sábado, 21 de abril de 2012

A PRESENÇA ADMIRÁVEL DE JESUS

A PRESENÇA ADMIRÁVEL DE JESUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A presença do divino Redentor nesta terra abriu todos os horizontes de claridades celestes e animadoras e fez ver, por entre as dificuldades de um exílio terreno, a beleza inenarrável de uma eternidade do outro lado da vida, para onde se dirige todo ser humano, eternidade deparada certamente na hora inexorável da morte. Diante desta realidade implacável, Jesus surge, porém, como a verdadeira luz das inteligências, o fidedigno amor dos corações, a autêntica vida das almas, a fulgente esperança de um dia se chegar vitoriosamente na Jerusalém celeste. Ele oferece a quem O ama e segue a garantia de uma caminhada gloriosa rumo à Casa do Pai. É a Ele que clamamos nos instantes encrespados de sofrimento, toldados de angústia. O seu esplendor desfaz todas as trevas, quebra todos os empecilhos, e leva a todas as almas a consolação, a imperturbabilidade. Ele, de fato, é o farol de todas as inteligências, o arrimo de todas as vontades. Desejado pelos patriarcas, pelos profetas, após sua vinda a este mundo, as gerações sentindo Sua presença, a grandeza dos seus benefícios, a bondade de sua onipotência, a generosidade de sua comiseração, só têm uma palavra, aquela mesma proferida por São Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. Impossível é abafar na mente que O conhece o brado de adoração e de afeição que prontamente sai do intimo de quem tem fé, proclamando as grandezas divinas do Filho de Deus. Durante trinta anos nesta terra sua vida se resumiu em uns poucos acontecimentos. A sua circuncisão, a apresentação no Templo, a fuga para o Egito, o regresso à sua casa na cidade de Nazaré, a viagem a Jerusalém na idade de doze anos e a sua submissão a José e a Maria. De trinta anos de vida conhecemos apenas estes raros fatos. O silêncio envolve esses anos de sua existência na terra. Trinta anos de trabalho humilde e obscuro em uma oficina de carpinteiro. Dessa vida obscura e escondida, contudo, fluem muitos ensinamentos. Lá em Nazaré, em uma modesta e pobre habitação, preparou-se silenciosamente para o drama augusto e sanguinolento que mudaria a face da terra. Em geral a origem das coisas passa despercebida e ignorada, como as nascentes dos grandes rios que são escondidas e muitas vezes desconhecidas. Cristo, a fonte da Verdade, do Bem e da Justiça, o protagonista da redenção e da civilização, foi, em seus primeiros anos, ignorado dos homens. Sublime lição de humildade! Num casebre de Nazaré e numa oficina pobre viveu Aquele por quem todas as coisas foram feitas. Era uma perene condenação da soberba humana, sempre voltada para ostentações e pompas, riquezas e glórias efêmeras. O silêncio e a solidão envolveram Aquele no qual o Pai disse estar toda sua complacência. Jesus, entretanto, teve a graça e o encanto da infância, mas nada de pueril nem em seus traços, nem em suas palavras, nem em suas ações. Sua alma estava repleta da sabedoria divina, mas não manifestava as suas perfeições senão lentamente, como o sol que, antes de levantar-se no horizonte, envia em primeiro lugar uma doce e suave claridade. Foi um aprendiz na arte de carapina. Aquele que podia tudo criar com uma só palavra quis fazer suas ações progressivamente com o suor do rosto. Inspirador de todas as grande obras, aprendeu, enquanto homem, um oficio trivial; suas mãos se calejam como as dos filhos do pobre povo, no duro manejo da serra e outros instrumentos e, tão logo havia adquirido a experiência e a força física, trabalhou a madeira durante longas horas, a fim de ganhar o seu dia, para ajudar São José a prover o seu pão e, na verdade, com a fadiga do trabalho e o suor do sua face. A presença de Jesus durante trinta e três anos, numa vida oculta, legou lições preciosas e entre elas também o amor ao trabalho. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

JESUS ESTÁ VIVO

JESUS ESTÁ VIVO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Verbo Divino se fez homem e habitou entre nós foi o magno acontecimento da história humana (Jo 1,14). Ele se apresentou aos homens e lhes transmitiu mensagens maravilhosas e pôde demonstrar que era a luz do mundo; o princípio e o fim; o caminho, a verdade e a vida. Multidões ficaram seduzidas pelo encanto de sua palavra. Ele ensinou, consolou, deu saúde aos enfermos. As leis da natureza obedeceram ao seu poder e Ele fez milagres estupendos, visando mostrar que era verdadeiramente o Filho de Deus, o Messias prometido. Por ser Redentor morreu sacrificado no alto de uma Cruz e tanto poder, tantos prodígios, tanta grandeza, pareciam aniquilar-se em uma sepultura. Três dias depois de sua morte, porém, Ele ressurgiu dos mortos e reapareceu vivo e glorioso. As testemunhas às quais Ele se manifestou proclamaram: “Jesus está vivo”! Ele mesmo explica a todos que têm fé: “Pois estive morto, e eis-me de novo vivo pelos séculos dos séculos; tenho as chaves da morte e da região dos mortos. (Ap 1,18). É que sua cruz tornou-se um trono, o seu túmulo um altar e ele pôde se revelar como o Rei imortal dos séculos. Sua Igreja anuncia sempre: “Cristo vive, Cristo reina, Cristo impera”! Ele é a personagem mais famosa de todos os tempos. A existência desse homem extraordinário é o ponto culminante da história, onde se encontram o Antigo e o Novo Testamento e para onde convergem todos os acontecimentos. Ele é, realmente, Deus e homem verdadeiro. Isto é certamente algo de grandioso, de prodigioso e de divino, e na terra ainda não se viu outra figura mais portentosa e cercada de tanto amor. Eis porque é tão necessário se penetrar fundo no mistério da Encarnação da Segunda Pessoa da Trindade Santa. Nele duas naturezas, a humana e a divina, mas uma só Pessoa. Como há no homem um corpo e uma alma profundamente distintos e, entretanto, harmonicamente unidos, há em Cristo duas naturezas, a natureza divina, que possui desde toda a eternidade, e a natureza humana, tomada no seio da Virgem Maria. Ele é verdadeiramente homem, dado que Ele tem um espírito, uma imaginação, uma sensibilidade, uma vontade, um coração e um corpo semelhantes aos nossos e, após sua ressurreição, corpo glorioso, como o será, um dia, o corpo de cada um que nele crê (1 Cor 1,44-46). Ao mesmo tempo, Ele é Deus, verdadeiro Deus com o Pai e o Espírito Santo. Ele é homem, porque sofreu todas as nossas dores e misérias, mas é também Deus, porque nele aparecem todos os atributos divinos, o infinito da sabedoria, do poder e da glória. É Ele o representante mais sublime da humanidade e mais do que isso, Ele é simultaneamente o Verbo Eterno de Deus. Mais corretamente que Pilatos lá no Pretório, proclamamos: Eis o Homem Deus! Adoremo-lo, amemo-lo, sirvamo-lo, porque Ele tomou sobre si os pecados de uma humanidade prevaricadora e redimiu a todos com imensa dileção. Nele se encontra a felicidade e a salvação. Fora dele só tristeza e miséria. Cumpre acatar o seu convite divino: “Vinde a mim todos vós que padeceis e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Feliz aquele que nele depara seu único refúgio. Ele está a dizer a cada um de seus seguidores: “Eu ressuscitei e estou contigo”. A presença dele na vida de seus epígonos é a grande realidade dentro da história humana. Por ele milhares se sacrificam todos os dias e cumprem o seu dever com determinação e entusiasmo, se santificando à luz de sua ordem: “Sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48) e a repetirem com São Paulo: “Jesus Cristo, é sempre o mesmo, hoje, amanhã e por todos os séculos” (Hb 13,8)! Ele é o sol que veio para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte, para orientar os nossos passos no caminho da paz (Lc 1,78-79). * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Jesus, o Bom Pastor

JESUS, O BOM PASTOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Jesus, o bom Pastor, deu a seus seguidores uma segurança extraordinária: “Conheço as minhas ovelhas” (Jo 10,14). Isto o distingue dos mercenários, mesmo porque os que são de seu redil O conhecem e reconhecem a sua voz. Trata-se de uma relação pessoal que leva a uma intimidade mútua entre o Pastor divino que “sonda os rins e os corações” (Ap 2,23). Por isto Ele vai aos poucos introduzindo quem o segue no conhecimento profundo de Deus, da Sua sabedoria. Eis aí, aliás, a grande mensagem de todo o Evangelho: o encontro entre o Ser Supremo e o ser humano em Jesus. Na Vigília Pascal o diácono canta: “Noite de verdadeira felicidade! Noite na qual o céu depara a terra. Noite na qual o homem acha Deus”! Esta é uma verdade que não é propriedade dos grandes místicos, mas deve ser a realidade de todos os cristãos: a íntima relação entre o pastor e a ovelha, um pertencendo ao outro e daí o mútuo conhecimento que disto decorre. Donde a argüição de São Gregório Magno numa de suas mais belas homilias: “Vós, irmãos caríssimos, se sois ovelhas do Senhor, vede se vós O conheceis de fato, vede se percebeis, realmente, a luz da verdade pelo amor que o Pastor vos devota”. De fato, Jesus que afirmou categoricamente:”Eu dou a minha vida pelas ovelhas” também asseverou: “Ninguém dá maior prova de amor do que aquele que entrega a vida pelos amigos” (Jo 15,13). Aí está o núcleo mesmo do mistério da redenção. Jesus pôde dar sua vida pelo povo, que é o seu rebanho, porque este povo, este rebanho lhe foi confiado pelo Pai e não será jamais abandonado. Eis aí todo o mistério da existência de Jesus no meio da humanidade, pois veio selar com sua morte a pertença total e definitiva do povo ao Deus verdadeiro. Cumpre então ao autêntico cristão se entregar nas mãos deste Pastor que, além de dizer, comprovou no alto da Cruz sua dileção sem limites. Ele repete a cada um o que se acha no profeta Isaías: “Eu gravei teu nome nas palmas de minhas mãos” (Is 49,16). É preciso, porém, crer que quem Lhe é fiel está salvo, porque envolto na Sua presença, prevenido pela Sua graça, portador de uma força vital e poderosa. É necessário então possuir uma segurança absoluta, total, sem dar entrada ao diabo como preveniu São Paulo (Ef 4,27). Se Ele é por nós, quem estará contra nós podem proclamar com o mesmo Apóstolo os autênticos seguidores deste Pastor. Se alguém, porém, se extraviar lhe resta uma consolação: este Pastor vai a seu encalço e escutarão a sua voz e poderão voltar ao redil verdadeiro. Que maravilhosas as atitudes de Jesus, o bom Pastor que deseja paz e quer conduzir, instruir, iluminar, formar os que O seguem. Se isto acontece Suas ovelhas poderão afirmar com São Paulo que nem a morte, nem a vida, nem o presente, nem o futuro, nada, nenhuma criatura as poderá separar do amor de Deus que está em Jesus Cristo Nosso Senhor” (Rm 8,39). Deste modo, o relacionamento das ovelhas, do povo de Deus, com seu Pastor é inteiramente diferente do que ocorre com a ligação do cidadão com certos políticos que vivem em função do poder e, na verdade, explorando a população que se sente vexada com tantas denúncias de corrupção. Enquanto muitos homens públicos se enriquecem à custa do que a todos pertence, o bom Pastor dá sua vida pelas suas ovelhas. Ele traçou a autêntica teoria do poder que deve ser serviço, ajuda, amparo, interesse pelo bem comum. Por isto mesmo, a Igreja sempre tomou consciência de que não poderia jamais se solidarizar com qualquer poder político espúrio. Ela quer sempre respeitar a plenitude da autoridade de Deus confiada ao Bom Pastor que está a serviço do rebanho e ela não pode aprovar os desvios das verbas públicas e o desinteresse pelo bem estar do povo. Ela prega a verdadeira liberdade compreendida como uma maneira de ser consagrada no batismo no serviço um dos outros e no serviço de Deus. O bom Pastor é o servidor da liberdade de cada um que deve ser capaz de viver em comunhão com o Pai. É por tudo isto que o cristão luta para que haja políticos que imitem o bom Pastor se sacrificando pelos cidadãos e não sacrificando os cidadãos com impostos absurdos e que são tão mal aplicados. Porque, porém, todos são filhos de Deus, chamados a serem ovelhas de Jesus, o verdadeiro seguidor de Cristo pugna assim por uma sociedade mais humana, mais justa na qual todos possam ter uma vida digna. Jesus, o bom Pastor pôde afirmar que veio a este mundo para servir e não para ser servido e é aquele que multiplicou pães para alimentar no deserto a multidão, que curou a tantos doentes, sempre carinhoso com suas ovelhas pelas quais se imolou lá no Calvário. Nele se pode plenamente confiar! * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

sábado, 7 de abril de 2012

CONVITE

CONVITE


CENTENÁRIO DE DOM OSCAR SERÁ LEMBRADO NA ACADEMIA MINEIRA DE LETRAS

No dia 10 de maio deste ano o Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, na Academia Mineira de Letras à Rua da Bahia, 1466, às 17 horas, estará fazendo uma palestra sobre o CENTENÁRIO DE DOM OSCAR DE OLIVEIRA, por solicitação da Acadêmica Elisabeth Rennó, Coordenadora da Universidade Livre desta AML

V.S. está convidado para mais esta homenagem ao ínclito Arcebispo de Mariana no seu Centenário.

Domingo da Divina Misericórdia

DOMINGO DA DIVINA MISERICÓRDIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O bem-aventurado Papa João Paulo II no ano de 2000 instituiu o domingo depois da Páscoa como o Dia da Misericórdia, atendendo ao pedido de Cristo a Santa Faustina. O intento de Jesus é que a meditação da infinita divina seja um recurso e um refugio para todas as almas, sobretudo, para os pecadores. Para todos o divino Redentor deseja abrir as entranhas de sua comiseração, imergindo-os no oceano imenso de suas graças. O Evangelho é o da aparição de Jesus ressuscitado aos apóstolos e a São Tomé (Jo 20,19-31) e na sua homilia dia 30 de abril de 2000 o Papa explicou o sentido da Misericórdia a partir deste fato narrado por São João. Ressaltou que antes da significativa saudação aos seus discípulos: “A paz esteja convosco”, Jesus “mostrou suas mãos e seu lado, isto é, as chagas da Paixão, em particular a ferida do coração, fonte de onde jorrou a grande vaga de misericórdia que se derrama sobre a humanidade”. Em seguida, acentuou o Papa: “Através do coração de Cristo crucificado a misericórdia divina atinge todos os homens. Esta misericórdia Cristo a difunde sobre a humanidade por meio do envio do Espírito que, na Trindade, é a Pessoa-Amor”. Indaga então este Pontífice: “Não é a misericórdia o segundo nome do amor, tomado no seu aspecto mais profundo e mais terno, na sua aptidão de se apossar de cada necessidade, em particular na sua imensa capacidade de perdão”? Numa frase o bem-aventurado João Paulo II sintetiza então a grande mensagem deste domingo: “Cada pessoa é preciosa aos olhos de Deus, pois Cristo sacrificou sua vida para cada um”. É que, de fato, pela misericórdia o Filho de Deus foi ao limite de sua benevolência, pois se mostrou sensível à miséria humana não só se imolando por todos os homens, mas ainda lhes oferecendo como remédio para esta precariedade o seu perdão cordial. Ele foi claro: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores; é a misericórdia que eu desejo e não o sacrifício” (Mt 9,13). É por isto que a conversão é possível e obtém a anistia completa para aquele que, arrependido, se imerge no oceano da infinita compaixão divina. Cumpre, porém, não apenas se maravilhar com a ternura de Jesus, mas é preciso imitá-lo. Cada batizado é, realmente, chamado a fazer misericórdia com os outros como o Mestre divino e isto como condição de se usufruir de Sua bondade: “Bem-aventurados os misericordiosos porque obterão misericórdia”, conforme está no prólogo do Sermão da Montanha. Isto significa ter compaixão para com o próximo, ou seja, o hábito de fazer o bem aos que sofrem, vindo de encontro a suas necessidades corporais e espirituais. Viver a compaixão misericordiosa é possuir uma sensibilidade interior que se traduz em ações práticas. Ajuda oportuna dentro dos limites possíveis a cada um, mesmo porque o nosso pão nunca é tão pequenino que não possa ser partilhado com o necessitado e às carências espirituais todos podem socorrer com preces ser partilhado com o necessitado e às carências espirituais todos podem socorrer com preces ininterruptas que se traduzem no apostolado da oração. A misericórdia se traduz ainda na bondade, na benignidade, na paciência, na doçura de gestos e palavras. Trata-se de se ter o coração aberto para os que padecem os males inerentes à condição humana numa ajuda efetiva nos momentos de sofrimento. É a vibração da alma perante toda a miséria, levando a um movimento que leva a consolar, amparar, enxugar as lágrimas alheias. Em suma, é o hábito de se fazer o bem a todos. Jesus manifestou sempre esta sensibilidade profunda. Os Evangelhos narram sua ternura personalizada, repleta de comiseração ativa. Seus gestos revelaram os valores de Deus que devem esplender na existência de todos os seus discípulos. A palavra misericórdia se liga ao termo miséria cuja lista é imensa: corações feridos, espíritos alienados, almas pecadoras, falta de alimento, de remédio, de vestuário, enfim tudo que representa a dor, a amargura na existência de cada um. Todos os batizados têm necessidade do sinal oferecido a São Tomé, ou seja, contemplar o Coração aberto do divino Ressuscitado e dentro desta chaga passar a viver, imitando em tudo a benevolência deste abismo de amor. Aí o único e verdadeiro refugio mas também o exemplo de clemência a ser continuamente imitado. É deste modo que se percebe o verdadeiro sentido da Ressurreição de Jesus no qual esplendeu a misericórdia em toda sua grandeza. *Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A UNIÃO COM O DIVINO REDENTOR

A UNIÃO COM O REDENTOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Uma das alegorias empregadas por Jesus e que tem também comovido seus seguidores através dos tempos é a da videira e dos ramos na qual deixou este conselho admirável: “Permanecei em mim e eu em vós” (Jo 15 1-8). Deste modo ilustrou seu pensamento: “Assim como o ramo, por si mesmo, não pode produzir fruto, se não permanecer unido à vide, assim também vós, se não permanecerdes em mim”. Um dos obstáculos desta união com o Redentor é o egoísmo. Cumpre ao cristão afastar o orgulho, a presunção. para, purificado, descobrir o verdadeiro amor que o prenderá a Cristo. Quanto mais se poda meticulosamente o coração, mas se recolherá os frutos saborosos do amor do divino Salvador. Isto significa tornar o ramo florescente. Com efeito, quem se julga dono da verdade não pode se identificar com o Mestre divino, porque não se conforma com seu ensinamento, mas vive em função de suas convicções pessoais. A unidade que precisa existir entre Cristo e seu seguidor não é uma escolha, não está sujeita a uma livre elaboração, mas supõe uma adesão completa no que tange a doutrina e a moral. Aquele que se acha centrado em Cristo rejeita tudo que não se coaduna com o que Ele doutrinou. Adite-se que a união com Jesus, a Videira divina, deve se dar pela oração. A sede do Infinito, a nostalgia da eternidade, a procura da beleza suprema, o desejo de um amor ilimitado, a necessidade da luz que ultrapassa a esfera terrestre, o desejo íntimo da verdade absoluta conduzem o ser racional exatamente à permanência ininterrupta naquele que é a verdade suprema, a vida eterna. Ora isto se dá exatamente quando quem tem fé se volta para aquele que é “a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo”. Trata-se então de uma atitude interior alimentada pelos atos do culto. Permanecer na videira como ramo florescente é encontrar na oração o lugar por excelência da gratuidade, da tensão para o Invisível, para o Inefável. É um dom que resulta da constante justaposição do fiel face ao seu Senhor, a partir de Jesus, a Videira, na qual está inserido, recebendo dela a seiva vital para não se tornar ramo seco. É que no momento de uma prece autêntica a criatura humana expressa toda a consciência de sua contingência e se volta inteiramente para o Ser Necessário, orientando-se para o mistério redentor. Encontra então no divino Salvador a ajuda para superar a própria indigência. O que vive uma existência aglutinada em Cristo ultrapassa, de fato, a precariedade do que é sensível, material. A harmonia total com a pessoa do Salvador leva à plenitude da vida, a realidade de uma aliança profunda com o Verbo de Deus Encarnado ao qual o coração humano se prende na concretização plena da história da salvação pessoal. Então o cristão percebe no silencio de uma prece ardente a intimidade com Cristo indo além do seu limite para se abrir à medida mesma de seu Coração que é a fonte do amor infinito. Atinge-se desta maneira o que ocorreu com São Paulo que pôde peremptoriamente asseverar: “Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim (Gl 2,20). Verificou-se com o Apóstolo uma experiência espiritual maravilhosa que deve ser o ideal de todo discípulo de Jesus. O único objetivo paulino era estar sempre com Cristo, sabedor desta realidade que em Cristo o Pai comunica sua caridade, sua liberdade e toda a sua força. Permanecer em Cristo não significava para Paulo simplesmente tomá-lo como modelo, como protótipo, mas permitir que Ele se converta no principal protagonista de uma existência toda voltada para Ele. Apenas assim ao Redentor, como o ramo à Videira divina, o cristão participa do amor do Pai, possui a liberdade total e a força que o torna imbatível ante as invectivas do mal. Compreende-se desta maneira o que São Paulo disse aos Coríntios: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 13,10). A seiva vem aos ramos e não o contrário. Donde a afirmativa paulina: “Eu tudo posso naquele que é a minha fortaleza”. Quem se une a Cristo é um só espírito com Ele. Esta vivência se torna cotidiana, lançando o cristão na realização plena de sua vocação eterna que a de se perder dentro do coração de Jesus, pois o coração humano passa a pulsar no ritmo do coração divino. Quando Jesus pediu: “Permanecei em mim e eu em vós” queria significar tudo isto e, na verdade, uma união recíproca: Ele em nós e nós nele. Por este meio a união se perpetua no Corpo Místico de Cristo e faz dos que estão cá na terra, como dos que gozam no céu, uma só família. É a mesma seiva que circula em todos os galhos para produzir os mesmos frutos; é a mesma graça, a mesma fé, a mesma esperança, o mesmo amor, que animam as almas cristãs. Cumpre, porém, viver intensamente todas estas realidades sublimes que se inicia aqui neste mundo e se prolongarão por toda a eternidade. * Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

A vitória de Jesus Resuscitado

A vitória de Jesus resuscitado
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Com júbilo se celebra a gloriosa vitória de Cristo no dia de Páscoa. Ele triunfa sobre as blasfêmias de seus gratuitos inimigos que O levaram à ignominiosa morte na Cruz e vence a própria morte. Ressoam as palavras de São Paulo : « A morte foi absorvida pela vitória. Onde está ó morte a, a tua vitória ? Onde está, ó morte, o teu aguilhão ? » (1 Cor 15,55-56). Este hino flui da convicção do Apóstolo de que « Cristo ressuscitou dos mortos » (Idem, v. 26). Mensagem bela e luminosa deste dia festivo. Desaparece para o cristão o temor da morte, porque o Salvador dela a todos libertou. O espírito do mal foi derrotado, os anjos se imergem num profundo gáudio, regozija-se toda a humanidade porque reina triunfalmente a vida. Por isto a Páscoa é um dia único e santo, o maior dia do ano, festa das festas, solenidade das solenidades. A Páscoa dá ao mistério do Natal a plenitude de seu significado e é uma condição preliminar para a vinda do Espírito Santo nos esplendores do Pentecostes. É por esta razão o coração, o centro do ano litúrgico e, historicamente, a mais antiga das festas cristãs. A mensagem de Páscoa é, em primeiro lugar, o mistério da Luz verdadeira que veio a este mundo, esta luz cuja estrela de Belém dela indicava o nascimento e que as trevas do Calvário não puderam apagar. Aí está o sentido profundamente espiritual da Páscoa. Jesus havia proclamando : «Eu sou a luz do mundo » (Jo 11,46). Depois diria a seus discípulos : « Brilhe a vossa luz diante dos homens, a fim de que vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus » (Mt 5,16). A ressurreição física de Jesus seria para nós sem valor se a luz divina não resplandecesse ao mesmo tempo entre os seus seguidores, lá no íntimo de todos eles. Eis porque não se pode celebrar dignamente a Ressurreição de Cristo a não ser que a luz que é Jesus tenha vencido completamente as trevas dos próprios pecados. Apenas assim se pode degustar o banquete da fé e as riquezas da bondade do Redentor triunfante. A ressurreição de Jesus proclama, deste modo, a necessidade de uma vivência nova, como aconselhava São Paulo : « Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma massa nova, do mesmo modo que sois ázimos. Pois Cristo, nosso cordeiro pascal, já foi imolado, « celebremos, pois, a festa, não com fermento velho, nem com fermento de malícia e de perversidade, mas com ázimos de pureza e de verdade » (1 Cor 5, 7-8). Explicava então este Apóstolo : « Porque quem está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram ; ei-las que novas surgiram » (2 Cor 5,17). Acentuava : « Assim como Jesus Cristo ressuscitou dos mortos mediante a gloriosa potência do Pai, assim caminhemos nós também numa nova vida » (Rm 6,4) [ ...] de modo que somos servos, sim, mas sob um novo regime espiritual » (Rm7,6). Eis o motivo pelo qual São Pedro conclamava : “Como crianças recém-nascidas , sede ávidos do genuíno leite espiritual, para crescerdes com ele na salvação, se já saboreastes quão bom é o Senhor [...] também vós, como pedras vivas, vinde formar um templo espiritual “ (1 Pd 2, 2. 8). Além disto, Páscoa traz a mensagem de paz de Cristo Ressuscitado. Ele está a dizer a cada : « Eu ressuscitei e estou contigo ». Nas suas aparições aos Apóstolos antes de sua admirável Ascensão aos Céus eles repetirá : « A paz esteja convosco ». Ele cumpre o que prometera : « Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28,20). Esta paz coincide com a totalidade dos bens. É a plenitude da salvação sonhada e esperada. É bênção, é glória, é vida. É sinônimo de bem-estar, ventura, eutimia. Jesus é, de fato, o príncipe da paz (Is 9,5 ; Sl 71). Sua presença na vida do cristão o envolve na mais completa imperturbabilidade. Esta paz, porém, deve se irradiar por toda parte. Não se trata de compromisso simplesmente ético, nem de esforço puramente humano, mas de viver este dom pascal em plenitude : paz consigo mesmo, com os irmãos e com Deus, jamais contristando o Espírito Santo. Portanto, esta paz não pode ser uma utopia, pois deve florescer no terreno do amor autêntico, aquele que afasta qualquer tipo de ódio, injustiça, malquerença, malevolência, inimizade. Realidade sublime. fruto da comunhão com o divino Ressuscitado, no qual se deve encontrar o verdadeiro repouso, aquela profunda quietude a irradiar serenidade no meio em que se vive. É deste modo que se avança mais expeditamente no caminho até a Jerusalém celeste, atingindo-se a união plena e universal no cumprimento dos desígnios salvíficos daquele que superou a morte. Luz e paz, eis aí o binômio sagrado da Páscoa. Jesus ressuscitado a repetir a cada um : «Vós sois a luz do mundo » (Mt 5,14), porque « Eu vos deixo a minha paz » (Jo 14,21).* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos