segunda-feira, 20 de março de 2017

JESUS, A LUZ QUE ILUMINA O MUNDO

JESUS, A LUZ QUE ILUMINA O MUNDO.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

A extraordinária cura de um cego de nascença mostra como Deus não julga o exterior, mas olha dentro do coração humano (Jo 9,1-41). Aquele que é humilde, fraco, sofredor tem a preferência divina ao contrario dos que julgam pelos critérios humanos os quais valorizam os poderosos. Jesus viu alguém que não enxergava desde seu nascimento, desprezado, considerado pecador ou filho daqueles que haviam pecado e logo dele se compadeceu. Ante um julgamento tão negativo, Ele, que era luz do mundo, se encheu de compaixão perante a cegueira daquele homem. Fez um gesto surpreendente. Antes de simplesmente abrir os olhos do cego cuspiu no chão e fez barro com a saliva e aplicou-o aos olhos daquele sofredor. Cumpre penetrar no significado daquele sinal de Cristo que a primeira vista poderia parecer estranho. Há nele um duplo sentido. No início da Bíblia o Gênesis relata no capítulo segundo que Deus modelou o ser humano com o barro da terra. Era o aparecimento do homem. Pelo gesto de Jesus agora era um homem novo que ele entranhava no cego. Surgia uma nova vida deste encontro com o poderoso taumaturgo e tanto isto é verdade que, mais tarde, no reencontro com Cristo o cego curado fez um ato salvífico de fé: “Eu creio, Senhor. E O adorou”. Jesus lhe restituíra a visão corporal e espiritual. Aquele lodo de que se serviu Cristo era o símbolo do barro do pecado que deforma o olhar humano. São as faltas que impedem de ver a Deus como Pai e o próximo como irmão. Entretanto, Jesus, o taumaturgo, sana também o olhar errôneo que cada um tem sobre si mesmo. Muitos se julgam santos, quando na verdade o mal está enraizado na sua vida pela prática do desprezo dos mandamentos da Lei do Senhor. Jesus então manda ir não já à piscina de Siloé, mas ao sacramento da Confissão, fonte onde se lavam todas as maldades, todos os erros. Depara-se então com Aquele que é a luz que ilumina o mundo. A cura do cego de nascença suscitou inúmeras dúvidas entre seus conhecidos e os fariseus. Quantos incrédulos ainda hoje há no mundo que não creem no poder miraculoso de Jesus para si, para os outros, para quantos nele confiam! Não percebem que é possível a conversão dos que se extraviam e não são capazes também de perdoar os outros. A quaresma, mais do que um tempo de penitência, deve ser um contexto de acolhimento aos outros e a si mesmo. Recepção generosa da Luz de Deus, esta Luz que é Jesus e que deve aclarar a vida de seus seguidores, aumentando-lhes a fé nos mistérios revelados. O cego de nascença não havia nada pedido a Jesus, mas foi Jesus que tomou a iniciativa. Cristo está, sobretudo na Quaresma, à porta de cada coração e bate. Ele quer iluminar todos os recantos deste coração para que seu discípulo possa contemplá-lo na Eucaristia, na pessoa do próximo, nas belezas da natureza. Ele veio ao mundo como luz para restabelecer inteiramente a dignidade humana. O cego de nascimento que reconheceu a divindade de Cristo se tornou seu seguidor e sublinha a necessidade de que haja um apostolado devotado para que outros cegos passem a enxergar as maravilhas de Deus em seu derredor. A cura do cego fez surgir controvérsias e tomadas de posição. Isto faz lembrar o ilogismo daqueles que se opõem ao bom senso e à fé que se deve ter em Jesus e na sua verdadeira Igreja católica. Muitos são aqueles que como os pais do cego se esquivam para não se comprometer e até traem sua crença religiosa por interesses muitas vezes irrisórios. Não querem complicar sua vida, mas abandonam a luminosidade de Jesus. O encontro pessoal com Cristo deve levar a uma profissão completa de fé, porque senão, como disse Jesus, o pecado permanece. Jesus oferece sempre oportunidade para uma escolha sábia entre as trevas e a luz. Aquele que prefere sua cegueira espiritual, porém, não tem escusas, dado que Deus, como aconteceu com o cego do Evangelho, oferece oportunidade para uma cura total. Ele, contudo, não força a liberdade humana. Os fariseus continuaram os verdadeiros cegos e foram repreendidos pelo Mestre divino. Felizes, contudo, os que acolhem o dom da fé e vivem na luz de Cristo dentro da Igreja que guia, conduz e salva. É preciso enxergar a evidência da presença de Deus no decorrer de todas as horas, tendo com Ele uma amizade pessoal, íntima. Solicitar a Jesus para guardar junto de seu coração amoroso todos os passos cotidianos. Assim outros também descobrirão como é doce e suave uma existência sob a luminosidade divina.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sábado, 18 de março de 2017

As consequências da ambição

AS CONSEQUENCIAS DA AMBIÇÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Como se não bastasse a corrupção no meio político com verbas faraônicas desviadas dos cofres públicos, as manchetes dos jornais da última semana são também aterradoras. Entre elas “Cabeça de porco, carne podre, salmonela, papelão. Investigação da Polícia Federal revela que, antes de exigir dinheiro em  espécie de suas vitimas, dois inspetores do Ministério da Agricultura se fartavam de hambúrgueres, picanhas e peças generosas de filé mignon”. Além da desmoralização de empresas famosas, o desrespeito aos consumidores é de estarrecer. A busca desenfreada de dinheiro a qualquer preço causa todas estas desgraças e as misérias que campeiam por toda parte. Deus não pode aprovar nenhuma atitude desonesta, mas gratifica toda e qualquer ação eticamente honesta. O dinheiro, fruto de um trabalho consciencioso, deve, portanto, aproximar o cristão de Deus, ao passo que a ganância e a desonestidade proporcionam desgraças para quem as comete e para toda a coletividade. A ambição desmedida é, infelizmente, fonte de muitas perversidades a serem vencidas, mas muitos se tornam escravos do dinheiro. Este se torna então dinheiro da iniquidade, do dolo, do engano, da fraude.  A segurança que as riquezas oferecem são ilusórias e toda corrupção precisa se veementemente execrada. Louvados sejam sempre, isto sim, os  que praticam a justiça, são probos e retos. Combate corajoso à ganância,  ao amor-próprio, ao egoísmo, à  astúcia, ao poder pelo poder. Foi a ambição que levou Judas Iscariotes à mais vil traição registrada na   História. O alerta de Cristo, sobre o perverso emprego das riquezas vale para qualquer contexto socioeconômico, sobretudo para o atual, situação marcada pelo consumismo, pela contrafação edênica, pelo endeusamento da fortuna adquirida por meios lesivos ao próximo e a toda a nação. . Se muitos governantes, vários políticos e os poderosos deste mundo não dão exemplo, o bom cidadão pessoalmente não se deixa contaminar por esta onda de perversidade, aprovando os desvios do dinheiro público e toda espécie de falcatrua, lesando o  que a todos pertence. Basta de enganos que se multiplicam nos mais  diversos setores da sociedade. A grande questão é o reto uso da liberdade, a qual necessita ser iluminada pela retidão, pela probidade, para que haja o discernimento nesta travessia temporal rumo à eternidade. Uma supervalorização da posse de bens transitórios se torna para muitos uma obsessão que fatalmente leva à corrupção com todas as suas fatais consequências. Os depravados então se esquecem de que para a outra vida nada se leva daquilo que com tanta deslealdade foi sendo inutilmente acumulado. No atual contexto histórico no qual, mais do nunca,  há uma sujeição aos bens materiais, uma ambição desmedida e o resultado é um espetáculo, de fato, aterrador. Professor no Seminário de Mariana  durante 40 anos

terça-feira, 14 de março de 2017

SOBRE A COMUNHÃO EUCARÍSTICA

SOBRE A COMUMHÃO EUCARÍSTICA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A Instrução Geral do Missal Romano oferece no número 160 esta norma sobre a distribuição da Comunhão aos fiéis. “O sacerdote pega depois na patena ou na píxide e aproxima-se dos comungantes, que habitualmente se aproximam em procissão. Não é permitido que os próprios fiéis tomem, por si mesmos, o pão consagrado nem o cálice sagrado, e menos ainda que o passem entre si, de mão em mão”
Está também nesta Instrução o seguinte: “Na distribuição da Comunhão, o sacerdote pode ser ajudado por outros presbíteros eventualmente presentes. Se estes não estiverem disponíveis e o número dos comungantes for demasiado grande, o sacerdote pode chamar em seu auxílio os ministros extraordinários”.
 O Cânon 925 do Direito Canônico fala na distribuição da sagrada comunhão.
 É que na última ceia Jesus tomou um dos pães que estavam sobre a mesa espaçosa. Fez um instante de silêncio, momento de uma prece especial. Partiu depois o pão e ofereceu um pedaço a seus discípulos, dizendo: “Recebei e comei: isto é o meu corpo” (Mt 26,26).  Os apóstolos o recebem das mãos do Mestre. O laço entre Aquele que dá e aquele que recebe foi um elemento essencial, indispensável naquele instante solene. Foi um dar e um receber pessoal o que ocorreu entre Jesus e cada um dos doze. Todos tiveram parte no mesmo pão divino distribuído individualmente pelo Redentor. Relação interpessoal entre Ele e seu seguidor.
O Catecismo da Igreja Católica no número 1390 lembra o seguinte: “Graças à presença sacramental de Cristo sob cada uma das espécies, a comunhão somente sob a espécie do pão permite receber todo o fruto de graça da Eucaristia.
Por motivos pastorais, esta maneira de comungar estabeleceu-se legitimamente como a mais habitual no rito latino”.
Os fiéis podem receber a Comunhão na língua ou na mão. A mão esquerda deve sercolocada sobre a mão direita, de modo que a hóstia possa ser levada à boca com a mão direita.
O sacerdote ou o ministro diz “O Corpo de Cristo” e o fiel responde “Amém
” Quanto ao jejum eucarístico o Cânon do Direito Canônico estabelece no cânon 919 parágrafo primeiro: “Quem vai receber a santíssima Eucaristia abstenha-se de qualquer comida ou bebida, excetuando-se somente água e remédio, no espaço de uma hora antes da sagrada comunhão”.
Após a comunhão é aconselhável só tomar algum alimento ou bebida após cerca de 15 minutos. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


segunda-feira, 13 de março de 2017

SENHOR, DÁ-ME DESTA ÁGUA

SENHOR, DÁ-ME DESTA ÁGUA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Admirável o pedido que a samaritana fez a Jesus à beira do poço de Jacó: "Senhor, dá-me desta água” (Jo 4,5-42). Cristo atravessa sempre os caminhos humanos para oferecer a água que jorra para a vida eterna. Ele não tinha sido chamado pela mulher de Samaria, a qual só pensava na água para seu último falso marido. É Jesus que em todas as oportunidades toma a iniciativa como acontece sempre com cada um de seus seguidores. Ele vem ao seu encontro para cumular de dons os que se dispõem a escutá-lo e a seguir suas orientações. O importante é nunca fugir do encontro com Ele e não se esquivar do olhar misericordioso do divino Redentor. Uma condenável autonomia torna sempre menos visível o engajamento ao que Ele propõe e faz menos dificultosa a opção pelo Reino de Deus, menos austeras as vias de união com Ele. A samaritana teve o bom senso de usufruir da presença de Jesus e é possível que tenha pressentido até o que lhe seria pedido no fim daquela abençoada tertúlia. Houve então uma conversão do coração, uma metanoia, uma mudança total de sua vida. Cristo continua a interpelar, mesmo porque ele sabe tudo que cada um faz. Quer, porém, uma manifestação partida do coração. Ele deseja a palavra sincera que liberta ao reconhecer os erros passados como ocorreu com a samaritana. Ele tem continuamente a palavra que salva, uma vez que Ele conhece a história de cada um de nós (Jo 2,25). Tem o condão de perceber, porém, a esperança que paira dentro do ser humano, não obstante suas fragilidades. É preciso, contudo, corresponder a sua graça e não trair sua amizade, seu amor. Ele acolhe os bons sentimentos, o arrependimento, porque quer salvar, libertar o ser humano. Com Jesus o passado não pode frear o futuro. Ele faz aflorar as feridas, mas para abrir caminhos de redenção. Com seu olhar de misericórdia faz descer a verdade no íntimo do coração no qual passa a raiar a liberdade. Jesus havia dito à samaritana que Ele possuía uma água que irrompia para a eternidade e quem bebesse desta água não teria mais sede. A mulher prontamente Lhe pediu: “Dá-me dessa água”. Foi quando Cristo a levou a reconhecer seus pecados, ao mandar que ela trouxesse o seu marido. Ela havia tido cinco e o atual não era seu marido verdadeiro. A pecadora fez um ato de fé na missão messiânica de Jesus, converteu-se e se tornou uma apóstola. Foi anunciá-lo aos seus conterrâneos que também creram, vieram até Cristo pedindo-Lhe que ficassem com eles. É necessário que todos os que recebem a água viva das graças divinas se tornem arautos da evangelização, trazendo muitos para junto do divino Redentor como fez a samaritana. Apostolado pelas palavras e pelo testemunho de vida. A água viva de que Jesus falava era símbolo da revelação que Ele fazia de sua misericórdia. Será sempre por uma vida em tudo correta, fundada na confiança absoluta no divino Redentor que o cristão proclama aos outros que Ele é verdadeiramente o Messias, o Cristo, o Ungido do Pai. Eis por que São Paulo aconselhava aos Romanos: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vossa mente, para discernirdes qual é à-vontade de Deus, o que é bom, agradável a Deus e perfeito” (Rm 12 2). Regenerados pela água do batismo o cristão é uma nova criatura a quem o Pai ofereceu a água que corre para a vida eterna. Trata-se de uma maneira de viver com Jesus para torná-lo, como fez a samaritana, conhecido e amado. Ser cristão é viver com Jesus que pelo Batismo nos ofereceu a água que regenera e abre as fontes da vida propriamente divina, teologal. Os batizados são conduzidos pelo Espírito nos detalhes de sua existência humana pessoal e social, Assim como Deus os leva a partilhar do manancial da água viva, assim os fiéis trabalham para que outros que dele se afastaram venham usufruir desta nascente celestial, ultrapassando todas as dificuldades, todas as contingências inerentes à matéria. O acesso a esta mina de dons se dá através daquela fé que Jesus inoculou no espírito da samaritana, fazendo com isto que no seu coração nascesse o amor mesmo de Deus que ela logo tratou de irradiar na sua comunidade. Saibamos imitá-la! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.






segunda-feira, 6 de março de 2017

É BOM ESTARMOS AQUI

É BOM ESTARMOS AQUI
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O episódio da transfiguração de Jesus está todo ele envolto na glória eterna que deslumbrou o apóstolo Pedro que exclamou: “Senhor é bom estarmos aqui” (Mt 17,1-9). Entretanto, a finalidade do que ocorria naquela montanha era deixar uma mensagem clara sobre a divindade de Cristo e mostrar a seus seguidores o destino glorioso que os aguarda na vida eterna. O cerne desta mensagem era uma pessoa, o filho bem-amado do Pai. Moisés e Elias que apareceram junto de Jesus transfigurado haviam transmitido preceitos que deveriam orientar a vida do povo judeu. Agora com a pessoa de Cristo, a nova Aliança não consistiria, em acolher determinações, mas em crer na obra da graça manifestada no Filho de Deus. A graça redentora seria a semente da glória perene após a trajetória neste mundo. Lá na eternidade é que as palavras de Pedro e de todos que conhecessem a salvação seriam uma realidade sem fim. Com efeito, os que chegarem ao céu é que poderão, de fato, poder repetir: “É bom estarmos aqui”, pois significará estar envolto numa ventura sem fim. Para que isto se torne um dia uma realidade faustosa é preciso escutar Jesus, como ordenou a voz do Pai.  Trata-se de viver conforme a fé no divino Redentor, seguindo tudo que Ele ensinou. Este Jesus que venceu a morte e ressuscitou imortal e impassível no qual o Pai colocou todas as suas complacências é quem garante este final feliz para seus discípulos. Eis i por que Cristo deu a Pedro, Tiago e João a ordem de não falarem a ninguém sobre a visão que tiveram até que Ele ressuscitasse dos mortos.  A ressurreição faria brilhar aos olhos de seus seguidores a realidade da comunhão profunda de Jesus com a vida divina que não seria vencida pelo pecado que ele repararia lá em outro monte, ou seja, no Calvário. Esta vida divina Ele comunicaria aos que O escutassem, pois seu discípulo estaria numa relação via e atual com Ele. Tanto isto é verdade que Cristo pôde posteriormente dizer aos Apóstolos e, assim, a todos que lhe fossem fiéis: “Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,20).  No Tabor, onde se deu a transfiguração, ele deixou uma mensagem de coragem: “Não temais”. Com ele seus seguidores atravessariam as provas e dificuldades da vida. Com efeito, as provações seriam a expressão do combate da luz e das trevas no coração de cada um e no contexto social em que vivessem. Aos vitoriosos estava selada a recompensa eterna, pois na vida deles Jesus seria sempre o grande triunfador. Na pessoa do cristão se manifestaria a aliança que o Pai concluiu com seu Filho único e daria aos que Lhe fossem fiéis a participação na sua vida e na luz perene lá na Jerusalém do alto. A mensagem da Transfiguração é deste modo  mensagem da Boa Nova do Amor do Pai, manifestado Jesus sob a assistência do Divino Espírito Santo bem simbolizado na nuvem luminosa que envolver a todos lá no Tabor. A presença da Santíssima Trindade na vida de cada um deve ser permanente e reconfortante, impedindo que se extravie e se venha a perder a glória lá do céu.  Esta presença trinitária é preciosa e importante, especialmente nas turbulências do dia a dia. Como /Pedro não se pode querer apenas momentos privilegiados, bem tranquilos. Jesus desceria do Tabor para depois conhecer todos os sofrimentos de sua Paixão e Morte. É com Ele que o cristão leva de vencida as dificuldades da vida, olhos fixos na glória que um dia se manifestará. Esta glória será a expressão de uma existência vitoriosa sobre o mal. No Tabor o rosto de Jesus brilhou como o sol e suas vestes se tornaram brancas como a luz Todo batizado deve fazer transparecer através da beleza interior da graça santificante o fulgor do amor de Deus a envolver todas as suas ações.   Deste modo o cristão é por toda parte o arauto de felicidade que um dia possuirá lá na Casa do Pai, mas da qual já degusta uma porção nesta terra de exílio. A Pedro, Tiago e João que caíram de rosto por terra Jesus lhes disse: “Levantai-vos!"!  Ele continua a clamar a cada um de nós: “Erguei vossas cabeças, pois sois filhos e filhas de Deus nos quais mora a semente da ressurreição fruto do amor infinito do Pai”. Sejamos sempre agradecidos a Deus que pelo batismo revelou para todos a beleza interior que nos transfigura em outros Cristos destinos à glória eterna. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.  

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

AS TENTAÇÕES DE JESUS

AS TENTAÇÕES DE JESUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

No limiar da quaresma, tempo de conversão, Jesus se apresenta como modelo, ensinando a vencer as tentações diabólicas (Mt 4,1-11). Em duas célebres passagens o Evangelho mostra um combate de Jesus, a saber, um antes de inaugurar sua vida pública e outro antes de entrar na sua Paixão. As tentações do deserto e a aceitação da cruz no Horto das Oliveiras são dois marcos significativos que patenteiam Cristo vitorioso. Este concita seus seguidores a trilharem o caminho da salvação. As tentações do deserto foram precedidas por uma proclamação clara de sua identidade divina após seu batismo no Jordão. O Espírito Santo descera sobre Ele em forma de pomba e ouviu-se a voz do Pai a anunciar que Ele era o seu Filho bem-amado. Foi, portanto assim confortado que Jesus se dirigiu para o deserto, lugar propício de comunicação com o Pai e o Espírito Santo e onde se daria seu singular triunfo sobre satanás. Este, por sinal, duas vezes repetiria: “Si tu és o Filho de Deus”, desejando uma prova da teofania descrita pelos Evangelistas.  Tratava-se de uma demonstração de poder divino, transformando as pedras em pão e se projetando do pináculo do templo, pois do céu viriam os anjos para ampará-lo. Jesus era, de fato, o Filho de Deus e nisto o demônio tinha razão, mas as consequências eram incorretas e eram o cerne das tentações. O espírito do mal queria que Cristo usasse de maneira errônea sua divindade. Deste modo, através de prodígios espetaculares o Redentor demonstraria sua independência pessoal indo contra os planos eternos traçados desde toda a eternidade. Seria uma violação inútil da ordem natural das coisas e, na verdade, para satisfazer satanás. Uma dominação sem nexo das leis naturais. O orgulho humano prevaleceria. Jesus, contudo, foi claro: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda coisa ordenada por Deus”. e na insinuação seguinte: “Não tentarás o Senhor teu Deus”.  Estava, assim, superada uma subversão das leis estabelecidas pelo projeto divino, recusando milagres sem motivo plausível. Na terceira tentação ambição, poder e riqueza, numa visão fantasiosa dos reinos do mundo, foram os artifícios do maligno, aliás, confirmando que o demônio é “mentiroso e o pai da mentira” (Jo 8,44). O objetivo final era evidente, ou seja, levar Jesus a um ato de idolatria. A pronta atitude do Mestre divino foi taxativa numa mensagem a ser seguida por todos os seus discípulos: “Vai-te, satanás, pois está escrito: ”Adorarás ao Senhor teu Deus e a Ele só prestarás culto”. Era uma ordem ao adversário e uma lição para todos os homens. De fato, somente ao Ser supremo se deve render toda honra e toda glória, mas, infelizmente, muitos cairiam nas garras do inimigo de Deus e se curvariam perante as imposições mundanas adorando os prazeres terrenos e se entregando a tantas formas de idolatria. Através dos tempos o ser humano querendo ser um rival do Criador de tudo. Jesus, entretanto, ensinou como se pode sair vitorioso contra as tentações e o ponto de partida é querer sempre fazer a vontade do Pai, expressa nos dez mandamentos. Cada um dos batizados teria seu calcanhar de Aquiles a ser explorado pelo diabo. O desrespeito à vida, ou o desprezo das práticas religiosas, as paixões desenfreadas, o menoscabo dos deveres familiares, ou os ataques à reputação do próximo e a falta justiça, enfim a transgressão de tantos preceitos do Decálogo seria a vitória de satanás. Na verdade, porém, haveria também milhões de batizados que, na alheta de Jesus, multiplicariam triunfos contra o espírito das trevas. Quaresma é um tempo de revisão de vida, quando cada um deve verificar quem está sendo vitorioso na sua existência: Deus ou o diabo. Trata-se uma conversão completa e de uma resolução decidida da fuga de todo mal para que não se caia nas malhas do inimigo de Deus. Para isto é preciso saber sempre interpretar corretamente a Bíblia e colocá-la em prática. O diabo invocava as Escrituras ardilosamente e foi repelido através das mesmas por Jesus. Este então afrontou a fome, o orgulho, o desejo de poder e saiu triunfante. Com Jesus e como Jesus o cristão deve vencer as tentações do demônio, procurando se identificar ao máximo com o Mestre divino.* Professor no Seminário de Mariana durante quarenta anos.  

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AFASTAR AS INQUIETAÇÕES

AFASTAR AS PREOCUPAÇÕES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus convida a todos a afastar e vencer as preocupações: “Não vos preocupeis pela vossa vida” (Mt 6,24-34). Apesar de todas as turbulências que envolvem a criatura humana neste vale de lágrimas, o Mestre divino, que é sumamente realista, aconselha a superar as naturais inquietações cotidianas. Oferece, porém, uma solução admirável: “Vosso Pai celeste sabe que precisais de todas estas coisas. Buscai primeiramente o reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo”.  Portanto, ao recomendar que não se deve se inquietar, Jesus não faz apologia da passividade, a cruzar simplesmente os braços. O que Cristo quer ensinar é que a aflição não é uma arma adequada para fazer face às dificuldades da vida. Ela, com efeito, não permite que se contornem os problemas e lhes dê uma solução coerente. A ansiedade pode levar ao fatalismo e a inação. Ensina então o divino Redentor: “Olhai as aves do céu que não semeiam nem ceifam nem enceleiram, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta”. Entretanto, estas aves não estão nunca inativas, pois procuram os grãos ou os insetos da manhã ao por do sol. Fazem um trabalho necessário para o seu cotidiano, mas não estão preocupadas com o dia seguinte. Fazem o que devem fazer e quando é preciso. Aqui se aplica plenamente o provérbio: “Ajuda-te que o céu te ajudará”. Deus não passa nunca recibo à preguiça, à indolência, à falta de esforço pessoal. Não se pode colocar barreira ao dinamismo, grande aliado do Divino Espírito Santo, pois a ação tranquila, mas eficiente,  provoca o desejo de agir e se opõe à fatídica resignação. Cumpre, entretanto, analisar o que pode provocar a angústia. Muitos ficam impacientes quando a situação não lhes satisfaz e lhes é desagradável. Sem invocar as luzes divinas ficam sem saber como melhorar aquela circunstância incômoda. A reação imprópria pode levar inclusive ao egoísmo. Este conduz a uma conduta irracional e até gera o desespero. Invocada a iluminação celeste, aquele que faz o que pode e como pode está conformado com a vontade de Deus e procura o Reino do Céu e sua justiça, sabedor que o futuro a Deus pertence. Assim sendo no meio das tribulações passa a reinar a calma, mesmo porque a felicidade completa que se dará na outra vida, deve ser já partilhada nesta terra sem se deixar envolver nas amarguras. As inquietações são tapumes na confiança e na esperança do auxílio do Pai que está nos céus que recompensa toda diligência humana. Tudo isto supõe uma fé arraigada. A inquietação se caracteriza por uma falta de autoestima e uma má visão do porvir. É uma negação implícita do amor de Deus, mas também não é uma justificativa de preguiça, de inatividade passiva esperando que Deus faça o que devemos realizar com coragem e determinação. Lembra claramente Jesus: “A cada dia basta a sua tarefa” e esta deve ser feita com a graça divina. A proteção celeste torna o cristão dinâmico, mas em tudo confiante face às ocorrências de cada momento. Um cristão que age tranquilamente leva fatalmente os outros a esta louvável atitude. Retira o próximo quer da passividade, quer de um terrível desespero ante as intempéries da existência. Eis porque o verdadeiro seguidor de Cristo não deixa de denunciar a repressão dos poderosos, a tirania dos que dilapidam o patrimônio público e condena o morticínio que ocorre em tantos lugares com horripilas barbaridades. É preciso que todos colaborem ativamente para estabelecer o império do Evangelho neste mundo a começar na comunidade em que cada um vive. Jesus está a clamar: ”Procurai o Rei de Deus e sua justiça”. Esta justiça conduz à valorização da vida a qual deve ter prioridade sobre outros valores que agridem o ser humano. Tudo que favorece a existência e seu desenvolvimento revela a retidão de Deus. Deste modo é que tudo mais acontecerá em abundância para a humanidade. Para concluir estas reflexões nada melhor do que as palavras de quem compreendeu profundamente os ensinamentos de Jesus aqui reocrdados que foi o Apóstolo Paulo. Este assim concitou os filipenses: ”Não vos inquieteis com coisa alguma, mas que em tudo, pela oração e pela súplica acompanhadas de ação de graças, se tornem presentes a Deus vossos pedidos” (Fil 4, 6-). Jesus quer seus discípulos tranquilos, desapegados dos bens terrenos, mas sempre dinâmicos e confiantes no Pai que está nos céus.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.