste, separando-os do mundo. Eram teus e os destes a mim, eles guardaram a tua palavra. [...] Quanto a mim dei-lhes a glória que tu me comunicaste, para que sejam um como nós somos um” (Jo 17, 6.23).  Nestas palavras rebrilha uma fraternidade nova, alicerçada numa nova concepção da dileção divina. Adite-se que Ele nos amou até o fim, quando se sacrificou no alto da cruz por toda a humanidade. Portanto, o amor ao próximo não deveria ter para seus discípulos nenhum limite. Como consequência o cristão deveria amar a todos indistintamente a começar dos mais próximos que são os que habitam sob o mesmo teto, os companheiros de trabalho ou dos lugares de diversão, enfim numa fraternidade universal, abrangendo inclusive os inimigos, envolvendo-os num laço de um perdão cordial. Este aspecto Ele deixou bem ressaltado na prece por Ele ensinada: “Perdoai-nos como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Por tudo isto, mandamento, de fato novo cuja prática deveria florir no serviço, na esperança, na paz. Isto sem querer seu discípulo enquadrar os outros em seus moldes mentais, manipulando o próximo ou simplesmente retribuindo às suas atenções. Além disto, interessando-se cada um pelas misérias alheias, apesar de das suas impertinências, das suas importunações. Mandamento novo a exigir devotamento, fidelidade, gratuidade. Amor, portanto, realista que se manifesta no cotidiano. Com este mandamento novo Jesus inaugurava um novo estilo de vida, uma nova atitude, tanto que Ele asseveraria: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros”. Jesus deixou como herança a seus seguidores um mandamento expresso num imperativo decisivo: “Amai-vos”. Tal a sua herança e a missão que dava para todas as etapas da vida do cristão. Amar, porém, como Ele ensinou nem sempre seria fácil, porque amar supõe total desinteresse pessoal.  Amar é um ato que se dirige ao próximo que deve ser reconhecido como outro, respeitando-se sempre as diferenças. Assim cai por terra todo egoísmo. O amor como Jesus ensinou leva a entrar na fragilidade do próximo, passando por cima de suas vulnerabilidades. Isto supõe renúncia e abnegação contínuas. Esta atitude resulta então da certeza de que, assim praticando a caridade, se pode participar da verdadeira vida que é comunhão com Deus, o qual é amor, Esta dileção paira longe da sensibilidade, tornando-se uma responsabilidade, fruto de um mandato que repousa sobre o exemplo do Mestre divino. É deste modo que se reconhece que a palavra chave do cristianismo é o amor. Esta caridade é obra prima do gênero humano regenerado pelo sangue de um Deus. É o que há de mais nobre nas elucubrações da inteligência e o que existe de mais glorioso nos eflúvios do coração. Sacrificar-se pelo próximo. Ir de encontro de toda dor, de toda amargura, de todo desatino. Diminuir a estatística do sofrimento. Aumentar a crônica do bem. Irradiar por toda parte felicidade, serenidade, harmonia. Tudo isto é a maior manifestação da grandeza humana, o apogeu da perfeição evangélica, a atitude mais agradável a Deus, o ápice da perfeição do ser racional. A caridade é assim esplendorosa porque tem dimensões divinas.  Envolve pensamentos, atitudes, palavras. Sorri com os alegres, pranteia com os tristes. Perdoa, desculpa e exalta as qualidades do outro. Faz do pecador um santo e eleva este santo a Deus. Ela ameniza, cura, distribui do muito, do pouco, “se faz tudo para todos para salvar a todos” (1 Cor 9,22). Onde resplandece assim a caridade, aí Deus está. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

AS OVELHAS E O PASTOR


AS OVELHAS E O PASTOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus mostrou, admiravelmente, a relação essencial entre o verdadeiro Pastor, suas ovelhas e o Pai (Jo 10, 27-30). Deixou clara a maneira de ser de quem O segue. Ele transmite a paz, a alegria e apela para o testemunho dos que O conhecem. Ele chama pelo seu nome cada uma de suas ovelhas, aquelas que se dispuseram a segui-lo. Abre-lhes um caminho e elas estão sob a proteção amorosa e cuidadosa do Pai. Afiança: “Eu e o Pai somos um”. Cada batizado é chamado pelo seu nome a se tornar no corpo eclesial fiel às diretrizes de um guia sábio e que quer o bem dos que lhe pertencem. O principal é saber escutar. Jesus foi claro ao afirmar: “Minhas ovelhas escutam a minha voz”. Daí uma esperança luminosa a envolver o seu rebanho, dado que Ele é a Verdade e a Vida. Ele conhece bem as dificuldades pessoais, familiares, comunitárias e está atento para ajudar, orientar. Mais do que segurança, oferece a certeza absoluta da obtenção da vida eterna. Ele o vencedor, verdadeiro homem que vive a mesma vida de Deus sempre presente em sua Igreja. É esta presença diuturna que anima os que O acompanham, por ser Ele mesmo o Caminho que leva às delícias perenes da casa do Pai. O grande segredo é a convivência entre o Pastor e sua ovelha, sendo que esta percebe sempre que suas mensagens são de encorajamento, uma vez que Ele protege e jamais nenhuma de suas ovelhas perecerá. O tempo de repouso não é agora, mas no fim da caminhada. O rebanho está em marcha e as ovelhas de Cristo se sentem responsabilizadas pela evangelização. Esta inclui não só cuidar para que nenhuma se transvie, mas também para outras venham para o redil do verdadeiro Pastor. Todas conscientes do que disse São Paulo sobre o mandato de Cristo: “Eu te estabeleci como luz das gentes, para levares a salvação até às extremidades da terra” (Atos 13,47). Trazer esta missão para o cotidiano quer dizer ser portador da doutrina de Jesus, o Bom Pastor, dentro do horizonte da vida de cada um, no lar, nos lugares de trabalho ou de diversão, envolvendo a todos na compreensão, no perdão cordial, no devotamento, na solidariedade, no conforto na hora da solidão. Estes momentos são testes de fidelidade, apesar de muitas vezes as provações parecerem além das próprias forças, mas jamais permitindo o desânimo. O Pastor é maior do que todas as vicissitudes e está sempre ao lado da ovelha que O invoca. Esta poderá fica tranquila, pois Jesus afirmou no Evangelho de hoje que jamais esta ovelha perecerá e que ninguém a arrebatará de sua mão. O Bom Pastor é um guardião e um defensor. Entretanto, todo cuidado é pouco, e cumpre a quem não que se desgarrar de seu Pastor se libertar das falsas ilusões disseminadas pelos meios de comunicação social e por tudo que significa devassidão e atos indignos de uma ovelha de Cristo. Seria triste cair nas mãos do diabo e suas horripilas artimanhas É preciso, porém, que o Bom Pastor esteja sempre vivo nas comunidades por meio de um apostolado esclarecido, dinâmico e eficaz. Jesus ensinou que Ele e o Pai são Um. Sua prioridade foi sempre trabalhar no projeto do seu Pai. Este lhe confiou as ovelhas que Ele bem conhece e delas se ocupa. Ele é a fonte da vida e conduz para as águas vivas. Suas ovelhas então O escutando e seguindo podem, de fato, arrastar as que estão longe da Verdade para virem para junto de Jesus. Eis aí o ideal pastoral que une todo o rebanho do Bom Pastor, cujo estilo de vida deve impregnar suas ovelhas. Através do batismo o cristão participa do múnus profético de Cristo e lá onde Deus o colocou é sempre o mensageiro de tudo que o Bom Pastor ensinou. Donde a corresponsabilidade na missão de Cristo, na missão da sua Igreja, cada um de acordo com os talentos que recebeu de seu Senhor. Trata-se de tudo fazer para que o rebanho de Jesus seja um rebanho vivo. Não negar jamais a contribuição pessoal nas atividades pastorais dentro das possibilidades possíveis. Mesmo porque a todos é possível o apostolado do bom exemplo que arrasta e faz a grandeza do rebanho de Cristo.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.