quinta-feira, 4 de agosto de 2016

VIVER EM DEUS

VIVER EM DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
São inúmeros os textos de notáveis mestres da espiritualidade sobre o valor da consciência que o cristão deve ter da presença de Deus. Doutrina esta bem fundamentada no discurso de São Paulo no Areópago de Atenas: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17,28). Além disto, para quem vive na graça santificante, há uma união especial com a divindade, conforme as  palavras de Cristo: “Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a Ele e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23). De tudo isto resulta, sobretudo para quem tem fé, uma concepção da vida inteiramente ordenada para o Senhor de tudo. Deus está por toda parte e não é limitado por nada, habitando dentro do coração que participa de sua vida divina. Por sua transcendência Ele não se confunde com suas criaturas, as quais são finitas, contingentes, ou seja, existem, mas poderiam não existir. Ele é o Criador de tudo e tudo Ele conhece, pois dele deriva o que existe. É infinito e eterno, dado que nele a essência se confunde com a existência.  Ele mesmo afiançou a Moisés: “Eu sou aquele que sou” (Êx 3, 14). Ele é Aquele  que existe  por essência. Por tudo isto Deus deve ser a íntima ocupação do espírito humano. Um só fim, um só objeto, um só desejo a envolver todas as ações, isto é, o cumprimento exato da vontade divina. Todas as afeições necessitam então estarem concentradas nele. Todos os amores do ser racional referentes aos parentes, aos amigos, aos benfeitores passam a existir somente em Deus a quem se dedica um amor muito maior que está acima de todas as coisas.  Deste modo, o cristão se torna livre de uma multidão de cuidados, de inquietações, de preocupações. Daí a sábia orientação de Santo Agostino: “Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas alto, fala por amor; se corriges, corrige por amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor, dessa raiz não pode sair senão o bem”. Esta é a felicidade de quem se acha imerso na dileção de Deus no qual pensa continuamente, explícita ou implicitamente, uma vez que o cristão tem assim sempre a reta intenção de tudo fazer em função do Ser Supremo. Deste modo, os próprios interesses pessoais ficam sujeitos unicamente ao serviço de Deus e ao bem do próximo. A alma se deixa desta maneira se conduzir apenas pelos valores superiores em consequência de  sua união com o seu Senhor. Esta atitude não é privilégio dos grandes místicos e são inúmeros os fiéis que procuram cultivar este sublime ideal de viver ininterruptamente em Deus. A existência do fiel vai  se estruturando dentro de um fluir contínuo segundo o ritmo variável de acordo com as inspirações divinas. Trata-se de um amadurecimento espiritual de quem, apartado de todo pecado, luta por vencer as próprias imperfeições porque muito ama a Deus. Uma sadia austeridade faz então parte irrenunciável de tudo que pratica. A dileção espontânea ao Criador se desdobra naturalmente  no serviço amoroso prestado aos outros. O eu fechado na ambição desaparece e o fiel, ao invés de procurar sua vantagem pessoal, almeja apenas agradar a Deus, oferecendo o dom de si mesmo ao próximo. O  teólogo Tullo Goffi mostrou que “o ser criado pode crescer no amor quando se acha capacitado para aproximar-se de maior conformidade com a vida divina. Quem amadurece para o amor oblativo demonstra ter sido objeto do amor criado do Senhor”. Isto é fruto da ação divina, pois “o amor foi derramado  em nossos corações por obra do Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Cumpre, contudo, a verdadeira intimidade com Deus, explorando esta realidade  que é Ele dentro do coração de quem de fato o ama. As grandes almas vão aos poucos conhecendo um abandono total à graça a ponto de se deixarem transformar inteiramente por ela, permanecendo cingida a Deus .Ele então  vai ocupando todos  os espaços dentro de cada um. Todos os pensamentos e todas as afeições se tornam simples e terminam neste Deus, oceano de amor. Tudo se transforma em oração.  Como bem observou o Pe. Grou, quer o fiel  esteja lendo ou falando, quer ocupado no seu trabalho ou nos seus afazeres domésticos,  ele sente que é menos ele que age, mas Deus que age nele e por ele. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.  


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

DAMINHO PARA A PERFEIÇÃO CRISTA

CAMINHO PARA A PERFEIÇÃO HUMANA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Estimulados pela graça são inúmeros os cristãos que aspiram caminhar em busca da perfeição. Rompidos os laços com o pecado, surge o anseio de uma vida espiritual mais intensa. Entretanto. é preciso que cada um seja sincero consigo mesmo e reconheça quanta miséria há no fundo de seu coração. As consequências do pecado original exigem uma atenção contínua para que seja banida a perversidade a qual pode contaminar todas as ações. Nem sempre o batizado age segundo os interesses de Deus, mas de acordo com o que solicita o amor-próprio.  Contudo, para se atingir a autêntica santidade numa fidelidade contínua a Deus são necessárias a generosidade e uma lealdade completa. Para isto existem meios valiosos.  Cumpre pedir a Deus luzes para conhecer as intenções reais de tudo que se faz. O Criador deve estar em primeiro lugar e não os motivos egoístas que deturpam muitos esforços, malbaratando grandes méritos para a eternidade. A iluminação divina leva então o fiel a diagnosticar os motivos secretos de tudo que pratica. É preciso uma purificação dos desejos que levam à ação a qual deve visar unicamente a glória de Deus e o bem do próximo, escapando assim cada um das mais sutis ilusões geradas pelo egoísmo. Nunca deixar  de desconfiar de si mesmo para poder tudo realizar de acordo com o espírito de Deus. Eis por que a reflexão, a oração, o exercício da presença de Deus se tornam recursos valiosos para que se evitem os erros. Deste modo, se toma o Paráclito como guia e este conduz à renúncia de tudo que não se harmoniza com a vontade divina. Tudo isto se consegue no dia a dia, passo a passo, durante toda a vida. O Espírito Santo vai tornando o fiel cada vez mais dócil, enérgico e perseverante. O amor a Deus  passa a impregnar toda a atividade humana. Atinge-se aos poucos  desta forma uma espiritualidade eclesial autêntica alcançada pelo discernimento que o Espírito Santo vai comunicando aos que almejam um progresso ininterrupto na vivência de todas as virtudes. Há então um diálogo permanente com o Pai, sustentado pelo Evangelho sob a conduta do Espírito santificador. É nesta altura de sua vida que o cristão tem um poder especial para rezar pela conversão dos pecadores, sendo um sustentáculo dos trabalhos pastorais da Igreja no mundo inteiro. Olhos voltados para Cristo Crucificado, alimentados pelo Pão Eucarístico tais fiéis fazem resplandecer a verdadeira face de Deus. São as autênticas testemunhas do divino Salvador (At 1,8)..Este testemunho de vida  é o sinal mais importante de credibilidade das verdades reveladas e da presença divina como força transformadora  da existência humana. É a revelação luzidia da força do Evangelho. Apesar de suas limitações, os que procuram o progresso espiritual se tornam o homem novo de que se revestiram no dia do Batismo. Esta é uma realidade possível, mesmo porque  os cristãos são fortalecidos no Sacramento da Crisma para que os outros ao verem suas boas obras glorifiquem o Pai que está nos céus. Surge a dinâmica do amor em busca de uma comunicação da beleza da doutrina de Cristo.  Tudo isto resulta de uma leitura correta  e global de tudo que Jesus ensinou. O Filho de Deus  apresentou a perfeição como o fim que todos devem alcançar para uma transformação radical do mundo enquanto  espaço ocupado pelas forças do mal. Felizmente, a maioria dos cristãos  fazem uma opção livre de um tipo de vida em que possam exteriorizar o sábio radicalismo do Evangelho. A verdade é que a vida do cristão nesta terra deve ter uma consistência peculiar, rica em si mesma, digna de preencher por si só uma existência generosa e reta. É que todo cristão luta então para atingir a perfeição na sua forma peculiar de vida no lugar em que Deus o colocou, com suas tarefas específicas, mediante os carismas outorgados pelo Espírito Santo. Donde o valor essencialmente cristológico da vocação do cristão no mundo. Trata-se de uma vivência profunda do Sermão da Montanha ( Mt 5-7), programa fundamental  de vida cristã e parte essencial de todo  o espírito do Evangelho. Aí se encontram os conselhos da mais alta perfeição, caminho seguro para a santidade preconizada pelo divino Salvador. Deste modo, realiza-se o que São Paulo recomendou aos romanos: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para  discernirdes  qual é a vontade de Deus, o que é bom, aceito a Deus e perfeito” (Rom 12, 2).  * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



terça-feira, 2 de agosto de 2016

UM OBJETIVO A SER ALCANÇADO

UM OBJETIVO A SER ALCANÇADO
Côn.  José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Para os cristãos  que observam os mandamentos da Lei de Deus e que lutam contra as faltas veniais nem sempre  aflora  para eles uma paz total. Não conseguem  passar além de suas vãs apreensões, se suas perplexidades, de seus tormentos interiores.  Almejam a serenidade do coração, a imperturbabilidade íntima, a calma nos afazeres cotidianos, o fim das agitações e isto não é alcançado. É que há uma condição para se atingir este ideal. Trata-se do esquecimento integral de si mesmo, deixando Deus dispor de tudo como Ele bem o quiser. Cumpre entregar sinceramente a Ele sem reservas o espírito e o coração. Deus exige uma completa generosidade consagrando-lhe tudo que alguém é ou possui, reconhecendo que a Ele tudo pertence.  Isto se torna viável para a vontade  sustentada pela graça. Ocorre então uma segurança íntima que pode inclusive suportar as provações, porque Ele  não exime delas os que lhe são fiéis para que assim sejam humildes,  não se julgando isentos do combate interior. Além disto, tais provações levam a confiar unicamente no Todo-poderoso Senhor e não em si mesmo.  Adite-se que ao suportar serenamente as lutas o cristão amealha méritos para a eternidade. Quem atinge este alvo espiritual  não macula sua relação com Deus através do interesse pessoal, da vaidade e do orgulho, pois serve a Deus unicamente em Deus. Este Deus pode então exigir grandes sacrifícios, dando, contudo, ao fiel uma disponibilidade proporcional a sua doação a Ele. O que parece por vezes insuportável e até impossível para a fraqueza humana  mesmo para a  maioria dos cristãos se torna suave e factível por força das luzes divinas. Quando há uma disposição leal do coração, maravilhas acontecem para quem corresponde às graças recebidas. É o fruto de uma fidelidade inviolável às inspirações do Paráclito. Os desígnios divinos, os silêncios de Deus, suas preferências nem sempre de acordo com os planos meramente humanos.  Os  místicos  que ascenderam a uma notável perfeição souberam, apesar de todas as trevas interiores, discernir a profundeza da sabedoria eterna. Deixaram, porém, um exemplo para todos os seguidores de Cristo. Portanto a paz não significa a eliminação das contrariedades cotidianas e dos conflitos íntimos, mas aquela energia conferida pela intervenção sobrenatural alcançada pela oferta integral de si mesmo ao Criador de tudo. É preciso vivenciar  o “sim” dado ao Pai em Jesus pela iluminação do divino Espírito Santo. Saber  conciliar perfeitamente  a soberania de Deus e a própria criaturalidade.. Admirável nos grandes santos a confiança ilimitada no Ser Supremo, sem exigirem garantias prévias. Aceitação irrestrita dos intentos do Onipotente numa submissão incondicional  muito além da observância apenas do Decálogo e das leis da Igreja. É que há muitos cristãos que estabelecem prioridades na sua existência nem sempre conformes à plena adesão aos intuitos divinos. São aqueles que criam princípios apriorísticos de acordo com seu modo de ver e, assim, não caminham mais pressurosamente nas vias da santidade. Haverão de se salvar, dado que conservam a graça santificante, mas seus méritos para a eternidade ficam bastante restritos. Isto porque não souberam conaturalizar inteiramente suas preferências com as daquele que é o Caminho para a Jerusalém do alto. Muitos  não se madureceram no equilíbrio e na harmonia  e não são capazes de ver as coisas na perspectiva do amor de Deus e das realidades sublimes que há em tantas pessoas que atingem um nível superior de vida. São bons cristãos, mas poderiam ser ótimos discípulos daquele que preceituou: “Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito” Todas as considerações sobre o objetivo maior a ser alcançado contrastam com a atitude  daqueles que se revoltam contra Deus. Nele acreditam e procuram seguir seus preceitos, mas querem enquadrar o Criador em seus moldes humanos e passam a questionar a maneira com que sue Senhor os trata. É certo que procedendo mais por ignorância do que por uma afronta direta a Ele podem até chegar a não perder a amizade divina. Quando recebem uma sábia orientação,  muitos logo se convencem de que seus juízos  estão incorretos e que imperscrutáveis são os intentos daquele que é a Sabedoria infinita.. A santidade, objetivo acessível a todos, deve ser buscada com  coragem.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.    

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

ESTAI PREPARADOS

ESTAI PREPARADOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Este alerta de Jesus nunca é demais refletido: “Estai preparados, porque a hora em que menos pensais o Filho do Homem chega” (Lc 12,40). A morte e a vinda gloriosa de Cristo na sua glória devem ser dois referenciais nunca esquecidos na vida do cristão. Este corre o risco de se deixar impregnar pelo impacto da secularização que leva a adotar os modelos de pensamento e de conduta do mundo; do horizontalismo que conduz  a um compromisso social exclusivo como única dimensão da existência cristã; da incredulidade reinante nos meios de comunicação que vai abalando os alicerces da fé. Todo cuidado é pouco porque é no tempo atual que se decide o destino eterno de cada um. O alerta de Cristo foi claro: “Estejam cingidos os vossos rins e acesas as vossas lâmpadas”, ou seja, que haja uma vigilância atenta para que nos dois encontros com Ele o fiel esteja preparado, quer no momento de deixar este mundo, quer no juízo universal. Trata-se do cumprimento fiel de todos os deveres pautados pelos valores do Evangelho. No presente é que se constrói uma eternidade bem-aventurada. O cristão está sempre atento porque sabe que tem um grande futuro a sua frente. A vinda do Filho de Deus a esta terra se humilhando até a morte da Cruz para redimir a humanidade perdida, é uma prova peremptória da importância da salvação eterna que cada um deve procurar sem nenhum descuido.  Cumpre a todo batizado se revestir de Cristo, pertencendo inteiramente a Ele, mesmo porque a graça santificante, semente da glória eterna, não pode ser perdida, e, se for perdida, deve logo ser recuperada, sob pena de incorrer na perdição perene.  Porque possui Jesus dentro de seu coração o cristão, seja onde estiver, está iluminando os outros, pela sua conduta alertando-os a fim de estarem vigilantes na prática do bem nesta preparação terrena para os encontros com Deus além-mundo visível. É necessário ser sempre um cristão preparado para estes chamados inevitáveis e decisivos do Criador, o qual está à espera dos que lhe são leais para lhes dar uma recompensa perene. O Mestre divino veio a este mundo para ensinar os de boa vontade como caminhar nesta terra com o objetivo de alcançar o Reino Eterno. Não se trata de se estar alienado da realidade, pelo contrário, aquele que está vigilante em vista da realidade futura se torna um cumpridor exato de suas obrigações e constrói um mundo melhor em torno de si num serviço admirável ao próximo. O autêntico discípulo de Jesus está atento para viver de uma maneira mais intensa esta sua marcha neste mundo, como lembrou o Papa Francisco na sua Encíclica “Lumen Fidei” (n. 16).  Em qualquer situação social, seja onde a Providência o colocou o cristão verdadeiro, continuamente antenado nas realidades vindouras, semeia paz, difundindo pelas boas obras felicidade e sabe que não tem um minuto a perder rumo ao que lhe espera na outra vida sendo, de fato, fiel a Deus.  O bem-aventurado Papa Paulo VI inúmeras vezes insistiu que o batizado estivesse sempre com a lâmpada acesa precisamente para também iluminar os que estão a sua volta. Esta luz é a fé que se traduz em obras luminosas, lucífluas. Cumpre refletir seriamente nisto.  Jesus virá para inaugurar “os céus novos e a terra nova”, para por o selo de Deus sobre toda a obra que cada cumpriu com amor na sua trajetória terrena. Ninguém sabe nem o dia nem a hora em que vai deixa este mundo, nem quando se dará a parusia, isto é, sua volta gloriosa no fim dos tempos. Jesus falou várias vezes sobre a preparação para estes dois eventos como nas parábolas relatadas por São Lucas. O leit motiv das mesmas é estar vigilante.   Pouco importa o lugar que seu discípulo ocupe neste mundo O essencial é que quando Ele vier, Ele encontre seu seguidor cumprindo suas obrigações com eficiência e competência para glória de Deus e bem das almas.  Uma prudência elementar aconselha a quem tem fé e juízo a assim proceder não perdendo jamais o gosto de bem viver e o sentido de um devotamento ininterrupto ao próximo, consagrando a ele e a Deus todo seu amor. Quem assim agir degustará em plenitude a promessa feita por Jesus: Ele o porá à frente de todos os seus bens. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A GRANDE CONQUISTA DO SER HUMANO

A GRANDE CONQUISTA DO SER HUMANO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Por entre as vicissitudes cotidianas do ser humano, este nem sempre reflete profundamente sobre a grandeza de seu destino, o qual é sinal insofismável de sua maravilhosa dignidade.  Neste mundo  conhecer a Deus através da inteligência e poder ama-lo é uma prova da excelência da criatura racional dentro do plano do Criador. Esta verdade é ratificada pela Bíblia desde as primeiras páginas do Gênesis. Assim sendo, os  desejos humanos não devem estar  presos aos horizontes terrenos, impedindo que se penetre  na eternidade para a qual cada um caminha. Eis por que, quando alguém se deixa aprisionar pelas coisas materiais, não apenas trai sua grandeza, mas também se imerge,  quer queira, quer não, na angústia existencial. Busca nas ilusões passageiras algo que somente as realidades espirituais podem lhe oferecer. Tudo que o cerca precisa ser considerado em função do Ser Supremo. A grande questão é o reto uso da liberdade, a qual necessita ser iluminada pela graça divina para que haja o discernimento nesta travessia temporal. Uma supervalorização da posse de bens transitórios se torna  para muitos uma obsessão que fatalmente leva à corrupção com todas as suas fatais consequências. Estes então se esquecem de que para a outra vida nada se leva daquilo que com  tanta fadiga vai sendo inutilmente acumulado. No momento em que há uma sujeição aos bens materiais, a própria saúde corporal fica tantas vezes comprometida com os excessos no comer e no beber. Adite-se que um dos erros do ser humano é também procurar nas honras, na fama, na popularidade sua realização, buscada não em função do cumprimento do dever, mas de uma glória efêmera. Aqueles, porém, que agem mirando uma recompensa na Jerusalém celeste longe de abominar os sacrifícios, as cruzes de cada dia, os esforços na prática das virtudes superam todas as lutas e se engrandecem interiormente nas pelejas que a adesão a Deus exige. Para que este ideal seja colimado é preciso se apartar de tudo que, ainda de longe, possa afastar a presença deste Deus “no qual vivemos, existimos e somos”.  O critério que deve nortear quem age com bom senso  é tudo que o Todo-poderoso Senhor  revelou, sobretudo na plenitude de sua revelação através do Evangelho pregado por Cristo. Este legou exemplos esplendorosos que guiam, iluminam e fizeram e fazem os que procuram a perfeição cristã. Apenas vivendo as normas contidas no Evangelho é que o ser humano atinge a plenitude de sua altíssima dignidade. Toda questão se cifra em fazer  de Deus o único objeto de todos os pensamentos, palavras e afeições. É claro que isto se realiza  no plano da fidelidade pessoal, bem de acordo com a generosidade de cada um na correspondência às inspirações divinas. A superação constante a que o amor a Deus conduz  exige fé e coragem, uma vez que as aliciações vindas do espírito do mal supõem uma disposição enérgica rumo ao progresso espiritual. Este estilo de vida deve caracterizar o autêntico discípulo de Jesus e constitui o valor essencialmente cristológico da vocação do cristão. Este. no dizer do próprio Cristo. é “luz do mundo e sal da terra” (Mt 5, 13-14). Trata-se do cristão  que age com uma convicção segura, aprofundando suas relações com Deus  com plena consciência do plano salvífico que nele se realiza. É possível para todos a transformação da mente e do coração, a renovação contínua de toda sua personalidade captando  sempre “qual é  a vontade de Deus, o bom, o agradável a Ele, o perfeito” (Rm 12,2). Em síntese, como bem se expressou o notável franciscano  Roberto Zavalloni, “a perfeição do cristão caracteriza-se pela docilidade e pela submissão a uma vontade divina que precisa ser buscada e discernida e cujas exigências não se pode  medir de antemão”. É todo um processo que se dá de acordo com os carismas outorgados gratuitamente por Deus e que leva o cristão  a estar sempre firme pela fé, apartado do mal e orientado para Deus. Foi o que aconteceu com São Paulo que asseverou; “Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20). Com a graça de Deus   o discípulo de Jesus vai ordenando de forma unitária toda sua vida, voltada para o centro de unidade que é Deus em  si mesmo, Ele a suma verdade e o sumo bem. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

FUGACIDADE DOS BENS EMPORAIS

 FUGACIDADE DOS BENS TEMPORAIS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Jesus mostrou claramente qual deve ser a atitude de seu seguidor com relação aos bens materiais (Lc 12,13-21). Com precisão o Mestre divino demonstrou que se deve evitar que o angelismo no que diz respeitos às precisões humanas, quer o apego exagerado às propriedades terrenas. Sua sentença foi lapidar: “Cuidai e guardai-vos de toda cobiça, por que a vida de alguém não esta na abundância de seus haveres”. Estes devem estar subordinados aos interesses espirituais. Trata-se da boa administração de tudo que Deus concede a cada um, mas sem uma supervalorização das riquezas. Com a morte ninguém levará nada deste mundo, mas o modo como empregou o que possuiu, inclusive na ajuda generosa ao culto divino e aos mais necessitados de acordo com as possibilidades de cada um. O ser humano espiritualizado ostenta sempre o desapego do que fugaz, mas sabe bem empregar os dons que o Criador lhe outorgou sabendo que a previdência humana não vai contra a Providência divina.  Isto impede um materialismo condenável, como também evita a negligência em amealhar o que é necessário para o sustento próprio e da família num labor eficiente e perseverante. O cristão vê sua vida nesta terra apenas como uma etapa para a existência eterna na Casa do Pai. Cumpre então uma coerência absoluta entre o que se crê e o que se vive. São Paulo aconselhou sabiamente a procurar então as riquezas do alto (Col 3,1-4). Para isto é preciso um criterioso amor a si mesmo, ao próximo e a Deus, pois deste modo se utilizará com sapiência os bens materiais em ordem à eternidade. Ficam então afastadas as ilusões desta terra e, ao mesmo tempo, será possível usufruir ao máximo de tudo que Deus concede e que dá segurança por entre as turbulências inevitáveis a um exílio terreno. Isto afasta peremptoriamente um desejo imoderado de poder e glória. Trata-se de um agir responsável para consigo mesmo, para com a família e a comunidade em que se vive numa perspectiva repleta de esperança e de confiança no Senhor Onipotente. É deste modo que no ocaso da existência a pessoa não se lamentará da vacuidade de sua passagem neste mundo. Terá deixado um rastilho luminoso e beneficiado a inúmeras pessoas. Este fugiu da vaidade de tudo que é transitório por que fez do amor partilhado sua garantia e sua felicidade sem nunca se preocupar com as incertezas do porvir. O importante é ser rico diante de Deus estando contente com o que se tem para prover uma vida decente sem endeusar o dinheiro que deve ser um mero instrumento a ser manejado com prudência e sem servidão ao mesmo. Estas reflexões são tanto mais importantes perante uma sociedade de consumo e num contexto impregnado de corrupção fruto da ganância, sobretudo, de certos políticos. É o que vale também para os governantes que gastam a torno e a direito com o que arrancam do povo com impostos escorchantes, inadmissíveis e os empregam olhando somente seus interesses pessoais. Estes políticos jamais entenderão o que disse Jesus: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus (Mt 5,3). Criou-se uma sociedade chancelada pelo pragmatismo na qual se diviniza o sucesso e o progresso econômico, sacrificando valores como a educação, a saúde, um mínimo de bem estar. Como bem afirmou o papa emérito Bento XVI, “em matéria espiritual e moral contemplamos uma sociedade que não capitaliza o que enobrece o ser humano”.  De fato, pelo contrário, é o capitalismo desumano que só favorece um grupo de interesseiros que malbaratam o bem comum. É o império da cobiça a levar aos maiores desvios éticos. Não se tem noção do que supérfluo, útil, importante, necessário e essencial para a população em geral. Muitos são os que se esquecem de que fortunas, sobretudo, as injustamente adquiridas, glórias de um poder espúrio, principalmente as riquezas extorquidas do povo são apenas um nuvem passageira e que um dia de tudo se dará contas a Deus. Donde o alerta do Pe. Antônio Vieira: “Tudo passa, e nada passa. Tudo passa para a vida e nada passa para a conta. A verdade e desengano de que tudo passa, posto que seja por uma parte tão evidente, que parece não há mister prova, é por outro tão dificultoso, que nenhuma evidência basta para o persuadir. Lede os Filósofos, lede os Profetas, lede os Apóstolos, lede os Santos Padres, e vereis como todos empregaram a escrita e não uma, senão muitas vezes, e com todas as forças da eloquência, na declaração deste desengano, posto por si mesmo tão claro”. Que então, isto sim, o autêntico discípulo de Jesus eleve seu coração para os bens espirituais, para as realidades perenes que não se compram, vivendo num verdadeiro amor inteiramente dentro dos princípios do Evangelho. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

domingo, 24 de julho de 2016

O SÁBIO RIGOR DO EVANGELHO

O SÁBIO RIGOR DO EVANGELHO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O rigor do Evangelho, sempre foi contrário ao endeusamento das realidades materiais o qual se contrapõe ao aprimoramento espiritual do cristão. São Paulo sintetizou esta verdade ao afirmar: “O mundo está crucificado para mim e eu estou crucificado para o mundo" (1 Gal 6,14). Maravilhosos são os dons com os quais Deus mimoseia o ser humano na sua trajetória terena rumo à eternidade. As dádivas divinas devem ser valorizadas e cumpre aproveitar tudo de bom que há em derredor de cada um. Entretanto, o espírito do mal leva a muitos a deturpar a finalidade dos bens oferecidos pelo Criador. É preciso usar de tal modo os bens que passam, para que se possa abraçar os que não passam. Do contrário, se dá uma inversão de valores. Isto constitui o mundo pecado com todas as suas ilusões que confrontam com as diretrizes legadas pelo Mestre Divino. Então o desejo desenfreado de riquezas materiais ou o seu acúmulo, a procura de prazeres contrários aos preceitos divinos se tornam o essencial da vida daquele que tem um destino  eterno, uma felicidade perene a ser conquistada pelo uso correto de sua liberdade.  Daí resulta a corrução e a dissolução dos costumes, o espírito mundano. Este é diametralmente, oposto ao espírito de Cristo e de seu Evangelho. É neste sentido que o verdadeiro cristão deve estar numa luta contínua contra o mundo no qual reina satanás e seus comparsas. Nem todo o batizado possui um reto discernimento e acaba aprovando, aberta ou sutilmente, o erro. Este se espalha insidiosamente nos meios de comunicação social muitos dos quais fazem abertamente a apologia de =uma moralidade inteiramente antagônica aos preceitos divinos. A sedução exercida pelos profetas  da imoralidade leva de roldão os que imprudentemente se expõem a seus virulentos ataques. A exaltação do luxo, a malícia inerente aos sites pornográficos e às novelas, o mau exemplo difundido por aqueles que não têm o temor de Deus. Tudo isto conduz a uma verdadeira desestruturação do autêntico humanismo, obstando o progresso espiritual do epígono do Filho de Deus. Típica a triste condição dos que se entregam às drogas e à escravidão dos piores vícios. Um dia Jesus foi crucificado lá no Calvário, mas o mundo dominado pela diabo O crucifica todos os dias Felizmente, contudo são milhares os cristãos que, lembrados das promessas batismais, as cumprem com firmeza, renunciando a tudo que conspurca a dignidade do batizado. Estes não hesitam e se tornam os para-raios da humanidade, Examinam suas disposições interiores e não cedem às invectivas mundanas e a suas dissimulações ardilosas. Entre Jesus e o mundo não há para eles dubiedades, pois Cristo neles vive. Nunca se desencorajam e, confiantes no poder da graça, são vitoriosos. Sabem que não se pode vacilar um momento, pois as armadilhas mundanas são temíveis. Nas suas tertúlias com Deus se preparam para o grande combate de todas as horas. Têm sempre em vista a garantia dada apelo Mestre divino: “Tende fé e coragem, eu venci o mundo” (Jo 16,33). Esta emancipação humana das misérias suscitadas pelo maligno se realiza com os recursos que a Igreja proporciona a seus fiéis e nela se realiza o verdadeiro humanismo. Eis por que através dos tempos florescem os santos nos mais variados contextos sociais. Cada cristão no seu setor próprio é chamado à mesma santidade numa ruptura ininterrupta com o espírito mundano. Os bispos e sacerdotes como instrumentos das graças sacramentais e orientadores das comunidades; os esposos cultivando amor humano aberto às dimensões da caridade de Cristo; os profissionais nas mais diversas atividades; o cidadão responsável,  colaborando na construção de uma sociedade digna; os religiosos das mais variadas congregações prefigurando na alegria e na liberdade de espírito a transformação total em Cristo. Dentro desta perspectiva realista, se compreende como as crianças são bem formadas para entrar neste exército sagrado que combate as mazelas do mundo divorciado da prática das virtudes, passando por uma juventude sadia, todos preparados para servir a Igreja e a Pátria.  Deste modo, o sábio rigor do Evangelho faz desabrochar todas as qualidades humanas, levando o cristão a desfrutar tudo de bom que Deus lhe oferece nesta terra, vencendo o mal, deixando por toda parte um rastilho de luz, irradiando paz e vencendo o mundo tenebroso do mal. * Professor no Seminário de Mariana, durante 40 anos.