domingo, 9 de junho de 2013

TEMPLOS DA GLÓRIA DE DEUS

TEMPLOS DA GLÓRIA DE DEUS
Côn.  José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O que é mais admirável na vida de Maria, a Mãe de Jesus, é sua postura  interior diante de Deus.  Sua filial afeição espiritual ao Criador  a dispunha a fazer em tudo a vontade divina. Eis a razão pela qual ao receber  o anúncio do Anjo de que fora a escolhida para dar início à era da nova aliança já estava preparada para aderir ao processo soteriológico. Como bem observou o Papa Bento XVI, “aquele que, como Maria, está aberto de modo total para Deus, alcança aceitar o querer divino, mesmo que seja misterioso, mesmo se, frequentemente,  não corresponda ao  próprio querer e é uma espada que  traspassa alma”. A presença da Trindade Santa na alma em estado de graça transforma o cristão em templo da glória de Deus. Entretanto, esta realidade sublime supõe que se descubra continuamente os fulgores desta presença inefável da divindade dentro de si. Isto exige que haja momentos nos quais, por entre as tarefas cotidianas, se possa ter consciência desta notável dignidade. Então o cristão pode perceber fulgores da grandeza deste Deus, embora seja uma sua simples criatura. Surgem então desejos ardentes de um amor sem limites ao Ser Supremo. Disto resulta a perfeição no cumprimento dos deveres mais simples por força do anseio de se conformar com os desígnios do Todo-Poderoso Senhor. Dá-se então o que disse Davi: “Meu coração e os meus sentidos clamam desejosos pelo Deus vivo” (Sl 83,2). Anelo profundo de se engolfar no soberano Bem  longe daquilo que é material e transitório. Além da presença substancial de Deus em todos os seres, que Ele conserva na sua existência e subsistência, se verifica a união da transformação da alma que conhece deste modo uma deificação especial. É a semelhança maravilhosa ocasionada no nível do amor. A presença de Deus no cosmos é natural, mas esta que a alma depara é inteiramente sobrenatural. Isto ocorre porque duas vontades, ou seja,  a da alma e a de Deus estão conformes entre si e uma não se acha em desacordo com a  outra. Eis aí é um ideal possível não apenas aos grandes místicos, mas também a todo batizado que se esforça por estar com Deus, envolto num amor sincero, aborrecendo os erros naturais à  fraqueza humana e não obstante esta mesma debilidade. A imagem bíblica é perfeita quando mostra que desta maneira a alma se torna a esposa que busca o Esposo. Esta aspiração recrescente se explica porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo se encontram lá no mais profundo da alma em estado de graça. Os santos souberam explorar ao máximo o que Jesus disse: “Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a Ele e faremos nele nossa morada” (Jô 14,23). Para isto cumpre que se descubram instantes de recolhimento para um afetuoso entretenimento  com o Deus Uno e Trino. Santo Agostinho entendeu isto perfeitamente e assim se dirigiu a Deus: “Senhor,  eu não Vos encontrei fora, porque eu Vos procurava erroneamente fora, Vós que estáveis dentro de mim” Quem se esforça assim para estar com Deus já não tem o mínimo sentimento de terror da morte, pois aspira estar unido ao Criador por toda a eternidade. Ele então objeto de seu amor e isto sem o empecilho da atração terrena. Desde o aqui e agora, contudo, todo o ser humano se volta totalmente  para Deus com todo suas operações e isto por amor e afeição que ultrapassam os lindes terrenos. Até \à visão beatífica, entretanto, porque aderida aos planos divino, a alma se empenha em não se desviar do centro essencial que é Deus aprofundando sempre mais sua união com Ele. Procura subir todos os degraus do amor apesar das dificuldades inerentes a um exílio. Os  santos de tal forma se deixaram e se deixam atrair pela luminosidade divina que se mostraram e se mostram iluminados encantando os que os conheceram e conhecem. Sempre concentrados em Deus no qual está a fonte da verdadeira ventura.  Há, portanto uma grande diferença em ter Deus em si pela graça e O possuir pela união através de um amor sem limites. No mundo agitado de hoje, felizmente, são milhares de cristãos que se enveredam pelo caminho de uma perfeição possível àqueles que se imergem na presença de Deus. Isto longe de alienar leva a um devotamento maior a todos os deveres próprios da vocação de cada um. Então se pode dizer que está salvo este mundo, porque tais discípulos de Cristo se tornam verdadeiramente templos da glória de Deus, iluminando esta terra. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.                      

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O VERDADEIRO AMOR A CRISTO

O VERDADEIRO AMOR A CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Uma reflexão teológica sobre o amor que se deve ao divino Redentor oferece os meios para ultrapassar uma piedade superficial e uma manifestação de dileção inconsistente que se perde em palavras e não em atos concretos. O Papa Bento XVI foi incisivo ao afirmar que “amá-lo significa permanecer em diálogo com Ele, a fim de conhecer a sua vontade e realizá-la”. São, realmente, as obras que provam o autêntico e imediato afeto para com Ele. Trata-se de um intercâmbio vivo, ou seja, um viver em sintonia com os pensamentos e os sentimentos de seu coração amabilíssimo, renunciando a tudo que seja negação de seu amor. Dá-se então uma total entrega a Ele e, segundo o citado Papa Bento XVI, “confiando-nos a Cristo, não perdemos nada, mas adquirimos tudo”. Isto supõe a audácia, a coragem de rever todas as atitudes interiores para que elas estejam harmonizadas com seus desígnios. Isto leva a ultrapassar o espaço e o tempo, uma vez que Jesus subiu aos céus e está assentado à direita do Pai. Nem sempre se pensa nisto quando se está diante do Sacrário ou no instante sublime da Comunhão eucarística. Ele é o Messias, aquele por quem o Reino de Deus chega a cada um. Ele é a plena, definitiva e irreversível comunicação da entranhada misericórdia de Deus aos homens.  Com efeito, em Cristo o Criador se aproximou admiravelmente do ser racional. São João afirmou: “Deus é amor” (1 Jo 4,8). Ora, este amor tomou uma forma em Jesus.  Deste modo, ao amar a Cristo o cristão se imerge na insondabilidade divina. Disto resulta que a incondicionalidade do amor a Jesus significa o cumprimento cabal do preceito do Deuteronômio: “Amará o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5) Eis a razão pela qual Cristo é Aquele que dá o cabal sentido à vida humana. O cristão compreende então, de fato, que sua tarefa nesta terra é amar e servir a Deus com todo o seu ser para, um dia, gozar dele por toda a eternidade. Amar, portanto, a Cristo significa já degustar neste mundo um pouco da felicidade eterna. É lógico que tal atitude amorosa para com Deus através de Jesus supõe aquela renúncia que leva a transformar os árduos deveres cotidianos em atos de amor. O Mestre divino foi claro: “Se alguém quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). O que se deu lá no Calvário foi a demonstração máxima do amor. O próprio Jesus asseverou: “Ninguém tem maior amor do que este de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos" (Jo 15,13). Não há assim verdadeira dileção a Deus sem sacrifício da própria vontade. Foi lá no Gólgota que Ele, se imolando pela salvação da humanidade, ensinou em que consiste ao verdadeiro amor o qual chegou até nós plenamente pela sua morte e ressrureição. Apenas compreendendo deste modo o mistério de Jesus é que se pode levar ao mundo a inteligibilidade e a credibilidade do processo soteriológico, fruto da missericórdia do Pai que aceitou a imolação do Filho. Disto deve resultar a verdadeira dileção de cada um para com Jesus. Desta maneira se expande por toda parte um amor que borbulha na prática da vida e faz brilhar a luz de uma fé que não é morta. Eis, portanto, como se deve entender a revelação de Deus por meio de Jesus que precisa ser amado de tal forma que o cristão ostente por toda parte a grandosidade de um amor que corresponda aos gestos maravilhosos daquele que verdadeiramente soube amar. Como bem explicou o Papa Bento XVI aí está “a dedicação a Jesus Cristo no autêntico amor”. Assim sendo, o essencial é o encontro com Deus, a decoberta prodigiosa de seu amor manifestado através de seu Filho  Unigênito que se encarnou e habitou entre os homens. Este encontro, porém, inclui um momento de sinceridade, envolvendo todo o ser humano que se torna capaz de viver inteiramente aderido a seu Senhor.  * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos


quinta-feira, 6 de junho de 2013

JESUS, CAMINHO PARA O PAI

JESUS,  CAMINHO PARA O PAI.
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Há verdades basilares sobre as quais nem sempre se reflete em profundidade. Uma delas é a assertiva de Cristo que se identificou como sendo o Caminho (Jo l4, 6). O Papa Bento XVII assim expressou: “Ser cristãos é um caminho, ou melhor, uma peregrinação, um caminhar junto com Jesus Cristo. Um caminhar naquela direção que Ele nos indicou e nos indica”. Quem procura um caminho tem uma meta em vista, o mesmo acontecendo com quem aponta a via a ser percorrida. Todo mistério da Encarnação oferece aos homens os meios a fim de poderem retornar para junto do Deus. Eis porque Jesus é o caminho para o Pai. Sua missão salvadora se cifra nesta meta extraordinária. Ele sempre manifestou estar consciente de sua tarefa messiânica e foi sua opção radical, em tudo, realizar o mandato do Pai. Declarou abertamente: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou (Jo 4,34)”. Esta opção radical de Jesus, até sua ascensão ao céu, que faz coincidir seu desígnio com o do Pai é uma lição magnífica para seus seguidores. Alias, Ele ensinaria a rezar ao Pai: “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”. Tocantes as passagens do Evangelho quando Ele se retira para a montanha, lugar de silêncio, a fim de orar ao Pai na solidão e na contemplação. Mostrava ser no contato com o Ser Supremo que é possível discernir o significado da missão de cada um nesta trajetória terrena. Lá no Horto das Oliveiras, no instante trágico de sua agonia, Ele se volta para o Pai, pois Sua alma estava numa tristeza mortal. Assim orou: “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice, contudo, não se faça como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Que ensinamento maravilhoso para quantos se revoltam ante as provações da vida! Não apenas nos instantes aflitivos, mas também nos pormenores do dia a dia cumpre checar o que, realmente, Deus quer que se faça. Nas preces em geral é preciso jamais querer manipular o Senhor de tudo. Em toda sua passagem por esta terra Jesus revelou o Pai que é misericordioso que deseja a felicidade completa para seus filhos. No colóquio com Nicodemos Jesus afirmou: “Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que crer nele não pereça, mas tenha a vida eterna; porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por sua obra" (Jo 3, 16-18). Como pedagogo admirável Jesus deseja que se tenha fé total, inabalável no Pai amoroso, correspondendo inteiramente a este maravilhoso amor. Caminho para o Pai, Ele veio como luz do mundo e “todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, por temor de que as suas obras sejam conhecidas por aquilo que são” (Jo 3 19-20). O retrato falado do Pai cheio de benignidade e comiseração Jesus deixou na parábola do Filho Pródigo. Além disto, doutrinou sobre a certeza inabalável na providência paterna. Se Deus cuida dos pássaros e das plantas, não deve haver preocupação com o que comer ou o que beber, nem andar ansioso, pois “bem sabe o vosso Pai que delas precisais. Buscai o seu reino e essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Lc 12, 22 -34). É preciso então que o autêntico discípulo de Jesus tenha percepção plena da ternura deste Pai que Jesus veio mostrar, fazendo-se o caminho até ele. É de bom alvitre um auto-exame para se verificar se, de fato, há uma caminhada nas trilhas deixadas pelo Mestre divino. Deste modo, serão afastadas as preocupações inúteis, as sensações de receio e de apreensão, de fobia, de depressão às quais se agregam fenômenos somáticos como taquicardia, sudorese e outros muitos É que o poder do Deus Todo-Poderoso se patenteia por um amor que multiplica suas dádivas e que respeita a liberdade do ser humano, o envolvendo em inefável ternura. Mesmo àqueles que não O conhecem ou dele se esquecem Ele conserva na existência e lhes dá tudo que é necessário para a subsistência. Felizes, porém, os que vivem em função de sua dileção infinita e sabem usufruir a paz, a tranqüilidade, a imperturbabilidade de uma confiança filial para com Ele. Ditosos aqueles que vivem o aforismo: “Amor com amor se paga”. Estes percebem ainda mais vivamente que o seu destino será se inebriar um dia na visão beatífica, quando estarão no céu participando para sempre da beatitude que este Pai reserva para os que realmente O amaram neste mundo. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



























































































quarta-feira, 5 de junho de 2013

JESUS ROCHA INABALÁVEL

JESUS ROCHA INABALÁVEL
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus é a pedra angular e fundamental sobre a qual se deve instalar a casa da própria vida. Edificar sobre Ele é ter todas as garantias de uma existência repleta de beatitude, porque somente Ele tem palavras de vida eterna (Jo 6,68). O Papa Bento XVI explicou que erigir sobre Cristo é construir “com Alguém que do alto da cruz estende seus braços para repetir por toda a eternidade: “Eu dou a minha vida por ti, homem, porque te amo”. Como seu amor é perene quem constrói com Ele tem a certeza irremovível de que Ele jamais permitirá que sua existência desmorone. Ai daqueles que, não aderindo a Jesus, não podem fazer de suas ações, de sua identidade pessoal algo que permaneça para a eternidade. Com efeito, preferem a areia movediça das ideologias, do poder, do mando, do sucesso, do dinheiro. Julgam aí deparar a estabilidade e a resposta à questão jamais descartável da felicidade e da plenitude da existência que cada um traz lá dentro de si. À inquietude do coração humano, porém, somente Cristo, Palavra eterna e definitiva é capaz de envolver naquela imperturbabilidade que almeja o ser humano. Nele apenas se depara como triunfar de toda adversidade, de todas as dificuldades. O Papa Francisco advertiu «Nós, cristãos, não estamos muito habituados a falar de alegria». Depois de apontar que «muitas vezes» os cristãos têm mais gosto no lamento do que no contentamento, o Papa salientou que «sem alegria» os que acreditam em Deus não podem ser «livres» e tornam-se «escravos» da «tristeza». «Muitas vezes os cristãos têm mais cara de que estão num cortejo fúnebre do que estão a louvar a Deus», assinalou. Isto, evidentemente, porque não se confia em Jesus rocha inabalável por entre todas as agruras desta trajetória terrena. É firmado nele que o cristão faz com a argila da vida um monumento perene, sabedor que, instante a instante, é preciso utilizar as oportunidades do tempo presente. Para isto cumpre que se meditem sempre as mensagens deixadas por Cristo no Evangelho, fugindo de um ativismo superficial que pode satisfazer por um momento a soberba pessoal, mas que deixa insatisfeito o íntimo do coração. Em Cristo, porém, o batizado encontra sua plena realização psicossomática, atingindo sua maturidade espiritual. Muito se fala na experiência de Cristo, mas se esquece que o cerne desta realidade se dá unicamente no amor e na observância dos mandamentos, ao lado da certeza de que Ele vive em cada um que lhe é fiel. Foi a notável arguição feita por São Paulo aos Coríntios: “Não reconheceis que Jesus Cristo está em vós”? (2 Cor 13,5). Com efeito, se por experiência se entende o conjunto dos atos que constituem a tomada de posse de um objeto, a realização de uma presença, a aquisição de uma estrutura vivida, se deve concluir que só poderá realizar a experiência de Cristo quem conseguir estabelecer contato e comunhão com Sua presença. Isto, contudo, supõe que Ele é, de fato, uma rocha inabalável, pois firme nele o cristão é capaz de superar os vendavais existenciais, as ondas revoltas das tribulações. Deste modo, a relação com o divino Redentor constitui o núcleo essencial e a característica permanente da vida do batizado e isto em todos os momentos. Nunca podem ser esquecidas as palavras de São João: “Não amemos com palavra e com a boca, mas por obras e em verdade” (1 Jo 3, 18). Deste modo, a perfeição e a salvação do cristão consistem na união com o seu Redentor, através de uma fé viva que age pela caridade. Esta necessidade desta união espiritual não exclui, portanto, os meios e os motivos que Cristo oferece para excitar sempre a confiança nele. É Ele e somente Ele que pode dar ao seu seguidor a perseverança no dom de si mesmo. Contar apenas com Ele, que é a rocha da vida cristã, e apoiar-se somente nele que afirmou: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Esta assertiva do Mestre divino significa que com Ele tudo pode realizar o seu discípulo para chegar ao seu destino eterno. Unido solidamente a Ele como o ramo à videira, sendo um com Ele, penetrado inteiramente de sua vida, animado pelos seus ensinamentos, eis o ideal do cristão. É desta maneira que se impede a infidelidade a Ele. Uma vida assim firmada em Cristo, Rocha inabalável, se torna uma existência que O faz conhecido e amado. Foi o que ocorreu com Madre Teresa de Calcutá que dizia: ”O maior serviço que posso fazer a alguém é o conduzir a conhecer Jesus para que ele O escute e O siga, porque somente Jesus pode responder à sede felicidade do coração humano para o qual cada um foi criado”. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
 


terça-feira, 4 de junho de 2013

JESUS PLENITUDE DA VERDADE

JESUS PLENITUDE DA V ERDADE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Cristo veio a este mundo como a Verdade de Deus, mostrando os projetos divinos para a vida dos homens. São João assim se expressou: “A Deus ninguém jamais o viu; o Unigênito de Deus que está no seio do Pai no-lo revelou” (Jo 1,18). Ele é a verdade feita Pessoa que atrai a si todos os corações sequiosos de retidão e da exata noção do Ser Supremo. Trata-se, então, de uma verdade que liberta. O Papa Bento XVI, num momento de pulcra inspiração, escreveu: “Jesus é a estrela polar da liberdade humana: sem Ele, ela perde sua orientação, pois, sem o conhecimento da verdade, a liberdade se desnatura, se isola e se reduz a arbítrio estéril”. Cristo libertador ensina “o caminho de Deus segundo a verdade” (Mc 12,14). A temática da verdade, sob todos os aspectos, fulge maravilhosamente no Evangelho de São João e nas suas Cartas. Aí se percebe além do liame entre a verdade e a liberdade, a conexão entre a verdade e a unicidade divina, a luz e a divindade e isto numa oposição clara à mentira, ao diabo que é o Pai da falsidade, sendo que o ápice do erro é não crer no Filho de Deus.  São João se revelou, realmente,  o teólogo da verdade. Ele registrou este ardente pedido de Jesus ao Pai com relação a seus seguidores: “Consagra-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17,17). Este termo, repetido muitas vezes pelo citado Evangelista, mostra a importância da dimensão cristológica da revelação divina. A Nicodemos Jesus foi claro: “Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para se tornar manifesto que as suas obras são feitas segundo Deus” (Jo 3,21). Eis porque o verdadeiro discípulo do Redentor tem suas ações realizadas como uma manifestação plena da luminosidade celeste. Cristo dirá: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 8,14), como Ele é esta mesma luz (Jo 8,22). Deste modo, nada mais contraditório do que um cristão cujo procedimento não esparge o que é luminoso. Nas terríveis províncias das trevas do espírito, nas lúgubres regiões das sombras do coração, nas umbríferas paragens de terebrantes enfermidades, quem foi batizado precisa ser luz nas sombras. Deve ser preciosa lâmpada projetando lucífluas e diáfanas esperanças, patenteando em tudo ser epígono daquele que disse que é a Verdade (Jo 14,6). O cristão, com efeito, caminha na dinâmica da noção desta realidade sublime. Isto sem estar jamais aderido ao embuste. A exemplo de Cristo, o seu seguidor manifesta a realidade daquele que é o Deus três vezes santo, numa abertura para o mistério Trinitário no qual o Pai gera desde toda a eternidade o Verbo e este e o Pai se unem num amor substancial que é o Espírito Santo, denominado por Cristo o “Espírito da Verdade” (Jo 16,23). No cristão é preciso desabroche a lealdade, a fidelidade a sinceridade, a coerência entre o que ele crê e o que ele pratica. É o conseho de São Paulo: “despojemo-nos, portanto, das obras das trevas e revistamo-nos da armadura da luz. Andemos dignamente como convém em pleno dia não em bacanais e comezainas, nem em lascívias e em impudicícias, nem em contendas e no ciúme. Mas revesti-vos do Senhor nosso Jesus Cristo, e não queirais afagar a carne, satisfazendo-lhe as cupidezas” (Rom 13, 12-14). Eis aí como se entra na plena comunicação com Deus. A exemplo de Jesus que disse a Pilatos que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, assim procede o seu discípulo (Jo 18,37). Ele acrescentou: “Todo aquele que ama a verdade, escuta a minha voz”, ou seja, impregna seu comportamento com tudo que Ele ensinou, amando na luz da verdade. (Jo 18,38). Isto significa acatar a verdade cristológica, a verdade no seu aspecto dinâmico, a verdade como revelação de Deus, a verdade interiorizada e vivida sob influxo do Espírito Santo. Chega-se desta maneira à verdadeira religião do coração. É o autêntico “amém” do cristão,  demonstrando sua solidez, sua firmeza nos caminhos do Senhor. Cumpre possuir as qualidades constitutivas do batizado e não somente os atributos qualitativos ou meramente intelectuais. Cumpre, finalmente, lembrar o que está no prólogo do Evangelho de São João: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós e nós fomos expectadores de sua glória, glória qual  o Unigênito recebe do Pai, pleno de graça e de verdade” (Jo 1,14). Graça e verdade designam a manifestação de Cristo, o Filho único do Pai, como misericórdia e justiça, amor e verdade, dileção e fidelidade. Todos estes termos distintos, mas que aparecem justapostos, ligados um ao outro traduzindo uma mesma realidade e proclamando a riqueza de Jesus, cheio de graça e de verdade. Pode-se então concluir que realmente Jesus é a plenitude da verdade, porque trouxe a revelação do Pai amoroso de maneira excepcional. Esta verdade sobre Deu se realizou na Encarnação de modo único e singular, de tal forma que Ele se tornou também a verdade a ser assimilada pelo cristão, como ocorreu com o Apóstolo Paulo que pôde afirmar: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,2). * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

AS LÁGRIMAS DE UMA MÃE

AS LÁGRIMAS DE UMA MÃE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A tristeza de uma pobre viúva que ia enterrar seu único filho foi narrada com detalhes por São Lucas (Lc 7,11-17). Com sua ressurreição Cristo cantaria vitória sobre a morte e Ele havia dito que viera “para que todos tivessem a vida e a tivessem em abundância” (Jo 10,10). Perto, porém, da porta da pequena aldeia de Naim Ele se deparou com um préstito fúnebre e nele com uma mãe em lágrimas. Nenhum sofrimento humano O deixava indiferente e seu coração imediatamente se compadeceu do sofrimento daquela viúva. Com Jesus a morte não teria nunca a última palavra. Ordenou ao morto que se levantasse e diz o Evangelista que “Ele o entregou a sua mãe”. Aquele cortejo de morte é bem, contudo, o símbolo da humanidade decaída e que fora excluída do Paraíso. A mãe lacrimosa representava bem Eva que perdeu a graça divina e lançou a humanidade na morte. Em Naim Jesus estava presente e ressuscitou aquele que tinha falecido. O fato dele trazer à vida o jovem morto é bem uma representação da vida nova que Ele veio oferecer à humanidade. É de se notar que São Lucas não diz que a mãe sofredora implorou a Cristo, mas este, vendo o sofrimento daquela viúva, dela se condoeu. O pranto materno tocou o seu coração, era uma forte linguagem não-verbal e Ele diz “não chores mais”. Não se tratava de meras palavras confortadoras, porque quem as proferia tinha o poder de ir à razão última daquele padecer que era a ausência do ente amado. Ele daria vida de novo àquele que estava morto. Tocou no esquife e parou o cortejo da morte. Era a mão de um Deus que tudo criara e surgiu novamente a vida. Jesus por sua encarnação estancou a descida abissal da humanidade no seu afastamento do Ser Supremo. Ele dirá: “Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim terá a vida eterna” (Jo 11,15). Deste modo, aquela viúva além de simbolizar a Eva restaurada pela redenção, é símbolo também da Igreja e de Maria, a Mãe de Deus que junto à Cruz lacrimosa chorava o Filho que pendia no alto da Cruz para a salvação de todos que estavam mortos por força do pecado original. As portas da mansão dos mortos não resistem àquele que afirmou ser “o Caminho, a Verdade e a Vida”. Tudo isto deve, entretanto, levar a uma reflexão profunda também sobre a morte espiritual de tantos que se deixam levar pela difusão de um materialismo hedonista e, embora vivos no corpo, estão mortos espiritualmente. lançados na depressão, nas desordens sexuais, nos abismos tenebrosos das drogas. Mais do que nunca cumpre levar por toda parte a mensagem de vida daquele que cura, salva, ressuscita. A coragem de mudar o mundo é um apelo concreto que a todos deve envolver. A viúva de Naim chorava e foi consolada. Quantos, porém, estão mergulhados no orgulho, na auto-suficiência e não têm condições de lastimar a triste condição em que se acham. É preciso que haja na profundeza da miséria humana uma abertura de coração e de alma para que se recebam os dons divinos. É necessário, contudo, que haja aqueles que lancem sempre mensagens que despertem do sono do pecado os que nele jazem. A ressurreição do filho da viúva de Naim é um sinal de que há sempre salvação quando Jesus passa na existência do ser humano. Ele está presente na sua Igreja que é Mãe e que vivifica com seus sacramentos e todos os recursos espirituais que seu Fundador lhe legou. Então os que já possuem a graça santificante que é a vida da alma e aqueles que deixam a morte do pecado e a passam a possuir, percebem que a ressurreição que Cristo prometeu será ainda mais maravilhosa do que a que Ele operou em Naim. Trata-se, de fato, radicalmente, de uma vida eterna, uma existência que não terá mais fim. Não é uma mera garantia de um suplemento de vida, mas de uma vida definitiva. Eis porque a adesão a Cristo que tem poder sobre a morte ultrapassa de muito a adesão a um mero profeta, mas, é, sim, a união com o próprio Filho de Deus que é a vida em plenitude, na sua totalidade. O cristão vive então em comunhão com Ele e nele encontra a razão de seus existir e tem nele a garantia da felicidade eterna. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sábado, 1 de junho de 2013

A FÉ E A ESPERANÇA NA VIDA DO CRISTÃO

A FÉ E A ESPERANÇA NA VIDA DO CRISTÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Nunca se reflete demais sobre a importância da fé e da esperança na vida de quem foi batizado, dado que estas virtudes teologais são o fundamento do amor para com Deus e constituem com a caridade o sustentáculo da existência do cristão. A raiz da perseverança nas trilhas traçadas pela revelação divina está na fé que gera a esperança de se obter a promessa da vida eterna. Esta, porém, só será atingida se o discípulo de Jesus possuir uma dileção sem limites ao Ser Supremo. Este é fiel e exige fidelidade dos que nele crêem e caminham na expectativa de uma ventura sem fim. Em Cristo, Deus comunicou o germe dos bens futuros. A certeza desta realidade a ser usufruída na eternidade conduz a uma gratidão profunda envolta no amor a quem se mostrou tão generoso para com a criatura racional. O Papa Bento XVI ao discorrer sobre a certeza da salvação através de Cristo falou sobre as etapas da Revelação de Deus. Ensinou então onde encontrar o pábulo espiritual para nutrir a crença que deve aclarar os passos de cada um. Assim se expressou: “A Sagrada Escritura é o lugar privilegiado para descobrir os eventos desse caminho”. Daí o  convite deste Papa: “Tomar nas mãos mais frequentemente a Bíblia, a fim de ler e meditar, prestando mais atenção às leituras da Missa dominical, pois tudo isto constitui precioso alimento para a nossa fé”. Trata-se de uma descoberta contínua da generosidade do Criador, cuja memória deve ser continuamente revivida. A fé, assim alimentada na reflexão da Palavra de Deus, firma a esperança e esta se irradia então para toda a comunidade. É o que aconselhou São Pedro na sua primeira carta: “Estai prontos para uma resposta vitoriosa a todo aquele que vos perguntar acerca da esperança que vos anima” (1 Pd 3,15).  É que a esperança, solidificada na fé, se enraíza no hoje de Deus que é amor Por isto o cristão mora na casa da esperança. Com efeito, esta Fonte misteriosa da vida que nós chamamos Deus se faz conhecer porque Ele chama os homens a entrar em uma relação com Ele, estabelecendo um consórcio contínuo com a alma humana. Este Deus não abandona jamais os que O procuram e nele confiam. Deste modo na sua fé no Ser Supremo os que crêem, olhos fixos na Jerusalém celeste, contemplam em tudo a vontade divina, se conformam a ela e podem transformar as provações inevitáveis a um exílio terreno em lucro para a eternidade. Quem percorre a Bíblia com atenção percebe que a cada passo Deus promete suas bênçãos e Ele cumpre o que falou. Isto deste Abraão a quem Ele disse: “Eu te abençoarei e por ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gen. 12,2-3). Trata-se de uma promessa que é uma realidade dinâmica a qual abre possibilidades novas a cada passo na vida humana. De fato, quem se põe diante de Deus apreende que no aqui e agora Ele chama para realizar coisas concretas repletas de merecimentos que são germens de um futuro feliz junto dele após a morte, mas que enchem desde agora de paz o coração temente a Ele. Foi o que asseverou o divino Redentor: “Eu estiou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 24,20). Pleno do amor a Ele o cristão sabe que esta certeza clarificar. São Paulo então afirmou: “A esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado nos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rom 5, 5). Este Espírito Santo nos foi enviado por Cristo após sua ascensão aos céus. Deste modo a esperança longe de ser um desejo para o futuro sem garantia de realização é a presença do amor trinitário em todos os momentos da existência do cristão. Aí então uma fonte de energia para viver em comunhão com Deus, longe das falsas promessas de um mundo que endeusa o poder e incentiva uma competição insana na busca de bens materiais que não podem satisfazer a sede imensa do infinito que paira dentro do coração de cada um. A fé e a esperança não colocam o cristão num estado privilegiado fora do mundo, mas faz com que ele esteja convencido de que “as trevas passam e já brilha a luz verdadeira” (1 Jo 2,8) Estas virtudes teologais que culminam no amor por um sim dado a Deus lançam sementes luminosas na vida do batizado até que um dia dêem frutos por todo sempre. Assim os cristãos que se esforçam por ter “um mesmo amor, uma só alma, um só sentimento (Fl 2,2), brilham neste mundo como fachos de luz (F 2,15)”. Isto nos é tanto mais visível quando estudamos a vida dos grandes santos. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.