segunda-feira, 27 de maio de 2019

A ASCENSÃO DO SENHOR


A ASCENÇÃO DO SENHOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus parte para junto do Pai, mas esta comemoração enche os cristãos de alegria porque Ele a todos precede na entrada do santuário do céu. Júbilo também porque Ele chama a todos a serem por toda parte suas testemunhas. Ele, além do mais, prometera revestir seus seguidores da força do alto, enviando o Espírito Santo. Alimentou a esperança cristã para que se viva em ascensões espirituais contínuas a fim de estar com Ele por toda a eternidade (Lc 24,46-53). Abre-se um horizonte luminoso dando um sentido profundo à vida de seu seguidor fiel. A Ascensão é uma ocasião para cada um se reconsiderar em todos os momentos. A existência do fiel tem um final feliz, garantido por aquele que parte, mas que se revela com outra presença, uma relação mais espiritual porque firmada num fé profunda neste poderoso Salvador. Este estará no final da vida de cada um lá na outra margem da vida para introduzi-lo nas delícias eternas da Casa do Pai. Fica vencida a fragilidade humana, pois o seguidor de Cristo tem por obrigação testemunhá-lo onde quer que esteja, correspondendo à salvação que Ele a todos oferece. A Ascensão de Jesus é, de fato, nossa vitória. Através dele nossa pobre humanidade foi introduzida no paraíso celeste, onde Ele está como nosso intercessor junto do Pai. Esta poderosa mediação é fonte perene de graças para todos. Deste modo, a Ascensão é a consumação do processo de nossa salvação eterna. Ele volta para junto do Pai levando consigo a humanidade, abrindo a porta do céu a todos que O acolherem e O amarem nesta terra. Ele tomou nossa condição de escravos do espírito do mal, fazendo-se semelhante aos homens, para comunicar-lhes a vida divina por meio de seu sangue redentor. São Paulo então concita a todos os fiéis a proclamar que Ele “é o Senhor para a glória de Deus Pai” (Fl 2,11). Ele se revelou a nós pela sua encarnação, mostrando nosso destino final pela sua Ascensão.  Os cristão então não ficam meramente estupefatos diante da obra divina, mas, rendem continuamente graça, louvam o seu Senhor com uma vida inteiramente conformada com seus ensinamentos. Ele passou  corporalmente a  uma outra dimensão da realidade  onde  a morte e as degradações não têm mais poder. Pela fé o seu seguidor vive em função desta realidade espiritual não se ligando às coisas materiais de um mundo tantas vezes oposto ao que Ele preceituou. Por tudo isto se compreende que a Ascenção de Jesus não foi, realmente, uma partida, nem uma separação de seus discípulos e de sua Igreja. Jesus permanece no meio de seus fiéis na Eucaristia e através das iluminações contínuas do Espírito divino.  São Paulo atestou que “ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor senão no Espírito Santo” (1Cor 12,3). Portanto, o cristão tem todas as possibilidades de não aderir às forças do mal. Deus está sempre junto de cada um para que possa viver melhor, superando os problemas do presente exílio. Com Jesus e o Espírito Santo o seguidor de Cristo recebe sempre a energia espiritual que o permite enxergar por entre os sofrimentos a beatitude do céu. É deste modo que se entra na dimensão da Ascensão. Trata-se de participar desde agora na construção de um mundo que faz da esperança sua regra de vida e que comunica a coragem de praticar as virtudes, sendo o motor para uma busca contínua da santidade, tornando o mundo cada vez melhor. Assim sendo, o  cristão nunca se sente só, abandonado nas dificuldades do cotidiano, errante sem ter um rumo certo no final de suas lutas terrenas. A mensagem que a Ascensão lança no íntimo de cada coração é um apelo a uma crença profunda na vida eterna já iniciada nesta terra. Esta é a herança feliz de todo aquele que crê. O cristão se sente então revestido de um notável vigor espiritual, olhos fixos no seu Redentor, numa disponibilidade total para receber e viver as luzes do Espírito Santo. Cumpre, portanto, valorizar a vida que Deus concede. Tal a felicidade do verdadeiro cristão que então sabe apreciar sua existência, dado que lá no céu Jesus está à sua espera. É preciso, porem, a vivência plena da influência de Cristo vitorioso pelo poder do Espírito Santo, enviado de junto do Pai. Uma existência que leva a vencer todos os torpores, todos os medos, todas as fadigas. Jesus quer que vivamos com Ele. Assim todas as doenças, todas as preocupações, todos os cuidados materiais, todas as relações familiares serão iluminados por Ele, Por tudo isto a solenidade da Ascensão é, de fato, uma festa da Igreja porque leva os cristãos a confiar plenamente em Jesus, sabendo que sua ascensão ao céu é a revelação da própria elevação de seu discípulo de acordo com o projeto do Pai pelas luzes do Espírito Santo. Por tudo isso o seguidor de Cristo se torna o arauto da misericórdia divina. Mostra-se consciente de que, após sua trajetória neste mundo, estará para sempre com seu Salvador lá onde Ele está a espera de cada um. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos


terça-feira, 21 de maio de 2019

A PAZ DO SENHOR JESUS


A PAZ DO SENHOR JESUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Antes de desejar a seus discípulos a paz Jesus estabelece alguns pontos fundamentais para a vida de seus seguidores (Jo 14,23-29). Mostrou a importância de guardar seus ensinamentos como condição para que cada um possa se tornar habitação da Santíssima Trindade. Salientou a presença do Espírito Santo consolador que não deixa cair no esquecimento sua Palavra vificadora. Então solenemente declarou: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”. Muitas vezes o cristão aspira este dom, mas se esquece dos pré-requisitos, colocando-se em estado favorável para recebê-la em plenitude. A observância do que Ele ensinou é fundamental, mesmo porque sua Palavra é também a do Pai que com o Espírito Santo vem habitar na alma em estado de graça. Isto supõe a observância total das mensagens divinas recebidas com muito amor. Este amor, evidentemente, inclui o afastamento de todo e qualquer pecado. Então, sim, é possível ser o templo vivo de Deus Uno e Trino. Aí o segredo da vida sobrenatural que torna possível a recepção e a vivência de uma paz profunda. Esta abertura para o Ser Supremo envolve o cristão na serenidade, beatificando sua existência assim inteiramente unida às Três Pessoas Divinas. O cristão se torna capaz de entrar numa relação profunda e misteriosa com o seu Criador, O caminho fica aberto para que o Confortador, que age discretamente, possa guiar rumo a uma alegriapermanente. Esta nasce do verdadeiro amor ao Onipotente Senhor num acatamento perseverante de Sua vontade. A consequência foi bem salientada por Jesus: “Meu Pai o amará, iremos a ele e faremos nele nossa morada”. Diante então de Jesus que oferece sua paz cumpre a seu seguidor se interrogar se, perseverantemente, valoriza esta presença divina, esta oferta de uma sublime amizade numa fuga corajosa de tudo que impede a presença de Deus na sua alma para poder gozar da paz do Senhor Jesus.  Este foi taxativo: “Se alguém me ama”. Trata-se de um apelo e de um questionamento. Um apelo que Ele não deixa de fazer mesmo quando alguém dele se afasta pelo pecado mortal. O questionamento fica bem expresso no alerta de Santo Agostinho: “Temo a Jesus que passa e pode não voltar”. Donde a necessidade de uma fidelidade ininterrupta às inspirações divinas. Deus está sempre a falar a cada um e quer inundar de paz os corações. É um Deus que deseja permanecer junto dos que O amam, pois é dele que vem sempre a salvação. Jesus deixou para todos de boa vontade sua paz. Não é a paz à qual o mundo faz alusão. Esta paz não é um sentimento de bem estar passageiro, nem algo que venha dos prazeres e das riquezas. É, isto sim, o fruto do Espírito Santo num processo ininterrupto que supõe a maleabilidade interior, a intimidade com o Senhor. Esta paz que se deve irradiar por toda parte  resulta também do devotamento ao próximo. Felizes, de fato, os artesãos da paz! Os sentimentos e ações contrários à paz não podem nunca vir de Deus. Donde toda a atenção à ira, aos rancores, às disputas familiares, as desatenções, a omissão  que são as armas do inimigo contra o sossego interior. Cumpre sempre eliminar tudo isto. O verdadeiro cristão nunca é fonte de desunião. Cristo pôde deixar sua paz aos apóstolos porque Ele já a irradiara por toda parte por onde passou, fazendo o bem. Nunca se deve esquecer de que todos os nossos atos de amor não devem ser outra coisa senão atos de paz e esta deve florir até num sorriso amigo que traduz compreensão. É deste modo que nunca se contradiz a vocação do batizado, sendo o cristão em tudo artífice da serenidade. Este se torna ungido da misericórdia de Deus. Assim o amor do cristão para com Cristo não é senão uma resposta ao amor que Deus lhe tem em seu Filho.  Então o seguidor de Jesus passa a perceber a irrupção da dileção do Ser Todo Poderoso. O cristão desta forma, verdadeiro templo de Deus, se santifica pessoalmente e comunitariamente sempre relembrando de que o Criador está de modo especial dentro de si mesmo como resultado grandioso desta paz que o mundo não pode dar. Caminha-se desta forma na sabedoria para a qual insensivelmente o Espírito divino vai dirigindo o cristão. Trata-se de uma realidade vivida na prece e numa evangelização constante, resultante desta calma interior. Realiza-se o desejo de Cristo: “Brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam vossas boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Seus discípulos se tornam, onde quer que estejam, a lembrança  da missão de Jesus. O anseio de Cristo nele se concretiza plenamente, percebendo-se em todos os cristãos a ordem de Jesus: “Não perturbe o vosso coração, nem desfaleça”. Vivendo a paz de Cristo o fiel leva o mundo a descobrir progressivamente como o Senhor é bom e inebriante a quietação que Ele oferece a quem O ama. O cristão se torna assim sábio segundo o Evangelho dado que falará sempre, através da paz, a linguagem do amor vitorioso.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

AMAR COMO JESUS AMOU



  01 AMAR COMO JESUS AMOU
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No Evangelho do quinto domingo da Páscoa deparamos o início do testamento espiritual de Jesus. Judas acabava de sair para se lançar nas trevas da traição e do desespero. Então, mais do que um discurso Cristo abre o seu coração numa conversa afetuosa com seus discípulos (Jo 13,31-35). O Pai iria glorifica-lo e, portanto, próximo estava o dia de sua partida deste mundo. Como legado Ele deixa para seus seguidores um mandamento novo. Glorificação do Pai porque o Filho manifestaria todo o seu amor, tendo amado os homens até o fim. Depois de sua morte, o Pai acolheria seu Filho bem amado na sua própria glória. Ele partiria deste mundo, mas um liame bem claro ficaria entre Ele e seus seguidores: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, que assim como eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros”. Jesus apresenta um preceito que Ele diz novo. Isto embora no Livro do Levítico, Deus já tivesse ordenado: “Tu amarás teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Não obstante, tratava-se de um preceito novo, porque promulgado na nova aliança, aliança definitiva que Ele selaria, justamente pela sua morte e sua glorificação. O modelo do nosso amor ao próximo ficaria sendo o amor de Jesus por nós: “Como eu vos amei, vós deveis, vós também, amar uns aos outros”. Seu amor tinha um fundamento que lhe dava uma característica única, ou seja, Ele se sacrificaria por todos porque os recebera do Pai. Na oração feita por Ele ao Pai isto ficou bem claro: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste, separando-os do mundo. Eram teus e os destes a mim, eles guardaram a tua palavra. [...] Quanto a mim dei-lhes a glória que tu me comunicaste, para que sejam um como nós somos um” (Jo 17, 6.23).  Nestas palavras rebrilha uma fraternidade nova, alicerçada numa nova concepção da dileção divina. Adite-se que Ele nos amou até o fim, quando se sacrificou no alto da cruz por toda a humanidade. Portanto, o amor ao próximo não deveria ter para seus discípulos nenhum limite. Como consequência o cristão deveria amar a todos indistintamente a começar dos mais próximos que são os que habitam sob o mesmo teto, os companheiros de trabalho ou dos lugares de diversão, enfim numa fraternidade universal, abrangendo inclusive os inimigos, envolvendo-os num laço de um perdão cordial. Este aspecto Ele deixou bem ressaltado na prece por Ele ensinada: “Perdoai-nos como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Por tudo isto, mandamento, de fato novo cuja prática deveria florir no serviço, na esperança, na paz. Isto sem querer seu discípulo enquadrar os outros em seus moldes mentais, manipulando o próximo ou simplesmente retribuindo às suas atenções. Além disto, interessando-se cada um pelas misérias alheias, apesar de das suas impertinências, das suas importunações. Mandamento novo a exigir devotamento, fidelidade, gratuidade. Amor, portanto, realista que se manifesta no cotidiano. Com este mandamento novo Jesus inaugurava um novo estilo de vida, uma nova atitude, tanto que Ele asseveraria: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros”. Jesus deixou como herança a seus seguidores um mandamento expresso num imperativo decisivo: “Amai-vos”. Tal a sua herança e a missão que dava para todas as etapas da vida do cristão. Amar, porém, como Ele ensinou nem sempre seria fácil, porque amar supõe total desinteresse pessoal.  Amar é um ato que se dirige ao próximo que deve ser reconhecido como outro, respeitando-se sempre as diferenças. Assim cai por terra todo egoísmo. O amor como Jesus ensinou leva a entrar na fragilidade do próximo, passando por cima de suas vulnerabilidades. Isto supõe renúncia e abnegação contínuas. Esta atitude resulta então da certeza de que, assim praticando a caridade, se pode participar da verdadeira vida que é comunhão com Deus, o qual é amor, Esta dileção paira longe da sensibilidade, tornando-se uma responsabilidade, fruto de um mandato que repousa sobre o exemplo do Mestre divino. É deste modo que se reconhece que a palavra chave do cristianismo é o amor. Esta caridade é obra prima do gênero humano regenerado pelo sangue de um Deus. É o que há de mais nobre nas elucubrações da inteligência e o que existe de mais glorioso nos eflúvios do coração. Sacrificar-se pelo próximo. Ir de encontro de toda dor, de toda amargura, de todo desatino. Diminuir a estatística do sofrimento. Aumentar a crônica do bem. Irradiar por toda parte felicidade, serenidade, harmonia. Tudo isto é a maior manifestação da grandeza humana, o apogeu da perfeição evangélica, a atitude mais agradável a Deus, o ápice da perfeição do ser racional. A caridade é assim esplendorosa porque tem dimensões divinas.  Envolve pensamentos, atitudes, palavras. Sorri com os alegres, pranteia com os tristes. Perdoa, desculpa e exalta as qualidades do outro. Faz do pecador um santo e eleva este santo a Deus. Ela ameniza, cura, distribui do muito, do pouco, “se faz tudo para todos para salvar a todos” (1 Cor 9,22). Onde resplandece assim a caridade, aí Deus está. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

AS OVELHAS E O PASTOR


AS OVELHAS E O PASTOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus mostrou, admiravelmente, a relação essencial entre o verdadeiro Pastor, suas ovelhas e o Pai (Jo 10, 27-30). Deixou clara a maneira de ser de quem O segue. Ele transmite a paz, a alegria e apela para o testemunho dos que O conhecem. Ele chama pelo seu nome cada uma de suas ovelhas, aquelas que se dispuseram a segui-lo. Abre-lhes um caminho e elas estão sob a proteção amorosa e cuidadosa do Pai. Afiança: “Eu e o Pai somos um”. Cada batizado é chamado pelo seu nome a se tornar no corpo eclesial fiel às diretrizes de um guia sábio e que quer o bem dos que lhe pertencem. O principal é saber escutar. Jesus foi claro ao afirmar: “Minhas ovelhas escutam a minha voz”. Daí uma esperança luminosa a envolver o seu rebanho, dado que Ele é a Verdade e a Vida. Ele conhece bem as dificuldades pessoais, familiares, comunitárias e está atento para ajudar, orientar. Mais do que segurança, oferece a certeza absoluta da obtenção da vida eterna. Ele o vencedor, verdadeiro homem que vive a mesma vida de Deus sempre presente em sua Igreja. É esta presença diuturna que anima os que O acompanham, por ser Ele mesmo o Caminho que leva às delícias perenes da casa do Pai. O grande segredo é a convivência entre o Pastor e sua ovelha, sendo que esta percebe sempre que suas mensagens são de encorajamento, uma vez que Ele protege e jamais nenhuma de suas ovelhas perecerá. O tempo de repouso não é agora, mas no fim da caminhada. O rebanho está em marcha e as ovelhas de Cristo se sentem responsabilizadas pela evangelização. Esta inclui não só cuidar para que nenhuma se transvie, mas também para outras venham para o redil do verdadeiro Pastor. Todas conscientes do que disse São Paulo sobre o mandato de Cristo: “Eu te estabeleci como luz das gentes, para levares a salvação até às extremidades da terra” (Atos 13,47). Trazer esta missão para o cotidiano quer dizer ser portador da doutrina de Jesus, o Bom Pastor, dentro do horizonte da vida de cada um, no lar, nos lugares de trabalho ou de diversão, envolvendo a todos na compreensão, no perdão cordial, no devotamento, na solidariedade, no conforto na hora da solidão. Estes momentos são testes de fidelidade, apesar de muitas vezes as provações parecerem além das próprias forças, mas jamais permitindo o desânimo. O Pastor é maior do que todas as vicissitudes e está sempre ao lado da ovelha que O invoca. Esta poderá fica tranquila, pois Jesus afirmou no Evangelho de hoje que jamais esta ovelha perecerá e que ninguém a arrebatará de sua mão. O Bom Pastor é um guardião e um defensor. Entretanto, todo cuidado é pouco, e cumpre a quem não que se desgarrar de seu Pastor se libertar das falsas ilusões disseminadas pelos meios de comunicação social e por tudo que significa devassidão e atos indignos de uma ovelha de Cristo. Seria triste cair nas mãos do diabo e suas horripilas artimanhas É preciso, porém, que o Bom Pastor esteja sempre vivo nas comunidades por meio de um apostolado esclarecido, dinâmico e eficaz. Jesus ensinou que Ele e o Pai são Um. Sua prioridade foi sempre trabalhar no projeto do seu Pai. Este lhe confiou as ovelhas que Ele bem conhece e delas se ocupa. Ele é a fonte da vida e conduz para as águas vivas. Suas ovelhas então O escutando e seguindo podem, de fato, arrastar as que estão longe da Verdade para virem para junto de Jesus. Eis aí o ideal pastoral que une todo o rebanho do Bom Pastor, cujo estilo de vida deve impregnar suas ovelhas. Através do batismo o cristão participa do múnus profético de Cristo e lá onde Deus o colocou é sempre o mensageiro de tudo que o Bom Pastor ensinou. Donde a corresponsabilidade na missão de Cristo, na missão da sua Igreja, cada um de acordo com os talentos que recebeu de seu Senhor. Trata-se de tudo fazer para que o rebanho de Jesus seja um rebanho vivo. Não negar jamais a contribuição pessoal nas atividades pastorais dentro das possibilidades possíveis. Mesmo porque a todos é possível o apostolado do bom exemplo que arrasta e faz a grandeza do rebanho de Cristo.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.





segunda-feira, 29 de abril de 2019

A TERCEIRA APARIÇÃO DE JESUS RESSUSCITADO


A TERCEIRA APARIÇÃO DE JESUS RESSUSCITADO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus Ressuscitado, junto do lago de Tiberíades, pela terceira vez manifestou-se a seus discípulos. (Jo 21,1-14). Pedro e seus companheiros trabalharam noite adentro e nada tinham pescado. Os apóstolos ainda estavam aturdidos com o que ocorrera com Jesus no Calvário e sua fé no Ressuscitado era ainda bem tímida. Jesus, que inicialmente não reconheceram, apresentou-se na margem e, para testá-los, lhes pede algo para comer e aqueles pescadores só tiveram uma resposta, dizendo que nada tinham a oferecer. .Ali, porém, estava o Senhor poderoso que havia multiplicado os pães e peixes no deserto e já havia, antes, promovido uma pesca- milagrosa (Lc 5, 4-11). Ele os instrui, pois, deviam, lançar a rede para o lado direito do barco. Seguiram a instrução e a pesca foi surpreendente. Entre as lições que este acontecimento oferece é preciso inicialmente fixar que nas horas de incerteza, de dúvida na vida pessoal, familiar ou comunitária frequentemente é necessário prosseguir na rota simples do cotidiano. É necessário não esmorecer e continuar agindo. Isto a partir dos elementos habituais das atividades próprias de cada um. Pedro afiançara, alto e bom tom, que iria pescar e seus companheiros resolveram ir também. Houve então um trabalho de equipe e, mesmo que nada tivessem pescado, aquele esforço lhes fora psicologicamente benéfico, apesar da fracassada tentativa de apanhar peixes. Foi quando se deu a presença do Ressuscitado. Aí vem outra mensagem de grande valia espiritual, pois, João, o discípulo amado, alma pura e simples, reconheceu que era Jesus quem ali estava: “É o Senhor”. Admirável, em seguida, a atitude de Pedro que imediatamente se lançou às águas para logo estar com o Mestre divino, nadando para chegar depressa à margem. Naquele momento Pedro já fazia um ato de fé no Senhor Ressuscitado e compreendeu que devia entrar no estilo de Jesus, sempre pronto a ajudar aqueles que nele creem. Os sinais do divino Redentor surgem nos acontecimentos da vida de cada um, no seu cotidiano e felizes os que captam suas mensagens sublimes percebendo o dinamismo de Jesus que visa sempre aprofundar a espiritualidade de seu discípulo. Naquele momento em que o próprio Cristo toma o pão e o peixe e os dá àqueles pescadores maravilhados com o que estava acontecendo eles entram numa atmosfera meditativa, silenciosa. Pedro inclusive estava então preparado para receber a chefia do rebanho de Cristo. Aqueles foram momentos de uma familiaridade comovente e de profunda proximidade do Mestre vencedor da morte. Este Senhor poderosos a convidá-los a comer com Ele era algo surpreendente. Uma cena tocante, pois não se tratou de uma aparição cintilante de luz fazendo brilharem as vestes de Jesus. Tratava-se de gestos e de palavras da vida do dia a dia. O Ressuscitado se mostra aos discípulos e deles se aproxima como o fazia antes nos dias de sua trajetória terrena. Os liames com Ele não haviam desaparecidos, mas simplesmente transformados. Como nas outras duas aparições anteriores Jesus se manifesta aos apóstolos com uma presença nova. Por isto os detalhes da narrativa de São João foram escritos para fazer compreender que esta presença de Jesus, após sua ressurreição era uma presença real, uma presença que ele queria fosse sentida na vida de todos os seus seguidores em todas as suas atividades cotidianas. É preciso, de fato, perceber Jesus Ressuscitado nas ocupações habituais, no trabalho, nas conversas pessoais ou pelo telefone, ou pelo Twitter, ou pelo Facebook.  Ver Jesus Ressuscitado nos amigos, nas crianças, nos jovens, nas pessoas idosas. Contemplar Jesus, sobretudo, em casa no convívio familiar. Com efeito, Ele continua a se manifestar no contexto histórico de cada um como o fez para os discípulos a beira do lago. Ele quer uma resposta de amor e de fé. Com ternura Jesus disse à beira do lago aos apóstolos: “Vinde comer”. Presente na Eucaristia, no Pão e no Vinho consagrados, Ele alimenta em cada participante da Missa a fé na sua presença. A Igreja renova então a exclamação do Apóstolo João: “È o Senhor”! Eis “o Cordeiro Imolado, digno de receber poder e riqueza, sabedoria e força, honra, glória e benção” (Ap 5,12).  Nele nós podemos confiar, pois está sempre ao lado dos que nele creem e O amam. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

terça-feira, 23 de abril de 2019

A DIVINA MISERICÓRDIA


A DIVINA MISERICÓRDIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Neste domingo da Divina Misericórdia escutamos no Evangelho que Jesus Ressuscitado se manifestou aos Apóstolos e lhes dá a paz (Jo 20,19-31). Repete duas vezes “a paz esteja convosco”. Isto significa que esta saudação traz consigo uma mensagem especial e um projeto de vida. Trata-se da paz que vem do Deus misericordioso. Não é simplesmente a ausência de violência ou uma relativa tranquilidade de espírito. É a paz profunda do coração reconciliado com Deus que sempre perdoa e quer envolver a todos na sua clemência de Pai cheio de comiseração. Eis porque solenemente Jesus conferiu uma missão especial ao colégio apostólico: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio [... ] Recebei o Espírito Santo àqueles  a quem perdoardes os pecados  ficar-lhes-ão  perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficar-lhes-ão retidos”, O dom do Espírito Santo está ligado à presença do Divino Ressuscitado. Isto para que os Apóstolos e seus sucessores fossem perenemente os ministros do perdão. Cristo instituiu um sacramento que é a fonte mesma da indulgência do Senhor de tudo. Esta misericórdia é fruto do sacrifício que Jesus ofereceu na cruz pelos pecados do mundo. Note-se que oito dias depois, quando novamente Jesus se manifestou aos Apóstolos e Tomé estava presente, expressivo o que Ele disse ao seu seguidor incrédulo, mandando que ele tocasse nas suas chagas agora gloriosas. De fato, Cristo Ressuscitado é o mesmo Jesus de Nazaré elevado da terra sobre a cruz, o qual de seu lado traspassado pela lança fez jorrar a vida para a humanidade. Aos fariseus Jesus havia declarado: “Ide aprender o que significa: “Quero misericórdia e não sacrifício, porque não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13). Portanto, na luta diária contra o pecado cumpre reconhecê-lo como o Deus misericordioso e imergir nesta misericórdia infinita numa certeza cega como dizia Santa Teresinha de Lisieux. Quando no ano de 2000 o Papa São João Paulo II decidiu que no segundo domingo da Páscoa fosse nele comemorado a Divina Misericórdia, sua intenção foi que todos fizessem a experiência do perdão de Deus no qual se deve depositar a mais absoluta confiança. Fica então aberto o caminho da conversão e da renovação do coração movido por um sincero arrependimento. Com São Tomé pode então o cristão repetir diante do Ressuscitado: “Meu Senhor e meu Deus”! Trata-se de proclamar sinceramente a fé, estabelecendo um liame íntimo com o Vencedor da morte que vem a todos os que amorosamente O invocam. Esta relação pessoal com Cristo resulta então de um arraigado amor garantia de uma vida nova fruto da vivência pascal intensa. Tal deve ser a convicção dos que acreditam num Deus rico de misericórdia como falou São Paulo aos Efésios (Ef 2.4). Daí resulta a esperança que oferece a todos a possibilidade de enfrentar  as dificuldades da vida apesar das fraquezas humanas.  Reina, desta forma, a reconciliação consigo mesmo, com Deus e com o próximo, afastado todo desalento, toda falta de perdão, expulsa definitivamente qualquer queixa quanto às atitudes alheias. É que a partir da verdadeira compreensão da misericórdia de Deus é possível irradiar por toda parte a serenidade e a paz. Deste modo, as maravilhas do amor divino envolvem todas as ações de quem tem fé. Desta maneira Deus nunca se torna um estrangeiro na existência do cristão. Quando com Tomé o discípulo de Jesus Ressuscitado lhe diz “Meu Senhor e meu Deus” toda espécie de ilusão terrena se dilui. Muitos são tentados a procurar um Deus longínquo, no impossível de suas imaginações, quando, na verdade, Ele está bem perto daqueles que bradam “meu Senhor e meu Deus”. Ele quer realizar prodígios nas mais pequeninas ações de cada um, pois a seus olhos não há separação entre o cotidiano e o eterno, mesmo porque quem vive na sua presença só opera o bem e vai construindo sua salvação na eternidade. O sim dado a Deus não pode passar pelas dúvidas de São Tomé, mesmo porque Jesus lhe afirmou solenemente: “Bem-aventurados os que não viram e creram”. Nem todos têm percepção das graças que continuamente recebem. Não se trata de ver e tocar as chagas de Cristo como antes queria São Tomé, porque é no coração que se devem guardar as maravilhas divinas, jamais duvidando de sua misericórdia. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 15 de abril de 2019

CRISTO RESSUSCITOU


01 CRISTO RESSUSCITOU
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Por entre o júbilo pascal fulge a magna verdade da fé dos discípulos de Cristo, pois se não existisse a ressurreição de Jesus, não existiria o cristianismo. Grandiosa a mensagem que fluiu de um túmulo vazio. Diz o Evangelista que Pedro diante do sepulcro no qual não estava o corpo do Mestre, “viu e acreditou” (Jo 20, 1-9).   Jesus havia dito a Marta “Eu sou a ressureição e a vida” (Jo 22,25) e Ele, de fato, depois morto e sepultado, ressuscitou imortal e impassível. Sua vitória sobre a morte inaugurou um mundo novo no qual a morte foi vencida, tendo raiada para seus seguidores a certeza de idêntico triunfo. São Paulo, portanto, com toda a razão interrogou: "Onde está ó morte a tua vitória, o teu aguilhão?" [,,,] e concluiu: “Graças sejam dadas a Deus que nos deu a vitória por meio de nosso senhor Jesus Cristo” (1 Cor 15, 58.-59). Todas as gerações cristãs proclamariam esta realidade sublime, pois à Ressureição de Cristo é o fundamento da esperança na felicidade além-túmulo. Com efeito, o divino Ressuscitado é o mesmo que foi Crucificado. É que a festa de Páscoa supera de muito a dor da Sexta Feira Santa. Não houve Ressurreição sem a Cruz. Na verdade Cristo levou ao extremo seu imenso amor para com todos os homens através do preço do sofrimento e da morte para que raiasse a glória da Ressurreição, ostentando seu poder grandioso em toda a sua plenitude. É o mistério sublime do humano e do divino e a Ressurreição de Cristo vem decifrar e iluminar as vicissitudes humanas, proclamando que nada que é humano é banal, pois se torna semente da eternidade. O Ressuscitado abriu as portas da beatitude perene para todos que seguissem o seu caminho de Cruz o qual se tornaria um caminho de fé rumo a uma inefável alegria. Nos planos insondáveis de Deus foi necessária a morte de sexta feira santa, seguida do silêncio do túmulo onde o corpo do morto divino fora depositado, para que depois brilhasse a luz de seu esplendoroso triunfo. Sua ressurreição foi o final glorioso, o cúmulo de sua admirável dileção por nós, amor em profusão. Hoje cada um pode se ufanar e dizer que não é um vivo destinado à morte, mas um mortal ao qual está prometida uma vida sem fim junto de seu Redentor nas delícias do céu. É esta verdade que dá sentido à vida do cristão, não obstante as angústias, os sofrimentos e as dificuldades do dia a dia. Cumpre então irradiar por toda parte a fé no amor infinito de Deus, amor mais forte que toda a morte, acima de todo o mal que campeia mundo afora. Entretanto, a Ressurreição de Cristo ficaria inacabada se ela não fosse vivida intensamente no seu Corpo Místico, em cada um de nós. Cristo ressuscitado exige disposição interior, pois seu túmulo aberto mostra a necessidade que todos os cristãos tenham corações abertos, receptivos às inefáveis mensagens da Páscoa. Nas brumas do cotidiano Cristo Ressuscitado está a lembrar a todos que o Amor e a Vida são os únicos valores eternos, marcados com o selo de eternidade. Faz então jorrar a plenitude da adesão amorosa a todas as virtudes e a repulsa corajosa ao pecado. Em Cristo Ressuscitado é toda a vida do cristão que se encontra renovada. É preciso, porém, deixar Jesus agir através de sua graça, de seu poder, de sua misericórdia. Trata-se da presença de Cristo sempre atual, capaz de fazer rolar por terra os muros dos impasses que impedem viver em plenitude o mistério pascal, acolhendo-O como o eterno amigo e salvador. Para quem souber viver o mistério pascal, resplandece a esperança de um dia, no ocaso da passagem por este mundo, poder escutar estas palavras do Mestre divino: “Muito bem servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25,21). Isto significará então a vitória da Vida e do Amor sobre todas as forças da morte do corpo e da alma. Páscoa, deste modo, lança uma mensagem de coragem, de audácia e de alegria que, levada por toda parte, irradiará naqueles que titubeiam na fé a procura das veredas da autêntica ventura. Então o cristão se torna de fato teóforo, isto é, portador de Deus, filho de Deus, deificado pela presença do Ressuscitado. O mundo estará então mais iluminado! Isto porque no dia glorioso da sua ressurreição Cristo convida a todos a recomeçar a viver plenamente, a passar do medo à alegria, das trevas à luz, da morte à vida. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.