quinta-feira, 15 de junho de 2017

A IGREJA CATÓLICA NO MUNDO

A IGREJA CATÓLICA NO MUNDO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
 Os fiéis que pertencem à Igreja Católica professam os mesmos dogmas, que são a garantia da unidade de fé e obedecem ao Papa.  
         Este, como sucessor de Pedro, tem, por instituição divina, poder supremo, pleno, imediato e universal na cura das almas.  Procura o bem comum da Igreja universal e o bem de cada uma das Igrejas particulares, tendo o primado do poder ordinário sobre todas as Igrejas. É preciso se tenha claro, porém, no que diz respeito às Igrejas Orientais Católicas  que  elas são Igrejas “sui generis”, isto é, são autônomas para legislar de modo independente  a respeito de seu rito e da sua disciplina, mas não no que diz respeito às verdades dogmáticas e  todas  estas Igrejas obedecem o Soberano Pontífice, atualmente o Papa Francisco.
 Este trecho do Decreto sobre as Igrejas Orientais Católicas, do Concílio Ecumênico Vaticano II,  é sumamente elucidativo: “A Igreja santa e católica, Corpo Místico de Cristo, consta de fiéis que se unem organicamente pela mesma fé, pelos mesmos sacramentos e pelo mesmo regime no Espírito Santo, coligando-se em vários grupos unidos pela hierarquia, constituem as Igrejas particulares ou os Ritos. Entre elas vigora admirável comunhão, de tal forma que a variedade na Igreja, longe de prejudicar-lhe a unidade, antes a manifesta. A intenção da Igreja católica é que permaneçam salvas e íntegras as tradições de cada Igreja particular ou Rito, bem como quer, igualmente, adaptar seu modo de vida às várias necessidades dos tempos e lugares”.
 O Concílio preconiza a preservação do patrimônio espiritual das Igrejas Orientais. Fala da importância  dos Patriarcas Orientais, da disciplina dos Sacramentos, do culto divino. Salienta que “As Igrejas Orientais que vivem em comunhão com a Sé Apostólica de Roma, compete a peculiar obrigação de favorecer, segundo os princípios do Decreto “Sobre o Ecumenismo” deste S. Sínodo , a unidade de todos os cristãos, principalmente os orientais, pela oração sobretudo e pelo exemplo de vida, pela fidelidade religiosa para com as antigas tradições orientais, por um melhor conhecimento mútuo,  pela colaboração e estima fraterna das coisas e das almas”. 
É preciso, portanto, orar  sempre pela unidade de todos os batizados em torno da Cátedra de Pedro na mais absoluta fidelidade ao Papa, chefe da Igreja católica em todo o mundo.
Deve também ficar sempre claro o que são Igrejas Católicas Autônomas, pois nem sempre os sites que falam sobre o assunto esclarecem princípios fundamentais sobre este tema.
Não há autonomia alguma no que tange aos dogmas e ao poder universal do Papa.

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

domingo, 11 de junho de 2017

A MESSE E O APOSTOLADO

A MESSE E O APOSTOLADO
Côn.. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Diz o evangelista São Mateus que Jesus “ao ver as multidões, condoeu-se delas, porque andavam maltratadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. O Mestre divino logo diagnosticou o problema: “A messe é grande, mas os trabalhadores poucos”. Ofereceu uma solução que deve tocar todos os seus seguidores: “Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe” (Mt 9,35-38). Em primeiro lugar é de se notar que não se pode atribuir o termo trabalhador apenas aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas e aos missionários. Isto porque todo cristão precisa tomar conhecimento da tristeza de Cristo diante da imensidão da seara. É certo que a diversidade dos ministérios oferece formas diferentes para o trabalho apostólico, mas todos os discípulos de Jesus são chamados a trabalhar na evangelização de acordo com os carismas que Deus lhes concedeu. A força do apostolado e o seu sucesso é unicamente a força de Deus. O fiel não visa nunca sua própria honra, mas sim a glória divina e o bem das almas. É evidente que na sua generosidade infinita o Senhor da messe nunca deixa de recompensar aqueles que se mostram operários zelosos para que reine o bem neste mundo. O próprio Jesus afirmou: “Regozijai-vos porque vossos nomes estão inscritos no céu” (Lc 10,20). É de se notar, porém, que Jesus fala em colheita abundante, não num campo imenso que deve ser cultivado. Isto porque a semente já foi lançada, o trigo já germinou e amadureceu, cumpre agora a ceifa. Esta necessita de mais trabalhadores. A humanidade contem em si um potencial enorme em vista ao Reino de Deus. Como dizia Santo Agostinho, “Muitos são do Reino, sem ser da Igreja”. Aí está o papel do operário de Cristo qual seja pelo seu exemplo de vida, pela palavra oportuna, pelas atividades pastorais, trazer os que andam longe de Deus para a prática integral dos mandamentos e das virtudes pregadas no Evangelho. Não menos importante o suporte de tudo isto que é o apostolado através da oração, de uma prece confiante que converte e salva pecadores e arrasta os que não usufruem dos bens espirituais da Igreja Católica para receberem as graças dos sacramentos e demais recursos espirituais oferecidos por esta Igreja. O papa São João Paulo II na “Exortação Apostólica, Christifideles Laici, de 1988, sobre a vocação e a missão dos Leigos na Igreja e no mundo, deixou clara a importância do apostolado de todos os discípulos de Cristo. Este trecho deste documento é sumamente ilustrativo: “No apostolado individual existem grandes riquezas que precisam ser descobertas em ordem a uma intensificação do dinamismo missionário de cada fiel leigo. Com essa forma de apostolado, a irradiação do Evangelho pode tornar-se mais capilar, chegando a tantos lugares e ambientes quanto os que estão ligados à vida quotidiana e concreta dos leigos”. Além deste apostolado individual, na medida do possível, felizmente, alguns se engajam nas diversas pastorais de acordo com o tempo que dispõem e nas atividades que mais se coadunam com seu perfil caracterológico. Tal acontece porque é preciso atender ao clamor de Cristo, dizendo que há poucos trabalhadores para sua messe. O trabalho apostólico é, por vezes, difícil e existe esforço e muita confiança em Deus, mas traz benefícios pessoais e para toda a comunidade. Além disto, no citado documento o Papa observa a urgência atual de uma nova evangelização referente ao problema missionário nas regiões que necessitam de pastores desvelados. São milhões de pessoas que não com conhecem ainda a Cristo. Donde o apelo feito pelo Papa para que as famílias cristãs percebam a responsabilidade de favorecer a maturação de vocações especificamente missionárias, sacerdotais, religiosas ou leigas. Vale então mais do que nunca o apelo de Cristo: “Rogai ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe”. Portanto, há muitos meios para a cooperação na obra de santificação do mundo. Não se pode ser cristão em tempo parcial. O fundamento de tudo isto é o ensinamento recordado pelo Concílio Vaticano II, mostrando que todo batizado participa do múnus sacerdotal, régio e profético de Cristo. Em síntese, todos os batizados são chamados a trabalhar na seara do Senhor na certeza de que nada é mais belo que ser um apóstolo de Jesus. * Professor no seminário de Mariana durante 40 anos.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS PORQUE SERÃO CONSOLADOS

BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS, PORQUE SERÃO CONSOLADOS
Com. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Por entre as vicissitudes da vida há momentos de indizíveis tristezas. As mesmas lutas que recomeçam cada dia. A maldade que campeia pelo mundo. A morte, as catástrofes e tantas pessoas amadas que se vão, tudo isto causa pesar. Adite-se a exclusão, a solidão e quando nada externo já não perturba, no mais profundo do ser humano, que turbilhões, que fontes de aflição! É possível, porém, crescer espiritualmente nestes instantes de amargura. Fulgurante a promessa de Cristo de que há a possibilidade da consolação, o que é um arrimo a mais para o cristão. Aquele que conforta é o Divino Espírito Santo. As palavras de Jesus foram claras: “É preciso que eu parta para que venha o Consolador”. É necessario, contudo, que haja uma aflição consciente para que se possa transformar a provação numa oportunidade de crescimento na santidade pessoal. Desenvolvimento é então um processo feito de perdas dolorosas, mas que ensejam atitudes positivas.   As lágrimas de si não têm valor algum, não passam de amarga água, se um afeto que as chora não as valoriza. É necessário que Deus esteja sempre em nosso pensamento para que as lágrimas que sulcam as faces, façam brotar dos espinhos da vida uma rosa celestial. Passa-se deste modo de uma situação conhecida como dolorosa, para outra desconhecida, mas firmada na fé pela presença do Paráclito. Ele oferece a inteligência que faz ultrapassar a angústia, fazendo entrar numa realidade que se dará na eternidade. É o ir além da amargura para o bálsamo do Reino de Deus. É plantar no tempo, para colher na Casa do Pai. Não ocorre uma atitude estoica perante a aflição, mas uma supervalorização através do oferecimento da mesma em reparação das faltas cometidas ou aplicando-a para o bem do próximo e da Igreja. Isto ainda que no meio de solicitações, muitas vezes até ilusórias, vindas do mundo exterior, dos sofrimentos corporais, das emoções do coração, dos pensamentos desordenados que criam miragens. É que, como asseverou São Paulo, “a esperança não decepciona”. É aí que entra a ação do Consolador, firmando esta virtude teologal. Com efeito, a existência do cristão não pode ser vista como peças isoladas, destacadas, mas precisa ser contemplada no seu conjunto. O mesmo Apóstolo asseverou: “O justo vive da fé”. Portanto, ele não desespera nunca dado que os percalços estão inseridos num plano superior além-morte. O discípulo de Cristo não se desliga das realidades perenes, escravizando-se àquilo que é passageiro, ainda que possa perdurar certo tempo um estado de agonia. O Paráclito, o Mestre interior que Jesus enviou de junto do Pai desperta no íntimo de quem vive a Ele unido a convicção de que tudo é providencial na sua vida até mesmo as aflições. A consolação que advém do Alto faz deixar de lado a reação meramente humana para fazer entrar desde já no Reino da conversão sempre renovada. Como se trata de uma conversão constante é natural que os desgostos se sucedam. Com citado Apóstolo Paulo o cristão repete: “Eu tudo posso naquele que é a minha fortaleza”. É desta maneira que nunca se perde vista o verdadeiro sentido de uma existência dentro dos parâmetros do Evangelho que esclarecem sempre os desígnios de Deus. A crença na vida eterna não é nunca alienante, porque o cristão sabe que ele pertence ao Infinito e que na outra margem da existência terrena Alguém está a sua espera. Deste modo, o Reino de Deus passa a envolver todos os pensamentos, todas as emoções lançando o cristão numa luminosidade que consola, redime e salva. O Paráclito transforma, fazendo do homem terreno um ser totalmente voltado para o Reino Eterno, dando-lhe desta maneira suporte para bem se comportar diante das angústias nesse vale de lágrimas. Afasta o medo, a dubiedade, clareando o futuro.  O cristão compreende então que entre o que é do mundo e o que é de Deus, entre a inteligência e a perfeição há um meio de aperfeiçoamento interior graças à presença do Advogado que Jesus do céu enviou aos que O amam e fielmente O seguem. Dá-se então a aliança perfeita entre o visível e o invisível, mesmo porque Jesus é o Pontífice que estabeleceu esta ponte que faz com que o seu discípulo possa atravessar o mar das tribulações, rumando triunfante para junto dele apesar das mais variadas aflições. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.             


quinta-feira, 8 de junho de 2017

BEM-AVENTURADOS OS POBES EM ESPÍRITO

BEM-AVENTURADOS OS POBRES EM ESPÍRITO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Ao declarar que “são felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus”, Jesus proclamava o valor da independência dos bens materiais (Mt,5,3). Por entre o descalabro que reina em tantos países ocasionados pela corrupção, é de bom alvitre refletir sobre esta Bem-aventurança. Sábio pedagogo, Jesus ensina a seus seguidores o emprego correto dos bens materiais que são adquiridos através de um trabalho honesto. .Sua sentença é lapidar: “Não podeis servir a Deus e as riquezas”. O verdadeiro cristão não é proprietário de nada, mas deve ser um sábio gerente de tudo que recebe do seu Senhor. Todos darão contas ao Ser Supremo de tudo que dele ganharam, ou seja, o modo como empregaram as dádivas divinas neste mundo. De plano, todo desperdício é condenável e, sobretudo, o uso do dinheiro advindo da iniquidade e aplicado para o mal. Entretanto, com a mesma diabólica astúcia com que os perversos, os maus políticos, se utilizam de suas posses, para obter favores, os bons patriotas devem se valer do próprio dinheiro para alcançar uma recompensa eterna. Isto, evidentemente, se dá quando nenhuma quantia á malbaratada, mas empregada para as necessidades próprias e dos que dele dependem e para a ajuda oportuna aos mais necessitados. Deus não pode aprovar nenhuma atitude desonesta, mas gratifica toda e qualquer ação justa, reta, eticamente correta. O dinheiro, fruto de um trabalho consciencioso, deve, portanto, aproximar o cristão de Deus. É célebre o ditado: “Quem dá aos pobres empresta a Deus”. Esmola, contudo, bem direcionada para as obras sociais das Paróquias, para as atividades dos vicentinos e outras associações de caridade. Deste modo, o bom emprego do que se possui se torna um instrumento de partilha e fomenta a fraternidade. Assim sendo, o dinheiro não é mau em si mesmo e pode até abrir a porta para muitas ações boas e louváveis.  É, porém, fonte de muitas tentações a serem vencidas, mesmo porque ninguém deve ser dele um escravo. Torna-se então dinheiro da iniquidade, da injustiça, da opressão, da fraude, do dolo.  A segurança que as riquezas oferecem é ilusória, mas perene deve ser a confiança em Deus que nunca deixa faltar nada aos que O temem e servem. Deus sempre está ao lado dos honestos, dos que praticam a justiça. Servir, portanto, tranquilamente apenas a Deus, combatendo o amor-próprio.  a astúcia, o poder pelo poder. Foi a ambição que levou Judas Iscariotes à mais vil traição da História. O alerta de Cristo, sobre as riquezas vale para qualquer contexto socioeconômico, sobretudo para o atual, situação marcada pelo consumismo, pela corrupção edênica, pelo endeusamento da fortuna adquirida por meios lesivos ao próximo e a toda uma nação. . Se as autoridades, os poderosos deste mundo não dão exemplo, pessoalmente o cristão não se deixa contaminar pela onda de perversidade, aprovando os desvios prejudiciais ao patrimônio público que a todos pertence e as falcatruas que se multiplicam nos mais  diversos setores da sociedade. No cerne de todos estes males está o egoísmo que não só impede um oportuno auxílio aos mais necessitados, como fomenta a ganância, fazendo que muitos se esqueçam de que deste mundo nada material se leva para a eternidade, Os automatismos do ego conduzem às maiores aberrações Com efeito, o egotismo cria uma mendicidade perversa porque faz o ser humano sempre ligado a objetos terrenos. Estes, endeusados, conduzam ao desejo imoderado de aumentar sempre mais o que se possui, Não controlada esta cobiça, os meios mais nefandos são empregados prejudicando os outros e o bem comum. O pobre em Deus é aquele que percebe que o verdadeiro tesouro  não pode estar naquilo que é efêmero e que precisa ser apenas um instrumento para uma vivência digna do ser humano. Então, satisfeito com o que possui, fruto de um labor honrado, perseverante, o cristão passa a detectar o sintoma que prolifera ontem, hoje, amanhã e sempre dentro da sociedade que é a presença dos pobres destituídos, muitas vezes, do mínimo necessário para a sobrevivência. Então, na medida de suas possibilidades o seguidor de Cristo procura minimizar tais sofrimentos. Nunca o bom cristão deve ser egoísta, mas precisa ser generoso e compssssivo.. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O SIGNIFICADO AS BEM-AVENTURANÇAS

SIGNIFICADO DAS BEM-AVENTURANÇAS ( Mt 5, 1-12)
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

As Bem-aventuranças são um magnífico cântico de esperança. Lançam mensagens que permitem o cristão a se reconciliar consigo mesmo. No cerne das oito beatitudes se deparam ensinamentos preciosos para colocar o Reino de Deus no mundo, promovendo a transformação do mesmo. Difundem um apelo à responsabilidade e oferecem um programa de vida para o seguidor de Cristo. A extraordinária força das Bem-aventuranças vem de sua admirável concisão e isto facilita com que cada um seja dela um arauto. De todo o Sermão da Montanha elas são a quintessência, um belíssimo exordio e podem ser arroladas entre as grandes doutrinas espirituais da humanidade. São palavras de vida que conduzem a penetrar fundo em todo o ensinamento do Filho de Deus. Ele, que fora concebido do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, é o Anunciador eterno da Verdade, o Verbo de vida, o Consagrado a Deus, o Emanuel, o Deus conosco, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que se fez homem, o Mestre divino. Como ensinou São Gregório Magno “pelo poder da divindade, possuía, o que nos ministrou pela inteireza. de sua humanidade”.  As Bem-aventuranças por Ele proclamadas abrem então os corações e faz neles brilhar o esplendor da eternidade . Elas nos subtraem da fascinação do mundo, fato a ser comunicado aos outros, onde quer que se esteja, aqui e agora. É que Jesus é, de fato, a compaixão personificada a norma de vida e o perdão cordial que esplendem nas Beatitudes. Por isto mesmo, esta é a utopia das Bem-aventuranças, o deslumbramento vivido da pobreza de espírito, da aflição sobrenaturalizada, da fome e sede de justiça, da misericórdia sem limites, da pureza do corpo e da alma, da paz consigo, com o próximo e com Deus, da perseguição sofrida em prol do Reino de Deus. Eis por que na essência das Beatitudes se encontram os princípios para uma evangelização eficiente. É preciso, contudo, ter sempre em mente as inspirações afloradas e que devem ser recebidas com atenção, maleabilidade e disponibilidade. Então o levedo oferecido pelo Espírito Santo que mana destas Beatitudes produzirá maravilhas para si e para os outros. Ondas benéficas que sobrenaturalizam, deificam. Surge deste modo uma mentalidade tocada por um fogo vivo que ilumina, aquece, redime e salva. Esta é maneira mais fecunda para se entrar em relação com o próximo e melhorar o ambiente no qual se vive. Dá-se uma empatia inexaurível com os outros e não se corre o risco de temer uma existência comunitária. A razão de ser, a análise, as modalidades  do mistério do encontro  se aprofundam dia a dia, tornando a fraternidade uma realidade fulgurante e benfazeja. Desaparecem os preconceitos fúteis, as meras opiniões, os julgamentos fortuitos.. Desta maneira se vê menos a palha no olho do próximo, porque já se tirou a trava do próprio olho. Isto significa trilhar o caminho de um coração semelhante ao de Cristo, concretizando suas sublimes lições.   É o descer da montanha para endireitar as veredas tortuosas que levam tantos à perdição. É a transmissão daquilo que cada um é e pratica, o que se torna possível porque o próprio ser se metamorfoseou no próprio agir, tanto é verdade que o bem é de si difusivo. Integrado este bem em si mesmo ele transborda e se verifica o que disse Elisabeth Leseur “não sabemos o bem que fazemos, quando fazemos o bem”. São os frutos opimos da vivência plena das Bem-aventuranças. O cristão se torna então o fermento  contagioso do Reino de Deus. Tudo se torna bênçãos celestes para si e para os outros. Aquele que tem sua mente clarificada pelas Beatitudes cantará sempre a glória de Deus.. Impregnar-se das Bem-aventuranças é se tornar um poeta da eternidade, porque os que têm um coração puro podem contemplar as maravilhas que o Criador espalhou na natureza e, tendo um espírito de pobre, se sobrepõem às coisas materiais e às aflições terrenas.. Irradiam mansidão, misericórdia, paz. Embora tendo sempre mais fome e sede de justiça, podem até ser perseguidos, mas se alegram e exultam, olhos fixos na recompensa  lá no céu. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sábado, 3 de junho de 2017

A TRINDADE SANTA E O CRISTÃO

A TRINDADE SANTA E O CRISTÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No colóquio com Nicodemos Jesus introduz o seu seguidor no coração mesmo da Santíssima Trindade ao dizer: “Deus tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16-18). Desde toda eternidade o Pai se conhece. Este conhecimento é eterno, substancial, igual a sua origem, é a segunda pessoa, o Filho. O Pai e o Filho eternamente se amam. Este amor intemporal é o Espírito Santo, Terceira Pessoa, que procede do Pai e do Filho. O Amor de Deus, porém, é dom sem limites e daí a criação do mundo e tudo que nele existe e a vinda do Filho a esta terra. Crer nele é ter a vida eterna.  Deus é em si mesmo inclusão de amor que se extravasa de toda a eternidade para a felicidade dos seres criados. Ele os chama à existência e a entrar livremente em uma relação de confiança e de reciprocidade com Ele. O Espírito de Amor faz o liame não somente entre o Pai e o Filho, mas ainda o liame entre todos os que têm fé e o Deus da aliança.  A vida de Deus é abertura ao outro e dom sem limites oferecido deste modo aos que nele creem através de Jesus Cristo, que é a imagem, a face do Deus invisível, o Verbo eterno que habitou entre os homens. Assim sendo, o Espírito Santo leva os fiéis a viver a vida mesma de Deus que é partilha e doação.  Eis porque o mistério da Santíssima Trindade conduz ao amor fraterno, induzindo a entrar na dinâmica de vida que é em si mesma o ser do Deus Uno e Trino. Dá-se então a imersão na beatitude eterna, repartida a cada um de acordo com seu crescimento espiritual. O Pai ama prodigiosamente a todos que foram criados a sua imagem e semelhança e os ama pessoalmente. O ser racional não é fruto do acaso, mas é alguém conhecido e amado pelo Criador. Com amor eterno Ele amou a cada um e isto de tal modo que enviou o seu Filho único para a salvação da humanidade que O havia ultrajado. Cristo veio como o caminho para uma eternidade feliz no seio deste Deus que é Amor. Daí a necessidade da identificação com o divino Redentor. Compreende-se então o que aconteceu com São Paulo que pôde afirmar: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20). Cumpre se assemelhar com Aquele que leva até à Divina Família Trinitária Sua missão neste mundo foi revelar a solidariedade do amor do Pai em favor daqueles que Ele veio restaurar na liberdade do Amor. É preciso então anunciar o mistério da Trindade como princípio dinamizante no qual consiste toda história de Deus com relação a cada um. Este Deus, contudo, não ameaça nunca a liberdade humana, mesmo porque se o amor a Ele não fosse um ato livre, não teria um valor que se estenderá por toda a eternidade. Entretanto, a energia deste amor livre a Deus está cheio de sentido, porque flui do Espírito Santo acolhido por aquele que tem fé. Aí está a razão pela qual a aceitação ou a recusa do Amor trinitário tem uma repercussão eterna. Aquele, porém, que crê no Filho de Deus possui a sua disposição todos os meios necessários para amar o seu Senhor sobre todas as coisas. Entre estes recursos sobrenaturais se saliente a Eucaristia que é o próprio Cristo, companheiro de jornada rumo à beatitude eterna. Jesus sempre ao lado da penúria humana, que leva a tantas precariedades e até,. às vezes, à traição do imenso amor de Deus. Aquele, contudo, que crê em Cristo jamais perecerá, pois se arrependerá sempre de seus erros. Ao mistério trinitário o fiel é chamado a dar seu ato de fé pela qual se obtém a salvação. Eis porque crer é se apoiar em Cristo na sua relação com o Pai e com o Espírito Santo e estar assim em comunhão com as Três Pessoas divinas. Entrar na filiação do Filho e na imersão do Amor é o aperfeiçoamento máximo do cristão. Esta realidade é já vivida neste mundo por todos aqueles que possuem a graça santificante, pois, as palavras de Jesus foram claríssimas: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, viremos a Ele e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). A solenidade da Santíssima Trindade é então um convite a cada um para abrir o seu coração a esta realidade que a todos ilumina nos sofrimentos e nos júbilos, nas sombras e luzes, numa caminhada rumo ao dia em que verá este Deus Uno e Trino face a face. Destino sublime que a todos deve envolver na mais completa alegria! Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Glorioso Santo Antônio de Pádua, notável Luz da Santa Igreja

Glorioso Santo Antônio de Pádua, notável Luz da Santa Igreja.
            Côn; José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Em sua milenar história a Igreja tem ostentado uma multidão de homens e mulheres que entenderam e puseram em prática a ordem de Jesus “Sede perfeitos, como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Entre eles está o ínclito Santo Antônio. Fernando foi o nome que ele recebeu no dia de seu batismo em Lisboa, cidade que o viu nascer em 1195 dentro de uma família nobre e rica. Filho de Martinho de Bulhões e Maria Teresa de Taveira, pais de comprovada virtude, que puderam e souberam transmitir ao filho um exemplo magnífico de vida cristã. Bem cedo fulgiram as qualidades de Fernando, que primava pela piedade e correção de atitudes. Sua primeira escola foi a comunidade dos cônegos da catedral de Lisboa. Completados os quinze anos quis entrar para a Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho. Em Lisboa, a visita de parentes e amigos o distraiam de seu grande objetivo que era uma profunda união com Deus e a entrega total a seus estudos a bem do apostolado que tinha em mira. Isto motivou o pedido de Fernando para ser transferido para a cidade de Coimbra, onde prosseguiu sua trajetória de eclesiástico exemplar. Certa vez ele presenciou a partida de cinco franciscanos para as missões na África e surgiu no seu coração o desejo de se tornar discípulo de São Francisco. Um fato o fez tomar esta resolução: aqueles missionários que tinham ido para a África haviam sido martirizados pelo Evangelho e Frei Fernando assistiu o féretro daqueles heróis em Portugal. Fez-se franciscano e, em 1220, quando tomou o nome de Antônio com o qual entraria na História como um dos santos mais populares de todos os tempos. Logo se colocou à disposição de seus superiores para as Missões na África, visando a conversão dos mouros. Tais não eram os planos de Deus, pois, lá chegando, uma enfermidade o obrigou a regressar à Europa, indo não para Portugal, mas para a Itália, pois uma tempestade desviou a embarcação para as costas da Sicília. Desembarcou em Messina e, de lá, foi para Assis, onde estava São Francisco. No Capítulo Geral da Ordem passou despercebido. Entretanto, como houve logo depois uma ordenação sacerdotal em Forli, faltando o pregador, ele foi escolhido para falar à comunidade dos frades. Sucesso absoluto! Todos ficaram encantados com a unção daquele jovem pregador e com o conteúdo de sua doutrina. Concluíram que ali estava um talento escondido e que deveria ser aproveitado a bem da Evangelização. Grande era, de fato, sua ciência e sabedoria. São Francisco mesmo o encarregou de ensinar teologia aos frades. Antônio lecionou em Bolonha, Montpellier, Tolosa e Pádua. Sábio, seus sermões arrastavam multidões que enchiam as igrejas para escutar a Palavra de Deus tão bem transmitida. Toda a sua doutrina foi um incansável anúncio do Evangelho. A pregação era o seu modo de acender a fé nas almas. Ouvintes de todas as classes sociais e crenças escutavam sua palavra que tocava os corações mais empedernidos. Ele combatia com denodo as heresias. Gostava de pregar sobretudo para os pobres e admirável sua caridade para com os mais humildes. Era um enamorado da Santa Pobreza. Transmitiu o conteúdo da fé e fez acolher os valores do Evangelho de acordo com a cultura popular de seu tempo. Sua fama se espalhou e as graças que as pessoas alcançavam com suas bênçãos fizeram com que entrasse para a História como o santo dos milagres mais extraordinários. Faleceu com trinta e seis anos. Ainda hoje causa espanto a desproporção entre o reduzido tempo de  sua vida e a grandiosa obra apostólica por ele realizada. Foi enterrado em Pádua, cidade que lhe emprestaria o nome e lhe ergueria uma Basílica magnífica lá está numa redoma sua língua que não se corrompeu. Tornou-se o santo que abençoa aqueles que querem um bom casamento, pois atuara na vida de uma jovem que, seguindo suas instruções, convolou núpcias felizes.  Daí ser o santo casamenteiro. Hoje, mais do que nunca, se faz mister a invocação de Santo Antônio para que os jovens saibam escolher bem o companheiro de jornada e para que os esposos vivam  fiéis a seus compromissos matrimoniais. Todos saibamos imitar os exemplos de Santo Antônio. Ele foi um evangelizador pela palavra e pelo testemunho de vida. * Professsor no Seminário de Mariana durante 40 anos.