quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A CONVERSÃO QUARESMAL

                        A CONVERSÃO QUARESMAL
                                   Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A quaresma é tempo propício à intensificação da conversão, numa rejeição sincera de tudo que impede o progresso espiritual. Esta atitude é indispensável para se obter a salvação eterna. Jesus foi claro: “Se não vos emendardes, pereceis todos” (Lc 13,3). Este alerta do Mestre divino é uma recordação palpitante do que Deus, no Antigo Testamento, falou pela boca do Profeta Ezequiel: “Sacudi de cima de vós todos os delitos nos quais caístes e forjai-vos um coração novo e um espírito novo. E porque quereríeis morrer, ó casa de Israel? Porque eu não sinto prazer na morte do que morre, diz o Senhor Javé. Convertei-vos e vivereis” (Ez 18 31-32). Está escrito no livro de Isaías: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a imundície das vossas ações de diante dos meus olhos. Cessai de fazer o mal, habituai-vos a fazer o bem” (Is 1,16-17). Entre as práticas penitenciais da quaresma que facilitam a metamorfose interior está uma maior sobriedade no comer e no beber. Mais do que os regimes alimentares terapêuticos visando a boa saúde corporal, é este comedimento uma terapia da alma. Com efeito, a temperança facilita o esforço ascético para se colocar em plena condição de se escutar a Deus. É caminho para a interioridade exatamente porque se vive numa sociedade de consumo na qual, por efeito da propaganda, há uma incitação aos maiores excessos. Os meios de comunicação não devem ser os mestres da vida do cristão. A moderação da gula e o espírito de oração têm uma profunda correlação. Além disto, durante a quaresma é preciso controlar ainda mais o que se fala, cortando críticas, maledicências.  A busca de uma maior misericórdia e paciência devem também fazer parte do roteiro quaresmal. Lançar para longe do coração qualquer ressentimento, refulgindo a gratidão a Deus e ao próximo. Isto significa o triunfo sobre o egoísmo. É preciso que a esperança brilhe, para que se possa depois se envolver nas alegrias pascais. Assim, de lado devem ficar as preocupações e inquietudes inúteis que revelam sempre falta de total confiança em Deus. Adite-se um rigoroso controle do tempo que leve à fuga de diversões inúteis e ocupações superficiais, não essenciais, evitando a dissipação que malbarata as horas preciosas do dia. Procura cuidadosa do silêncio para um íntimo diálogo com Deus. Eis aí tópicos importantes da conversão quaresmal que torna, por isto mesmo, a quaresma um tempo de luta espiritual em diversos níveis da existência de cada um. Combate corajoso contra o orgulho, as tentações, contra tudo que afasta o cristão da presença de Deus e entrava o progresso espiritual. Além do mais, este é um contexto especial para que se prepare uma ótima confissão, buscando os tesouros celestiais do perdão divino, que dispõem a comunhões fervorosas. Tal o conselho de São Tiago: “Aproximai-vos de Deus e ele se aproximará de vós [...] Purificai os vossos corações” (Tg 4,8). Está no livro do Apocalipse o que diz o Senhor: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em casa dele e cearemos juntos, eu com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Isto inclui então o arrependimento de todos os erros e a renúncia corajosa ao pecado. Esta atitude, contudo, exige energia. A paz da consciência requer a entrega filial nas mãos de Deus, sem medo, sem tergiversação. Nada de retorno aos ídolos criados pela mídia, aos falsos deuses. O Ser Supremo, Ele sim, deve ter a prioridade em tudo. Ser cristão é seguir totalmente o que Jesus ensinou, trilhando sempre os caminhos da virtude, na vivência completa de tudo que o Pai revelou. A quaresma vem, deste modo, lembrar que é necessário se render à lógica do amor de Deus. Assim sendo, a conversão quaresmal supõe o exercício da dileção com a qual Jesus caminhou até o Calvário para fazer florir o amor em plenitude. Isto significa abandonar a rotina de uma existência medíocre.  Mais do que nunca é preciso que os cristãos se tornem testemunhas fiéis da palavra de Deus para  poderem, após a própria metanóia,  converter aqueles que se acham longe do Divino Pastor. Trata-se de uma transformação fundamental dos pensamentos, do modo de ser, num total convertimento espiritual. Este é o tempo para fazer a comunidade na qual se vive mais luminosa, harmoniosa e verdadeiramente cristã. A penitência quaresmal envolve tudo isto e então o fiel, do primeiro degrau do progresso espiritual que é o desprendimento de tudo que é passageiro e transitório, passa à segunda etapa que é sua união com Deus, inebriado na sua grandeza infinita que leva a uma reverência humilde ao Criador de tudo. Então, até o dia da Páscoa se estará no cimo da preparação para poder contemplar a luminosidade  da vitória de Cristo, participando, realmente, de sua gloriosa ressurreição, centrado cada um não nas ilusões terrenas, mas nos valores eternos.* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O COMPLEXO MUNDO DO TRABALHO

O COMPLEXO MUNDO DO TRABALHO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Desde a Revolução Industrial o trabalho humano ganhou dimensões tais que transformou o panorama econômico do mundo. Tudo a girar em torno da aceleração produtiva. Acumulação do capital se tornou uma realidade. De plano, agravou-se o abismo entre ricos pobres, fenômeno que, posteriormente, se ampliou  e fez surgir  nações poderosas e outras legadas à pobreza. Desordem distributiva visível entre as classes sociais. Desequilíbrio, objeto do estudo dos cientistas sociais e dos economistas a buscarem explicações, soluções e a apontarem caminhos de um desenvolvimento sustentável que trouxesse a verdadeira harmonia sócio-econômica.  O capitalismo selvagem se viu frente a frente com o marxismo. No inicio deste milênio, com o esvaziamento marxista e as desgraças ocasionadas pelos excessos do capitalismo, percebe-se uma tendência a uma opção pela maior valorizarão do trabalho em si e um maior respeito à dignidade da pessoa humana. Pois bem, em momento algum, através de sua doutrina social, a Igreja se omitiu e os princípios por ela exarados se apresentam até hoje como a sólida  segurança de um  desenvolvimento mais humano e eqüitativo..A carta magna dos trabalhadores foi a Rerum Novarum de Leão XIII. Esta encíclica chamou claramente a atenção para a pessoa que realiza um trabalho, o qual não poderia ser considerado uma mercadoria na alheta dos marxistas. Clamava  o Papa pela justiça social e pelos direitos dos operários que deveriam ter um salário justo, podendo se associar na defesa de uma classe que não deveria ser explorada. Pio XI alertou sobre a situação deprimente do proletariado e patenteou que  uma iníqua distribuição dos bens temporais não podia estar de acordo com a vontade de Deus. Pio XII prosseguiu na mesma linha e ecoa até hoje o que ele sintetizou numa sentença fulgurante: “O supérfluo dos ricos pertence aos pobres”. A economia de cada nação deveria oferecer as condições materiais na qual pudesse se desenvolver plenamente a vida individual dos cidadãos. A doutrina deste sábio Pontífice preparou a Mater et Magistra de João XXIII. Neste documento uma orientação luminosa: “ A presença do Estado no campo econômico, por mais ampla e profunda que seja, não pode ter como meta reduzir cada vez mais a esfera da liberdade da iniciativa pessoal dos cidadãos; pelo contrário deve garantir a essa  esfera a maior latitude possível, protegendo efetivamente, em favor de todos e de cada um, os direitos essenciais da pessoa humana”. Paulo VI, sobretudo na encíclica Populorum progressio exaltou magnificamente o aspecto criador inato a toda atividade humana, enquanto o homem colabora com Deus na construção de um mundo melhor. Com a sabedoria que o caracterizou o bem-aventurado João Paulo II nos seus escritos  aprofundou todos estes aspectos e afirmou solenemente o  princípio da prioridade do trabalho face ao capital, salientando-se sua encíclica Laborem exercens. Bento XVI na sua mensagem para o dia primeiro de janeiro de 2013 fustigou as ideologias do liberalismo radical e a tecnocracia, defendendo a dignidade do trabalhador. Criticou então o crescimento econômico ao preço da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil e dos direitos e deveres sociais. Estes deveres, insistiu ele, são fundamentais para a plena realização dos outros direitos e deveres cívicos e políticos. Diante de uma ameaça visível ao direito ao trabalho, incentivou então a todos a procurar políticas corajosas e inovadoras. Eis suas palavras textuais: ”A realização deste objetivo ambicioso tem por condição uma apreensão renovada do trabalho fundada sob princípios éticos e valores espirituais que levam a reforçar sua concepção como bem fundamental para a pessoa, a família e a sociedade”. Portanto, na visão da Igreja o trabalho deve sempre assegurar a dignidade essencial de cada um num mundo no qual haja mais solidariedade com uma distribuição mais equânime da riqueza que não pode ficar concentrada nas mãos de uns poucos. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

REFLEXÕES SOBRE A RENÚNCIA DO PAPA




REFLEXÕES SOBRE A RENÚNCIA DO PAPA
Côn.José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No turbilhão das mais variadas notícias e comentários atinentes à renúncia de Bento XVI o significado mais profundo deste gesto pontifício fica obnubilado. Nobreza e desprendimento fulgem na atitude deste sucessor de Pedro. Num contexto histórico no qual se verifica uma metamorfose do conceito de valores por força do relativismo imperante e no qual, por isto mesmo, o referencial ético fica comprometido, fulgem a dignidade e a modéstia de um Pastor e de um dos maiores pensadores hodiernos. É evidente que isto resulta da irradiante espiritualidade de quem vive o que fala e escreve deste os tempos de sua trajetória como professor abalizado e, posteriormente, como Mestre de toda a cristandade. Alicerçado na sua visão de Igreja e do mundo pós-moderno, o Papa percebeu que suas limitações físicas o impediam de exercer uma missão tão espinhosa e que a glória de Deus e o bem das almas estavam acima de todas as honras que retinha no cargo que exercia.  Deixa o pontificado com serenidade e muita humildade. Fez refulgir diante da humanidade uma fé profunda nas realidades que transcendem este mundo e, não tendo apego ao poder, ao deixá-lo, vai agora imergir ainda mais na contemplação intensa daquelas verdades que irradiou por toda parte. Lega uma lição maravilhosa para todos que se escravizam às vaidades terrenas e seus símbolos mistificadores. Patenteou aos homens e mulheres de hoje que cumpre enfrentar a realidade face a face para, sob as luzes divinas, tomar sempre destemidamente as resoluções mais acertadas. Há na postura de Bento XVI um convite a que se penetre fundo no sentido da renúncia. Esta não é, como muitos julgam erroneamente, sinal de debilidade, de fuga do dever a cumprir, mas, ao contrário, é sinal de fortaleza, quando há o reconhecimento dos limites impostos pela saúde e pela idade. Além disto, é preciso continuamente que cada um deixe de lado o egoísmo e seus interesses pessoais. Como isto deveria, sobretudo, tocar os políticos de toda parte, muitos deles narcisistas, laborando apenas pelos seus interesses pessoais e pouco se importando com o bem comum. Muitos homens públicos, infelizmente, se especializaram na arte de extorquir os outros e o patrimônio que pertence a todos os cidadãos. Bento XVI renuncia a seus direitos de Sumo Pontífice, mas, livre das ocupações e preocupações de um cargo tão afanoso, terá ainda mais tempo para, já nesta terra, prosseguir degustando as delícias da eternidade. Por isto, como ele mesmo declarou, estará ainda mais perto de todos os fiéis pelos quais estará orando na presença do Ser Supremo com o qual estará em tertúlias mais prolongadas. Fica então também uma mensagem de desapego para todos que neste mundo pós-moderno vivem num ambiente impregnado por todas as aliciações da economia de mercado no qual o que vale é ter coisas materiais e não o  viver na plenitude da valorização interior. O Cardeal Joseph Ratzinger cumpriu magnificamente sua missão como Papa e será sempre lembrado pelo equilíbrio e pela dedicação com que sabiamente conduziu a nau de Pedro como Mestre e Pastor. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
      

      



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domingo, 17 de fevereiro de 2013

O QUE NENHUM PAPA PODE APROVAR


O QUE NENHUM PAPA PODE APROVAR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Entre o tumulto de opiniões as mais irrisórias as quais estão disseminadas na mídia, comentando a renúncia do Papa Bento XVI estão assertivas completamente errôneas, afirmando,  inclusive, que um Chefe da Igreja  atualizado, moderno, poderá inclusive ir contra a Lei divina.
O Papa, seja ele quem for, não  aprovará nunca o aborto e a eutanásia, que são contra o quinto mandamento da lei de Deus; a homossexualidade como livre opção sexual, que vai contra o sexto mandamento e recomendará sempre a castidade..
O Papa Bento XVI está sendo injustamente condenado pelos tribunais anticlericais por não ter cedido a nada que afronta o Decálogo.
A Igreja não transigirá nunca diante do que Deus estabeleceu. Ela continuará sempre a pregar a Verdade doa a quem doer.
A História com o passar do tempo irá mostrar  ainda mais a grandiosidade do pontificado de Joseph Ratzinger e, por certo, ratificará  aspectos positivos que inúmeros bons historiadores já estão focalizando.
O esforço de erigir padrões de julgamento é a anti-história. O que se exige, isto sim, é a análise profunda do que aconteceu. Busca das conexões causais, das significações, dos valores. Daí a necessidade do cientista social apreender, diagnosticar e explicar. Não é sua tarefa julgar e quem é movido por uma subjetividade condenável.emite juízos de valores que deturpam inteiramente os fatos e os personagens neles envolvidos. 
A História, enquanto ciência, é a testemunha das épocas, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida, a mensageira da antiguidade. O tempo passado orienta o presente e o porvir.
É preciso dar tempo ao tempo para uma hermenêutica não passional do que foi o pontificado de Bento XVI e  cumpre não se aceite a superficialidade com que o mandato do atual Papa vem sendo mostrado.
Percebe-se, além disto, por parte de certos comentaristas  um profundo ódio à Igreja católica e se pugna pela desestruturação completa da instituição estabelecida por Jesus Cristo.
A História  não pode ser exercitada como apoio a um projeto político, a uma ideologia,  ou a outra finalidade qualquer, porque se isto ocorrer haverá infalivelmente a manipulação dos fatos, das idéias e se distorcerá inteiramente a verdadeira postura de qualquer personagem.
Nada mais indesejável do que uma interpretação preconceituosa de fatos e pessoas.
O novo Papa que sucederá Bento XVI encontrará novos problemas, mesmo porque a sociedade se transforma continuamente por força do progresso tecnológico e científico, mas saberá, com discernimento, guiar os fiéis, como o fizeram seus antecessores. Estará firme na defesa da fé, lutando contra o relativismo e todos os erros que contradigam a Verdade revelada e o Decálogo sagrado. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

JESUS TRANSFIGURADO, ÍCONE DO CRISTÃO

                  JESUS TRANSFIGURADO, ÍCONE DO CRISTÃO
                              Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A narrativa da transfiguração de Jesus apresentada em plena quaresma tem um profundo significado. Não, evidentemente, como um fato maravilhoso e recordado fora de tempo oportuno, mas como uma lembrança viva da pessoa divina do Redentor da qual deve participar todo batizado. É de se notar que os evangelhos sinóticos, pouco antes de registrarem o que ocorreu no Monte Tabor, anotaram a interrogação de Cristo: “Vós quem dizeis que eu sou?” (Lc 9,20). A resposta de Pedro foi taxativa: “O Ungido de Deus”. Pois bem, Jesus depois tomou exatamente Pedro e  dois Apóstolos e os levou à montanha e lá confirmou que Ele era, de fato, o enviado pelo Pai. Serão os mesmos que estariam no Horto das Oliveiras e já aqui há um liame notável com o tempo quaresmal que prepara os fiéis para a comemoração da Paixão e Morte do Salvador. O que se deu no Tabor,  alta colina da Galiléia a 575 metros acima do nível do mar não foi uma alucinação coletiva ou a descrição de um belo sonho, nem uma epopéia fantamasgórica. Os Evangelistas não eram romancistas, ficcionistas,  meros jornalistas. Eles propunham uma realidade de fé através do que Pedro, Tiago e João tinham visto e ouvido, ou seja, a manifestação resplandescente do Pai, do Filho então glorificado e do Espírito Santo, bem representado na nuvem que os encobriu. O que se deu com os três discípulos embevecidos na contemplação trinitária é o que ocorre tantas vezes quando um cristão se deixa imergir numa oração que leva a uma união íntima com o Deus três vezes santo. Instante  no qual o fiel percebe algo sublime como se do céu uma porção se estivesse a degustar. É para a maioria um momento raro de uma manifestação-revelação do Ser Supremo. Trata-se da presença viva do Onipotente projetada nas vidas de seus fiéís  através de uma luz peculiar. Então se pode repetir com São Pedro: “É bom estarmos aqui”. Não se pode, contudo, ter o céu nesta terra e Cristo deseja que cada um processe sua transfiguração pessoal nas árduas tarefas cotidianas, no relacionamento cordial com o próximo, na prática persistente das virtudes, não obstante as obscuridades próprias de uma passagem pelo exílio terreno até se chegar à luminosidade do céu. A felicidade perene não se aclimata bem neste mundo, pois é um tesouro da eternidade. Até lá, contudo, é possível na história espiritual de cada um viver momentos inefáveis, quando se entra dentro de si mesmo e se mergulha na total confiança em Deus em cuja presença se deve viver. Jesus deixou um alerta: para se chegar à glória eterna é preciso passar pelo Calvário e aí está uma lição quaresmal de notável valor ascético e místico. Eles depois desceram da montanha, dado que a colina do Gólgota em Jerusalém estava à espera do mesmo Jesus então não trasnfigurado, mas desfigurado pelo sofrimento, pela dor, pelo horrípilo martírio a bem da humanidade. Em suma, a transfiguração de Jesus foi uma resposta divina de amor incondicional que transfigura a humanidade desfigurada pelo pecado  e pelos consequentes sofrimentos de um vale de lágrimas. Por isto mesmo, nunca se deve esquecer o que disse o Pai: “Este é o meu Filho amado, escutai-o”. Muitas vezes, porém são as vozes do mundo, dos falsos formadores de opinião que prevalecem na existência do batizado. Há um outro detalhe importante, ou seja,  ao som  destas palavras do Pai, diz São Lucas, “Jesus ficou só”. Nesta frase  está bem clara a condição normal do discípulo de Cristo neste mundo o qual deve se ligar só no Mestre divino, percebendo sempre sua presença, até mesmo quando ele se oculta sob as espécies eucarísticas. Enxergar Jesus na sua humildade, paciência, benignidade  por entre os deveres difíceis de cada hora. Concentrar nele toda a atenção, sem se deixar distrair pelas coisas do mundo. Tudo com Ele, por Ele e para Ele. Desta maneira, Ele aparecerá transparente, uma vez que em qualquer circunstância é um serviço que se está prestando a alguém e quem O vê no próximo valoriza as menores ações. Deste modo,  tudo fica transfigurado para o cristão. É a vivência essencialmente cristológica da Transfiguração e de seu liame com os sofrimentos messiânicos, pois tudo que se empreende neste mundo exige esforço, sacrifício, que devem ser valorizados  para, um dia, se entrar na inefável visão beatífica por toda a eternidade. Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

CARÁTER TEÂNDRICO DA IGREJA

CARÁTER TEÂNDRICO DA IGREJA
                                   Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
 Ante o sensacionalismo com que os meios de comunicação social estão a divulgar as opiniões sobre outras possíveis causas  da renúncia de Bento XVI, cumpre, em primeiro lugar não se esquecer o caráter teândrico da Igreja, ou seja, ela é divina (theos) e humana (ander). Apontam alguns os escândalos morais ocorridos dentro da Igreja durante o pontificado do atual Papa como um dos fatores que mais o abalaram e o levaram à deixar o pontificado.  A Igreja na parte divina ela é incorruptível. Na parte humana há falhas. Com a liberdade de pesquisa que um Historiador sério, não jornalistas despreparados e mal intencionados, deve ter, para que ele bem  possa  compreender certos aspectos da Cidade de Deus,  há que  levar em consideração este caráter teândrico do Corpo Místico de Cristo. A Igreja é uma realidade divina e humana. Pio XII na Encíclica Mystici Corporis Christi explicava que, quando nesta Instituição se descobre algo que argüi a debilidade de nossa condição humana não há que se atribuir isto à sua constituição jurídica, senão à deplorável inclinação dos indivíduos ao mal, a qual o seu Fundador permite ainda nos mais altos membros do Corpo Místico, para que se prove a virtude das ovelhas e dos pastores e para que em todos nós se aumentem os méritos da fé cristã. Como dizia o Apóstolo Paulo, Jesus amou esta Igreja “e por ela se entregou a si mesmo para a santificar, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida para apresentar a si mesmo esta Igreja gloriosa sem mácula, sem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada” (Ef 5, 24-27). O divino que há na Igreja brilha preciosamente com maiores fulgores no meio das sombras. Deus respeita sempre a vontade livre do homem. A melhor prova da indestrutibilidade da Igreja é, exatamente, o fato de que, apesar das múltiplas faltas dos homens, clero e fiéis, ela não pereceu. Além disto,  não se pode esquecer  que entre doze apóstolos que conviviam com Jesus e viram seus milagres, um O traiu; outro (Pedro) o negou; todos, menos João, covardemente, fugiram e não estiveram no Calvário. Numa Igreja que tem mais de dois mil anos é claro que iriam se multiplicar os Judas  e outros que errariam. Entretanto, na sua milenar História são milhões de santos de todas as classes, de sacerdotes, bispos e papas de todas as nações, heróis na prática das virtudes evangélicas. Voltar a falar em pedofilia eclesiástica, sem ponderar sobre a santidade de milhares de bons sacerdotes é um sofisma inominável. Só Deus é perfeito! Quer o bem-aventurado João Paulo II, quer Bento XVI agiram sempre com muita firmeza e prudência. Além disto, os fiéis devem estar atentos a tudo mais que está sendo propalado injustamente sobre o Vaticano. Cumpre ter senso crítico diante dos noticiários e comentários e não vacilar na fé. Jesus foi claro ao afirmar que as portas do inferno não prevaleceriam contra sua Igreja (Mt 16,18). * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O LEGADO DE BENTO XVI

O LEGADO DO PAPA BENTO XVI
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Diante da decisão do Papa Bento XVI de renunciar a partir do dia 28 de fevereiro o importante é, sem dúvida, que se reflita sobre o legado que o sucessor de bem-aventurado João Paulo II deixa para a História. Além de seu acendrado amor à Igreja, com sua invejável cultura, Ele soube sabiamente interpretar o Vaticano II apresentando orientações condizentes a este contexto pós-moderno. Bento XVI é um dos maiores intelectuais do mundo contemporâneo e se tornou um dos mais notáveis pontífices da História da Igreja, um Pastor de almas dedicado, a exemplo de São Paulo, fazendo-se tudo para todos para a todos salvar. Ele ofereceu à Igreja e ao mundo uma extraordinária lição de um estilo pastoral o qual revelou um serviço eclesial que patenteou um Pontífice inteiramente atento a todas as necessidades dos homens e mulheres de todas as nações, raças e crenças. Tal foi sempre sua postura em suas alocuções, nas suas viagens apostólicas na Itália e em outros paises, nos livros que publicou e, sobretudo, nas suas três monumentais encíclicas: “Deus é amor”; “Spes Salvi “ sobre Esperança cristã e “Caridade na Verdade”. Ele soube recolher a herança deixada pelo seus predecessores e, com seu modo de ser doce e reservado, com suas palavras moderadas e profundas, com seus gestos medidos, mas incisivos fez um trabalho apostólico de uma relevância tal que superará todas as declarações tendenciosas daqueles que querem uma Igreja desestruturada e que pregam uma teologia libertária, bem longe da verdadeira libertação preconizada na Bíblia. Ele sempre soube escutar a palavra e a vontade divinas, se deixou guiar continuamente pelas luzes do Espírito Santo. Por isto ele foi um profeta que sempre falou de Deus com uma fidelidade, com um destemor dos grandes personagens bíblicos. Com coragem apontou sempre os erros do mundo hodierno, criticou a violência que pretende ter uma justificação religiosa, execrando sem cessar o relativismo e o hedonismo. Procurou corrigir os desvios éticos com prudência, mas com inflexibilidade. No centro de seu pensamento nunca deixou de estar presente a questão da relação entre a fé e razão, entre a religião e a renúncia à violentação da liberdade religiosa.  Não houve neste pontificado uma involução como certos comentaristas apressados estão propalando, nem ele foi um mero pontífice de transição, mas, isto sim, foi um papa de progressão, que impulsionou um movimento histórico ou marcha para diante da grei de Cristo, resguardando com firmeza os princípios que fundamentam uma fé esclarecida, baseada no amor de Deus pelo homem e que encontra na cruz do Redentor e na sua ressurreição sua máxima expressão. É que para Bento XVI a fé nunca foi uma questão a ser solucionada, mas um dom que deve ser redescoberto dia a dia, trazendo alegria e a plenitude da paz.   As especulações sobre as causas da renúncia do Papa são fruto de interpretações fantasiosas. Na sua declaração o Papa foi claro: “No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”. É um papa que deixará marcas positivas na história. Cabe agora aos fiéis rezarem para que os Cardeais, iluminados pelo Espírito Santo, escolham o novo Papa que prosseguirá impulsionando a Evangelização no mundo como o fez com galhardia e muito talento Bento XVI. Até lá haverá o abuso indevido dos termos conservador, progressista e quejandos, rotulando aquele que supostamente será o 265o sucessor de Pedro * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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