sexta-feira, 15 de junho de 2012

O AMOR DE DEUS PELOS HOMENS

                  O AMOR DE DEUS PELOS HOMENS
                              Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho *
O fato de Deus ter criado o homem à sua imagem e semelhança é, de si, uma demonstração de sua dileção para com o ser racional. Foi um  ato de sua bondade infinita, tanto é verdade que “o bem é de si difusivo”, como ensinou São Tomás de Aquino.  As maravilhas que Ele espalhou no universo trazem também os traços divinos de seu poder, de sua onipotência. O homem, cônscio de sua finitude, se volta então para o Ser Supremo e reconhece nele o Criador de tudo. Na sua magnanimidade Ele quis falar aos seres dotados de inteligência. Dirigiu-se  a Adão e Eva  no paraíso, a Moisés por entre as chamas da sarça ardente, e ao povo hebreu no meio dos relâmpagos e raios do monte Sinai. Pelos lábios dos profetas  dirigiu-se às gerações futuras. As suas palavras foram gravadas em livros inspirados por Ele e oferecidos à humanidade como prova de sua dileção sem limites. Os hagiógrafos foram inspirados pelo Espírito Divino e as Sagradas Escrituras patenteiam os mistérios de sua grandeza e de seu paternal interesse. Nas páginas da Bíblia se  encontram consolação para todas as dores, resposta para todas as  dúvidas, a esperança e o conforto para a vida. A prova máxima do amor do Pai para com a humanidade, porém, foi a vinda  do próprio  Filho a esta terra e, ao homem ingrato que havia desobedecido ao Criador lá no éden foi dada a redenção no alto de uma Cruz como mostra definitiva de uma afeição especial ilimitada. São João, o teólogo do amor, bem se expressou: “De tal forma Deus amou o mundo que lhe deu o seu  Filho Unigênito, para que todo aquele que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). O Verbo Encarnado, Deus e homem verdadeiro, esteve pessoalmente com as crianças, os jovens, os pobres, os humildes, os pecadores, os enfermos,  os ricos, enfim todas as classes sociais viram-no, tocaram-no. Ele perdoou, abençoou e salvou. Os seus olhos refletiam a bondade, as suas mãos espalhavam benefícios, os seus lábios ensinavam verdades e distribuíam misericórdia. As suas delícias eram de viver com os filhos dos homens. O seu amor  imenso irradiava paz, serenidade. Ele amou como ninguém, e amou o que, antes, ninguém havia jamais amado. Amou os marginalizados da sociedade,  considerados  como a escoria do mundo e os chamou  bem-aventurados. Fez ecoar nas páginas da História seu consolador convite: “Vinde a mim todos vós que sofreis, porque eu vos consolarei” (Mt 11,28).  Como não há maior prova de amor do que morrer pela pessoa amada, Ele quis morrer por todos os homens. Ressuscitou  ao terceiro dia imortal e impassível e está a dizer a todo que retribui tão grande amor: “Ressuscitei e estou contigo”! Regressou para junto do Pai, mas deixou-se ficar entre os seus no Sacramento da Eucaristia, outra demonstração de uma maravilhosa bondade. Quem tem fé O pode encontrar nos sacrários das Capelas e Igrejas, visitá-lO e O receber na sagrada comunhão. Cristo é, deste modo,  a atualidade do amor de Deus e a alma da sociedade de todos os tempos.. Ele quis  perpetuar a sua presença no meio de nós. Por suma dileção, Jesus tornou-se, além disto, o pão das almas, o alimento poderoso da vida espiritual, fazendo brotar virtudes na vida dos cristãos, conservando no mundo o desejo sublime  da santidade, inspirando dedicação, humildade, caridade, a todas as classes sociais. A Eucaristia, milagre do amor de Deus pelos homens é, portanto, a vida das almas e o penhor de esperanças imortais. É ponto onde o céu encontra a terra, no qual o homem se une a Deus, onde o amor divino recebe as homenagens do amor humano.  Todas estas considerações devem  nos levar ao que se deu com São Paulo: “É por isso que dobro os joelhos diante do Pai de quem toda e qualquer família recebe seu nome, no céu e sobre a terra. Que Ele vos conceda, segundo a riqueza de sua glória, serdes robustecidos por seu Espírito, quanto ao homem interior; que ele  faça habitar  pela fé, Cristo em vossos corações  e que estejais enraizados e fundados no amor” (Ef 3, 16-17).  É que Deus, de fato, demonstrou e confirma diuturnamente seu amor  que cumpre seja ternamente correspondido. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

JESUS EUCARÍSTICO

JESUS EUCARÍSTICO
         Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na Eucaristia Jesus continua a viver realmente no meio dos homens e prossegue a renovar cada dia pela humanidade o sacrifício que ofereceu no Calvário e aplica a cada alma em particular, no instante maravilhoso da comunhão, as graças e os méritos da redenção. É o maior, o mais admirável e o mais divino dos sacramentos. Ele quis viver no meio dos homens pela sua presença real nos Sacrários das Igrejas sob os véus eucarísticos. Eis a grande verdade, alimento da fé cristã, farol de todas as esperanças, chama do verdadeiro amor, Que Ele se manifestou pão da vida, lemos claramente no Evangelho (Jo 6,21-58). Ele falou abertamente: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,56). No Cenáculo, Ele realiza inteiramente a promessa eucarística, instituindo o tão sublime Sacramento. São Paulo, após recordar o que Jesus fez na última Ceia mostrou que os fiéis devem se preparar para receber o Corpo de Cristo e assim se expressou: “E por isso todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, torna-se culpado para com o corpo e o sangue do Senhor. Examine, pois, cada qual a si mesmo e, assim, coma deste pão e beba deste cálice” (1 Cor 11, 27-28). A Igreja através dos séculos jamais duvidou da presença real do divino Redentor na Eucaristia e sempre rechaçou as heresias atinentes a este mistério de amor. Na época das perseguições os cristãos, nas catacumbas ou onde se lhes era possível realizar o rito eucarístico, sempre cumpriram a ordem do Salvador: “Fazei isto em memória de mim”. Quando surgiu a liberdade com o Edito de Milão levantaram-se as basílicas e as catedrais, as igrejas, as capelas para abrigarem os tabernáculos no quais Jesus se tornou concidadão de seus seguidores. Os maiores teólogos desde os Apóstolos até Santo Tomás de Aquino, do Doutor Angélico a São Bernardo, do mais célebre personagem do século XII a São Francisco de Sales, de São Francisco de Sales a Bento XVI sempre incentivaram a fé na presença real de Cristo no sacramento do altar. Os atos de fé dos verdadeiros cristãos se tornaram manifestações de amor e de gratidão a Jesus Eucarístico. Ele recebeu por toda parte a homenagem da inteligência e do coração de seus autênticos epígonos. Quem percorre com atenção o Evangelho percebe que Cristo ensinava a doutrina ao povo e todas as vezes que não era compreendido pelo seu auditório, explicava imediatamente o seu pensamento. Certa ocasião, falando a Nicodemos que o homem deve renascer uma segunda vez para entrar no reino dos céus, não sendo entendido, Jesus explicou-se dizendo que estava se referindo ao batismo, deste nascimento misterioso que a graça opera nas almas, do sacramento sem o qual não se pode entrar no reino dos céus. Em outra oportunidade, falando contra a cizânia dos fariseus e vendo que os apóstolos o interpretavam mal, Ele explicou que pregava contra a falsa doutrina dos membros daquela seita judaica. Em outras circunstâncias são os Evangelistas que nos revelam os pensamentos do Divino Mestre. Jesus tendo declarado aos judeus que, se eles destruíssem o templo, em três dias ele o reedificaria, lemos imediatamente depois que o Redentor falava do templo do seu corpo, que devia ressuscitar no terceiro dia. Depois, porém, da instituição da Eucaristia, não se encontra uma só explicação, porque tudo aí é claro, tudo é evidente. A vontade formal de Cristo foi manifesta. Se durante o tempo de sua existência terrestre Jesus tinha ensinado a verdade, não seria pouco antes de sua morte  que enganaria seus discípulos.  A estes falou sem anfibologia lá no Cenáculo e eles entenderam perfeitamente o que Jesus lhes disse naquela ceia de despedida. Assim Ele nos deixou esta faustosa certeza de que na Eucaristia se acha a fonte de toda misericórdia, de toda dileção, de toda ventura. Ele ocultou aos homens sua humanidade e sua divindade para ser a estrada sublime pela qual remontássemos de novo Àquele que é o nosso princípio, exercendo a grande virtude da fé. Enquanto neste anguloso promontório da existência terrena os homens gemerem como exilados só a Eucaristia, Vida divina, Verdade absoluta, continuará a ser a solução para o espírito humano. Este forceja romper as muralhas terrenas e se expandir pelas regiões celestes para se entregar aos êxtases do amor sem limites e precisa então deste Pão do Céu para ultrapassar as barreiras do tempo.  Este Sacramento tem sempre, de fato, depurado, espiritualizado, sobrenaturalizado os cristãos com o maravilhoso estímulo de suas eternas esperanças. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


domingo, 10 de junho de 2012

A PALAVRA DE DEUS É UMA SEMENTE

A PALAVRA DE DEUS É UMA SEMENTE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus comparou o reino de Deus a uma semente (Mc 4,26-34). Esta semente é Palavra de Deus e Cristo o semeador divino. São João abre seu Evangelho com este luminoso trecho: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio em Deus. Todas as coisas foram feitas por ele e nada do que foi feito, foi feito sem ele” (Jo 1, 1-3). Foi este Logos eterno que, um dia, “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,4). Assim toda a História da Salvação está marcada por sua presença. Uma das parábolas narradas pelo Filho de Deus e que Ele relacionou com a palavra divina foi a do semeador. Este lança a semente que vai germinar de acordo com o local em que é lançada. Cristo explica aos discípulos: “a semente é a palavra de Deus (Lc 8,11). Impossível descrever em plenitude, com cores vivas e reais a grandiosa e magnificente eficácia da palavra do Ser Supremo. Com termos humanos não se pode abarcar sua grandiosidade ou tracejar sua força formidável. Alguns raios de seu fulgor extraordinário fulgem na Bíblia. Aí aparece sua eficácia através de fatos inegáveis. Tudo que existe no universo é resultado dela. Criadora, dela promana o que foi criado. O Gênesis repete a expressão “Deus disse...” e vai descrevendo o aparecimento da luz, do firmamento, das águas, da terra, das árvores, dos astros, dos animais, do homem”. Maneira pedagógica de mostrar que o Criador existe, mas acentuando o poderio do verbo divino que cria e sustenta no ser todas as coisas. Através dos Profetas e dos Patriarcas esta palavra obrou prodígios os mais estupendos, como se pode verificar na história do povo escolhido. E como observa a carta aos Hebreus: “depois de ter falado a nossos pais pelos profetas, Deus nos falou pelo seu Filho” Dentre as maravilhas operadas pelo verbo onipotente de Cristo durante a sua vida pública está aquele fato estupendo que honra a nossa  linhagem, fato que tanto tem de maravilhoso, quanto de irradiante amor, foi o resultado desta eficaz e poderosa palavra: a instituição da Eucaristia. Cristo toma o pão e diz: “Isto é meu corpo” sobre o vinho fala: “Este cálice é o Novo Testamento em meu sangue que será derramado por vós” e logo se baralham as leis da natureza, uma nova economia é regulada. Sob as espécies de pão e de vinho aniquila-se o Verbo de Deus, para ser nosso companheiro de jornada, para conosco permanecer até a consumação dos séculos. Há quase dois mil anos o Salvador anunciou a perenidade de sua Igreja ao asseverar que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra ela. A milenar História da Igreja comprova a eficácia destas afirmativas de Cristo. Geração após geração ela vê desaparecerem seus cruéis perseguidores. Peregrina, teândrica, sofre as vicissitudes desta condição, mas jamais desaparecerá, porque seu fundador isto assegurou. Pobres pescadores, homens rudes, ignorantes, tímidos e até covardes, os apóstolos, recebem o Espírito Santo e iniciam a pregação. Tudo se transforma dentro da história. Milhares se convertem num só dia em Jerusalém. Os ídolos ruem de seus tronos. Vícios são extirpados. Virtudes florescem por toda parte. Multidões acorrem para junto do Redentor. A fé se difunde por todos os quadrantes. O Evangelho se irradia por toda parte e  Eusébio de Cesaréia, no século IV exclamou: “De repente a palavra redentora iluminou, como um raio de sol cheio de potência e de força celeste, o mundo inteiro”. Quem deteve a Saulo, quando, olhos flamejantes  pelo ódio, ia rumo a Damasco para prender os que acreditam em Jesus de Nazaré? Foi a palavra de Deus: “Saulo, Saulo, porque me persegues”? Cena admirável se dá então. Tocado, fulminado por aquele verbo divinal, Saulo cai por terra. Está cego. Luz celestial ilumina o seu interior, ele recupera a visão do exterior, e já não é mais Saulo, mas Paulo, o apaixonado por Cristo, que vai empreender as quatro mais frutuosas viagens missionárias dos primórdios do cristianismo, disseminando no mundo conhecido de então o amor de Jesus Cristo. Não basta, porém ser tomado de admiração ante estes fulgores. É preciso acolher a palavra num coração bom e sincero e colocar em prática aquilo que ela exige. Muitas e numerosas vezes Deus fala ao homem. Sempre transformante é este verbo poderoso. Quem ouve esta palavra e responde, correspondendo à mesma, sempre contempla coisas maravilhosas em derredor de si. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

A FORÇA DO CRISTÃO

                      A FORÇA DO CRISTÃO
         Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Narra São João o episódio de Jesus andando sobre as águas, quando seus discípulos rumavam para Cafarnaum em um barco (Jo 6,16-21). Ele não estava com eles e o mar estava agitado. Haviam remado uns 5 quilômetros quando viram Jesus que “andava sobre o mar e se aproximava do barco e tiveram medo. Mas ele disse-lhes “Sou eu, não temais”. Conclui o Evangelista: “Quiseram então recebê-lo no barco e imediatamente o barco chegou à terra para onde se dirigiam”. É sempre assim quando se está junto do Redentor, há sempre um final feliz. Nesse acontecimento as palavras de Cristo são notáveis: “Não temais”.  Feliz aquele que tem sempre Jesus a seu lado a lhe transmitir força, ânimo perante as dificuldades da caminhada por este exílio. Atormentado tantas vezes  pelos sofrimentos, pelas paixões, pelas angústias e pelas dificuldades a presença de Cristo é  para seus seguidores fanal de triunfo nestas situações críticas.  No meio das trevas do mundo estão unidos a seu Salvador pensamento centrado sempre no Sacrário das Igrejas, onde Ele se tornou concidadão contemporâneo de todas as gerações cristãs.  Ele anima a todos os seus seguidores que se tornam vencedores não obstante a complexidade dos problemas que vão surgindo. É que  a  coragem, a  virtude,  a força vem daquele  longe do qual não há segurança, não há garantia, não há paz de consciência, não há perdão de pecados, não há salvação. Ele pode dizer a seus epígonos: “Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33). Com Ele se pode contar. Os amigos, se são fracos nada podem fazer nos momentos de perigo e, se são poderosos, se esquivam muitas vezes na hora da adversidade. Jesus é o único refúgio! Não tenhais receio diz Ele às almas tímidas e vacilantes, sou eu o vosso alento e a vossa salvação, sou eu o protetor de vossa vida, e estarei convosco todos os dias nesta terra e estarei na outra margem da vida a vossa espera. Não tenhais medo, diz Ele aos justos, porque sou eu que te faço passar por muitas provações, para multiplicar os teus méritos, eu que repreendo freqüentes vezes as tuas infidelidades, porque te amo, eu que no céu serei a tua eterna recompensa. Jesus Cristo, o próprio Deus, se aproxima de cada um que o invoca para resolver todos os seus problemas. Sua mensagem que ecoa no íntimo de quem Lhe é fiel  anuncia o perdão, ensina a verdade e aconselha o bem. Nos momentos venturosos da Comunhão Eucarística, sobretudo, Ele inspira ao comungante os mais luminosos sentimentos de equilíbrio psicossomático, comunicando imperturbabilidade total. A Eucaristia dirige então ao que comunga com fé  Sua misteriosa linguagem, e por isso ela é não somente a mais terna expressão do amor de Cristo, como ainda a mais poderosa garantia da confiança que lhe devemos. Ele se revela então no esplendor de Sua beleza e de Sua glória, e essa visão se torna as delícias dos bons cristãos Não tenhais medo,  diz Ele então a cada um,  porque nesse sacramento escondi o meu poder, depositei as minhas bênçãos e as minhas graças. Não tenhais receio nem das enfermidades de vosso corpo, porque aí está minha carne sagrada para curar a vossa, nem da corrupção do pecado, porque aí está o meu sangue para vos purificar. Pobres ovelhas, chamuscadas pelas aliciações mundanas, os fiéis  nesse sacramento  encontram o aprisco de Deus,  aí está o festim da reconciliação,  aí está o remédio para todas as feridas. Ele conduz então a uma conversão contínua, a uma penitência salutar que vivifica, ilumina a vida do cristão. Este  aceita os sofrimentos da existência, reprime os movimentos da carne, evita o pecado e pratica a virtude, porque sente a força e a eficácia das palavras do Mestre divino: “ Não tenhas medo, porque sou eu que estou contigo » Sim, em Jesus, está toda a  força e toda a confiança do verdadeiro cristão. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.



terça-feira, 5 de junho de 2012

O CRISTÃO E JESUS CRISTO

 O  CRISTÃO E JESUS CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A crença em Jesus Cristo  é o cerne da fé do cristão. Nem sempre se reflete sobre o significado profundo do nome do Verbo Encarnado. Os Israelitas muito apreciavam este prenome e Jesus, na língua hebraica, tem esta significação: “Deus é a salvação”. O termo grego Cristo, ou seja, o ungido, aquele que recebeu a unção, é a tradução da palavra hebraica Messias.  Jesus é, realmente,  o Messias enviado pelo Pai  e ungido pelo Divino Espírito Santo. Ele que realizou em si as perspectivas de salvação expressas do Antigo Testamento. Como bem se expressou São Paulo: “Quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei (Gl 4,4) . Donde a lógica conclusão do Apóstolo:  Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos. (Atos  4,12) O nome de Jesus, o Messias,  causava espécie, estranheza e surpreendia, tanto que o mesmo São Paulo afirmou: “ Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; (1 Cor 1,23) . Neste início de milênio  cumpre um sério exame de consciência para que se verifique se Jesus Cristo é na prática cotidiana, em tudo, o cerne das atividades do cristão.  Cumpre analisar até onde cada um se empenha em fazer o divino Redentor realmente conhecido e amado.  É que hoje a responsabilidade de quem se diz seguidor de Cristo  é ainda maior, uma vez que o cristianismo se espalhou por toda parte, mas nem sempre a civilização que se diz cristã o é de fato nos costumes, nos meios de comunicação social, nas estruturas econômicas, no modo  de ser de tantos batizados. Não há para todos  uma vivência plena de tudo que Jesus Cristo ensinou.  Nem todos  colocam em prática o que aconselhou  São Paulo: “Como (de nossa pregação) recebestes o Senhor Jesus Cristo, vivei nele” (Col 2,6) e o Apóstolo podia  então afirmar: “Porque para mim o viver é Cristo (Fil 1,21). Estas reflexões colocam assim aspectos importantes da vivência cristã e explicam o que é, na verdade, crer no Filho de Deus, aceitá-lO e fazer dele o protagonista de seu epígono, a Pessoa que desempenha ou ocupa o primeiro lugar nos pensamentos, palavras e ações de quem anda na sua esteira, acompanhando-O de perto. O discipulado  requer que se viva em função do Mestre e por Ele, se ponha a caminhar, colocando seus passos nos passos dele  estando inteiramente à disposição do Pai para servir a todos os homens. Ele tem que ser o referencial de tudo. A Igreja de Jesus Cristo  não é  um mero conjunto de doutrinas e de mandamentos, de instituições e estruturas, mas o seu Corpo Místico, sendo Ele uma videira e os seus discípulos os ramos estreitamente a Ele unidos, todos em comunhão com Ele. Não basta, portanto,  estar cristão, mas ser na realidade cristão. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

 




segunda-feira, 4 de junho de 2012

Miopia espiritual

                        MIOPIA ESPIRITUAL
                           Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na linguagem popular miopia ou hipermetropia significa vista curta. Numa aplicação extensiva do sentido desta  palavra, é  falta de perspicácia e isto leva,  metaforicamente, a uma cosmovisão estreita, limitada. Fica deturpada a compreensão geral do universo e da posição nele ocupada pelo ser racional. A miopia espiritual é mais grave ainda porque o dom da fé, que deve determinar, em última instância, a vontade e os atos do cristão, fica inteiramente ofuscado. Com efeito, a carência de visão  sobrenatural de longo prazo leva aquele que crê a não  projetar claramente  na eternidade o seu  destino último. Deste modo, já não valem para ele as palavras de São Paulo: “Não temos aqui cidade permanente, mas vamos em busca da futura” ( Hb 13,14). Se então o discípulo de Cristo não procura logo uma terapia espiritual perde o rumo do céu e a verdadeira noção de tudo que Deus revelou nas Escrituras Sagradas. A percepção deturpada das realidades divinas leva então este cristão a procurar não as coisas do alto, mas as da terra. É, deste modo, urgente que  haja o retrocesso de tal problema. Cumpre, de plano, reconhecer o mal e, imediatamente, não rejeitar os óculos que conduzam a enxergar melhor as verdades bíblicas, removendo os sintomas de uma débil fé, de uma crença enfraquecida. É preciso, de plano, a reflexão a respeito de tudo que a Igreja ensina, um aprofundamento das diretrizes do Mestre divino, Jesus Cristo. O estudo e a meditação dos livros da Biblia levam a lançar os projetos de vida bem além dos terrenos horizontes. Nos momentos de uma boa Confissão, o sacerdote é o médico que saberá orientar o fiel que busca sua cura espiritual, mesmo porque, neste caso, o padre é ainda juiz que julgará as razões pelas quais ocorreu esta miopia e é o mestre que apontará caminhos luminosos que conduzem à busca do Reino de Deus. Se necessário, o representante de Cristo aconselhará até uma intervenção cirúrgica, a qual inclui um questionamento sincero que leve a uma revisão de vida, a uma conversão total, dado que, muitas vezes, são as paixões desregradas, os vícios não combatidos corajosamente, a entrega às invectivas do demônio, que vão causando a miopia espiritual. Este tipo de cirurgia não traz o risco de problemas pós-operatórios, porque quem a ela se submete passa a perceber um tão grande júbilo interior e este  oferece força para superar qualquer tipo de recaída no mal. Pode haver assim a cura total através do aperfeiçoamento pessoal. Fica, desta maneira, obviado qualquer trauma que poderia conduzir ao desânimo. Cabe, portanto, ao proprio cristão perceber seu estado espiritual para ir em busca desta terapêutica. Mister se faz vencer o orgulho que impede o retorno à própria santificação que o tratamento exige. Com humildade o processo de mudança se torna fácil. Isto porque Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes. O orgulhoso nunca percebe sua limitação e, assim, não procura os meios para curar sua miopia emergente ou já acentuada, nem tem coragem para sair de seu estado mórbido. Ele passa a ser dono de sua verdade e não se adaptará mais ao Evangelho. A caminhada espiritual supõe sempre uma viagem do natural para o sobrenatural e isto requer uma visão estratégica que o míope não possui. Esta visão estratégica oferecida pela fé é o articulador de todas as decisões existenciais para se atingir o porto da eternidade venturosa lá na Casa do Pai. Um verdadeiro cristão é aquele que tem uma ampla visão do mundo além morte através da visão clara que vem da fé que impede as distorções conducentes à perdição da alma. Quando, porém, o cristão percebe que sua visão espiritual está ficando distorcida cumpre rapidez na busca dos recursos que a graça divina oferece. Vale aqui o dito de um grande santo: “Temo a Jesus que passa e pode não voltar”. Rapidez que não significa agitação, mas a serena procura dos antídotos oportunos. Então o cristão saberá marchar corajosamente nos caminhos da própria perfeição dentro de seus limites humanos, acatando a viabilidade de uma vida santa. O progresso de  ontem e de hoje não são garantia de progresso de amanhã, dado que é preciso perseverança na busca de resultados positivos na prática das virtudes. Nunca, porém, faltará o auxílio da graça, porque Deus nunca a nega aos que são sinceros e desejam alcançar sua salvação eterna. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
.





Fazer a vontade de Deus

                        FAZER A VONTADE DE DEUS
            Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Em Cafarnaum Jesus deixou uma de suas marcantes mensagens: “Quem faz a vontade de Deus esse é meu irmão minha irmã e minha mãe” (Mc 3,35). Deus e homem verdadeiro, enquanto homem pôde solenemente asseverar: “Não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30). A exemplo de Cristo cumpre sempre realizar o que Deus quer. Já Davi assim se expressava: “Eu quero fazer tua vontade, meu Deus; e tua lei está no fundo do meu coração” (Sl 40,8).  O salmista desejava que a verdade estivesse no seu íntimo e, por isto, ele pedia ao Todo-Poderoso: “Faz penetrar a sabedoria dentro de mim” (Sl 51,6). Sem as luzes do Espírito Santo é impossível discernir o que Deus deseja de cada um em particular, dado que para todos ele declarou a sua lei expressa no Decálogo, a qual se acha, igualmente, impressa na consciência de todo ser humano. Como o ser racional é frágil e sua inteligência está obnubilada por força do pecado original, eis o pedido que está no salmo 143: “Ensina-me a fazer tua vontade; porque tu és o meu Deus. É tão bom o teu espírito que ele me conduza por vereda plana” (Sl 143,10). Assim procedem os que amam o Senhor e almejam fazer em tudo seu santo desígnio. Portanto, submissão e obediência ao Ser Supremo devem caracterizar o verdadeiro imitador de Jesus. O cristão deve estar consciente de que não há nenhuma alegria profunda, nenhuma felicidade perfeita longe de tudo que a sabedoria divina traceja para cada um. O próprio Deus assim se expressou através do profeta Isaías: “Ai de vós, filhos rebeldes, diz o Senhor, que executais intentos que não vos sugeri e que estreitais ligas que eu não inspirei! (Is 30,1) Fazer a própria vontade é ser cativo do mal, pois só é livre quem adere inteiramente a Deus. Impõe-se então uma questão: Como saber se estamos fazendo sempre a vontade do Senhor? A resposta é dada por São Paulo que assim escreveu aos Colossenses: “Não cessamos de orar por vós e de pedir que vos seja concedida a plenitude do conhecimento da vontade de Deus com toda a sabedoria e inteligência espiritual. Assim podereis comportar-vos de maneira digna do Senhor e agradar-lhe inteiramente, produzindo frutos de toda a espécie de boas obras e progredindo no conhecimento de Deus.” (1 Col 9,10). É que Deus sempre manifestou e patenteou sua vontade, a questão é saber se nós queremos, de fato, fazer o que ele deseja, mas isto com toda sinceridade. Conhecer esta vontade é penetrar fundo nas mensagens bíblicas, sobretudo em tudo que Jesus ensinou. Lemos na Carta aos Hebreus: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas” (Hb 1,1-2). São Paulo, que perscrutou as Escrituras com rara acuidade, resumiu numa frase esplendorosa o que é estar de acordo com o Criador de tudo: “Esta é a vontade de Deus a vossa santificação” (1 Ts 4,3). Esta consiste na união com Cristo que afirmou: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4,34). Eis por que o Concílio Vaticano II doutrinou: “Por causa de sua mais íntima união com Cristo, os bem-aventurados consolidam toda a Igreja na santidade” (LG 49). Trata-se, pois, a santidade de uma realidade vivida deliberadamente, que penetra a existência da pessoa justamente porque, com a riqueza do seu ser e com a espontaneidade de sua vontade livre, se une a Deus entregando-se a ele com o calor do amor. É o caminho seguro que conduz à salvação eterna. Deste modo, sendo a vontade de Deus a santificação do cristão a santidade de vida significa, em conseqüência, a total entrega a Deus. A incorporação em Cristo obriga o batizado a estar totalmente disposto ao sacrifício mais sublime do amor a Deus e ao próximo. Todo cristão por ser cristão é chamado, portanto, a ser santo no sentido estrito da palavra, fazendo, como Jesus, em tudo, o que Deus quer, como está expresso na Sua palavra revelada a qual se encontra nas Escrituras e nas inspirações contínuas do Espírito Santo. Tal deve ser, de fato, a união do cristão com o divino Redentor, que, fazendo sempre a vontade divina, ele se torna, realmente, seu irmão, sua irmã, sua mãe, ou seja, ocorre uma total inserção nele. A recíproca é verdadeira: quem não observa os Mandamentos se encontra, portanto, inteiramente longe seu Salvador, o Senhor Jesus. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.